Copa do Catar 2022: um evento marcado por controvérsias e incertezas


Fundada em 1930, a Copa do Mundo, o maior espetáculo de futebol mundial, ocorre de quatro em quatro anos e é um dos principais eventos esportivos da atualidade. Dadas as movimentações econômicas, midiáticas e turísticas proporcionadas pela competição, há uma grande concorrência para sediar o evento entre os países que demonstram interesse formal para a FIFA (Federação Internacional de Futebol Associado).


Nesse sentido, durante a cerimônia de encerramento da Copa da África do Sul em julho de 2010, foi anunciada a conquista do Catar em sediar a Copa do Mundo de 2022, derrotando países fortes como os EUA, Coreia do Sul, Japão e Austrália, tornando-se o primeiro do Oriente Médio a sediar o evento. Com isso, cabe o seguinte questionamento: qual seria o interesse e principais planos do governo catariano em sediar um evento futebolístico de escala mundial?


Em primeiro plano, atualmente, o Catar é o país com maior PIB¹ (Produto Interno Bruto) per capita do mundo, além de possuir recursos públicos e privados suficientes para investir em infraestrutura, tecnologia e práticas adequadas ao meio ambiente. Contudo, desde o seu anúncio, a escolha do local foi cercada de polêmicas, envolvendo acusações de subornos por parte do governo do Catar de 3,7 milhões de dólares às autoridades esportivas, visando a garantir o apoio nas votações do país-sede. Além disso, ainda estão em pauta as controvérsias em relação aos direitos dos homossexuais, devido às crenças religiosas e até à própria legislação, e aos trabalhadores em condições quase análogas a escravidão. Dessa forma, a escolha da sede passou a ser vista como um alto risco pela mídia global, devido a possíveis boicotes, sejam com menos audiência ou investimentos, colocando em xeque a imagem do evento.


ECONOMIA E AS ATIVIDADES FUNDAMENTAIS DO CATAR


A exploração de recursos energéticos no Catar, como o gás natural e o petróleo, corresponde a mais de 60% do seu PIB, dada a abundância de petróleo no solo nacional e a sua sólida infraestrutura abundante. Entretanto, diante da necessidade de mudança nas matrizes energéticas, por conta de questões ambientais e do receio global acerca da escassez de reservas petrolíferas exploráveis, o país busca se livrar da dependência de fontes não renováveis e procura outras alternativas para sustentar a sua economia.


De acordo com o projeto “Visão Nacional do Catar 2030”, um dos planos do governo é instituir uma economia variada que reduza gradualmente sua dependência das indústrias de hidrocarbonetos. Diante dessa situação, a nação do Oriente Médio enxergou uma oportunidade, com a Copa, de agilizar tal diversificação econômica. Assim, ela possui a chance de se consolidar como um importante local turístico e, possivelmente, um polo turístico, almejando sediar eventos futuros, como as Olimpíadas em 2032. Além disso, há também o interesse de estar no holofote mundial, gerando ganhos econômicos, facilitando, dessa maneira, novas parcerias.


Para cumprir esses objetivos, o país sediará a edição mais cara da história, com um custo de US$ 220 bilhões advindos de uma forte Parceria Público-Privada² (PPP). Esses recursos serão destinados à infraestrutura do local, como hotéis, aeroportos, transportes e estádios, além de tecnologias, inovações e redução de impactos ambientais, de modo a tentar consolidar o plano de desenvolvimento estabelecido pelo país no projeto “Visão Nacional do Catar 2030”. Esse projeto possui quatro pilares como base: social, humano, ambiental e econômico, sendo o último baseado no desenvolvimento de uma economia competitiva e diversificada, capaz de atender às necessidades e garantir um alto padrão de vida para a sua população.


Nessa perspectiva, o retorno financeiro estimado para o Catar é de US$ 17 bilhões provenientes do turismo. Já a venda de ingressos é uma propriedade direta da FIFA, que pretende faturar cerca de US$ 6,4 bilhões - US$ 300 milhões a mais que a edição passada - por meio da sua comercialização, venda dos direitos de transmissão, licenciamento dos produtos fabricados por terceiros e patrocínios.


