Petrobras: no fundo do poço?



Cinco anos se passaram desde o escândalo da Lava Jato. Essa conturbação ainda assola o país, deixando lugares como Itaboraí - onde se planejava abrir um complexo petroquímico (COMPERJ) - devastados em seu rastro. A operação que envolveu diretores, empresas de engenharia e até ex-presidentes, embora já estabilizada, desvendou prejuízos, desconfiança e um grande desafio para a nova presidência enfrentar. Essa situação fica ainda mais impactante se olharmos para as origens da empresa.


A década de 40 foi marcada pela euforia refletida no slogan “O Petróleo é nosso”, lançado no Governo Vargas. Na época, o país vivia o boom do desenvolvimento econômico, e a indústria brasileira, principalmente nos setores básicos, via a necessidade de acompanhar esse crescimento. Após um início empolgante na década de 50, no qual o consumo de petróleo no país triplicou, a Petrobras foi criada em meio a uma longa discussão sobre como deveria ser a exploração desse mercado: admissão de empresas privadas ou monopólio estatal. O último grupo venceu.


CRISE NO PAÍS, SUCESSO NO MAR

A década de 70 foi marcada por um período de instabilidade e recessão no mundo. Um dos maiores abalos sofridos pela economia mundial foi causado pelo choque do petróleo. Apesar desse forte golpe, a gigante pouco se abalou com a chegada da crise. Com o crescimento da demanda desse produto, a Petrobras viu-se diante da necessidade de reformular seus investimentos, priorizando abastecer o consumo interno de derivados, como o diesel e a gasolina. Paralelamente a esse cenário, cresciam os esforços para equilibrar a participação do petróleo brasileiro e estrangeiro na matriz energética nacional, buscando a independência em relação ao recurso importado - fato que ocorreu apenas em 2006. Contudo, atualmente o Brasil não é mais considerado autossuficiente nesse setor, especialmente pela dificuldade em produzir petróleo leve, que é destinado principalmente para a produção de gasolina.



Para essa marca ser alcançada, o início dos anos 70 foram primordiais: foram descobertos uma série de bacias de petróleo - especialmente em 1974, com o campo de Garoupa, no Rio de Janeiro. Essa bacia, após constantes êxitos, viria a se tornar a região mais importante de produção do país. Enquanto o Brasil enfrentava a inflação, era o começo de uma nova fase para a Petrobras.

Aliado a esse fator, o Governo Militar adotou medidas econômicas para superar as dificuldades cambiais, o que ajudou a deixar a companhia ainda mais estável no período de crise. Dentre elas:

  • redução do consumo de derivados - como por meio de taxação e cotas de importação;

  • aumento da oferta interna de petróleo;

  • adoção de contratos de risco a fim de intensificar a pesquisa de novas jazidas;

  • desenvolvimento de novas fontes de energia que pudessem substituir o produto, para diversificar a matriz e tornar o Brasil menos suscetível a flutuações do mercado externo, já que ainda havia importação do produto. Na época, criou-se o Pró-álcool.

Dessa forma, embora o país tenha mergulhado em uma crise devido à hiperinflação e ao endividamento externo, a Petrobras continuava a crescer e dar lucro em consequência do constante aumento na produção de barris de petróleo.


DO ORGULHO AO FRACASSO

Após décadas de desenvolvimento e impulsionada pela descoberta do pré-sal, o ano de 2010 foi um marco extremamente positivo para a Petrobras: ganhou o título informal de maior investidora do mundo ao anunciar que destinaria R$ 224 bilhões até 2014 para a área de E&P (Exploração e Produto). Em termos comparativos, a americana ExxonMobil - maior petroleira do mundo na época - anunciou que investiria cerca de R$ 140 bilhões no mesmo período. Entretanto, esse grande investimento só foi possível devido à enorme capitalização que a companhia teve. Motivada pela necessidade de entrada de capital, a Petrobras optou por se alavancar a partir da venda de ações, já que o endividamento não era uma opção. O valor da dívida que a empresa possuía era equivalente a 34% do patrimônio, muito próximo do teto estipulado pela empresa (35%).


Essa oferta da Petrobras agitou o mercado de ações e foi responsável pela entrada de quase US$ 9 bilhões no Brasil por meio do mercado financeiro. De acordo com o Banco Central, o volume registrado nesse período da capitalização foi cerca de 15% maior do que todo o acumulado de janeiro até o dia 10 de setembro do mesmo ano. O cenário otimista não parou por aí; a gigante do petróleo passou a valer R$ 220 bilhões, ocupando o patamar de segunda maior empresa do setor, perdendo apenas para a grande petrolífera americana, Exxon, que valia R$ 290 bilhões no mesmo período.


