Do sal ao Bitcoin: a evolução da moeda


Imagine uma situação em que você tem uma família para sustentar e precisa escolher a melhor maneira de proceder, de acordo com as suas necessidades, o que você faria: você produziria por conta própria tudo que vai precisar, durante toda sua vida, ou se especializaria em uma única tarefa e trocaria parte do que produz com outras pessoas, que se especializaram em tarefas diferentes, para suprir todas as suas necessidades?



A primeira opção tem a vantagem da diversidade de tarefas a serem realizadas, já que você nunca ficaria preso a uma única rotina, e não precisaria depender de terceiros para garantir sua sobrevivência. Contudo, surgem diversas limitações de desenvolvimento, uma vez que é difícil que ocorra uma melhora efetiva do processo de produção, pois não há tempo o suficiente para focar em apenas uma função e aprimorar a forma como ela é executada. Já a segunda, possibilita melhorias expressivas em cada uma das áreas, já que indivíduos especializados conhecem mais de suas tarefas e, assim, são mais capazes de otimizar os processos; porém, você fica preso à mesma função durante a vida inteira.


O ser humano optou pela segunda, e, se não tivesse, provavelmente você não estaria lendo esse artigo agora, porque, em um modelo de sociedade sem profissionais especializados, o tempo seria um recurso escasso. E isso porque, o principal fator que possibilitou o desenvolvimento foi a troca de produtos, cada vez mais aperfeiçoados, criando o conceito por trás da moeda.


A moeda nada mais é do que a evolução do escambo. Inicialmente, cada produtor trocava seu excedente pelo produto que lhe faltava, e assim as pessoas conseguiam sobreviver. Contudo, ao longo do tempo, foram surgindo produtos que assumiam uma escala maior de prioridade, e acabaram tornando-se “moedas de troca”. No Brasil, isso se aplicou ao gado, por ser muito versátil e oferecer diversos benefícios, como alimentação e transporte; em seguida, o sal assumiu o papel de moeda-mercadoria, visto que era essencial para a conservação de alimentos. Seguindo essa tendência, diversas outras mercadorias incorporaram o valor intangível do que hoje conhecemos como o dinheiro, e possibilitaram as transações econômicas pelo mundo.


Apesar dessa dinâmica ter sido suficiente para a sobrevivência, ela se torna inconveniente, a partir do momento em que todos ficam presos a uma rotina, produzindo uma mesma quantidade, para que possam realizar as trocas necessárias ao sustento de suas famílias. Isso acontecia, pois, como não era possível prever a quantidade exata de mercadorias que seria necessária, os produtores tinham que lidar com muitas perdas, visto que as mercadorias não são fracionáveis e muitas delas são perecíveis. Dessa forma, esse sistema impossibilitava o acúmulo de riquezas, o que fez com que seus dias estivessem contados.


Como essa forma de transação econômica não era suficiente para as ambições dos produtores, quando eles encontrassem um material que se assemelhasse às características demonstradas acima, mas sem os problemas identificados, ele assumiria o papel da moeda. Mas, para isso, era preciso identificar o motivo pelo qual cada uma dessas mercadorias obteve um valor agregado tão elevado. A primeira razão é a mais imediata, a condição inicial para que se tenha qualquer valor intrínseco ao objeto: o recurso tem que ser finito. Caso contrário, não faz sentido as pessoas lutarem por algo que estará sempre disponível. A segunda razão é que tem que ser do interesse das pessoas, ou seja, tem que entregar algum valor para seu receptor. No caso do gado, a multiplicidade de benefícios citados para os pecuaristas; e do sal, os alimentos bem conservados.


A partir dessas análises, surgiu uma nova mercadoria que estava de acordo com todos os critérios: o metal. Pela sua raridade, já possuía um valor agregado enorme. Além disso, sua beleza, capacidade de divisibilidade, e facilidade de transporte e precificação foram fatores que despertaram o interesse da população, e fizeram do metal - em especial o ouro por sua escassez notória e aparência valorizada - o material perfeito para assumir o papel de moeda de troca.