INVESTIMENTOS EM INFRAESTRUTURA, TECNOLOGIA E PRÁTICAS ESG³


O Catar investiu na sua infraestrutura e logística um valor que supera o seu PIB de US$ 146,4 bilhões. Essa quantia ultrapassa em quinze vezes o orçamento da última edição na Rússia, demonstrando a ambição do plano de desenvolvimento do país até 2030. Com isso, além de estruturar o evento futebolístico, há o objetivo maior de beneficiar o povo catariano a longo prazo, por meio do aquecimento de setores da economia e da geração de novos empregos, a partir das novas construções e setores em alta com a Copa do Mundo. Contudo, apesar de inaugurar oito estádios ao redor do país, menos de US$ 10 bilhões dos recursos, abaixo de 5% do total investido, foram destinados a eles.


Nesse cenário, foram investidos, majoritariamente, em inovações tecnológicas e na modernização das construções dos estádios, com estruturas com sistemas seguros de resfriamento capazes de manter a temperatura do local inferior a 27ºC. Para dar suporte ao evento, foram criados aplicativos de delivery nos estádios, recursos para auxiliar deficientes, tecnologias de navegação, tecnologias de impedimento semi-automatizadas - ajudando os árbitros -, entre outras.


Portanto, essas mudanças demonstram o direcionamento dos investimentos em aspectos que ultrapassam o plano esportivo, abrangendo também as práticas ESG, essenciais para se adequar ao desenvolvimento da sociedade e melhorar a imagem do país frente a população mundial. No âmbito social, foram estruturadas obras a fim de restaurar as habitações e a mobilidade urbana do local, com o intuito de atender a população esperada para a Copa. Vale ressaltar que, antes do anúncio do evento, não havia moradias suficientes para atender aos moradores e aos turistas, além da falta de um transporte público acessível. Para resolver a questão das habitações, foram construídos 16 hotéis flutuantes e foram implementados cruzeiros catarianos ancorados, com o intuito de hospedar a todos que pretendem frequentar o Catar.


De modo a abranger a esfera ambiental e minimizar esse impacto, essas obras foram realizadas de forma compacta e sustentável. Nesse sentido, foram construídos estádios com 80% de materiais reciclados, ônibus elétricos, e a promessa de se tornar a primeira edição neutra em carbono⁴ da história, apesar de especialistas considerarem tal feito como impossível de ser atingido sem a compra de compensações de emissão de carbono⁵.


CONTROVÉRSIAS RELACIONADAS ÀS PAUTAS SOCIAIS E AMBIENTAIS


Entretanto, apesar dos investimentos no setor de infraestrutura e da agilidade nos processos, o Catar foi acusado pela Anistia Internacional⁶ de violação dos direitos trabalhistas, devido ao trabalho dos imigrantes sob condições de calor extremas e horas de trabalho excessivas. Nesse contexto, o jornal britânico, The Guardian, revelou que cerca de 6.000 operários imigrantes faleceram desde o início das obras para a Copa do Mundo em 2010, por condições predatórias de trabalho, porém, entre 69% e 80% das mortes foram atribuídas a causas naturais.


Desde 2020, devido a pressões externas, as autoridades anunciaram mudanças nas leis trabalhistas, contemplando condições mais salubres, mas ainda assim ocorrem reclamações por parte dos empregados, como salários atrasados e abuso de autoridade por seus patrões. Dessa forma, é gerada uma indignação das seleções que disputarão o torneio, como a Federação Dinamarquesa, e cobranças ao país e à FIFA de movimentos populares. Além disso, há uma série de preocupações devido à restrita liberdade de expressão e as atitudes repressivas aos LGBTQIA+, já que o país possui uma postura rígida em relação às demonstrações públicas de afeto, por conta da cultura e legislações locais.


IMPACTOS NA ECONOMIA DO CATAR


De acordo com o Bloomberg Television, rede estadunidense de notícias econômicas, o diretor-executivo da Copa do Mundo, Nasser Al Khater, havia previsto que o evento agregaria US$ 20 bilhões ao PIB, correspondendo a um aumento de 13%, e um total de 1,5 milhões de turistas durante o evento. No entanto, essas projeções otimistas de 2010 foram reduzidas, visto que, atualmente, a expectativa passou para US$ 17 bilhões e 1,2 milhões de visitantes, devido às críticas às questões sociais e à preocupação de habitações insuficientes para abrigar a elevada quantidade de pessoas.