Outro fator importante para a grande valorização da Petrobras nesse período foi da descoberta do pré-sal. Embora a exploração das águas profundas de fato aumentem a oferta e produção da commodity e, consequentemente, a entrada de capital na companhia, a pressão por resultados rápidos foram prejudiciais para sua imagem. O jornal norte-americano Wall Street Journal publicou que os recursos naturais descobertos com o pré-sal não significam necessariamente um retorno certo e imediato e que a “euforia com o petróleo sucumbiu à realidade”. A limitada tecnologia para explorar com mais eficiência esse produto foi o principal fator que impossibilitou ganhos mais imediatos e ainda mais ambiciosos.


Em 2012, entretanto, o cenário de euforia mudou e já eram nítidos alguns dos problemas. Havia uma obrigação de comprar equipamentos somente com empreiteiras brasileiras e isso começou a provocar efeitos negativos internamente. A perfeita teoria de que a expansão da Petrobras fosse criar um ambiente de crescimento para as grandes construtoras e empresas de engenharia nacionais através de um financiamento barato do BNDES custou caro. Muito mais do que eles imaginavam.


As companhias, como Queiroz Galvão e a Camargo Corrêa, além de não terem a tecnologia necessária para a implementação de grandes estruturas que a Petrobras necessitava, queriam obter resultados por meio de estratégias nem sempre lícitas, conforme descoberto posteriormente, com a Operação Lava Jato. Um dos exemplos da situação caótica foi o atraso de uma plataforma (P-55), que seria responsável por 180 mil barris de petróleo/dia e que custou R$ 8,2 bilhões.


AS CONSEQUÊNCIAS DA OPERAÇÃO LAVA JATO

Em 2014, o esquema de corrupção da petroleira veio à tona com a investigação da Lava Jato. As empreiteiras concorriam entre si, por meio de licitações, para saber quem seria a responsável por cada um dos contratos da Petrobras. O cartel criado por elas, através de reuniões secretas, definiam tanto qual empresa seria escolhida na licitação, como o valor a ser pago para ela que, na grande maioria das vezes, era superfaturado. Parte desse lucro servia de propina tanto para os fornecedores quanto para os funcionários e políticos. Para que isso fosse possível, os colaboradores da empresa não apenas omitiam informações, como também ajudavam nas negociações.


Assim, após a euforia com os ganhos iniciais do pré-sal e com a descoberta de novas bacias, a má administração atrelada à corrupção tomou caminhos jamais imaginados. Diversos diretores da companhia, entre eles Renato Duque, da área de Serviços, e Paulo Roberto Costa, de Refino e Abastecimento, foram condenados pela justiça brasileira. O último foi acusado de irregularidades na compra de Pasadena. A refinaria, além de obsoleta, foi comprada por um preço muito acima de seu valor de mercado. Dilma, na época presidente do Conselho da Petrobras, também foi acusada por um possível esquema de corrupção.


RECUPERAÇÃO

Entre diversas medidas, a venda de ativos teve suma importância para a recuperação de sua saúde financeira. A Petrobras anunciou que queria se desfazer da emblemática refinaria de Pasadena. Apesar dessa atitude, a estatal não conseguiu recuperar o valor de investimento com a venda. No entanto, mesmo com a venda de R$ 8,3 bilhões em ativos nos anos de 2017 e 2018, a companhia não chegou nem a metade do esperado (R$ 21 bilhões). O motivo para o não cumprimento das metas também foi o embarreiramento por parte do Tribunal de Contas da União, que impediu que a venda de ativos fosse ainda mais significativa. Mesmo diante de todos esses problemas, a Petrobras continuava no caminho de melhorar sua imagem junto aos seus acionistas, que inclusive resultou no pagamento aos investidores americanos, uma vez que as regras rígidas da bolsa de NY exigiam o ressarcimento destes diante de uma crise provocada pela corrupção dentro da própria Petrobras.


Outro fator relevante para o crescimento da empresa foi a implementação da nova política de preços. Desde 2016, a Petrobras segue uma política de variação do preço dos combustíveis que acompanha a valorização do dólar e a flutuação do petróleo no mercado internacional. Essa ação foi responsável por um aumento de 56,5% no lucro líquido apenas no primeiro trimestre deste ano. A adoção dessa política, no entanto, desagradou grande parte da população, sendo um fator contribuinte para a greve dos caminhoneiros, que parou o país por três dias. “Essa política não é compatível com uma empresa quase monopolista como a Petrobras, que deve seguir um plano de abastecimento do país e não de pagamento de dividendo para acionistas”, afirmou Luiz Pinguelli da Rocha, antigo diretor da Eletrobras.


Essas e outras medidas estratégicas possibilitaram a volta de seu império. A companhia já recuperou um terço do rombo máximo com a Lava Jato, valor equivalente a mais de R$ 1 bilhão.


PRIVATIZAÇÃO É A SOLUÇÃO?

Hoje, a estatal possui uma grande aliada: o Governo. Capaz de tomar medidas para mitigar um possível desastre, muitas empresas enxergam esse braço como um suporte para uma forte estabilidade. A própria companhia já desfrutou desse benefício durante a Crise do Petróleo, conforme explicado anteriormente. Se o Estado não estivesse por trás, talvez essa geração não conhecesse os benefícios da gigante petrolífera.


