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Desenrola Brasil: a desesperada tentativa de combater a inadimplência



O endividamento no Brasil é um problema crônico e persistente que assola mais da metade das famílias brasileiras. Nesse cenário, o Governo Federal viu a necessidade de uma medida para combater esse índice elevado, abrindo espaço para a criação da iniciativa "Desenrola Brasil", um novo meio para renegociação de dívidas de pessoas físicas e retomada do consumo da população afetada. Nesse sentido, fica o questionamento se o programa será capaz de trazer soluções eficazes e permanentes para o problema de inadimplência no país.



Endividamento no Brasil


Os mais diferentes tipos de faturas, como financiamentos e cartões de crédito, confundem os consumidores, que pecam em organização e acabam se endividando. Um reflexo disso é que, de acordo com uma pesquisa realizada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC)¹ realizada em junho de 2023, 78,5% das famílias brasileiras afirmaram que tinham contas atrasadas e outras a vencer, número que vem aumentando nos últimos anos.



Além disso, um outro fator preocupante é a atual taxa Selic² de 13,25% ao ano, deixando o Brasil com a maior taxa de juro real - diferença entre a taxa de juros e a inflação - do mundo (6,68%), enquanto, em países como EUA e Reino Unido, essa diferença é de aproximadamente 2%. Uma consequência dessa disparidade é que, ao atrasar faturas e outros boletos, são cobrados encargos extras, os quais são baseados na taxa básica. Dessa forma, à medida que a Selic se mantém em níveis elevados, será mais difícil para o devedor honrar seu débito, uma vez que o valor final aumenta exponencialmente.


Um detalhe adicional importante a ser ressaltado é que o país apresenta uma das maiores taxas de spread bancário³ do cenário mundial. Nesse sentido, no comparativo internacional, o Brasil é superado apenas por Zimbábue (37,4%) e Madagascar (34,5%), ficando na terceira posição com uma taxa de 25,7%. A lista dos 10 primeiros países ainda inclui nações como Laos, Tajiquistão, República Democrática do Congo e Gâmbia, as quais possuem um desempenho econômico e um índice de desenvolvimento econômico (IDH) muito abaixo do que é registrado no país sulamericano.


Isso acontece, visto que, segundo dados do Banco Mundial, apenas US$ 0,13 são recuperados de cada US$ 1 emprestado no Brasil, enquanto a média mundial está em US$ 0,34 para US$ 1. Essa baixa recuperação de crédito impacta diretamente a capacidade dos bancos de gerar receita, principal componente do spread. Assim sendo, os gastos dessas instituições crescem quando há dificuldades em reaver recursos emprestados, seja no crédito a empresas, no crédito pessoal ou no financiamento à compra de bens. Ao gastar mais com a Provisão de Devedores Duvidosos (PDD)⁴, as instituições financeiras repassam o custo em forma de juros mais elevados ao cliente final.



Para ilustrar essa situação, em um estudo realizado pelo Procon de São Paulo, em 2022, o juro médio cobrado pelos bancos no rotativo⁵ do cartão chegou a 409,3% ao ano, enquanto outros produtos como cheque especial e empréstimo pessoal atingiram taxas de 150,56% e 139,73% ao ano, respectivamente. Supondo, por exemplo, que uma pessoa atrase sua fatura do cartão de crédito no valor de R$1200,00 por 2 anos, ao final do primeiro ano sua dívida atinge o montante de aproximadamente R$ 6 mil e no segundo ano supera R$ 30 mil. Em suma, é possível observar que um simples descuido financeiro pode se tornar um grande tormento.


Esses números demonstram, além da elevada cobrança, uma carência de conhecimentos financeiros por parte da população, pois, caso contrário, não existiria demanda por produtos que prejudicariam suas vidas, salvo casos de extrema necessidade. Para exemplificar, esses serviços oferecidos deveriam ser requisitados com cautela devido à alta taxa de juros cobradas, assim, quando não há precaução, as parcelas podem reter uma fatia considerável da renda mensal familiar. Nesse sentido, esse desconhecimento financeiro pode ser observado por meio de uma pesquisa realizada durante a pandemia de Covid-19 pelo Instituto Locomotiva⁶, em parceria com a Xpeed⁷, a qual revelou que 9 em cada 10 entrevistados admitiram não ter conhecimentos suficientes de finanças pessoais. Ou seja, a maior parte dos brasileiros usufruem dos produtos bancários sem de fato conhecê-los a fundo.



