Juros Negativos: Pagando para Emprestar

Atualizado: há 5 dias

Já pensou se alguém pegasse seu dinheiro emprestado e devolvesse uma quantia menor? Como por exemplo, se contraísse R$1000 e tivesse que devolver apenas R$990? É uma situação que, provavelmente, soa incomum para muitos. Entretanto, ela já é realidade em diversos países que passaram a adotar taxas básicas de juros negativas, como Japão, Suécia, Dinamarca e Suíça. O fenômeno, que essencialmente leva o credor a pagar uma quantia ao devedor ao invés de receber juros, muda a dinâmica de como funcionam os sistemas financeiros desses locais. No entanto, por que esses países, ou, até mais recentemente, empresas, aplicariam essa medida que, a princípio, parece não ser atrativa?


Entendendo Juros

Em cenários comuns, quando se empresta uma certa quantia de capital a um indivíduo, ele deve retribuir o valor emprestado acrescido de uma taxa. Esse "prêmio", ou juros, pago ao credor é uma maneira de compensá-lo por ter aberto mão da capacidade de utilizar aquele capital por determinado período. Independente da maneira como se vê esse prêmio, quando, por exemplo, uma pessoa pega R$1000 em um banco, o normal é que ela devolva esse valor depois de certo tempo acrescido de uma quantia. Todavia, como já foi dito, não é isso que ocorre com juros negativos.


Há duas formas dos juros serem negativos: juros nominais negativos e juros reais negativos. O primeiro ocorre quando a taxa básica de juros estipulada pelo Banco Central do país, e portanto, a base para todas as outras taxas de juros, é negativa. Na Suíça, por exemplo, a taxa que o Banco Nacional Suíço (SNB) determinou, em janeiro de 2015, foi de -0,75%. No segundo caso, o valor dos juros é positivo, porém a inflação - taxa que representa o aumento do custo de bens e serviços ao longo do tempo, ou seja, representa a desvalorização do dinheiro - é maior que esse valor. Portanto, o valor real dos juros estará em um patamar inferior a zero. Um bom exemplo disso são os Estados Unidos, que possuem uma taxa básica que varia de 0% a 0,25% ao ano, e uma inflação de 0,3%. O montante que estiver sendo investido com essa taxa básica, como por exemplo, em títulos de dívida pública, acabará perdendo mais valor do que rendendo. Ou seja, embora os juros nominais sejam positivos, o real é negativo.


Com esses juros, a ideia essencial é injetar mais capital nas empresas. O principal meio para isso é o consumo, evitando que o dinheiro fique parado, sendo uma forma de tentar estimular o mercado e possivelmente reverter um cenário de recessão ou estagnação econômica. Por outro lado, que também injeta capital nas empresas é que, com as taxas nesses níveis, grande parte das pessoas deixa de comprar títulos públicos e optam por investir em outros ativos que podem trazer um retorno maior, já que aqueles deixam de ser uma opção vantajosa, sendo esses outros investimentos ações, debêntures, entre outros. Além disso, essa medida impacta os próprios bancos. É comum que essas instituições mantenham capital no Banco Central (BC), seja voluntariamente ou não. Com esse dinheiro investido no BC rendendo a valores negativos, a melhor opção acaba sendo facilitar o crédito, que impulsiona tanto empréstimos a pessoas físicas quanto o financiamento de empresas menos seguras, possibilitando seu crescimento dentro do mercado. Essas medidas foram implementadas em diversos lugares do mundo, e um deles foi a Zona do Euro.


Caso Europeu

Enquanto a Taxa Selic (taxa básica de juros brasileira) chega a sua mínima histórica de 3%, alguns investidores ao redor do mundo convivem com taxas de juros abaixo de zero há alguns anos. O Japão, por exemplo, já adotava essas taxas desde o início dos anos 2000, e na Europa, países como Alemanha, Suíça, Portugal e França também implementaram essas medidas em 2014.

A diminuição das taxas de juros a patamares abaixo de zero era vista como uma medida para mitigar os efeitos da crise de 2008, tendo o intuito de acabar com a deflação (queda dos preços), que poderia impactar ainda mais a recessão econômica. Isso porque quando a expectativa dos preços é de queda, as pessoas vão consumir menos, porque existe uma perspectiva de maiores quedas futuras dos preços. O propósito dessas medidas era aumentar o consumo, facilitando os empréstimos, o que porventura geraria um aumento na demanda, que teria como consequência o aumento dos preços.

