top of page

A Nova Ordem Global: Como a China vem ganhando espaço estadunidense

Atualizado: 8 de jun.

Foto: Unsplash
Foto: Unsplash

Historicamente, grandes potências tendem a perceber suas hegemonias como perpétuas. O Império Britânico chegou a controlar um quarto da superfície terrestre e, por décadas, pareceu imune às mesmas forças que derrubaram Roma, a França Napoleônica e o Império Holandês, compostas pelo endividamento excessivo, a perda de credibilidade da moeda e a migração do capital para novos centros de poder. Os Estados Unidos construíram a ordem global mais sofisticada da história: o dólar no centro de todas as transações do planeta, a maior máquina de guerra que já existiu e instituições internacionais diretamente vinculadas à sua imagem. Contudo, os mesmos padrões que encerraram os ciclos anteriores estão se repetindo e, agora, com endereço em Washington.

Enquanto isso, do outro lado do globo, a China posicionou-se estrategicamente para capturar o comando do próximo ciclo. Nas últimas décadas, ao mesmo tempo que o mundo desenvolvido concentrava seus investimentos em tecnologia, serviços financeiros e ativos digitais, Pequim voltou-se à direção oposta, apostando no controle dos recursos físicos que sustentam qualquer economia, como minerais essenciais, cadeias produtivas de base e infraestrutura de commodities1. Esse movimento não ocorreu acidentalmente, mas por um país que se antecipou ao declínio dos Estados Unidos como potência mundial.

Nesse rearranjo global, o Brasil aparece em uma posição de privilégio que raramente ocupou na história, como a de proprietário das principais commodities que irão compor a demanda futura: água, petróleo, minérios, soja, energia limpa e terras raras2. A questão é se o país saberá arquitetar uma estratégia para elevar-se como potência da nova ordem ou se será, mais uma vez, apenas uma fonte abundante de recursos para o desenvolvimento alheio.


O ciclo do poder dominante

Toda grande potência obedece a uma mesma sequência cíclica. Ray Dalio, pesquisador norte-americano e um dos gestores de fundos mais bem-sucedidos do mundo, dedicou décadas ao estudo da ascensão e queda de impérios desde 1350, identificando um padrão recorrente, que denominou de "Big Cycle". Nesse fenômeno, potências hegemônicas repetem a mesma sequência: ascendem economicamente, consolidam poder militar e institucional, acumulam dívidas excessivas para sustentar esse poder, fomentam inflação para honrar seus empréstimos, perdem a credibilidade do valor e confiança de sua moeda e entram em declínio relativo. O Império Holandês seguiu essa lógica no século XVII, o Britânico no fim do XIX e, hoje, os dados apontam para os Estados Unidos. Em cada transição, o capital global migrou de ativos financeiros para ativos reais físicos, cujo valor não pode ser corroído por nenhum decreto de governo, como ouro, terra e matérias-primas estratégicas. 

De forma complementar, Giovanni Arrighi, historiador italiano, nomeou o intervalo entre a saída de uma hegemonia e a consolidação da próxima como "Caos Sistêmico". Trata-se de um período de turbulência estrutural em que a potência dominante perde progressivamente a capacidade de impor ordem ao sistema internacional, enquanto a potência emergente ainda não possui autoridade suficiente para assumir esse papel. Não é uma transição imediata, mas um processo prolongado de erosão e reposicionamento. O cenário geopolítico atual não é incomum para quem conhece esse padrão. Arrighi e Dalio o descreveram com décadas de antecedência e embasamento histórico, os sinalizadores que ambos apontaram como indicadores de ruptura da ordem estão presentes, com crescente nitidez, no cenário dos Estados Unidos de hoje. 


Os Estados Unidos como centro do mundo

A Segunda Guerra Mundial não encerrou apenas um conflito armado. Ela redistribuiu o poder global e inaugurou um novo ciclo hegemônico, desta vez com Washington no centro. Em 1945, os Estados Unidos reuniam as condições que o Big Cycle de Dalio descreve como típicas do início de uma hegemonia: eram a maior potência econômica e bélica do mundo, detinham o monopólio da bomba atômica e eram o único grande país industrializado cujo território não havia sido destruído pela guerra. Enquanto Europa e Japão, devastados e financeiramente falidos, reconstruíam suas economias inteiras do zero, os estadunidenses concentravam recursos, capitais e influência institucional em escala sem precedentes. O restante do mundo não tinha alternativa senão acatar a ordem ditada por eles.

