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O capital não sumiu do saneamento: a conta é que deixou de fechar

há 16 horas
19 min de leitura

Fonte: Unsplash


Abrir a torneira e encontrar água tratada ainda não é a realidade de milhões de brasileiros. Para mudar esse quadro, o Congresso aprovou em 2020 o Novo Marco Legal do Saneamento, que comprometeu o país a levar água potável a 99% da população e a garantir coleta e tratamento de esgoto a 90% até o fim de 2033. Um estudo da KPMG em parceria com a Abcon, feito à época da aprovação da lei, estimou em R$ 753 bilhões o investimento necessário para atingir essa meta. Esse valor era muito superior ao que estados e municípios conseguiriam financiar sozinhos, e por isso a saída encontrada foi transferir parte dessa tarefa à iniciativa privada por meio de concessões e parcerias público-privadas (PPPs), contratos de longo prazo em que uma empresa assume a prestação do serviço no lugar do poder público.


A lógica é mais simples do que parece, já que, em vez de construir e operar as redes com dinheiro público, o Estado leiloa o direito de prestar o serviço por décadas. A empresa vencedora assume a obrigação de investir bilhões nos primeiros anos para levar água e esgoto a quem ainda não tem, e em troca é remunerada de uma de duas formas: nas concessões, ela recebe a tarifa, que é o valor cobrado todo mês dos moradores na conta de água, enquanto nas PPPs quem paga é o próprio governo, por meio de uma contraprestação, que é o pagamento feito pelo poder público ao parceiro privado pela execução das obras e dos serviços. No Bloco C do Pará, por exemplo, a Aegea assumiu em agosto de 2025 o saneamento de 27 municípios por 40 anos, com R$ 3,6 bilhões a investir para universalizar a água até 2033 e o esgoto até 2039, e passa a ser remunerada pela tarifa que os moradores pagam.


Todas essas regras ficam no edital, o documento que o governo publica antes do leilão e que funciona como o manual do contrato. Nele estão as metas de cobertura que a empresa precisa cumprir, o valor de referência da tarifa e, nas concessões, a outorga, que é o valor que a empresa paga ao Estado pelo direito de explorar o serviço e que reflete quanto ela acredita que o contrato vai render ao longo dos anos. Quanto mais lucro a empresa espera, mais ela aceita pagar de entrada, e por isso o edital fixa uma outorga mínima, que funciona como piso do leilão, e a outorga acaba sendo o principal termômetro do apetite do mercado por cada projeto. Na prática, ela funciona como uma taxa de entrada, paga em grande parte logo no início do contrato, antes de a operação começar a gerar receita relevante. O leilão, por fim, é a disputa por esse contrato, e vence quem oferece a menor tarifa aos moradores, o maior valor de outorga ao Estado ou uma combinação das duas.


Nos primeiros anos, o modelo funcionou além das expectativas, e os leilões viraram disputas acirradas entre empresas interessadas em entrar no setor. O leilão da região metropolitana de Maceió, em setembro de 2020, recebeu sete propostas e a vencedora terminou com uma outorga de R$ 2,009 bilhões, valor que representou um ágio¹ de 13.180%, enquanto, em abril de 2021, três blocos da Cedae, no Rio de Janeiro, renderam R$ 22,689 bilhões em outorgas. Em dezembro do mesmo ano, cada um dos dois blocos do interior de Alagoas recebeu três propostas, e um deles foi arrematado com ágio de mais de 37.500%. No Amapá, em setembro de 2021, a Equatorial ofereceu R$ 930 milhões de outorga contra um mínimo estimado em cerca de R$ 50 milhões, um ágio na casa dos 1.700%. Naquele momento, a dúvida não era se haveria interessados, mas quanto cada um estaria disposto a pagar, e o sucesso desses primeiros certames fez o modelo se espalhar rapidamente pelo país. 