No entanto, em grande parte da Europa, o resultado não tem sido tão relevante. Era esperado que essas medidas, adotadas pelo BCE (Banco Central Europeu) em 2014, levassem ao aumento de empréstimos, e consequentemente, do consumo. Entretanto, segundo o Wall Street Journal, os empréstimos feitos por bancos europeus cresceram somente por volta de 0,4% de 2015 para 2016, era esperado que os juros negativos provocassem uma injeção de capital muito maior no mercado. Esse desestímulo tem relação com a redução da margem que as instituições financeiras obtêm com os empréstimos, desincentivando-as a emprestarem o dinheiro, justamente porque, ao se adotar taxas negativas, não surgem necessariamente credores ou investimentos interessantes. Além disso, eventuais quedas adicionais apenas criarão mais tensões no mercado de créditos, já que na prática essas taxas podem chegar ao ponto de reduzirem as margens de lucro, tornando os bancos menos dispostos a emprestar.

Após cinco anos, o que deveria ter sido uma medida temporária feita pelo BCE (Banco Central Europeu) ainda não chegou a um dos seus principais objetivos: eliminar completamente o risco de deflação. Em abril de 2020, a União Europeia apresentou uma subida dos preços de apenas 0,6%, mesmo patamar do final de 2016. No entanto, essa ação conseguiu incentivar o consumo, que acabou subindo por volta de 8% desde 2016. O grande perigo é que as taxas negativas se associem de forma permanente na economia. Isso pode trazer algumas consequências, já que não há nada que impeça os depositantes de sacar seu dinheiro e direcioná-los a outros investimentos, ou até países. Além disso, ainda há países, como o Japão, que adotaram taxas a níveis mais baixos há muito tempo, trazendo diversas consequências.


O Caso Japonês

O Japão, como dito anteriormente, adota juros zero desde 2000, e começou a ter juros nominais negativos a partir de 2016. Essas taxas foram implementadas com o objetivo de tentar acabar com a deflação, que, desde o início da década de 90, desestimulava o consumo, justamente por conta da população tender a esperar para realizar grandes compras, com a expectativa de uma queda cada vez maior dos preços. Porém, a manutenção dessas taxas até os dias de hoje acaba sendo vista como a grande causa de duas décadas de decadência econômica japonesa.

Contudo, essa decisão não levou ao resultado esperado inicialmente, de incentivar um maior consumo. O volume do consumo japonês não foi tão impactado a partir dessa medida, já que em 2016 o consumo era de ¥296 trilhões, valor que subiu de forma tímida ao longo dos anos, chegando ao patamar de ¥300 trilhões, apenas para, em 2019, voltar ao mesmo volume de 2016. Esse desestímulo levou uma agravação na taxa da deflação, visto que as taxas continuam muito perto de 0%. Em abril de 2020, por exemplo, a inflação chegou a 0,1%. Isso pode ter acontecido justamente pelo fato de que taxas de juros negativas podem incentivar os bancos a retirar depósitos de reserva, mas não criarem mais tomadores de crédito ou investimentos comerciais atraentes. Por consequência disso, também não houve uma explosão de novos empréstimos bancários. Outro efeito da ineficiência das taxas negativas no Japão foi que a deflação não desapareceu totalmente, já que não estimulou tanto o consumo para isso.


Desse modo, no país que está lidando com taxas de juros negativas, os resultados não estão sendo tão positivos, assim como na Zona do Euro. Cada vez mais essas medidas, que deveriam ser temporárias, estão se alongando, o que traz resultados aquém do esperado nos países.


O futuro será negativo?

O mundo presenciou uma constante queda de juros, principalmente com a crise da COVID-19. Um dos exemplos foi o Banco Central dos Peru, que reduziu as taxas de juros para 1,25%, assim como o Banco Central do Brasil, que em maio de 2020 reduziu a taxa em 0,75 pontos percentuais, chegando a um valor de 3% ao ano. Porém não só isso, essa taxa está cotada para cair ainda mais, segundo o relatório Focus (contém resumo das expectativas de mercado a respeito de alguns indicadores da economia brasileira), a projeção é de 2,25% até o final de 2020. Essas ações indicam que a pandemia foi determinante para uma queda das taxas básicas de juros ao redor do globo. Com isso, vários países, como alguns na Europa, foram levados a experimentar juros reais negativos. Além disso, fica evidente que existe, portanto, um limite nessa estratégia de adoção de juros nominais negativos, evidenciando que essa medida não é a solução.


Por fim, esses tipos de juros têm sido bastante abordados nos últimos tempos, devido às quedas das taxas no mundo todo, inclusive no Brasil. No entanto, dificilmente o país assumirá juros nominais negativos em um futuro próximo, dado que isso é uma política monetária imposta quando países temem que suas economias nacionais estejam entrando em uma “espiral deflacionária”. Caso o país adotasse essa medida, parte do capital que deveria ir para o consumo, iria diretamente para investimentos no exterior. No entanto, apesar de ser uma tendência global, nesse momento, o Brasil está longe de adotar taxas negativas.

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