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A Recessão na Europa: O velho mundo encontra um velho inimigo


Introdução


Guerra na Ucrânia. Crise energética. Inflação alta. Esses são os principais tópicos sobre os quais a Europa e, por sua vez, a União Europeia¹ (UE), precisam se atentar e desenvolver saídas estratégicas a fim de proteger sua população da alta dos preços. Nesse sentido, por mais que exista um contexto geopolítico por trás do conflito na Ucrânia desde o começo de 2022 e as sanções à Rússia tenham tido uma retórica coerente frente aos ideais do bloco europeu, é preciso saber: até quando a recessão europeia pode durar?


A guerra na Ucrânia


Desde que a Rússia invadiu a Ucrânia em 24 de fevereiro de 2022, sob a justificativa de combater o avanço desenfreado da Otan² na porção leste europeia, oficiais da UE se reuniram para discutir sanções econômicas ao país. A partir disso, a fim de enfraquecê-lo, algumas medidas efetivas foram tomadas, como a remoção da nação do sistema Swift³, o banimento do carvão e de outros combustíveis fósseis sólidos russos, além do óleo cru e refinado, uma vez que as commodities minerais são os principais produtos de exportação russa. Em resposta a isso, a Rússia cortou 80% dos suprimentos de gás ao bloco, fazendo com que a dinâmica de fornecimento energético no bloco tivesse que ser mudada. A partir disso, a UE deixou de importar cerca de 71% do gás natural proveniente da Rússia, passando a importar mais de países como Noruega, Estados Unidos da América, Reino Unido, entre outros.



Vale ressaltar que, segundo o portal de notícias Euronews, a Rússia perde cerca de 160 milhões de euros por dia pelo impacto combinado de todas as sanções até o momento, especialmente em óleo e gás. Por outro lado, a Europa também foi afetada por esse fenômeno, com aumentos no custo final do gás para o consumidor e na eletricidade, já que o continente teve que recorrer a cadeias de importação diferentes, com custos mais altos vindo de outros países. Um exemplo disso foram os ingleses que, no último ano, tiveram que suportar aumentos de 36,2% e 17,3% para o gás e eletricidade, respectivamente.


Paralelamente, o continente tem enfrentado um aumento significativo no preço dos alimentos. Isso se deu a partir da disrupção das cadeias de mantimentos no continente devido à invasão na Ucrânia, um dos principais exportadores de grãos a baixo custo no mundo. Disrupção essa que, por mais que tenha sido feito um acordo de exportação com a Ucrânia para que houvesse uma diminuição no valor final desses grãos, visto que a crise de combustíveis afeta a cadeia de forma direta e indireta ao longo da comercialização, o preço dos alimentos em geral se manteve 34% acima do valor de 2019 de acordo com o índice de preço de alimentos das Nações Unidas5.




Nesse contexto, devido à prévia dependência de gás russo, os governos europeus foram obrigados a desenvolver políticas internas de auxílio à população durante o inverno, período de maior importação da commodity devido ao clima e a necessidade maior de aquecimento de casas e estabelecimentos, como um todo. Tais medidas foram pensadas para amparar residências e negócios em meio a esse aumento iminente do custo de vida. Como consequência, as dívidas dos países europeus aumentaram, como por exemplo a Grã-Bretanha que, pela primeira vez desde 1961, teve a sua dívida pública ultrapassando a produção econômica anual total do país.


A recessão europeia em 2023


No começo de 2023, em meio ao aumento dos preços de energia e de alimentos, a zona do euro entrou em recessão6. Tal fato se reflete nos desafios que o Banco Central Europeu7 tem enfrentado para diminuir a inflação sem realizar alterações que possam agravar o cenário econômico precário do país como um todo. Aliado a isso, a produção econômica das 20 nações que utilizam o euro como moeda oficial caiu em 0,1% no quarto trimestre de 2022, padrão que se repetiu nos três primeiros meses deste ano. Sendo assim, como foi a primeira contração semestral do PIB8 desde a primeira metade de 2020, economistas apontaram uma recessão técnica.


Inflação na Europa


Por mais que os preços de energia e de alimentos tenham aumentado até o início de 2023, atrapalhando o crescimento dos países da Europa, é projetado que a inflação diminua gradativamente ao longo de 2023, a partir de uma melhor adequação da cadeia de suprimentos global. Porém, tal diminuição não será o suficiente para alcançar as metas inflacionárias dos bancos centrais europeus.



