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Drex: a nova moeda ‘drek’?


Em agosto de 2023, o Banco Central anunciou oficialmente o Drex - Digital Real Eletrônico - que nada mais é do que a versão virtual do Real Brasileiro, criado com o objetivo de digitalizar a economia e tornar as atividades comerciais  mais práticas. No entanto, tal nome concebido para essa moeda virou chacota dentro da comunidade judaica por ter pronúncia semelhante à palavra ‘dreks’, que seria similar ao plural de ‘lixo’ no idioma de derivação hebraica. Logo, cabe fazer a seguinte indagação: a criação do Drex será uma medida bem implementada no cenário brasileiro ou ficará marcada como uma moeda ‘drek’?


Do Réis ao Drex 


Na história do sistema monetário brasileiro, a primeira moeda implementada foi o Réis, que ficou mais de 400 anos em circulação. Depois disso, a primeira grande mudança ocorreu apenas em 1942, com a substituição pelo Cruzeiro e, ao longo do século XX, mudou-se seis vezes até chegar no Real, efetivado a partir de 1994. Uma das principais razões para tantas alterações foi a busca pelo aumento da praticidade nas interações comerciais, motivo que também explica a tendência mundial na transformação dos meios de pagamento, saindo do papel-moeda rumo a outras tecnologias, com o dinheiro físico caindo em desuso em diversos estabelecimentos. A exemplo disso, dados do Banco Central indicam que o número de brasileiros que preferem usar dinheiro em cédulas caiu pela metade entre 2018 e 2023.



Aproveitando esse cenário de boa adaptação tecnológica por parte da população, o Drex estará disponível para todos que tiverem interesse, mas sua utilização ocorrerá dentro de uma conta em alguma das instituições financeiras ou de carteiras digitais liberadas pelo Banco Central, a exemplo do Google e Apple Pay. Por meio do Drex, os usuários poderão realizar pagamentos e transferências após a conversão do Real para sua plataforma. 


Nesse sentido, a moeda digital se configura como mais um caso de CBDC¹, o qual vem sendo desenvolvido, de forma similar, por pelo menos 90 países. Em 2020, Bahamas foi o primeiro país a implementar sua moeda digital na economia, chamada Sand Dollar. Por ser um país formado por centenas de arquipélagos isolados, a distribuição irregular da população ao longo do território dificulta o controle sobre o fornecimento de cédulas. Logo, o Sand Dollar foi uma estratégia para otimizar políticas econômicas, devido a uma melhor visualização das demandas populacionais por conta do registro de cada transação feita dentro da plataforma utilizada. Entretanto, a participação desse CBDC na economia das Bahamas ainda está muito marginal, representando menos de 1% do dinheiro total em circulação, fator justificado pela baixa confiança da população no governo e pela falta de visibilidade dos benefícios existentes, sendo razões que devem ser tratadas com prioridade pelo BC.


Escolha dos meios de pagamento


Em 2020, o BC lançou o PIX, que aparenta cumprir o mesmo papel que o Drex, no entanto, os dois devem ser vistos como produtos complementares.". Isso se deve ao fato do Drex ser mais aconselhável a ser utilizado em transações que envolvam maior capital investido, como investimentos e compras de grandes ativos, enquanto o PIX seria principalmente uma ferramenta de pagamento instantâneo, ideal para atividades rotineiras como compras de mercado.


Tal diferença é explicada pelo Drex ser operado por meio de uma plataforma blockchain², que utiliza o sistema de “contratos inteligentes”. Para exemplificar melhor, uma situação hipotética do seu funcionamento seria a seguinte: Pedro quer comprar um carro seminovo anunciado em um website por Tiago. Para não ter o risco de um dos lados ser enganado, o contrato inteligente recebe as condições de negociação, as quais serão automatizadas e retirarão a necessidade das próprias pessoas terem o trabalho de redigir as regras. Em seguida, assim que o compromisso de cada parte for verificado dentro do registro digital que armazena tanto o Drex quanto todos os ativos em negociação, ambos os bens serão repassados automaticamente. Esse processo garante que tudo seja feito com máxima segurança por ter caráter imutável em suas cláusulas e sempre ter um passo de autenticação dos usuários antes da confirmação final. Para efeito de  comparação, no PIX, o usuário transfere um valor que é repassado diretamente ao destinatário sem possibilidade de estipulação de condições prévias a serem atendidas.



Dessa forma, essa estratégia retira a dúvida de quem vai fazer o primeiro movimento, pois o contrato só é finalizado após ambos agentes se comprometerem. Logo, é importante ressaltar que esse processo excluiria a presença de intermediários como cartório e tornaria essas transações muito mais rápidas e baratas ao poder excluir custos relacionados à presença de profissionais especializados.