Se até então surgiam dúvidas quanto ao domínio dos Estados Unidos, o fim da Guerra Fria em 1991 não concretizou só uma vitória geopolítica, mas também a vitória ideológica do país, a do capitalismo liberal de mercado. Francis Fukuyama, filósofo e cientista político estadunidense, chamou aquele momento de "o fim da história" pois, pela primeira vez, parecia não haver opção senão o modelo norte americano. O dólar era a moeda global, Hollywood ditava a cultura, o Vale do Silício criava a tecnologia, e a OTAN garantia a segurança de quem se alinhasse a Washington. Era, na prática, um império, sem precisar se nomear como tal.




Primeiros choques do poder e os indícios do declínio

Os Estados Unidos estão vivendo o que Ray Dalio descreveu como a fase crítica do Big Cycle: o momento em que o acúmulo insustentável de dívidas começa a corroer as bases do poder hegemônico. Atualmente, a dívida pública americana já ultrapassa US$ 38 trilhões e cresce em ritmo acelerado a aproximadamente US$ 6 bilhões por dia, valor incompatível com qualquer previsão de estabilização, já tendo superado o tamanho de toda a economia do país ao atingir 130% do PIB3, com projeção de alcançar 140% até 2031, de acordo com a CNN Brasil. Os déficits acumulados entre 2026 e 2035 estão projetados em US$ 23,1 trilhões, impulsionados principalmente por três fatores estruturais: o envelhecimento da população, que pressiona gastos com Previdência Social e Medicare4; os cortes tributários aprovados em 2017 e estendidos em 2025, que reduziram a arrecadação de longo prazo; e o próprio serviço da dívida, que retroalimenta o déficit. Em 2025, os juros sobre a dívida pública americana superaram US$ 1 trilhão pela primeira vez na história, ultrapassando o orçamento integral das Forças Armadas. Quem absorve esse custo são, em última instância, os credores internacionais: governos, bancos centrais e fundos soberanos que sustentam a demanda por títulos do Tesouro americano e que, a cada emissão nova, assumem um risco crescente de que Washington não consiga honrar seus compromissos sem recorrer à impressão de moeda. 

O agravante não se restringe a apenas o tamanho da dívida, mas a dinâmica que o mercado financeiro chama de "Armadilha da Dívida ": quanto mais juros os EUA pagam, mais precisam tomar emprestado, e quanto mais tomam emprestado, mais juros pagam no futuro. O resultado dessa espiral são os gastos excessivos com juros. A própria agência federal americana, o CBO, alerta que a trajetória fiscal não é sustentável e que o risco de uma crise fiscal, quando investidores perdem confiança no valor da dívida do governo americano, aumenta a cada ano, com potencial de elevar abruptamente as taxas de juros e corroer a confiança no dólar como moeda de reserva dominante. Esse cenário não é especulativo, é a conclusão do principal órgão de análise orçamentária do próprio Congresso americano e um indicador inequívoco de fragilidade estrutural com descompasso do poder hegemônico.



Os primeiros sinais de fragilidade do poder americano surgiram ainda no início do século XXI. O ataque da Al-Qaeda em 11 de setembro de 2001 contra o Pentágono e as torres gêmeas do World Trade Center não foi apenas um trauma nacional. O acontecimento foi o primeiro momento em que a narrativa de invulnerabilidade estadunidense foi publicamente desafiada, gerando pânico imediato nas bolsas financeiras globais e abalo da moral americana. A maior potência bélica da história, até então, não havia conseguido proteger o próprio território doméstico, o que gerou desconfiança na capacidade militar do país. 



Além do choque de 2001, a Crise Financeira Global de 2008 aprofundou as fissuras estruturais. O colapso do mercado imobiliário norte americano e a falência do Banco Lehman Brothers, considerada como o auge da crise, contestaram a sofisticação do sistema financeiro estadunidense e a sua capacidade de se autorregular. Como solução da crise, o Federal Reserve injetou trilhões de dólares no sistema para salvar seus próprios bancos, exportando inflação para o restante do mundo. A conta foi dividida com quem não havia tomado a decisão, levantando questionamentos sobre a manutenção do dólar como ativo de reserva neutro.