A partir de 2024, o cenário começou a se inverter, e a disputa deu lugar a leilões com um único interessado ou com nenhum. Para entender o tamanho da mudança, vale separar dois termos que costumam aparecer juntos. O leilão é a sessão em que o governo coloca em disputa o direito de prestar o serviço, e ele pode ocorrer de duas formas. Na primeira, o contrato cobre uma única área e tem um único vencedor. Na segunda, o leilão reúne vários blocos, que são grupos de municípios atendidos em conjunto pela mesma empresa, de modo que parte da receita das cidades mais rentáveis ajude a financiar as obras e a operação nas cidades onde a arrecadação não cobriria os gastos. Como cada bloco é disputado separadamente e tem seu próprio vencedor, um mesmo leilão pode terminar com alguns blocos arrematados e outros sem nenhuma proposta, o que não explica por que as empresas desistem, mas permite ver que o desinteresse foi desigual dentro de um mesmo certame.



A mudança não ficou restrita a um estado ou a um tipo de contrato. Ela atingiu concessões e PPPs em diferentes regiões do país e se acelerou em 2026. Naquele ano, a PPP de esgoto da Saneago, em Goiás, foi cancelada sem nenhuma proposta válida, a maior parte dos blocos de uma PPP do Ceará ficou sem interessados e, em setembro, o leilão de água e esgoto de 40 municípios de Rondônia foi cancelado porque nenhuma empresa entregou proposta. Somados, só esses três projetos representavam cerca de R$ 16 bilhões em investimentos que ficaram sem comprador, e nem os próprios governos souberam explicar a ausência das empresas, tanto que todos anunciaram que iriam ouvir o mercado para entender o resultado. Se o setor nunca investiu tanto e nunca teve regras tão definidas, por que o capital privado deixou de disputar justamente agora?


Os ativos ficaram mais difíceis, mas isso não explica tudo


O primeiro ciclo de concessões mudou o saneamento brasileiro em pouco tempo, mas ainda está longe de completar a tarefa que o Marco Legal estabeleceu. Em meados de 2020, as concessões privadas estavam presentes em menos de 6% dos municípios, e até junho de 2026 já chegavam a 2.720 cidades, quase metade do país, o que fez o operador privado deixar de ser exceção e passar a ocupar o centro da política de universalização. O ritmo de investimento, porém, não acompanhou essa expansão na mesma proporção. Em 2024, o setor bateu recorde ao investir R$ 29,1 bilhões em água e esgoto, valor que corresponde a pouco mais da metade dos mais de R$ 50 bilhões por ano que a Abcon estima serem necessários para cumprir as metas de 2033, e é essa diferença que os novos leilões precisariam cobrir. 


A primeira explicação possível para os leilões vazios é a Seleção Adversa, fenômeno descrito por Akerlof em que, num mercado onde a qualidade não é igual para todos, os melhores itens saem primeiro e o que sobra é de pior qualidade. Há indícios disso no saneamento, pois os primeiros leilões reuniram regiões metropolitanas, como Maceió e a capital fluminense, com base de clientes densa e receita previsível, ao passo que os blocos que ficaram vazios em 2025 e 2026 têm quase sempre o perfil oposto, como o Bloco C do Pará, que reunia 27 municípios do Baixo Amazonas e do Sudoeste do estado, ou o de Rondônia, onde apenas 15% da população tinha coleta de esgoto, e no Ceará o único bloco que recebeu proposta foi o que incluía Sobral, o polo urbano de maior porte entre os cinco. A tese de que só sobraram ativos piores, no entanto, esbarra no próprio ciclo de 2021, quando projetos tão difíceis quanto os atuais foram vendidos com disputa. O bloco de Alagoas que recebeu o maior ágio cobria o Agreste e o Sertão, regiões do interior do estado, e no Amapá, onde apenas 38% da população tinha acesso adequado à água e a coleta de esgoto chegava a só 7%, o investimento estimado era de cerca de R$ 3 bilhões para atender 738 mil habitantes, o que equivale a aproximadamente R$ 4,1 mil por pessoa, mais do que os cerca de R$ 3,9 mil previstos em Rondônia, e ainda assim o ativo amapaense foi disputado. Se projetos do interior e da Amazônia encontravam compradores em 2021, a Seleção Adversa, sozinha, não explica os leilões vazios, o que indica que algo mudou fora dos ativos. Antes de identificar o quê, porém, é preciso descartar as explicações mais comuns no debate público.