Além disso, outro fator a favor da estatal é que o petróleo, assim como qualquer outro minério, é do solo brasileiro. Assim, passar toda a cadeia produtiva para outras empresas é, possivelmente, passar seu recurso a um preço abaixo do que ele pode trazer de retorno, além de prejudicar o desenvolvimento da tecnologia nacional. Para exemplificar, podemos pegar o caso da Vale, que, de acordo com alguns especialistas, foi vendida por um preço menor do que poderia ter sido negociado, dado o valor em reservas que a companhia tinha na época e pelo potencial de retorno que tem atualmente, pelo menos até o incidente em Brumadinho.


Por outro lado, essa intensa ação do Governo para defender a companhia acaba prejudicando o nascimento de concorrentes no setor. Dessa forma, mesmo que atualmente não haja por lei um monopólio da extração do petróleo, é quase inviável concorrer com o Estado, o qual pode reajustar preços e tomar medidas que favoreçam sua empresa. “Essa é a alternativa que temos para solução dos combustíveis. Não ser mais preço de monopólio, porque em estrutura de monopólio há uma maximização de lucro. Quando expande a oferta, o preço de monopólio cai por terra e quem dá o preço é o mercado”, afirmou a professora da Fundação Getúlio Vargas, Celina Ramalho.


Além disso, uma grande empresa, nas mãos do Governo, pode ser usada facilmente como um instrumento de desvio de dinheiro e manobra política. Conforme já presenciado no Brasil, diversos presidentes se utilizaram de discursos positivos e eufóricos, nem sempre condizentes com a realidade. Um exemplo atual foi o da ex-presidente Dilma Rousseff, quando o Ministério Público Federal acusou o Conselho da Petrobras de manter uma política de retenção dos preços e a defasagem em relação ao mercado internacional para beneficiar a reeleição de 2014. Pode parecer simples, mas essa falsa perspectiva de crescimento para a empresa afeta diretamente a confiabilidade dos acionistas e até mesmo do mercado internacional.


Atualmente, embora a Petrobras seja de capital misto, ela apresenta características e atitudes de uma grande multinacional; política de preços baseada no sistema internacional e a possibilidade de demissão de seus funcionários por interesse da empresa. Porém, falta uma cultura dentro da companhia que, de fato, implante essas soluções mais condizentes com as práticas do setor privado.


É válido ressaltar que não há um modelo ideal. Dentre os dois maiores produtores de petróleo, temos os EUA, onde, majoritariamente, atuam empresas do setor privado, e a Arábia Saudita, com um modelo baseado em uma empresa estatal. Dessa forma, o melhor modelo deve ser aquele que preencha lacunas como balancear os riscos dessa operação e o que pode ser mais benéfico tanto para o país, quanto para a população.


O QUE É ESPERADO PARA O FUTURO

As perspectivas positivas com o pré-sal refletiram diretamente na empresa que, ano passado, atingiu seu maior valor de mercado em toda sua história (R$ 312,5 bilhões). Para se ter ideia do avanço que a estatal obteve, ela chegou à mínima de R$ 67, 8 bilhões em 2016.

O ano de 2018 teve avanços no pré-sal jamais imaginados. Estima-se que as exportações de petróleo da Petrobras vão aumentar bastante nesse ano de 2019, principalmente pela parceria no exterior com cidades como Pequim e Singapura. A intenção é aumentar em 8 a 10% a produção, atingindo a meta de 2,3 milhões de barris por dia. Além disso, a empresa quer seguir uma estratégia semelhante àquelas da Vale e Embraer. Ambas também atuam em locais como Singapura a fim de contribuir “com o desenvolvimento do Brasil, mas também sendo muito bem recebidos pelo governo do país”, conforme afirmado pelo presidente Ivan Monteiro.


Somado a isso, os investimentos com o pré-sal não param por aí: o plano de negócios da companhia prevê mais de R$ 60 bilhões de investimentos nessa área, tudo para cumprir uma ousada meta de 4,2 milhões de barris de petróleo/dia. Mas, vale esperarmos as cenas dos próximos capítulos para comprovar se o que é esperado da Petrobras não é apenas mais uma politicagem com metas ousadas que não serão cumpridas. É certo que como uma das maiores empresas da história do país, a Petrobras ainda tem muito à oferecer a nossa economia e desenvolvimento interno. No entanto, para que esse potencial seja integralmente correspondido, necessita-se aprender com os erros passados e, dotado de bom senso e honestidade, conduzir a gigante brasileira de volta às manchetes internacionais, dessa vez pelos motivos certos.

© 2020 por UFRJ Consulting Club

Av. Athos da Silveira Ramos, 149 - Cidade Universitária, Rio de Janeiro

  • Branca Ícone Instagram
  • Branca Ícone LinkedIn