É importante ressaltar, no entanto, que essa projeção leva em conta um sucesso de políticas do Banco Central Europeu e uma diminuição na escala da Guerra da Ucrânia. Nesse sentido, há sempre a possibilidade desse período de queda inflacionária mudar, ficando mais difícil prever quando esse cenário sem crescimento europeu persistirá aliado à inflação.


Nessa conjuntura, é possível que esteja ocorrendo uma subestimação coletiva da gravidade dos danos na capacidade produtiva que essas duas crises seguidas acarretaram, a pandemia e o conflito russo-ucraniano. A partir do momento que linhas de créditos muito caras são abertas e o caráter de solvência das empresas precisa ser apurado, um cenário constante de queda inflacionária, resultando em uma deflação, se torna cada vez mais possível. Outro exemplo de risco da inflação no bloco europeu é o não cessar-fogo da Rússia frente a impossibilidade do país de continuar funcionando com todas as sanções impostas a ela no próximo ano, o que certamente fixaria as expectativas deflacionárias em patamares baixos.


Políticas para a segurança no crescimento


Com um futuro ainda incerto, o Banco Central Europeu juntamente com os países do bloco focam, atualmente, em adotar políticas contracionistas monetárias, como a redução das linhas de crédito abertas no período mais ávido da crise energética e de alimentos. Essa postura se baseia em políticas que visam desacelerar o estímulo de consumo por parte da população na tentativa de conter a inflação. Vale ressaltar, ainda, que esse caráter macro, quando levado para políticas fiscais mais rígidas, irá assegurar que os bancos centrais atinjam suas metas com o uso de taxas de juros menores, reduzindo dívidas de custos de serviço através do continente. Em suma, tal estratégia se dá a partir da noção que há mais a se perder reagindo tardiamente ao consumo acelerado em um aparente cenário otimista do que reagindo cedo e, possivelmente, freando essa recuperação.


Portanto, para que o bloco como um todo tenha êxito em suas políticas, é preciso que os bancos centrais europeus ajam em conjunto. Com isso, para derrotar uma inflação constante, todos os aspectos macroeconômicos, financeiros e políticos devem funcionar em sintonia, ainda mais considerando as principais parcerias entre países da UE. Sendo assim, com uma estabilidade financeira em mente, é fundamental que as nações tenham, nos próximos anos, uma supervisão e um monitoramento, tanto de instituições bancárias como de não bancárias, sendo exemplos destas as seguradoras e bolsas de valores. Assim, garante-se a diminuição das áreas vulneráveis do bloco, ao mesmo tempo que permite-se um crescimento generalizado.


Futuro do mercado europeu


A comissão europeia, de forma oficial, afirma que está contente com a forma que a União Europeia vem lidando com a perda da dependência da Rússia em termos de suas matrizes energéticas. Dessa maneira, um porta-voz da comissão disse: “As medidas introduzidas no último ano vêm se mostrando efetivas em reduzir nossa dependência em combustível fóssil russo e em garantir a segurança em abastecimento em toda a UE, nos permitindo enfrentar esse último inverno de forma segura”.


Em relação a esse discurso de não dependência da Rússia, a UE almeja adotar medidas mais sustentáveis para sua matriz energética, acompanhando um aumento do PIB e do discurso ESG10, cada vez mais relevante. Com isso, é planejado que, em 2024, haja tanto um PIB positivo, como uma transição energética com menor emissão de carbono no bloco europeu.


Somado a isso, com o enfraquecimento de investimentos ocidentais em maiores produções energéticas russas, é provável que, em 2024, um cessar-fogo com a Ucrânia venha a acontecer. Tal fato iria assegurar a intensa necessidade russa de adquirir recursos que foram perdidos nos últimos anos. Porém, ainda nesse contexto, há uma tendência europeia de firmar uma série de acordos para garantir o fornecimento de gás com outros países, como o Catar, por exemplo. Além disso, com os projetos de desenvolvimento na produção de gás se estruturando em países com relações políticas conturbadas como Israel e Líbano, a tendência é que os custos diminuam ao longo da cadeia no longo prazo. Considerando que qualquer mudança energética adotada terá seus prós e contras, até quando, para a Europa, vale a pena ceder seus ideais políticos por um progresso econômico?


Glossário


1. União Europeia: Bloco político e econômico europeu constituído por 27 nações do continente. É hoje uma das organizações mais importantes e influentes do mundo.


2. Otan: A Organização do Tratado do Atlântico Norte é uma aliança militar intergovernamental baseada no Tratado do Atlântico Norte, assinado em 4 de abril de 1949, que constitui um sistema de defesa coletiva através do qual os seus Estados-membros concordam com a defesa mútua em resposta a um ataque por qualquer entidade externa à organização.