Mesmo com a queda das estimativas, o governo ainda pretende concentrar esforços para consolidar o país como destino turístico, fundamentado em inovações, como o metrô da cidade de Doha e o Aeroporto Internacional de Hamad, cujas construções são responsáveis por empregar quase metade da força de trabalho do Catar. A fim de atingir os objetivos do projeto nacional, principalmente no âmbito econômico, o país almeja a estabilidade financeira por meio de baixas taxas de inflação, buscando reduzir o patamar atual de 5,4% e atrair investimentos externos de recursos, como novas fontes de energias, e tecnologias nos próximos anos. Tais fatores podem ser alcançados com a projeção mundial obtida através da Copa do Mundo de 2022.


MUDANÇAS DESDE O ANÚNCIO DO CATAR COMO SEDE


Desde que houve a escolha do Catar como sede da Copa do Mundo de 2022, o PIB do país cresceu a uma taxa média de 4,5% em por ano, estimulada pelas oportunidades criadas a partir do evento, como a geração de empregos e olhares de investidores externos. A partir do anúncio da Copa, também foram identificadas oportunidades comerciais e de investimento relacionadas ao preparo e à execução do torneio para o setor privado até 2023, como a venda de produtos, o turismo e a popularização de locais coletivos para assistir aos jogos, como bares, eventos e até o FIFA Fan Fest. Nesse sentido, o FMI⁷ (Fundo Monetário Internacional) projeta que a economia crescerá 3,4% em 2022, porém, deve desacelerar 1,7% em 2024, devido ao provável fim dos holofotes mundiais no país advindos do evento, ocasionando menos turistas e investimentos. Sendo assim, a diversificação das fontes de rendas nacionais se tornaria mais do que necessária para transformar esse número sustentável a longo prazo.


Ademais, segundo a IPA Qatar, agência de promoção de investimentos nacional, o anúncio da competição ajudou a atrair IED⁸ (Investimento Estrangeiro Direto), construindo laços econômicos de parcerias, exportações e comércio além do petróleo, do gás natural (GNL) e do CCG⁹ (Conselho de Cooperação do Golfo). Com isso, o Catar se tornou um player que chama a atenção global, mesmo possuindo fortes concorrentes regionais mais estabelecidos, como os Emirados Árabes Unidos. Desde 2020, esse indicador relacionado ao investimento externo vem caindo, contudo, a Copa do Mundo é o momento ideal para as autoridades internacionais estabelecerem contatos visando projetos futuros no território catariano.


O QUE ESPERAR DO SEU TÉRMINO?


Em paralelo, após a prosperidade causada pela Copa do Mundo, alguns especialistas projetam um cenário de acomodações construídas para o evento vazias, desaceleração da economia e desemprego em massa, visto que mais da metade da população foi empregada a partir das construções. Para solucionar esses problemas, uma alternativa é impulsionar a diversificação dos setores da economia nacional, por meio de investimentos públicos e privados nos setores de manufatura, de serviço e de comércio - todos em ascensão no país - a fim de construir a auto suficiência em relação aos recursos energéticos, tendo em vista que mais de 60% da sua economia ainda é baseada neles.


Já a discussão em torno da duração do pico de desenvolvimento econômico da Copa é difícil avaliar e dependerá da análise dos períodos posteriores ao torneio, como a perpetuação da difusão de uma infraestrutura de qualidade, a criação de novos empregos e a atração de novos profissionais qualificados.


Diante desses cenários, cabe se atentar a um principal questionamento: será que, apesar das controvérsias sociais, o primeiro evento de grande porte na região após a pandemia deixará um legado positivo em questões de modernidade e avanços ambientais nos festivais esportivos? Isso, apenas o tempo será capaz de responder.


Glossário:


1- Produto Interno Bruto (PIB): soma de todos os produtos e serviços produzidos em um país.


2- Parcerias Público-Privadas (PPP): contrato de longo prazo entre um ente público e uma parte privada, para o desenvolvimento e/ou gestão de bem ou serviço público, em que o agente privado arca com risco significativo e com a responsabilidade pela gestão ao longo da vida do contrato, sendo que a remuneração é significantemente vinculada ao desempenho e/ou à demanda ou uso do bem ou serviço.


3- Práticas ESG: indicador para práticas positivas ambientais, sociais e de governança dentro de uma empresa.