A Desdolarização do mundo 

Outro fator de desvalorização6 do dólar americano foi a parcialização política da moeda, cujo estopim se deu em fevereiro de 2022, dias depois do início da Guerra da Ucrânia. Os Estados Unidos decretaram o congelamento de cerca de 330 bilhões de dólares russos depositados em instituições ocidentais como forma de pressão econômica à Rússia. Embora o dinheiro continuasse existindo na teoria, os dólares congelados passaram a não ter utilidade prática e perderam totalmente o valor. Para os demais países, aliados ou não, a mensagem foi clara: Washington detinha a capacidade de neutralizar reservas soberanas estrangeiras com uma única decisão executiva e de forma quase imediata, em poucos dias. A moeda americana, que por décadas funcionou como ativo neutro para transações internacionais, revelou-se um instrumento claro de poder político e aplicação parcial. 

A reação dos bancos centrais globais foi gradual, embora persistente. Dezenas de países, como o Brasil, a China, a Índia e a Turquia, reduziram suas posições em títulos do Tesouro americano e ampliaram suas reservas em ouro físico, desafiando a centralidade do dólar como moeda de referência global. O Conselho Mundial do Ouro registrou, em 2023 e 2024, os maiores volumes anuais de compras de ouro por bancos centrais desde o encerramento do padrão-ouro5 em 1971, com a China figurando entre os maiores compradores do período. Esse movimento atípico não se justifica pelo apreço ao ouro, mas pelo consentimento de que o dólar deixou de ser um ativo neutro e seguro. 



A busca por uma alternativa estrutural ao dólar é o sinal mais evidente do enfraquecimento da moeda americana como instrumento neutro de troca. Nesse contexto, a tentativa mais concreta de criar uma alternativa estrutural ao dólar surgiu dentro do próprio BRICS. A proposta, informalmente chamada de "BRICS Pay5", previa um sistema financeiro multilateral lastreado parcialmente em metais físicos, como o ouro, e nas moedas dos países membros, eliminando os Estados Unidos como intermediário obrigatório das transações entre os países do bloco. A iniciativa esbarra em obstáculos e ainda não foi implementada, em parte porque o próprio bloco carece de coesão interna suficiente para sustentá-la: a Índia, por exemplo, mantém relações estratégicas com Washington e não possui interesse em comprometê-las por um mecanismo que também a aproximaria da China, sua rival direta na Ásia. Além disso, a administração Trump reagiu com ameaças de sanções pesadas a qualquer país que adotasse mecanismos de comércio que marginalizassem o dólar. A resposta americana, em si, revela alto grau de vulnerabilidade que Washington observou na proposta, já que um país, em geral, apenas sanciona iniciativas efetivamente ameaçadoras.


A China como potência na nova ordem mundial

A economia global contemporânea foi marcada por uma divisão estratégica entre o Ocidente, focado em setores de alto valor agregado, e a China, orientada à base industrial e de commodities. Durante as últimas décadas, os Estados Unidos e as economias europeias concentraram seus investimentos em produtos de alto valor agregado, como tecnologia e serviços financeiros, e terceirizaram a produção industrial de base para os países orientais, sobretudo a China. Enquanto isso, Pequim direcionou seu capital no sentido contrário, apostando alto em mineração, processamento de terras raras e infraestrutura de commodities, setores estratégicos que acumulariam valor durante o evento de “Caos Sistêmico”, proposto por Arrighi. 

Essa aposta não foi apenas econômica, mas também uma decisão deliberada de construir uma base de poder que independesse do sistema financeiro ocidental controlado pelos Estados Unidos. O Partido Comunista Chinês, ao manter controle sobre as principais empresas do país, o sistema financeiro e a alocação de capital de longo prazo, conseguiu executar essa estratégia sem a pressão de resultados de curto prazo que os mercados de capitais ocidentais impõem às suas empresas privadas. Esse modelo, que o próprio governo chinês denomina "socialismo de mercado", é mais do que uma diferença econômica, é um desafio estrutural à premissa central da hegemonia americana pós-Guerra Fria, a de que o capitalismo liberal seria o único modelo viável de desenvolvimento. A China demonstrou que é possível crescer dentro do sistema global sem adotar seus pressupostos políticos, e essa demonstração, por si só, enfraquece a autoridade normativa que os Estados Unidos construíram ao longo de décadas. 