As criptomoedas, por sua vez, também utilizam uma infraestrutura similar a essa nova moeda virtual, no entanto, sofrem com a alta volatilidade por conta da especulação financeira de seus preços, dentro de uma organização descentralizada onde não há regulação sobre compra e venda. Por outro lado, o Drex acompanhará a taxa de câmbio do real físico, regulado pelo Banco Central. Sobre essa presença de uma entidade central, um dos objetivos do governo seria viabilizar uma melhor fiscalização das transações que estão ocorrendo no país, visto que tudo estaria registrado em uma rede permissionada de acesso restrito ao BC e às instituições credenciadas, o que mudaria o cenário atual onde somente os bancos possuem acesso a essas informações advindas de seus clientes. Ainda nesse ponto, é importante frisar que o projeto está sendo desenhado para manter o padrão atual do sistema financeiro, mantendo a participação das entidades financeiras como intermediárias entre o BC e o consumidor final, o que impede um possível abuso de poder sobre a privacidade da população. Sem contar que o preceito regulatório da Constituição estipula que apenas a Justiça pode bloquear contas e bens. Esse último fato refutaria conspirações de que se poderia explorar o caráter programável das transações para gerar restrições, como limitar a compra de álcool à noite.


A adaptação do Drex ao cenário nacional


Embora, no atual momento, o Drex ainda esteja em fase de treinamento por centenas de funcionários, a previsão de lançamento indica que o público poderá usar essa nova tecnologia já no final de 2024, o que pode ser visto com uma mistura de entusiasmo e um pouco de apreensão.


A começar pelas possíveis preocupações, a confiança é uma palavra chave para saber se uma nova ideia será bem sucedida. Sob esse viés, a rede blockchain a ser utilizada permite que o BC a administre de forma a ter fácil acesso a todas as informações pessoais e financeiras disponibilizadas pelos usuários durante as transações realizadas. Nesse sentido, essa transparência dos dados pode ser vista de forma negativa por parte da população diante de um momento onde a polarização política está cada vez mais intensa, o que pode gerar um boicote ao sistema - simplesmente não aderir o Drex - principalmente pelo lado da população não simpatizante com a ideologia da atual governança.


Apesar disso, a base política brasileira já está enraizada como democracia e a rotatividade governamental em um prazo de 4 em 4 anos diminui as chances de ocorrer alguma polêmica envolvendo abuso de privacidade, pois tal medida seria extremamente impopular e usada como um forte argumento pela oposição para contestar o domínio político. Não obstante, com um maior controle de dados, o BC consegue ter melhor noção da circulação de dinheiro, o que seria favorável na otimização de políticas econômicas, como projeções mais precisas de metas de inflação e taxa Selic.


Ademais, outro possível empecilho seria a sobrecarga do sistema caso a adesão tome proporções muito maiores. Enquanto o PIX tem a capacidade de processar 2 a 3 mil transações por segundo, a rede do Drex, Hyperledger Besu, teria processamento máximo de 700 transações no mesmo intervalo. Nesse viés, caso siga um ritmo similar ao PIX, que envolve em média 1.200 transações por segundo, o sistema não iria suportar a vazão que um país de proporções continentais como o Brasil pode alcançar. Essa limitação se deve à implementação desse tipo de sistema ainda ser extremamente custosa. Todavia, vale ressaltar que, ao menos no início, o foco do Drex em ser usado para operações de atacado diminui as chances de ser necessário um poder computacional tão forte quanto o utilizado pelo PIX, uma vez que transações de valores menores ocorrem com uma frequência muito maior.


Mesmo com essas incertezas, existem muitos motivos para acreditar que o Drex será bem recebido pelo público. As principais razões disso são:


1. Aumento da praticidade e segurança nas transações: A ideia de contrato inteligente está no cerne da plataforma por mitigar riscos de contraprestação sem a necessidade de intermediários e de burocracias que aumentam o tempo de negociação. Já a segurança é garantida não apenas no fato de se utilizar blockchain, o qual é considerado à prova de hackers, mas também por ser um dinheiro onde o compromisso deixa de ser com um banco convencional e passa a ser com o próprio BC. Assim, em uma crise econômica, o usuário terá o conforto de saber que o seu dinheiro continuará existindo mesmo com a possível falência de entidades financeiras.


2. Melhora na gestão governamental: Com a rastreabilidade dos dados dos usuários, o governo pode elaborar estratégias para otimizar a alocação e o recebimento de verbas, diminuindo a burocracia excessiva e riscos de fraude. Por exemplo: o dinheiro proveniente da distribuição de auxílio-gás para o grupo alvo pode ser apenas gasto via Drex para destinatários com certificação comprovada como vendedor de gás. Outra possibilidade seria substituir a obrigatoriedade da declaração de Imposto de Renda para um desconto automático nas contas cadastradas via Drex, o que economizaria tempo e também reduziria a frequência da sonegação de impostos. Embora tais ações sejam possíveis, para serem concretizadas, seria necessário que os indivíduos aderissem por vontade própria à plataforma. Nessa lógica, é importante que o governo tenha estratégias bem estruturadas para influenciar o povo a sua utilização, como priorizar pagar benefícios sociais àqueles que já tiverem cadastro na plataforma do Drex.