4- Neutra em carbono: redução da queima de carbono onde é possível o balanceamento do restante das emissões por métodos de compensação.


5- Compensações de emissão de carbono: sistema que promove o intercâmbio entre quem gera créditos de carbono por reduzir emissões e quem precisa compensar suas emissões residuais


6- Anistia Internacional: organização não governamental defensora dos direitos humanos presente em mais de 150 países.


7- Fundo Monetário Internacional (FMI): organização supranacional que busca estimular a cooperação monetária global, proteger a estabilidade financeira, facilitar o comércio internacional, promover altos níveis de emprego e crescimento econômico sustentável e reduzir a pobreza em todo o mundo.


8- Investimento Estrangeiro Direto (IED): movimentação de capitais internacionais para propósitos específicos de investimento, quando empresas ou indivíduos no exterior criam ou adquirem operações em outro país.


9- Conselho de Cooperação do Golfo (CCG): organização de integração econômica que reúne os seis estados do Golfo Pérsico: Omã, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Catar, Bahrein e Kuwait.


Referências:


“Catar está quase pronto para Copa de 2022: o que esperar do primeiro mundial em um país islâmico”. Disponível em: < https://www.rfi.fr/br/podcasts/esportes/20210228-catar-est%C3%A1-quase-pronto-para-copa-de-2022-o-que-esperar-do-primeiro-mundial-em-um-pa%C3%ADs-isl%C3%A2mico >. Acesso em: 10/07/2022.


“Copa do Mundo do Catar deve ser a mais compacta e sustentável”. Disponível em: < https://www.alemdaenergia.engie.com.br/copa-do-mundo-do-catar-sera-compacta-e-sustentavel/ >. Acesso em: 11/07/2022.


“Copa do Mundo 2022: como o Catar tratou os trabalhadores que construíram os estádios?”. Disponível em: < https://www.bbc.com/portuguese/internacional-60950389 >. Acesso em: 10/07/2022.

“Copa do Mundo 2022: quando é e por que o Catar será sede”. Disponível em: < https://www.bbc.com/portuguese/geral-61824818 >. Acesso em: 11/07/2022.

“Federação dinamarquesa de futebol anuncia boicote a Copa do Mundo no Qatar”. Disponível em: < https://www.poder360.com.br/internacional/federacao-dinamarquesa-de-futebol-anuncia-boicote-a-copa-do-mundo-no-qatar/ >. Acesso em: 20/07/2022


“Qatar: $100 billion on World Cup infrastructure”. Disponível em: < https://www.webuildvalue.com/en/global-economy-sustainability/qatar-100-billion-on-world-cup-infrastructure.html >. Acesso em: 15/07/2022.

Ferrari, Jean. “Copa do Mundo: quem ganha é o melhor futebol e a melhor infraestrutura”. Disponível em: <https://economiasc.com/2022/05/12/copa-do-mundo-quem-ganha-e-o-melhor-futebol-e-a-melhor-infraestrutura/#:~:text=Pr%C3%A1ticas%20ESG%2C%20como%20a%20preocupa%C3%A7%C3%A3o,tend%C3%AAncias%20para%20al%C3%A9m%20do%20futebol >. Acesso em: 16/07/2022.

Goussinsky, Eugênio. “Oriente Médio e exportadores planejam futuro sem petróleo”. Disponível em: < https://noticias.r7.com/internacional/oriente-medio-e-exportadores-planejam-futuro-sem-petroleo-29062022#/foto/1 >. Acesso em: 15/07/2022.


Mills, Andrew. “Analysis: Qatar scores as World Cup host but may not net long-term goals”. Disponível em: < https://www.reuters.com/lifestyle/sports/qatar-scores-world-cup-host-may-not-net-long-term-goals-2022-05-05/ >. Acesso em: 11/07/2022.

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Owen, Jonathan. “Qatar’s World Cup 2022 an ‘act of economic madness’ that will leave the state worse off, experts claim”. Disponível em: < https://inews.co.uk/news/world/qatar-world-cup-act-of-economic-madness-experts-claim-1308689 >. Acesso em: 11/07/2022.

Reiff, Nathan. “How FIFA Makes Money”. Disponível em: < https://www.investopedia.com/articles/investing/070915/how-does-fifa-make-money.asp >. Acesso em: 15/07/2022.