Consequências do endividamento


Apesar de impactar cada um de uma forma única, os efeitos desse fenômeno não se restringem apenas aos indivíduos, podendo, inclusive, afetar todo o sistema econômico do Brasil. Algumas das principais consequências são:


  • Dificuldade de acesso ao crédito: empréstimos não pagos reduzem os ativos dos bancos e enfraquecem sua capacidade de concessão de crédito a outras partes da economia fazendo com que instituições financeiras enfrentem perdas substanciais. Isso pode resultar em uma diminuição da oferta de crédito, dificultando o acesso ao capital para empresas e consumidores;

  • Danos nas empresas: considerando que a inadimplência prejudica seu fluxo de caixa, isso pode resultar em cortes de empregos, investimentos e expansões, impactando negativamente o crescimento econômico. Além disso, companhias que fornecem produtos ou serviços a crédito podem ver seus lucros diminuírem devido a pagamentos não recebidos;

  • Desconfiança no país: o impacto pode se estender para os níveis macroeconômicos, afetando o Produto Interno Bruto (PIB), a taxa de desemprego e a estabilidade do sistema financeiro como um todo. Ademais, a queda na arrecadação de impostos e os gastos adicionais com programas de assistência social para lidar com os impactos sociais da inadimplência podem afetar as finanças do governo.


Desenrola Brasil


Diante do quadro de endividamento, o Desenrola Brasil, programa que começou no dia 17 de julho, tem a finalidade de reverter o atual cenário das famílias brasileiras, facilitando renegociações de débitos pendentes. Para isso, a medida permite que qualquer brasileiro com o CPF negativado, ou seja, que tenha alguma dívida em atraso, participe do programa. Desse modo, os adeptos serão divididos em três faixas: Faixa 1, Faixa 2 e Faixa Especial, já que, conforme afirma o Ministério da Fazenda⁸ - órgão responsável pela iniciativa - os dois grupos possuem características distintas e haverá regras para cada faixa, ambas com condições específicas para a renegociação. Os grupos possuem as seguintes características:


  • Faixa 1: pessoas que recebem até dois salários mínimos (R$ 2.640) ou que estejam inscritas no Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal (CadÚnico⁹), com dívidas de até R$ 5 mil. Para esse grupo, o Programa vai oferecer a oportunidade do Fundo Garantidor de Operações (FGO¹⁰) assegurar a renegociação de dívidas, bem como a quitação caso ocorra a inadimplência no novo contrato.

  • Faixa 2: devedores que não se enquadram na Faixa 1 e possuem renda máxima de R$ 20 mil. As instituições financeiras receberão incentivos do governo como créditos tributários, por exemplo, para ampliar sua oferta e negociar diretamente com o cliente. Essas dívidas começaram a ser negociadas em julho desse ano.

  • Grupo especial: inclui pessoas que possuem dívidas de até R$100. Esses brasileiros terão, se a instituição financeira aderir ao programa, seu nome removido dos birôs de crédito¹¹ como SPC Brasil e Serasa automaticamente. Entretanto, isso não significa que a dívida será perdoada, mas sim que o devedor poderá discutir uma nova proposta com seu banco e fazer um pagamento à vista com desconto ou pagar o valor integral de forma parcelada.


De acordo com a Federação Brasileira de Bancos (Febraban)¹², após um mês de programa - período de renegociações da Faixa 2 e de débitos até R$ 100 - os números impressionam, visto que foram retratados em torno de R$ 8,1 bilhões em 1,296 milhões de contratos, beneficiando cerca de 985 mil clientes da Faixa 2. Somado a isso, 5 milhões de brasileiros limparam seu nome por estarem no grupo especial, demonstrando um início promissor para o programa, além de um desejo da população em manter seu nome limpo.


