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A compra da Activision pela Microsoft: o mercado dos games caminha para um monopólio?



Que o mercado dos games vem crescendo cada vez mais ao longo dos anos não é novidade. Muito por culpa da pandemia, esse processo se acelerou, uma vez que as pessoas passaram mais tempo dentro de casa e o dinheiro, que antes era gasto fora, foi direcionado, em parte, para o mundo dos jogos virtuais. De fato, isso culminou em números surpreendentes para uma indústria relativamente recente, movimentando cerca de 220 bilhões de dólares pelo mundo em 2022. Nesse contexto, um caso de M&A1 que envolve duas empresas gigantes desse setor bilionário chama a atenção dos órgãos reguladores, preocupados com uma eventual perda de competitividade, a qual pode ir contra os interesses dos consumidores. Diante disso, cabe o questionamento: a compra da Activision pela Microsoft pode desequilibrar a competição no mercado dos games?


O cenário atual


O setor de games pode ser dividido em empresas desenvolvedoras de jogos e empresas criadoras de consoles, que rodam esses jogos. O mercado de consoles é praticamente dominado pela Sony, Microsoft e Nintendo, enquanto o de desenvolvimento é mais diversificado em holdings2 que controlam vários estúdios de uma vez, com a Activision Blizzard sendo a maior empresa independente desse segmento. Antigamente, os jogos eram comprados de acordo com o console que a pessoa tinha, pois a quantidade de jogos exclusivos a uma determinada plataforma era muito menor, logo o consumidor era guiado pelas empresas de console. Porém, devido à similaridade da tecnologia dos aparelhos atuais e a popularização de jogos online, o crossplay3 se tornou comum e aproximou a experiência entre jogadores de diferentes plataformas, de forma que o driver de escolha do consumidor passou a ser os jogos propriamente.


Nessa linha, a Microsoft, proprietária do Xbox, fez uma proposta de US$ 69 bilhões para a compra da Activision em janeiro de 2022, a maior já realizada na indústria. Entretanto, até o presente momento, o negócio não se concluiu e pode até não acontecer, pois os órgãos reguladores dos EUA e do Reino Unido, FTC e CMA, abriram ações para bloquear a compra.


O que chama a atenção dos órgãos reguladores


Para o FTC, a Activision Blizzard é uma empresa chave no mercado dos games por deter algumas das franquias mais populares do mundo, como Call of Duty, Overwatch, World of Warcraft e Candy Crush. Dessa forma, sua aquisição pode significar a redução da competitividade no mercado de games global, causando prejuízos a estúdios e plataformas rivais, como a Sony.

"A Microsoft teria os meios e os motivos para prejudicar a concorrência, manipulando preços, tornando a experiência dos jogos piores nos consoles dos concorrentes ou retendo totalmente o conteúdo dos concorrentes, resultando em prejuízos aos consumidores" - FTC


Dentre as franquias da Activision, a mais preocupante para o caso é, sem dúvidas, a Call of Duty. A Sony, principal concorrente nos consoles, tem se manifestado ativamente contra a aquisição, devido ao incrível sucesso da franquia CoD em seu principal produto, o Playstation, a tal ponto que figura entre os seus 3 jogos mais lucrativos todos os anos. No geral, a receita de um jogo é dividida entre a desenvolvedora e a dona da plataforma em um padrão 70% - 30%, porém a Sony aceita negociar uma margem menor para o Call of Duty especificamente, dada a importância da série, para o Playstation.



Além disso, há a possibilidade da franquia ser adicionada ao catálogo de jogos oferecidos no serviço de assinatura do Xbox. O Gamepass, como é chamado, garante acesso a centenas de títulos em troca de uma taxa mensal fixa e já é líder no segmento de jogos por assinatura. Isso se encaixa perfeitamente com o modelo de negócios que a Activision tem apresentado, focando a rentabilidade de seus produtos em compras in-game4, assinaturas e outros serviços, em vez de cobrar pelo game em si.




Contudo, a empresa é acusada de estar cometendo Truste5, à medida que a adição do Call of Duty no catálogo faria do Gamepass, já líder de mercado, um produto imbatível. No cenário atual, a inclusão do jogo no Gamepass não é economicamente viável para a Microsoft, no entanto, com a aquisição da Activision, esse movimento se tornaria muito mais provável de acontecer, uma vez que a margem de lucro da desenvolvedora não seria um custo extra. Assim, ao juntar seus recursos atuais as novas oportunidades trazidas pela Activision, a Microsoft atingiria excelência em todas as fases da cadeia de valor, desde a produção dos jogos até a plataforma.


