A Economia da Copa e o Legado nos países-sede

Atualizado: 15 de Jan de 2019



No dia 17 de julho de 1994, o Brasil conquistou o seu tetracampeonato em Copas do Mundo. Além de ser a 1ª vitória do país sem o Pelé e de se encerrar o jejum de 24 anos sem conquistas, outro fator inédito desta edição foi ser sediada nos Estados Unidos, um país onde não se tinha uma forte cultura do futebol. Esse cenário foi o que possibilitou que o legado deixado por ela no país fosse tão impactante.


ESTADOS UNIDOS (1994)

Para o país que já era a maior economia do mundo, ao contrário de países como África do Sul e Brasil, os Estados Unidos não precisavam de uma Copa do Mundo para atrair investimentos ou melhorarem sua infraestrutura. De acordo com o The Guardian, os dirigentes da US Soccer queriam desesperadamente sediar a Copa, porque o futebol profissional no país estava com dificuldades, desaparecendo rápido, e a Liga profissional predominante, a North America Soccer League, estava caminhando para extinção. Nesse sentido, lá o objetivo era outro e bem claro: despertar no cidadão local a paixão pelo futebol e desenvolvê-la.


A Copa de 1994 foi utilizada, então, como gatilho para fomentar esse interesse no esporte que é preferência global. Com um marketing eficiente, conseguiram a maior média de público nos estádios até então e foram o primeiro país sede a lucrar com o evento. Um relatório da Pasadena Convention and Visitor’s Bureau concluiu que só na Califórnia foram criados 1.700 empregos temporários na preparação do evento. Já no país como um todo, gastos em hotéis e restaurantes aumentaram em média 10 -15% comparados ao ano anterior.


De acordo com o Los Angeles Times, do excedente gerado, U$50 milhões foram utilizados para financiar a criação da U.S. Soccer Foundation, que difunde o futebol entre jovens. Diante disso, o esporte aumentou sua popularidade e, em 1996, a Major League Soccer (MLS), liga de futebol profissional dos EUA e Canadá, foi criada.


Hoje, alguns times da MLS já valem mais que diversos times brasileiros. Segundo a Forbes México, em novembro de 2016, na América, apesar de alguns clubes brasileiros como Corinthians (US$532.7 milhões), Palmeiras (US$480.1 milhões) e Grêmio (U$320.9 milhões) liderarem o ranking de mais valiosos, alguns times norte americanos como o LA Galaxy (US$265 milhões) e o Seattle Sounders (US$260 milhões) já valiam mais que vários outros clubes considerados grandes no Brasil. Além disso, a economia indireta do mercado de futebol movimenta bilhões no mercado americano com a venda de produtos oficiais, compra de jogadores, de equipamentos esportivos e com os patrocínio dos times que fortalecem marcas gigantescas como a Nike, por exemplo. Tudo isso, não só leva milhares de pessoas aos estádios por temporada como emprega muitos, direta e indiretamente.


Depois da Copa do Mundo de 94, as Copas em geral deram lucro e deixaram inúmeros legados. O impacto econômico de todas é na casa de bilhões, pois devido à magnitude do evento, o dinheiro movimentado em prol do mesmo é enorme. A Copa de 2006, na Alemanha, não foi diferente.


ALEMANHA (2006)

Na Alemanha, em 2006, além do impacto econômico positivo de 3 bilhões de euros em 3 anos, com o slogan “A time to make friends” seu objetivo ao sediar a Copa era nítido: melhorar sua imagem internacional. Um relatório da German National Tourist Board (GNTB) mostra claramente como o impacto da Copa se deu e qual foi o legado deixado. Com a visão de se tornar um destino turístico melhor, a Alemanha se preparou bastante para manter a segurança e uma logística eficiente de locomoção. No setor turístico, observou até 1,4 milhões de estadias no mês de junho de 2006, 31% a mais do que o 1º semestre do mesmo ano. Por volta de 21 milhões de pessoas visitaram o FIFA Fan Fest, zonas livres para assistirem os jogos em telões, nas doze cidades que sediaram jogos. Ao final, pesquisas apontaram um resultado positivo no qual 95% dos estrangeiros concordaram que o povo alemão foi amigável e 88% recomendariam a Alemanha como um destino de viagem.


Quanto ao impacto econômico, o mesmo se deu de várias formas: o comércio cresceu cerca de 1,9% no mês de maio de 2006, houve um aumento de 185 mil empregos temporários, nacionalmente, além do número de estadias ter crescido junto com um aumento de 3,4% do preço dos hotéis. Tudo isso resultou em um aumento de 2,4% do PIB do segundo quadrimestre comparado ao do ano anterior.


Todavia, nem todos os legados dos países sede reverteram em lucros. Sucedendo a Alemanha, a África do Sul, em 2010, e o Brasil, em 2014, obtiveram legados parecidos e, apesar de apresentarem impactos econômicos significativos, não obtiveram resultados econômicos tão positivos. Isso porque ambos os países investiram bilhões de dólares para fazer obras de preparação para o evento, algo que ocorreu em muito menor escala nos outros países-sede. Ainda assim, é possível perceber legados positivos e negativos deixados após a realização do evento.