Embora o projeto se proponha a reintroduzir os brasileiros no mercado de crédito, existem exceções não poderão ser renegociadas. Tais impossibilidades se dão em: pendências com o FIES (Programa de financiamento estudantil), dívidas relacionadas ao crédito rural, aquelas com garantia - modalidade de empréstimo em que é oferecido algo ao banco caso a dívida não seja paga -, além de não incluir dívidas não bancárias como contas de luz, água e impostos para os integrantes da Faixa 2. Dessa maneira, o programa se mostra limitado ao abandonar aqueles que se enquadram em alguma dessas exceções, mesmo que os juros incidentes sejam tão cruéis como os outros.


Ademais, vale ressaltar que o órgão federal pretende desenvolver um aplicativo de educação financeira gratuito que terá como objetivo prevenir o risco de que os consumidores recaiam em novos débitos após limparem o nome.Esse recurso disponibilizará o acesso a diversos conteúdos como: materiais sobre educação financeira, incluindo vídeos, artigos e infográficos, simuladores e planilhas para finanças pessoais, além de ferramentas de planejamento. No entanto, o uso desse aplicativo não será restrito nem obrigatório para os brasileiros que aderirem ao Desenrola Brasil, ou seja, ele será opcional para todos aqueles que desejam aprender sobre educação financeira.



Riscos


A possibilidade de limpar o nome e ainda manter a dívida pode gerar um efeito oposto ao esperado, já que mascarar dados da população sem abater o débito pode aumentar o risco de crédito brasileiro. Tal efeito acontece, pois a instituição financeira não terá completa ciência sobre possíveis dívidas pendentes ao abrir novas linhas de crédito. Dessa forma, é possível prever que haverá um receio maior dessas instituições com futuras inadimplências, o que pode acarretar o aumento do spread bancário, bem como uma restrição desse produto.


Paralelamente, a equipe ministerial não apresentou nenhum estudo acerca da possibilidade ou quantidade de contratos do Desenrola que não seriam cumpridos, apenas que o FGO cobriria. Esse detalhe pode se tornar agravante, uma vez que, se o número de calotes no contrato renegociado for elevado, o governo terá que tirar dinheiro além do estabelecido do tesouro nacional, o qual seria aplicado em outras áreas como saúde, educação e infraestrutura. Caso optem por limitar a quantidade de recursos, algumas pessoas perdem a garantia do fundo, ou seja, elas perdem seu poder de barganha perante as instituições.



Conclusão


Ainda que o Desenrola Brasil obtenha êxito em contribuir com a redução do índice de inadimplência, a iniciativa não se mostra sustentável no longo prazo. Isso acontece porque a medida não possui uma forma de garantir que essas pessoas vão consumir os cursos do aplicativo e, por consequência, aprendam a gerir seu dinheiro e não voltem a ter seus “nomes sujos”, tampouco apresentou um exaustivo estudo de viabilidade por trás da ideia. Além disso, o programa também demonstra certo populismo ao exigir que os bancos participantes apaguem dos registros dívidas de até R$100 para fazer um malabarismo estatístico, criando uma ilusão de que o número de endividados no Brasil caiu de forma abrupta devido à eficiência estatal quando, na verdade, os números de endividados seguem elevados.


Mesmo que bem intencionado, o programa se mostra falho em garantir tanto um efeito perpétuo como uma melhora do mercado de crédito brasileiro, seja através da falta de conhecimentos financeiros básicos pela maior parte da população, seja através de manobras na lei que, por certo, serão utilizadas como forma de auto propaganda. Em suma, os brasileiros ganham uma oportunidade de abater suas dívidas e retomar seu espaço no mercado de crédito, mas resta a seguinte questão: por quanto tempo o índice de inadimplência seguirá em queda?



Glossário:


1 - Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC): é a entidade sindical de um dos principais setores da economia do país, e tem como objetivo principal representar e defender as atividades econômicas do comércio brasileiro.


2 - Taxa Selic: é a taxa básica de juros da economia. Ela influencia todas as taxas de juros do país, como as taxas dos empréstimos, dos financiamentos e das aplicações financeiras.