Com a nova possibilidade de acúmulo de riquezas, as transações foram admitindo valores cada vez mais altos, o que implicava em uma grande quantidade de moedas para realizá-las. E, com isso, surgia outro problema: como garantir a autenticidade daquele ouro? Será que ele pesava realmente o que estava escrito nele? Afinal, pesar e verificar o teor de metal fino de toda moeda recebida era uma operação demorada. Para solucioná-lo, surgiram os bancos, que funcionavam como “armazéns” de moedas, e entregavam um certificado em papel correspondente ao valor da quantia entregue. Assim, o problema da falsificação e da falta de praticidade da moeda foi resolvido.


Analisando friamente, parecia o casamento ideal. Todavia, a partir do momento que os bancos assumiram controle das moedas, abriram-se portas para uma manipulação do dinheiro. Quando o governo se encontrava na necessidade de obter mais renda, a solução era diminuir a quantidade de metal precioso (ouro, prata e cobre) em cada moeda, mas mantendo o valor da mesma. Dessa forma, eram capazes de liberar mais dinheiro na economia, sem necessariamente obter a quantidade equivalente de minérios. Inicialmente, era possível obter esse valor real em metais, ou seja, essa moeda ainda poderia ser lastreada em ouro, no caso do Brasil. Entretanto, com o passar do tempo, essa realidade foi mudando, chegando ao momento em que não há mais um lastro real que equivale ao valor das moedas. Essa estratégia cresceu em uma escala exponencial, até o ponto em que as moedas de hoje não possuem nenhuma quantidade de metal precioso nelas mesmas.


Observando esse cenário, é possível perceber que foi uma medida um tanto quanto contraditória e arriscada, pois uma das condições para que o metal assumisse o papel de dinheiro era justamente ser do interesse das pessoas. A partir do momento em que o governo retira o metal precioso da moeda, esse interesse poderia ser perdido. Contudo, contaram com a fé da população em que o que estava em suas mãos e bolsos obtinha o valor que era indicado. E foi exatamente essa crença que possibilitou a criação não só do papel moeda, que domina o mercado até hoje, assim como das moedas virtuais, que são insurgentes recentemente.


As moedas virtuais, entretanto, não são iguais às que estamos acostumados na atualidade. Essas moedas, que ficaram mais conhecidas nesse último ano, no qual passaram por valorizações nunca vistas antes, trouxeram de volta a ideia de uma moeda-mercadoria, pois ainda não possuem todos os requisitos econômicos para admitirem o papel da moeda, que são:

  • Meio de troca: objeto que é aceito como pagamento por outros bens e serviços. Ou seja, você consegue comprar uma pizza com dinheiro, mas dificilmente conseguiria comprá-la com roupas, mesmo que ambos tivessem o mesmo preço.

  • Reserva de valor: é a capacidade que certos bens possuem de preservar poder de compra com o passar do tempo. Ou seja, ao receber a moeda em troca de um produto ou serviço, essa pessoa poderá reutilizar essa moeda para adquirir outro produto ou serviço a sua escolha.

  • Unidade de conta: é o bem utilizado como base para medir o preço dos demais bens. Ou seja, sabemos que um chiclete custa 5 reias, uma roupa de marca custa 300 reais e um smartphone custa 2000 reais por meio da quantidade de moedas - no caso do Brasil, reais - e não pela quantidade de barras de chocolate, por exemplo.

A mais conhecida delas, atualmente, é o Bitcoin, que é basicamente um protocolo de comunicação, o qual não é impresso por governos ou bancos tradicionais, mas criado por um processo computacional complexo conhecido como "mining" (mineração). Todas as suas transações são registradas na rede – em um espaço conhecido como "blockchain", uma espécie de banco de dados descentralizado que usa criptografia para registrar as transações. Além disso, ele já possui as duas condições citadas anteriormente para ser considerado dinheiro, visto que possui um limite de 21 milhões de Bitcoins, e entrega um valor ao consumidor, já que é altamente valorizada no mercado atual. Porém, o Bitcoin, hoje, não é vastamente utilizado para fazer compras, e sim uma forma de realizar investimentos. Ou seja, assume muito mais um papel de ativo do que de moeda.


Percebemos, então, que o dinheiro também se adequa às necessidades do tempo, evoluindo junto com o ser humano, desde a época dos campos feudais, até a mineração e, atualmente, a era da internet. Ele nada mais é do que a principal ferramenta para garantir sobrevivência dos homens a partir do modelo de sociedade escolhido de especialização e escambo: a moeda de troca.

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