Cinema: das grandes telas às salas de estar


Fonte: https://unsplash.com/photos/MAYsdoYpGuk Foto de Alex Livtin


Sala escura. Tela grande. Pipoca amanteigada. Mais do que apenas exibir um filme, o cinema está fortemente pautado na experiência do consumidor, devido à sua atmosfera única e memorável. Dessa forma, desde os grandes clássicos, como Titanic e Star Wars, até o famoso mundo mágico de Harry Potter, a indústria cinematográfica indubitavelmente exerce um enorme impacto tanto nos espectadores - ansiosos para a exibição dos longas-metragens nas grandes telas - quanto na economia em escala mundial. Analisando a receita do setor ao redor do mundo, essa relevância fica evidente: apenas no ano de 2019, as bilheterias arrecadaram mais de US$ 42 bilhões, resultado alavancado pelo lançamento de filmes como Capitã Marvel e Vingadores: Ultimato, representando valores nunca antes vistos na indústria.


Contudo, embora evidenciada a rentabilidade do setor, a recente ascensão de plataformas de streaming, como a Netflix e o Amazon Prime, juntamente com a pandemia ocasionada pelo Coronavírus, se tornaram entraves capazes de colocar em xeque a atual lucratividade da indústria cinematográfica. Nessa perspectiva, a junção desses diferentes fatores sugere uma disrupção no então consolidado setor, abrindo margem para uma nova forma de experienciar os filmes, pautada de acordo com tais tendências modernas. Com isso, não se trata de apenas esperar a intensificação desses impactos na indústria, mas sim de analisar todos os aspectos já visíveis e suas influências por trás da luz, câmera e ação das grandes produções.


Grandes poderes e grandes responsabilidades


Sem som e em preto e branco, o cinema surgiu na França por volta de 1895, sem aparentar nenhuma semelhança com o modelo atual. Até a Primeira Guerra Mundial (1918), as produções estavam concentradas nos países europeus, principalmente Itália e França. Porém, com a destruição causada pela guerra, os Estados Unidos emergiram como o grande destaque na produção de filmes, e Hollywood se tornou a chamada “Meca do Cinema”, devido às suas paisagens diversificadas e dias ensolarados. A partir de então, a alta demanda pelo entretenimento nas grandes telas resultou na criação de grandes estúdios e não tardou para que o cinema americano começasse a prosperar: apenas em 1918, foram 800 filmes produzidos, o que correspondia a 82% da produção mundial na época. Dessa forma, o que era apenas uma arte tornou-se uma verdadeira indústria - e com ela vieram grandes poderes.


Com o passar do tempo, a indústria cinematográfica revelou seu verdadeiro potencial. As décadas seguintes ratificaram o desejo da população em consumir ainda mais esse tipo de entretenimento, o que possibilitou a geração de grandes receitas, que crescem até os dias atuais. Tais ganhos, por sua vez, provêm de diversas fontes, como licenciamentos para exibição dos filmes, contratos com televisões e distribuição de cópias digitais ou DVDs. No entanto, a maior dessas entradas se dá por meio da venda dos ingressos nas bilheterias. No ano de 2018, por exemplo, as bilheterias mundiais arrecadaram quase US$ 42 bilhões, mais do que o dobro quando comparadas às receitas totais da indústria musical no mesmo período.

Na atualidade, o mundo dos heróis e da ficção tomam a dianteira no que concerne à arrecadação de capital. Em 2019, o filme Vingadores: Ultimato, por exemplo, bateu todos os recordes de bilheteria mundial, ultrapassando a quantia de US$ 2,79 bilhões, tornando-se o filme com o maior ganho já observado na história.

Aliada à produção de filmes, outras atividades também são capazes de gerar grandes retornos financeiros, tais como a elaboração de produtos, livros e até mesmo de parques temáticos voltados para os longas-metragens. Só em 2015, o sucesso de Star Wars: o Despertar da Força gerou cerca de US$ 700 milhões em vendas no setor de varejo e a área construída para o filme no parque da Disney na Califórnia espera gerar um retorno de US$ 14 bilhões nos próximos 40 anos. Ademais, a propaganda de empresas de outros setores dentro do universo dos próprios filmes também se mostra como uma oportunidade de faturamento tanto para essas companhias quanto para os estúdios. A BMW, por exemplo, pagou US$ 3 milhões para colocar um de seus carros em um filme com o personagem “James Bond”. Como resultado, houve um aumento de 9 mil encomendas e um retorno de US$ 240 milhões em vendas antecipadas do carro da montadora, o que configurou uma taxa de retorno sobre o investimento de 7900%.