A dependência estrutural global que resultou desse processo é a concentração da capacidade produtiva e de refino chinesa em setores estratégicos. A China controla aproximadamente 70% da produção mundial de painéis solares, detém mais de 60% da capacidade global de refino de terras raras e domina parcelas expressivas da produção de aço, alumínio, lítio e cobalto, que são elementos essenciais para semicondutores, turbinas eólicas, baterias, satélites e equipamentos de defesa. Essa concentração de recursos faz com que a dependência global em relação à China deixe de ser apenas comercial e passe a assumir caráter estrutural, elevando seu poder de barganha no sistema mundial.



As economias desenvolvidas, ao externalizarem essa produção em busca de eficiência de curto prazo, tornaram-se vulneráveis a China, uma potência que aprendeu a usar essa posição como instrumento de pressão. Em 2010, a China suspendeu sem aviso as exportações de terras raras para o Japão após uma disputa territorial, deixando o país sem acesso ao insumo. Em 2022, quando os EUA restringiram exportações de semicondutores para a China, Pequim respondeu ameaçando cortar o fornecimento de gálio e germânio, minerais críticos para a fabricação dos próprios chips que os americanos queriam monopolizar. A China havia demonstrado que controlava não apenas a matéria-prima, mas a alavanca sobre toda a cadeia produtiva global, principalmente sobre as inovações tecnológicas do Vale do Silício.



Vale reconhecer, contudo, que a ascensão chinesa não está isenta de fragilidades. A crise imobiliária que se aprofundou a partir de 2021, com o colapso de grandes incorporadoras, expôs vulnerabilidades no modelo de crescimento baseado em dívida e investimento em infraestrutura. A quebra demográfica, com a população em declínio desde 2022, projeta pressões crescentes sobre a força de trabalho e o sistema previdenciário nas próximas décadas. As tensões internas, por sua vez, agravadas por desigualdades regionais e pelo controle político centralizado, representam riscos de instabilidade que mercados externos monitoram com atenção. Esses fatores não invalidam o reposicionamento estratégico da China nos recursos físicos, mas indicam que sua ascensão enfrenta limites reais, e que a disputa pela nova ordem ainda não está decidida. 


Como o Brasil se destaca na nova era

O Brasil não é estrategicamente relevante apenas pela quantidade de recursos que possui. O que o diferencia é a junção valiosa de três vantagens simultâneas que dificilmente se encontra em outro país na mesma escala: abundância de insumos críticos para a economia global, matriz energética predominantemente limpa e posição diplomática de não alinhamento. Cada uma dessas vantagens, isoladamente, já seria significativa, mas quando combinadas, posicionam o país como fornecedor estrutural indispensável em qualquer cenário que emerja da transição hegemônica atual. 

A primeira vantagem é a base de insumos críticos e recursos físicos. O Brasil concentra mais de 12% de toda a água doce superficial do planeta, em um mundo onde dois bilhões de pessoas já vivem em países com estresse hídrico, conforme O Globo. Abaixo do solo, guarda a segunda maior reserva de terras raras do planeta, com 21 milhões de toneladas estimadas pelo serviço geológico dos EUA, o USGS, atrás apenas da China, que detém 44 milhões. No litoral, as reservas do pré-sal operam com custo de extração entre US$ 6 e US$ 7 por barril, entre os mais competitivos do mundo, enquanto a média global de exploração ultrapassa US$ 15 por barril. Na agricultura, é o maior exportador global de soja, responsável por mais de 40% da produção mundial em 2025, e o segundo maior exportador de minério de ferro. Em qualquer cenário de aceleração da demanda por insumos físicos, o Brasil é fornecedor insubstituível de curto prazo. 