BRASIL (2014)

Marcada por um clima tenso em função de inúmeros protestos em julho de 2013, a Copa do Mundo que terminou com o emblemático 7 x 1 deixou, de fato, inúmeras heranças. Durante os anos de preparação, foram propostas 82 obras para a melhoria de estádios, aeroportos e mobilidade urbana nas cidades que receberiam jogos, mas somente 20 foram cumpridas no prazo para o evento. Após a Copa, algumas foram retiradas da lista, outras foram concluídas depois e algumas, até hoje, não ficaram prontas, como o monotrilho que ligará o aeroporto de Congonhas à estação Morumbi.


Entre as obras feitas, algumas foram consideradas elefantes brancos, obras de baixíssimo custo-benefício, como alguns estádios que possuem alto custo de manutenção e pouco uso. É o caso de três arenas da Copa do Mundo que têm prejuízos mensais por causa do baixo número de partidas. Dentre elas a Arena Amazônia que, até o início de 2017, estava sendo bancada pelo governo estadual e, agora, está tendo diversos usos diferentes como sediar shows, festivais gastronômicos, eventos corporativos, entre outros, mas ainda continua tendo prejuízo. O Estádio Mané Garrincha (Distrito Federal) que foi a obra mais cara, chegando a 1,5 bilhões de reais, também não consegue se sustentar. No início de 2017 passou a alojar dois órgãos da administração estadual, economizando aluguel do orçamento do governo e atualmente está em fase de uma negociação público-privada na qual se tornaria um espaço de uso misto de jogos e eventos. E a Arena Pantanal, no Mato Grosso, segue dando um prejuízo mensal de R$ 500 mil.


Ao todo, foram construídos ou reformados 12 estádios que custaram juntos R$8,8 bilhões. Por esse tipo de obra, muitos tinham receio que o legado da Copa no Brasil fosse de vários elefantes brancos espalhados pelo país. No entanto, nem todos se encaixam nessa previsão. Olhando hoje, podemos ver mudanças positivas potencializadas por alguns desses estádios.


A construção de 3 estádios e a reforma de 1 na região Nordeste do país foram consideradas um mau uso de recursos devido à baixa média de público nos jogos locais. Entretanto, é possível ver um nítido desenvolvimento do esporte ao olharmos para o campeonato local. Com o aumento do número de estádios na região, os times estão melhorando seu preparo, recebendo mais investimentos e atraindo mais público. Dessa maneira, a Copa Nordeste, que voltou em 2013, está conseguindo se perpetuar e até ganhando destaque no cenário nacional. “Com uma média de 5.973 pagantes por jogo em 2017, superou, neste quesito, a todos os estaduais, com exceção ao Campeonato Paulista, que teve 9.768 por partida”, segundo o El País. Além disso, o valor em prêmios da mesma em 2014 era de 10 milhões e em 2018 será de mais de 22 milhões, o que exemplifica a crescente valorização desse evento. Tal fator contribui muito positivamente para o desenvolvimento dos clubes, como um ciclo que vem elevando o valor de suas marcas. Só nos últimos 4 anos, o valor dos três principais clubes do Nordeste aumentou mais de 50%. Sua subida se iniciou em 2013, junto com a retomada do campeonato.



Evolução do valor de mercado dos clubes do Nordeste

Além do desenvolvimento do futebol, outro legado que a Copa do Mundo nos deixou foi uma boa imagem internacional. Apesar de todos os escândalos de superfaturamento de obras que ao todo custaram R$ 33 bilhões, atrasos no cronograma, manifestações na Copa das Confederações (julho de 2013) e problemas de transporte que assustaram muitos estrangeiros e levaram veículos internacionais a prever um mês antes da Copa que a mesma seria um fiasco, essa previsão não poderiam ter passado mais longe da realidade, pois a Copa no Brasil foi um sucesso. Isso porque turistas encontraram manifestações abaixo do nível esperado, e a cordialidade e receptividade dos brasileiros foi grande.


Ao todo, foram recepcionados mais de um milhão de estrangeiros de 202 nacionalidades. Dentre esses, 61% fizeram sua primeira visita ao Brasil por causa do evento e, em uma pesquisa realizada pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE), foi apontado que entre os turistas estrangeiros que vieram ao Brasil, 83% afirmaram que suas expectativas foram plenamente atendidas ou superadas e 95% disseram ter vontade de voltar.


O aumento do número de turistas e as diversas obras de preparação, movimentaram bastante a economia do país, gerando cerca de 1 milhão de empregos. Segundo o levantamento feito pela FIPE, do total de vagas relacionadas à Copa, 710 mil eram fixas e 200 mil eram temporárias. Só na cadeia do turismo, foram gerados 50 mil novos empregos em função do evento esportivo. Ademais, a taxa de ocupação da rede hoteleira nas 12 cidades-sede na primeira semana do Mundial ficou 45% acima do esperado, de acordo com autoridades do setor. E, no geral, foi esperada uma injeção de R$ 30 bilhões na economia brasileira.


Hoje, quatro anos depois, a Copa do Mundo chegou novamente e, desta vez, sediada na Rússia. O país está se preparando desde 2013 para receber o evento, e a organização espera obter um impacto econômico de bilhões de dólares como fruto das mudanças implementadas. Mas, assim como o Brasil, a Rússia também fez um investimento robusto para receber a Copa, somando mais de 11 bilhões de dólares que não incluem parte das obras em infraestrutura e em estádios, pois o governo afirma que já as faria de qualquer maneira. Entretanto, somente no futuro conseguiremos ver quais os impactos de todas as modificações, tanto para o país, quanto para o turismo ou para o esporte. A única coisa que podemos dizer agora é: RUMO AO HEXA, BRASIL!

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