 

3. Modelo de implementação prático: Levando em consideração que o povo brasileiro se adaptou de forma excelente ao PIX, existe uma boa esperança de que o Drex também seja bem sucedido. Tal relação pode ser feita na medida em que sua utilização será de simples acesso, com uma interface prática e didática dentro do aplicativo do banco, além de se opcional para que possa ter um caminho gradual de maior aceitação conforme ocorrer otimizações do sistema para atender às demandas do público.



4. Redução de custos: No atual sistema comercial, após um cliente pagar por um produto ou serviço, a transação pode ser transmitida para diferentes entidades, como as redes ‘Visa’ e ‘Mastercard’ e os bancos emissores dos cartões, passando por diferentes checagens e taxas de serviço advindas das operadoras dos cartões de crédito e débito. Sob essa ótica, CBDC’s podem atualizar esse sistema ao permitir que a transação tenha um fluxo direto entre as duas contas, assim como segue a lógica do dinheiro físico, o que simplificaria e baratearia o processo, reduzindo o tempo e o custo das negociações.


Perspectiva de sucesso, porém incerta


Ao observar as vantagens e desvantagens do Drex, fica mais claro que as probabilidades de sucesso aparentam ser favoráveis. De qualquer forma, analisando alguns dos receios apresentados, pode-se perceber que os riscos ainda possuem nível de gravidade difícil de ser previsto.


Para que o Drex tenha alto grau de aceitação, é necessário que medidas não só sobre a construção de um software eficiente sejam tomadas, mas também relacionadas ao formato de divulgação para a população. A criação de uma interface com excelente interatividade, como o PIX, torna-se, assim, fundamental para incentivar as pessoas a testar essa ferramenta e espalhar bons relatos para terceiros, o que geraria um ‘efeito cascata’ de aumento da visibilidade e do uso do Drex. Consequentemente, para garantir que a experiência seja agradável ao gosto dos brasileiros, campanhas de conscientização acerca do propósito e do funcionamento do Drex também seriam de extrema relevância para difundir o conhecimento necessário sobre a dinâmica da tecnologia e evitar que conspirações tenham forças para atrapalhar a adesão ao projeto.


Dito tudo isso, não há como garantir que tal ideia seja bem sucedida em uma sociedade em constante transformação, mas o que se pode fazer é buscar maximizar as probabilidades de êxito e, caso essa seja a postura perseguida pelo BC, a assombração da semelhança - ao que se indica apenas fonética - entre Drex e ‘dreks’ será afastada.


Glossário


1 - CBDC: forma digitalizada da moeda fiduciária nacional, emitida e regulamentada por uma instituição financeira soberana, como o Banco Central.


2 - Blockchain: pode ser comparado a um livro de registros, compartilhado e imutável, que facilita o processo de gravação de transações e rastreamento de ativos em uma rede de negócios, o que promove transparência entre as operações financeiras gravadas dentro dele.


Referências Bibliográficas


O que é a autonomia do Banco Central, criticada por Lula. Disponível em: <https://www.estadao.com.br/economia/autonomia-banco-central-o-que-e-entenda-npre/>. Acesso em: 23 mar. 2024.


GUILHERMENALDIS. O que o Drex pode mudar (ou não) na sua vida. Disponível em: <https://borainvestir.b3.com.br/objetivos-financeiros/investir-melhor/o-que-o-drex-pode-mudar-ou-nao-na-sua-vida/>. Acesso em: 23 mar. 2024.


Drex: o que é, como funciona, o que significa, diferenças do PIX e mais. Disponível em: <https://www.techtudo.com.br/guia/2024/01/drex-o-que-e-como-funciona-o-que-significa-diferencas-do-pix-e-mais-edsoftwares.ghtml>. Acesso em: 23 mar. 2024.


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O que é a tecnologia blockchain? - IBM Blockchain | IBM. Disponível em: <https://www.ibm.com/br-pt/topics/blockchain>.


SCHENK, A. C. D. Pix completa três anos com grande adesão dos brasileiros. Disponível em: <https://diariodocomercio.com.br/economia/pix-tres-anos-sistema-pagamentos-banco-central/#gref>. Acesso em: 23 mar. 2024. https://br.cointelegraph.com/explained/what-is-cbdc


TUDO O QUE VOCÊ NÃO SABE Sobre o DREX: A Nova Moeda do Brasil | COMO FUNCIONA O DREX? Disponível em: <https://youtu.be/M_6I3MzOaFI?feature=shared>.Acesso em: 23 mar. 2024.


DREX: O que podemos esperar da NOVA MOEDA BRASILEIRA? Disponível em: <https://youtu.be/SDlicBO8iKk?feature=shared>.Acesso em: 23 mar. 2024.


Banco Central esclarece “fatos, fakes e teorias da conspiração” sobre o Drex. Disponível em: <https://valor.globo.com/financas/criptomoedas/noticia/2023/08/22/banco-central-esclarece-fatos-fakes-e-teorias-da-conspiracao-dobre-o-drex.ghtml>

. Acesso em: 28 mar. 2024.


‌DREX, a MOEDA DIGITAL do BANCO CENTRAL vai MUDAR a sua vida? Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=1X2KMYNjYYM>.

 Acesso em: 28 mar. 2024.


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