A segunda vantagem é a matriz energética. Com cerca de 88% da eletricidade gerada a partir de fontes renováveis, segundo a EPE, e 50% da matriz energética total composta por fontes limpas, o Brasil opera com um perfil de descarbonização que a maioria dos países desenvolvidos ainda busca como meta de longo prazo. Em um cenário onde cadeias produtivas globais são crescentemente avaliadas pelo seu impacto ambiental, e onde empresas de tecnologia como Amazon, Google e Microsoft assumiram compromissos públicos de operação com energia 100% limpa, essa característica transforma o Brasil em destino privilegiado para investimentos que precisam conciliar escala produtiva com sustentabilidade. 



A terceira vantagem é o não alinhamento diplomático. O Brasil não está comprometido com nenhum dos dois blocos em disputa: a China é seu maior parceiro comercial desde 2009, enquanto os Estados Unidos seguem como principal investidor estrangeiro no país. Essa postura é um ativo geopolítico de primeira ordem na lógica da transição hegemônica. Países como Índia e Emirados Árabes Unidos, por exemplo, têm explorado exatamente esse posicionamento, comprando petróleo russo com desconto e vendendo para o Ocidente com margem, mantendo relações com ambos os lados sem se subordinar a nenhum. O Brasil possui condições de ocupar papel semelhante, com a vantagem adicional de reunir uma diversidade de recursos estratégicos em um único território e deter uma matriz energética ambientalmente favorável. 

Reconhecer essa posição, porém, não é o mesmo que aproveitá-la. O Brasil detém a segunda maior reserva de terras raras do mundo, mas produziu apenas 20 toneladas em 2024, enquanto a China extraiu 280.000 toneladas no mesmo período, conforme o serviço geológico brasileiro, o SGB. O país não possui infraestrutura de refino e processamento para transformar o minério bruto em insumo utilizável pela indústria global, o que significa que, mesmo diante de uma demanda crescente, corre o risco de exportar a matéria bruta e importar o componente processado, repetindo em novo formato a mesma lógica que historicamente limitou o valor capturado pelo país. A instabilidade regulatória e a ausência de uma política industrial de longo prazo para o setor de minerais críticos são obstáculos concretos que nenhuma abundância natural resolve sozinha. 


Efeitos da reconfiguração mundial em curso

A dinâmica econômica brasileira apresenta correlação historicamente robusta com o desempenho internacional dos bens primários e das matérias-primas. Ciclos de alta no índice global de commodities, como ocorreu entre 2003 e 2011, no chamado “superciclo de commodities”, e no período pós-pandêmico, de 2020 a 2022, são sistematicamente acompanhados pela valorização do real, pela elevação do Ibovespa e por fluxos expressivos de capital estrangeiro para a B3. Esse padrão é o reflexo estrutural de uma economia cujas principais vantagens competitivas estão diretamente atreladas aos ativos que o mundo demanda em momentos de instabilidade financeira. 

O cenário atual sugere que esse movimento está se intensificando, e desta vez com uma característica distinta dos ciclos anteriores: não é apenas o preço das commodities que sobe, é o próprio perfil do capital que busca o Brasil que está mudando. O Investimento Direto no País totalizou US$ 77,7 bilhões em 2025, crescimento de 4,8% em relação a 2024, segundo o Banco Central, consolidando o Brasil como um dos principais destinos de capital produtivo de longo prazo da América Latina. No acumulado de 12 meses até janeiro de 2026, o IDP atingiu US$ 79,1 bilhões, equivalente a 3,42% do PIB, acima das projeções mais otimistas do mercado. Esse tipo de capital — que entra para construir fábricas, ampliar operações e reinvestir lucros — é qualitativamente diferente do capital especulativo de curto prazo. Ele sinaliza que investidores externos estão apostando no Brasil não como destino temporário, mas como posição estrutural em seus portfólios globais. O Ibovespa, por sua vez, acumula alta superior a 70% em um ano, reflexo adicional desse reposicionamento. Não são ciclos ordinários do mercado. É o capital global buscando abrigo em quem detém os recursos que a nova ordem vai demandar 