Primeiramente, o Gamepass, que já conta com uma estrutura robusta de cloud gaming6, teria maior exclusividade e conteúdos novos, em seguida o apoio dos novos estúdios, que naturalmente seriam somados aos 24 já existentes e, por fim, as plataformas Xbox e Windows, que para muitos games, como o próprio CoD, já detém a maior parte do market share. Por isso, os órgãos reguladores preveem que isso daria à Microsoft um poder de barganha sobre os consumidores muito acima da concorrência, podendo causar uma migração em massa para o Xbox e PC, impactando permanentemente os concorrentes, que não dispõem de uma infraestrutura tão competitiva quanto a disponibilizada pela Microsoft.


Com o intuito de contornar essa situação, foi requisitada a adição de uma cláusula no contrato na qual a Microsoft se comprometesse a vender os direitos do Call of Duty após a compra. No entanto, a companhia segue uma linha bem transparente quanto aos seus planos para a franquia e declarou que não planeja tornar o Call of Duty exclusivo ao Xbox e computador, chegando a propor um contrato de garantia de 10 anos de presença da franquia nas outras plataformas. Em um documento enviado ao CADE7, a Microsoft explica que a exclusividade simplesmente não seria lucrativa, pois a quantidade de novos jogadores no Xbox, atraídos pelo Call of Duty, não superaria o custo de oportunidade de mantê-lo acessível nas outras plataformas e, assim, rentabilizar sob um público muito maior.



O passado que condena


Não é por acaso que os órgãos reguladores têm sido tão radicais nas suas propostas, tudo faz parte de uma política que prioriza mudanças estruturais a medidas paliativas, como as declarações da Microsoft. Isso ocorre devido a uma outra aquisição anterior feita pela empresa, que passou a ser dona das franquias da desenvolvedora de jogos Bethesda. Na ocasião, o chefe encarregado do Xbox, Phil Spencer, declarou que os principais títulos da empresa adquirida não se tornariam exclusivos da sua plataforma. Contudo, em pouco tempo as promessas foram descompridas com o anúncio de novos jogos da Bethesda exclusivos ao Xbox, dentre eles a franquia The Elder Scrolls.


A Microsoft tentou se justificar alegando que novas franquias não tem obrigação de serem multiplataformas, já que não teriam fãs prévios de outros consoles, o que é verdade, porém isso desconsidera o fato do próprio estúdio, no caso a Bethesda, possuir fãs agora incapazes de consumir seus jogos. Além disso, o argumento utilizado para a limitação sobre a franquia The Elder Scrolls também não foi convincente. Segundo a Microsoft, trata-se de uma franquia de tamanho mediano e por isso sua exclusividade não seria um grande prejuízo para o mercado dos games. Naturalmente, os órgãos reguladores pensam diferente, visto que o último jogo da franquia, The Elder Scrolls V: Skyrim, foi um sucesso mundial e faturou cerca de 1 bilhão apenas em seu primeiro ano de lançamento.


A situação caótica da Activision Blizzard


Mas o que a Activision Blizzard ganha com a venda? Para começar, uma bela faxina na casa. Desde o início do processo de compra, em janeiro de 2022, a companhia apresentou uma perda de 20% (14 bilhões) de seu valor de mercado. Isso ocorreu devido tanto à instabilidade econômica dos EUA no ano, quanto, e sobretudo, à péssima reputação que a Activision adquiriu, fruto das várias denúncias de discriminação e assédio contra funcionários que a empresa vem acumulando desde 2021. Entre os problemas internos, vale destacar a petição com adesão de 2 mil funcionários feita em repúdio a declarações da empresa, por não tratar a questão dos assédios com seriedade, acusações de diferenças salariais entre homens e mulheres exercendo cargos semelhantes e, por fim, outra petição posterior com adesão de 800 funcionários pedindo a saída do CEO, Robert Kotick.


Além da questão ética, o estresse atrelado aos prazos curtos e à falta de espaço para criatividade dos estúdios também fazem parte do dia a dia da empresa. Tendo em vista o tamanho de cada Call of Duty, ele se encaixa na prateleira de jogos AAA8, como GTA e Uncharted, que demoram de 2 a 4 anos para serem concluídos. Porém, na realidade, a franquia se renova anualmente, além de manter em paralelo o Warzone, título independente dedicado ao estilo battle royale que é atualmente seu principal produto. Para isso funcionar, a Activision Blizzard precisa que todos os seus estúdios auxiliem no desenvolvimento do Call of Duty, de forma que sobra pouco tempo e recurso para outras franquias menores, como Crash e Guitar Hero, e ainda menos para novos projetos.


Em contrapartida, a Microsoft é conhecida por manter uma relação de cobrança muito mais tranquila em relação aos seus estúdios, a tal ponto de render críticas por parte do público pela demora em apresentar conteúdos novos. Dessa forma, após a aquisição, é esperado que antigas franquias adormecidas da Activision Blizzard voltem a entregar novos títulos, o que também pode ser um entrave para a aprovação do negócio, visto que há grande chance desses conteúdos serem exclusivos.