Nem só falta de dinheiro, nem só insegurança jurídica


Quando um leilão de infraestrutura termina sem propostas, duas explicações costumam surgir primeiro. A primeira atribui o fracasso à falta de capital e faz sentido à primeira vista, já que, com juros altos e as operadoras ainda financiando as obras dos contratos que venceram, seria natural imaginar que o dinheiro disponível para novos projetos tivesse secado. A segunda aponta para a insegurança jurídica e regulatória, argumento recorrente sempre que o investimento privado recua no Brasil e que ganha força em um setor marcado por trocas de governo, disputas judiciais em torno de editais e regras que dependem de agências estaduais. Foi o que se viu em abril de 2023, quando decretos que flexibilizaram regras do Marco Legal levaram analistas a alertar para o risco de desacelerar os investimentos e aumentar o litígio no setor, e voltou a ocorrer em 2026, quando a Abcon apontou o nível dos juros, a reforma tributária e o ano eleitoral como fontes de incerteza para novos projetos. As duas têm apelo intuitivo, mas precisam passar por um teste simples: como o que se observa não é um setor parado, e sim leilões disputados convivendo com leilões vazios, uma explicação só se sustenta se conseguir dizer por que o capital apareceu em alguns certames e sumiu de outros, e é nesse teste que ambas falham. 


A hipótese da escassez de capital acerta ao perceber que o dinheiro ficou mais difícil, mas erra ao supor que ele desapareceu. O acerto está nas próprias operadoras, que depois de um quadriênio em que o setor investiu R$ 83 bilhões ficaram alavancadas e com pouca margem para novos leilões, como aponta o levantamento da consultoria Radar PPP. A Aegea, maior operadora privada do país, encerrou 2025 com dívida líquida de 4,5 vezes o EBITDA, considerando Águas do Rio e Corsan, e recebeu em fevereiro de 2026 um aporte de R$ 1,2 bilhão de Itaúsa e GIC. O erro aparece no exemplo mais revelador, que está no meio da própria sequência de leilões vazios, já que, em dezembro de 2025, quatro grupos se habilitaram para o leilão de Pernambuco, ainda que nem todos tenham apresentado proposta em todos os blocos, e o certame garantiu R$ 4,2 bilhões em outorgas ao estado, sendo R$ 3,5 bilhões somente pelo bloco que inclui a região metropolitana do Recife. Se faltasse dinheiro no setor, nenhum leilão daquele período teria atraído tantos concorrentes, e por isso o que precisa ser explicado não é a ausência de capital, mas o critério com que ele passou a escolher alguns leilões e ignorar outros. A escassez, portanto, não explica sozinha os leilões vazios e aponta para uma versão mais precisa do problema, em que o capital continua disponível, só que mais caro e mais seletivo. 


O argumento regulatório merece mais cuidado, porque a incerteza de fato existe, encarece qualquer projeto e nem sequer é igual em todo o país. Embora o Marco Legal e as normas de referência da ANA valham para todos, quem regula cada contrato no dia a dia são agências estaduais ou municipais, com regras, histórico e grau de independência diferentes, o que faz o risco regulatório variar de um estado para outro. Ainda assim, essa diferença não explica o padrão observado, porque os resultados divergem até dentro de um mesmo estado e sob o mesmo regulador. No Ceará, os cinco blocos da PPP estavam no mesmo edital e sob a mesma agência, e só o que incluía Sobral recebeu proposta, enquanto blocos que ficaram vazios em outros estados foram vendidos meses depois sob o mesmo regulador, depois de mudar apenas as condições do edital. As disputas jurídicas que de fato apareceram também foram sobre regras de editais específicos, como a cláusula que impedia o mesmo concorrente de vencer mais de um bloco, contestada na Justiça pela Aegea, maior operadora privada do país, antes do leilão goiano e adotada também pelo Ceará, o que indica que a insegurança que afasta as empresas vem menos do regulador e mais do desenho de cada edital. 