No cenário atual, a desdolarização progressiva e a migração de capital para ativos reais tendem a intensificar esse movimento. Nesse contexto, o Brasil se consolida como destino de realocação de portfólios globais, desde que o ambiente doméstico ofereça condições favoráveis para atrair e reter esse capital. Hoje, o padrão se repete e o Ibovespa acumula alta superior a 70% em um ano, reflexo da entrada de cerca de R$ 60 bilhões em capital estrangeiro apenas nos primeiros meses de 2026, de acordo com o Times Brasil e a B3. Além disso, o Investimento Direto no País (IDP) alcançou US$ 79,1 bilhões no acumulado de 12 meses até janeiro deste ano, valor equivalente a 3,42% do PIB. Esse tipo de capital  entra no Brasil para construir fábricas, ampliar operações e reinvestir lucros, sendo qualitativamente diferente do capital especulativo de curto prazo. Ele sinaliza que investidores externos estão apostando no Brasil não como destino temporário, mas como posição estrutural em seus portfólios globais. As movimentações vigentes não são ciclos ordinários do mercado, é o capital global buscando abrigo em quem detém os recursos que a nova ordem vai exigir.



A janela brasileira: potência ou provedor?

A história das hegemonias revela um padrão assimétrico, no qual os países responsáveis pelo fornecimento de recursos do ciclo econômico raramente retêm a parcela mais valiosa das transações. O Brasil esteve presente no grandes ciclos de demanda global, do pau-brasil ao ouro, do café à borracha e da soja ao petróleo, e em cada um deles, o valor gerado foi majoritariamente absorvido por quem processava, financiava ou distribuía o produto, e não por quem o fornecia. Mesmo após a independência, em momentos nos quais o Brasil possuía plena autonomia para negociar as condições de acesso aos seus recursos, o país sistematicamente optou por priorizar o volume de exportação em detrimento do valor agregado retido. O desafio brasileiro, portanto, não reside apenas em fornecer os recursos estratégicos, mas em ampliar sua participação nas etapas de processamento, tecnologia e financiamento que concentram a maior parcela do valor econômico. 

A transição hegemônica em curso oferece uma janela distinta de todas as anteriores. Pela primeira vez, os dois polos de poder do mundo precisam simultaneamente do que o Brasil tem, sem alternativa imediata disponível. A China precisa garantir o fornecimento de commodities agrícolas e minerais para sustentar sua população e indústria. Os Estados Unidos precisam diversificar suas cadeias de suprimento de minerais críticos para reduzir a dependência de Pequim. O Brasil está, geológica e geograficamente, no centro das duas necessidades. Isso nunca havia acontecido antes de forma simultânea e com essa urgência 

Entretanto, possuir o recurso não é o mesmo que capturar o valor. O Brasil detém a segunda maior reserva de terras raras do mundo e produziu apenas 20 toneladas em 2024. Detém petróleo entre os mais baratos do mundo para extrair e ainda exporta a maior parte apenas como commodity bruta. Detém a maior participação global na exportação de soja e importa tecnologia de processamento para uso interno. A abundância existe, o que está em déficit é a decisão de transformar essa abundância em condições: exigir processamento local, parcerias tecnológicas e transferência de conhecimento como contrapartida ao acesso aos recursos, e não apenas como planejamento de longo prazo. 

A questão introdutória sobre se o Brasil conseguirá se elevar como potência na nova ordem ou repetirá o papel histórico de fornecedor para o desenvolvimento alheio ainda não possui resposta definitiva. Contudo, as condições geopolíticas externas nunca estiveram tão favoráveis aos brasileiros: a demanda pelos recursos do país é estrutural, o capital produtivo está atingindo volumes recordes e a posição de não alinhamento confere ao Brasil liberdade de negociação que poucos países possuem. O que determinará o resultado, portanto, não é a falta de oportunidade, mas a consistência institucional e a visão de longo prazo para cobrar as condições corretas pelo acesso ao que tem. Essa escolha ainda está em aberto, e o tempo para realizá-la, como todas as oportunidades dessa natureza, não permanecerá disponível para sempre. 



Glossário

  1. Commodities: matérias-primas e produtos primários negociados em escala global com preços determinados pelo mercado internacional, como soja, minério de ferro, petróleo e ouro. 

  2. Terras Raras: grupo de 17 elementos químicos essenciais para a fabricação de semicondutores, baterias, equipamentos militares, turbinas eólicas e motores elétricos. Apesar do nome, não são necessariamente escassos em termos geológicos, mas são difíceis e custosos de extrair e refinar.