3. Swift: A Sociedade de Telecomunicações Financeiras Interbancárias Mundiais – Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication, em inglês - é um sistema de mensagens criado por bancos de vários locais do mundo em 1973 para permitir a troca de moeda entre diferentes países de forma rápida e segura.


4. Commodities: Corresponde a produtos básicos globais não industrializados, ou seja, matérias-primas que não se diferem independente de quem as produziu ou de sua origem.


5. Nações Unidas: Organização das Nações Unidas, ou simplesmente Nações Unidas, é uma organização intergovernamental criada para promover a cooperação internacional.


6. Recessão: É uma fase de contração no ciclo econômico, isto é, de retração geral na atividade econômica por um certo período de tempo, com queda no nível da produção.


7. Banco Central Europeu: É o banco central responsável pela moeda única da Zona Euro e a sua principal missão é preservar o poder de compra do euro, assegurando assim a estabilidade de preços na respectiva zona.


8. PIB: O produto interno bruto representa a soma de todos os bens e serviços finais produzidos numa determinada região, durante um período determinado; quantifica a atividade econômica em uma dada região.


9. FMI: O Fundo Monetário Internacional é uma organização internacional criada em 1944 na Conferência de Bretton Woods com o objetivo inicial de ajudar na reconstrução do sistema monetário internacional no período pós-Segunda Guerra Mundial.


10. ESG: É uma abordagem para avaliar até que ponto uma corporação trabalha em prol de objetivos sociais e sustentáveis que vão além do papel de uma corporação para maximizar os lucros em nome dos acionistas da corporação


Referências Bibliográficas:


ALDERMAN, L. The Eurozone Slipped Into a Mild Recession Early in the Year. The New York Times, 8 jun. 2023. Disponível em <https://www.nytimes.com/2023/06/08/business/eurozone-recession-economy.html#:~:text=Stubbornly%20high%20inflation%20tipped%20many,percent%20in%20the%20previous%20quarter>. Acesso em 22 de Julho de 2023.


BUTLER, N. The impact of the Ukraine war on global energy markets. Cer.eu, 14 de Julho de 2022. Disponível em: <https://www.cer.eu/insights/impact-ukraine-war-global-energy-markets>. Acesso em 22 de Julho de 2023.


Europe has spent more than $800 billion shielding citizens from the energy crisis. Quartz, 1 de março de 2023. Disponível em: <https://qz.com/europe-has-spent-more-than-800-billion-shielding-citiz-1850107510>. Acesso em 22 de Julho de 2023.


Europe’s ‘energy war’ in data: How have EU imports changed since Russia’s invasion of Ukraine? EuroNews, 24 de Fevereiro de 2023. Disponível em: <‌‌https://www.euronews.com/green/2023/02/24/europes-energy-war-in-data-how-have-eu-imports-changed-since-russias-invasion-of-ukraine#:~:text=EU%20imports%20of%20energy%20products%20from%20Russia&text=EU%20imports%20of%20all%20kinds,first%20three%20quarters%20of%202022.>. Acesso em 22 de Julho de 2023.


Europe’s Knife-Edge Path Toward Beating Inflation Without a Recession. IMF BLOG, 28 de Abril de 2023 Disponível em: <https://www.imf.org/en/Blogs/Articles/2023/04/28/europes-knifeedge-path-toward-beating-inflation-without-a-recession>. Acesso em 22 de Julho de 2023.


MCKINSEY & COMPANY. European consumers increasingly react to the stress of rising prices. McKinsey, 27 de Outubro de 2022 Disponível em: <https://www.mckinsey.com/capabilities/growth-marketing-and-sales/our-insights/survey-european-consumer-sentiment-during-the-coronavirus-crisis>. Acesso em 22 de Julho de 2023.


NELSON, E. Why Are Food Prices So High in Europe? The New York Times, 30 de maio de 2023. Disponivel em: <https://www.nytimes.com/2023/05/30/business/europe-food-prices-inflation.html#:~:text=Throughout%20the%20European%20Union%2C%20consumer,two%20and%20a%20half%20decades>. Acesso em 22 de Julho de 2023


‌PARTINGTON, R.; CORRESPONDENT, R. P. E. Eurozone sinks into recession as cost of living crisis takes toll. The Guardian, 8 jun. 2023. Disponível em <https://www.theguardian.com/business/2023/jun/08/eurozone-sinks-into-recession-as-cost-of-living-crisis-takes-toll#:~:text=Figures%20from%20Eurostat%2C%20the%20EU's,consecutive%20quarters%20of%20negative%20growth.>. Acesso em 22 de Julho de 2023.


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