Nesse panorama, por trás das expressivas receitas da indústria, os estúdios produtores emergem como os grandes atuantes do setor. De forma geral, a indústria cinematográfica é dominada por grandes players que detêm a maior parte do mercado. Isso pois, além de um grande apego por parte do espectador aos filmes dos principais estúdios, geralmente são essas as empresas que possuem as mais avançadas tecnologias e os maiores investimentos nas produções, o que consequentemente ocasiona em uma maior qualidade e favoritismo por parte da audiência, gerando elevados ganhos de escala. Nesse sentido, trata-se de um mercado com grandes barreiras de entrada, pois, além de ser consolidado e requerer altos investimentos em tecnologia e canais de distribuição, o setor também demanda elevados custos de produção. Dessa forma, os estúdios já estabelecidos no ramo são capazes de arrecadar expressivos retornos por meio da produção cinematográfica - em 2018, por exemplo, a Walt Disney Studios reportou um lucro operacional de US$ 2,5 bilhões - o que os torna grandes direcionadores dos rumos do setor.

No entanto, mais do que ganhos, a indústria cinematográfica também assume uma enorme responsabilidade social no que tange à geração de empregos, que se estendem desde roteiristas e figurinistas até pesquisadores de hábitos e vestimentas de época. De acordo com dados divulgados em 2016, o setor cinematográfico e televisivo empregam conjuntamente cerca de 1,9 milhão de pessoas nos Estados Unidos. Já na Índia, país de grande destaque na produção de filmes, o número de empregos gerados por meio da indústria do cinema chegou a 695 mil no ano de 2017.


Contudo, em meio ao crescimento consistente do setor, as tendências e contextos do mundo atual surgem como um desafio para a permanência da ascensão da indústria nos moldes vistos até hoje - e dessa vez não basta apenas colocar os Vingadores em cartaz novamente.


Exterminador do futuro


Além das grandes lutas nas telas, outra batalha é travada no mundo real. Isso pois, com a rápida e crescente ascensão das plataformas de streaming, a indústria cinematográfica se vê em meio a uma crescente perda de sua principal fonte de receita: os ingressos vendidos nas bilheterias ao redor do mundo. Ademais, somado ao que já se mostrava como uma tendência, o surgimento da pandemia do Coronavírus corroborou ainda mais para o agravamento do panorama vigente, por meio do fechamento das salas de cinema durante grande parte de 2020. De acordo com estimativas da ComScore, empresa de análise da internet, as receitas das bilheterias do cinema caíram cerca de 72% no ano de 2020 quando comparadas ao ano de 2019, totalizando um valor arrecadado de cerca de US$ 12 bilhões, o que remete ao pior desempenho da história da indústria em 40 anos.


Em contrapartida, com preços acessíveis e a comodidade de assistir onde quiser e quando quiser, as plataformas de streaming estão captando cada vez mais usuários, e vêm se tornando uma tendência muito presente nos dias atuais. De acordo com pesquisas da firma de consultoria Bain & Company, estima-se que cada residência nos Estados Unidos terá em média 3 a 4 serviços de streaming assinados até 2024.

Nessa perspectiva, o presente cenário pode ser configurado como uma das causas para a baixa arrecadação do filme Tenet, de Christopher Nolan, renomado diretor hollywoodiano, lançado no meio de 2020 e considerado uma das grandes promessas do retorno da indústria aos seus dias de glória. O filme, por sua vez, arrecadou uma quantia de apenas US$ 207 milhões até meados de setembro, quatro vezes menos do que o esperado e necessário para não dar prejuízos. Com isso, a baixa receita do longa-metragem indicou a real dimensão do problema, além de ter deixado evidente a necessidade da formulação de novas estratégias frente ao cenário atual.