  3. PIB (Produto Interno Bruto): soma de todos os bens e serviços produzidos por um país em determinado período, utilizado como principal indicador do tamanho de uma economia.

  4. Medicare: o programa público federal de seguro de saúde dos Estados Unidos voltado principalmente para idosos, pessoas com deficiência e pacientes com doença renal terminal ou certas doenças graves. 

  5. Padrão-ouro: também conhecido como “paridade ouro-dólar”. Sistema monetário em que o valor do dólar americano é fixado diretamente a uma quantidade específica de ouro. 

  6. Desdolarização: processo pelo qual países e instituições reduzem progressivamente o uso do dólar americano em suas reservas internacionais e transações comerciais, buscando alternativas como outras moedas, ouro ou mecanismos multilaterais. 





Bibliografia


JOINT ECONOMIC COMMITTEE. National Debt Hits $38.09 Trillion, Increased $2.18 Trillion Year over Year, $5.97 Billion Per Day. Washington: U.S. Congress, 7 nov. 2025. Disponível em: https://www.jec.senate.gov/public/index.cfm/republicans/2025/11/national-debt-hits-38-09-trillion-increased-2-18-trillion-year-over-year-5-97-billion-per-day. Acesso em: 1 maio 2026. 


TAXPAYERS FOR COMMON SENSE. It's Official: Interest Payments on National Debt Leapfrog Military Spending. Washington, 24 fev. 2025. Disponível em: https://www.taxpayer.net/national-security/its-official-interest-payments-on-national-debt-leapfrog-military-spending. Acesso em: 1 maio 2026. 


CONGRESSIONAL BUDGET OFFICE. The Budget and Economic Outlook: 2025 to 2035. Washington: CBO, 2025. Disponível em: https://www.cbo.gov/publication/60870. Acesso em: 1 maio 2026.

INTERNATIONAL ENERGY AGENCY. With new export controls on critical minerals, supply concentration risks become reality. Paris: IEA, 2025. Disponível em: https://www.iea.org/commentaries/with-new-export-controls-on-critical-minerals-supply-concentration-risks-become-reality. Acesso em: 1 maio 2026. 


WORLD GOLD COUNCIL. 2024 Central Bank Gold Reserves Survey. Londres: WGC, 18 jun. 2024. Disponível em: https://www.gold.org/goldhub/data/2024-central-bank-gold-reserves-survey. Acesso em: 1 maio 2026. 


AGÊNCIA FRANCE-PRESSE. Water-rich Brazil becoming ever drier, report warns. Rio de Janeiro, 21 mar. 2025. Disponível em: https://www.bssnews.net/news/256856. Acesso em: 1 maio 2026.

FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION OF THE UNITED NATIONS. Review of World Water Resources by Country. Roma: FAO, 2003. (Water Reports, 23). Disponível em: https://www.fao.org/4/y4473e/y4473e08.htm. Acesso em: 1 maio 2026.

U.S. GEOLOGICAL SURVEY. Mineral Commodity Summaries: Rare Earths. Reston: USGS, jan. 2025. Referenciado em: INVESTING NEWS NETWORK. Rare Earths Reserves: Top 8 Countries. Vancouver, 10 fev. 2025. Disponível em: https://investingnews.com/daily/resource-investing/critical-metals-investing/rare-earth-investing/rare-earth-reserves-country. Acesso em: 1 maio 2026. 


UNITED STATES DEPARTMENT OF AGRICULTURE. Brazil: Oilseeds and Products Annual. Washington: USDA/FAS, 21 mar. 2025. Disponível em: https://www.fas.usda.gov/data/brazil-oilseeds-and-products-annual-9. Acesso em: 1 maio 2026. 


U.S. DEPARTMENT OF THE TREASURY. Russia Sanctions. Washington: Treasury, 2022. Disponível em: https://home.treasury.gov/policy-issues/financial-sanctions/sanctions-programs-and-country-information/russian-harmful-foreign-activities-sanctions. Acesso em: 1 maio 2026. 



 
 
 

Comentários


© 2026 por UFRJ Consulting Club

Av. Athos da Silveira Ramos, 149 - Cidade Universitária, Rio de Janeiro

  • Spotify
  • Preto Ícone Facebook
  • Preto Ícone Instagram
  • Preto Ícone LinkedIn
bottom of page