3 - Spread bancário: diferença entre os juros que o banco paga para captar recursos e os juros cobrados para emprestar dinheiro.


4 - Provisão de Devedores Duvidosos (PDD): reserva de capital que empresas fazem para lidar em casos de inadimplência


5 - Juro do rotativo: juro que incide na fatura do cartão de crédito atrasada.


6 - Instituto Locomotiva: empresa de pesquisa e consultoria que trabalha com dados e pesquisas para transformar informação em conhecimento e estratégia.


7 - Xpeed: braço de educação financeira da XP Investimentos


8 - Ministério da Fazenda: órgão da estrutura administrativa do Governo Federal responsável pela formulação e execução da política econômica.


9 - CadÚnico: sistema criado pelo Governo Federal para reunir dados da população de baixa renda do país.


10 - Fundo Garantidor de Operações (FGO): fundo que tem por finalidade complementar as garantias necessárias à contratação de operações de crédito, concedidas pelas instituições financeiras cotistas, para médias empresas e microempreendedores individuais.


11 - Birô de crédito: empresas que mantêm bancos de dados com informações financeiras de pessoas físicas e jurídicas. Elas oferecem serviços como análise de crédito, análise de fraude e compliance para outras empresas. As mais conhecidas no Brasil são: SPC Brasil e Serasa.


12 - Federação Brasileira de Bancos (Febraban): entidade representativa dos bancos brasileiros.



Referências Bibliográficas:



Bolzani, Isabela. “Desenrola Brasil: bancos já renegociaram mais de R$ 8 bilhões em dívidas, diz Febraban”. G1, 16 de Agosto de 2023. Disponível em: https://g1.globo.com/economia/noticia/2023/08/16/desenrola-brasil-bancos-renegociacao-febraban.ghtml. Acesso em: 19 de Ago de 2023


“Brasil bate recorde de endividados: 'Com nome sujo, a gente não é nada’ ”. G1, 16 de Fevereiro de 2023. Disponível em: https://g1.globo.com/economia/noticia/2023/02/16/brasil-bate-recorde-de-endividados-com-nome-sujo-a-gente-nao-e-nada.ghtml. Acesso em: 19 de Ago de 2023


“Desenrola Brasil: como negociar dívida pelo programa do Governo Federal”. Serasa Blog. Disponível em: https://www.serasa.com.br/limpa-nome-online/desenrola-brasil/. Acesso em: 19 de Agosto de 2023.


“Desenrola Brasil: Nubank adere ao programa de auxílio a pessoas com dívidas”. Blog Nubank, 09 de Agosto de 2023. Disponível em: https://blog.nubank.com.br/nubank-desenrola/. Acesso em: 20 de Ago de 2023


“Desenrola Brasil: o que é, como funciona e quem pode participar”. Banco Pan Blog, 25 de Julho de 2023. Disponível em https://www.bancopan.com.br/blog/publicacoes/desenrola-brasil-o-que-e-como-funciona-e-quem-pode-participar.htm. Acesso em: 19 de Ago de 2023


Miranda, Izabella. “90% dos brasileiros admitem ter necessidade de educação financeira, aponta estudo”. Contábeis, 05 de Agosto de 2023. Disponível em: https://www.contabeis.com.br/noticias/48162/90-dos-brasileiros-admitem-ter-necessidade-de-educacao-financeira-aponta-estudo/. Acesso em: 20 de Ago de 2023


Quintela, Samuel. “Spread bancário: Só Zimbábue e Madagascar têm diferença entre juros pagos e cobrados maior que o Brasil”. Diário do Nordeste, 06 de Junho de 2022. Disponível em: https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/opiniao/colunistas/samuel-quintela/spread-bancario-so-zimbabue-e-madagascar-tem-diferenca-entre-juros-pagos-e-cobrados-maior-que-o-brasil-1.3238867. Acesso em: 20 de Ago de 2023


Silvano, Simone. “Os impactos da inadimplência no Brasil: uma análise das consequências”. Deps.com, 01 de maio de 2023. Disponível em: https://deps.com.br/impacto-da-inadimplencia-no-brasil-as-consequencias/. Acesso em: 21 de Ago


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