Ademais, diversos filmes tiveram suas gravações interrompidas e datas de estreias adiadas devido ao contexto global. Em alguns casos, longas-metragens tiveram seus lançamentos nos cinemas cancelados e foram disponibilizados diretamente nas plataformas online. Esse foi o caso do filme Hamilton, inicialmente programado para estrear nos cinemas em 2020, mas que acabou sendo adicionado ao Disney+, plataforma que viu seu número de assinantes chegar em 86,8 milhões em pouco mais de um ano, enquanto a Netflix demorou 4 anos para alcançar esse mesmo resultado. Já no Brasil, enquanto o cinema obteve uma bilheteria nula em um final de semana de março de 2020, a plataforma Globoplay dobrou seu número de assinantes no mesmo ano, obtendo um aumento de 145% na quantidade de assinaturas no primeiro semestre, em comparação ao mesmo período de 2019.


Em virtude do cenário analisado, o estúdio da Warner Bros, segundo maior player da indústria e dotado de um lucro operacional de US$ 2,1 bilhões em 2018, já anunciou que todas as 17 estreias de 2021, incluindo clássicos como Matrix 4 e Esquadrão Suicida 2, serão feitas no cinema e na plataforma HBO Max de forma simultânea, como uma tentativa de reformular estrategicamente os lançamentos à realidade atual. Essa notícia causou controvérsias no setor, já que foi vista por muitos como uma maneira de driblar os possíveis fracassos nas bilheterias ao longo do ano, ou como uma tentativa de alavancar ainda mais o streaming frente ao cinema. O fato é que, após o anúncio, ações do Cinemark e da AMC, maior rede de cinema do mundo, sofreram uma queda vertiginosa de 17% e 21%, respectivamente. Por outro lado, a Netflix, embora com alguns lançamentos adiados devido ao contexto global, viu suas ações subirem cerca de 28% em abril de 2020 quando comparadas ao mesmo período de 2019, ganhando milhões de assinantes apenas no primeiro trimestre do ano. Nesse cenário, a indústria cinematográfica se vê no meio de uma encruzilhada: como continuar com a rentabilidade observada anteriormente frente às inclinações atuais?


2021: Endgame


O ano de 2021 será decisivo para o desenrolar desse enredo. Por um lado, a pandemia continua a assolar o mundo e a prejudicar o andamento da vida normal. Por outro, a gradativa reabertura de estabelecimentos nos leva a crer em um possível futuro mais esperançoso. O cinema, dessa forma, encontra-se no meio desse caminho: com algumas salas já reabertas, a indústria cinematográfica agora divide-se entre o antigo - os longas nas grandes telas - e o novo - o cinema nas televisões das salas de estar.


No entanto, não se trata apenas de um problema de exibição dos filmes, uma vez que diversos outros ramos do setor já estão sendo severamente impactados. Alguns reflexos da situação atual também já se manifestaram na logística das filmagens e na realização de premiações, além de influenciarem no funcionamento de parques temáticos e vendas de produtos de forma física. Ademais, a situação vigente também requer que novas estratégias de captação de receitas sejam formuladas, tais como melhorar a qualidade do serviço ofertado nas salas de cinema para atrair o público ou até mesmo estrear os filmes nas plataformas de streaming, porém cobrando aluguéis por sua exibição durante um determinado período de tempo. Esse foi o caso de Mulan, lançado nos Estados Unidos pela plataforma Disney+ pelo preço de US$ 29,99.


De qualquer maneira, o futuro permanece incerto. Não há como dizer que o cinema está com seus dias contados, uma vez que essa indústria já provou sua capacidade de inovação e de captação da atenção - e do capital - dos espectadores de forma inigualável. Contudo, não há porque ignorarmos as forças que residem ao lado, já que a ascensão do streaming e dessa nova forma de assistir aos filmes já se encontra mais do que presente nos dias pandêmicos atuais. Nesse cenário, a indústria cinematográfica passa por uma fase de transformação em seus alicerces e está em busca de novos pilares de sustentação. Para que as tendências modernas não abalem por completo a estrutura do setor, é necessário agilidade e, sobretudo, criatividade, antes que seja muito tarde e os créditos finais já comecem a aparecer nas grandes telas - ou nas televisões.


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