A jóia que passa despercebida


Apesar do foco do impasse recair sobre o futuro da franquia CoD, o maior motivador para a Microsoft é, na verdade, aumentar sua presença no mercado mobile. Para o CEO do setor de Gaming da Microsoft, Phil Spencer, atualmente eles são irrelevantes nessa plataforma e, por isso, a aquisição da Activision, que detém sucessos como Candy Crush Saga e Diablo mobile, é fundamental. Trazendo para números, o Candy Crush foi o terceiro app mais rentável de toda a Google Play Store em 2022, com 38,6 milhões de dólares. Nessa linha, Phil explica que embora a indústria geral de games tenha apresentado um crescimento de 9% a 10% ao ano, o mercado de consoles e PC pouco se alterou, tornando claro que o responsável por todo o crescimento da indústria foi a plataforma mobile.



O veredito


O caso ainda está longe de chegar ao fim. De acordo com o site do FTC, as datas para as audiências finais estão marcadas para agosto de 2023. No entanto, esses dias indicam apenas o início da parte final do processo, podendo ainda se estender por meses e, até lá, contamos apenas com a nossa própria opinião. Afinal, se você chegou até aqui já deve ter a sua: a compra da Activision pela Microsoft desequilibrará a competição no mercado dos games?


Glossário:

  1. M&A (Mergers and Acquisitions) - termo utilizado no mercado financeiro para indicar uma fusão ou aquisição de uma empresa.

  2. Holding - Empresa que possui controle acionário sobre outras empresas. No geral, a holding dedica-se apenas à administração de suas subsidiárias, não ofertando bens nem serviços próprios.

  3. Crossplay - Capacidade dos jogos online de permitir contato entre jogadores de diferentes plataformas.

  4. Compras in-game - São compras de produtos oferecidos dentro dos próprios jogos. Podem ser expansões (DLC), itens que melhoram a sua performance ou produtos puramente cosméticos que personalizam a experiência do jogador.

  5. Cloud gaming - conceito de jogos online utilizando a computação em nuvem. Permite jogar independente do hardware instalado, pois o processamento é feito pelo servidor.

  6. Truste - Prática de mercado proibida na qual duas ou mais empresas com participações relevantes em um segmento de mercado se unem em uma só de modo que a nova empresa passe a dominar significativamente o market share.

  7. CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) - autarquia responsável pela defesa da livre concorrência no Brasil.

  8. Jogos AAA - Classificação que indica jogos com maiores orçamentos, alta qualidade e maior divulgação. Semelhante ao conceito de “blockbuster” para filmes.

Referências:


Aranda, Felipe. Activision Blizzard: entenda os escândalos no estúdio comprado pela Microsoft. CNN Brasil, 2022. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/tecnologia/activision-blizzard-entenda-os-escandalos-no-estudio-comprado-pela-microsoft/. Acesso em fevereiro de 2023.


Gogoni, Ronaldo. FTC pretende barrar compra da Activision pela Microsoft. Meio bit, 2022. Disponível em: https://meiobit.com/460071/ftc-processo-anti-compra-activision-microsoft/. Acesso em fevereiro de 2023.


Hern, Alex. TechScape: With a $67bn takeover in the works, is it finally game on for Microsoft? The Guardian, 2023. Disponível em: https://www.theguardian.com/technology/2023/jan/03/why-a-67bn-takeover-could-make-microsoft-a-gaming-behemoth. Acesso em fevereiro de 2023.


Kuhnke, O. Microsoft wants Activision because of mobile gaming opportunities, says Phil Spencer. Vg247, 2022. Disponível em: https://www.vg247.com/microsoft-activision-blizzard-acquisition-mobile-games-phil-spencer. Acesso em fevereiro de 2023.


Lewis, Catherine. Microsoft Acquisition Won't Affect Call Of Duty For "Several Years", Says Xbox. Gaming bible, 2022. Disponível em: https://www.gamingbible.com/news/microsoft-acquisition-wont-affect-cod-for-several-years-20220906. Acesso em fevereiro de 2023.


Rousseau, Jeffrey. Microsoft: Xbox-exclusive Call of Duty "would simply not be profitable". Games industry, 2022. Disponível em: https://www.gamesindustry.biz/microsoft-xbox-exclusive-call-of-duty-would-simply-not-be-profitable. Acesso em fevereiro de 2023.


Tassi, Paul. What Happens If Microsoft Is Blocked From Buying Activision Blizzard? Forbes, 2022. Disponível em:https://www.forbes.com/sites/paultassi/2022/10/18/what-happens-if-microsoft-is-blocked-from-buying-activision-blizzard/?sh=262c929d380d. Acesso em fevereiro de 2023.





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