Nenhuma das duas hipóteses explica sozinha os leilões vazios, e o que as une é o que cada edital exige da empresa em troca do ativo, num momento em que o capital ficou mais caro. O edital define o valor da outorga, o prazo para pagá-la, a tarifa permitida e o ritmo das obras, e é nele que se concentra a parte da insegurança que de fato pesa sobre as empresas. O momento em que o leilão acontece, por sua vez, afeta ao mesmo tempo todos os projetos colocados à venda em um mesmo período, já que as condições de financiamento de 2021 não são as mesmas de 2026, o que ajuda a entender por que o ciclo inteiro passou da disputa para o esvaziamento. O momento, porém, não basta, porque Pernambuco e Goiás foram a leilão com poucos meses de diferença e sob praticamente os mesmos juros e ainda assim tiveram resultados opostos. Enquanto o momento explica por que a exigência subiu para todos, o edital explica por que alguns projetos ainda conseguem atendê-la e outros não, e é da combinação dos dois que nasce a conta que deixou de fechar. 


A conta que deixou de fechar


Para entender por que uma empresa decide não participar de um leilão, é preciso olhar a concessão como ela olha, ou seja, como um project finance², modelo em que o projeto vira uma SPE³, sociedade criada só para executar aquele contrato e separar seus riscos dos da empresa controladora, e se paga apenas com o dinheiro que ele mesmo gera. Da receita saem primeiro os custos de operação, depois a dívida usada para financiar as obras e, só no fim, o retorno do acionista, que precisa superar o custo de capital, isto é, o ganho mínimo que justifica investir ali em vez de aplicar o dinheiro em uma alternativa mais segura. Quando essa sobra final fica abaixo do custo de capital, o investimento deixa de fazer sentido, por mais relevante que o projeto seja para a população. 


Entre o primeiro ciclo e o atual, o ganho mínimo exigido pelos acionistas mudou de patamar, e a causa está no preço do dinheiro. Os primeiros leilões aconteceram com os juros no menor nível da história, enquanto os mais recentes encontraram a Selic no maior patamar em quase duas décadas, e em agosto de 2026 o Tesouro IPCA+ pagava juro real entre 7% e 8% ao ano, nível alcançado pouquíssimas vezes nos últimos dez anos. Como o título público passa a render mais sem nenhum risco de obra, de demanda ou de regulação, qualquer projeto de infraestrutura precisa prometer um retorno ainda maior para continuar valendo a pena. O efeito é maior para quem recebe tarde, porque o valor de hoje de um dinheiro que só chega daqui a 20 anos é calculado dividindo-o por uma taxa que se acumula ano a ano, e a cada aumento dos juros cada real futuro vale menos. Por isso uma conta que fechava com folga em 2021 pode deixar de fechar cinco anos depois. Isso não quer dizer que a empresa aposte que os juros de hoje durarão 35 anos, já que a taxa usada para descontar o contrato tende a refletir também a expectativa do mercado para o longo prazo, mas é o custo de capital vigente na data do leilão que decide se o lance fecha, e uma eventual queda futura dos juros, por incerta, não paga a outorga que vence no início do contrato.



O saneamento é especialmente sensível a esse aumento porque exige que a maior parte do investimento seja feita antes de a receita existir. No setor, esse movimento é acelerado pela própria lei, já que, como as metas vencem em 2033, um contrato assinado agora tende a comprimir em poucos anos obras que, sem o prazo, poderiam ser distribuídas por um período bem mais longo. Como todo projeto de infraestrutura, a concessão também começa por uma fase de obras, em que é preciso construir ou recuperar as redes, as estações de tratamento e as ligações que só depois vão gerar receita, e por isso é natural que o capex⁴ se concentre nos primeiros anos. Por isso no Piauí os R$ 8,6 bilhões previstos se concentram nos primeiros dez anos, no Pará a maior parte do investimento deve ocorrer nos primeiros 14 anos de um contrato de 40 e em Rondônia 56% de todo o investimento caía entre o segundo e o quarto ano. A receita, por outro lado, só amadurece quando as redes chegam às casas e se espalha por décadas, de modo que um projeto que gasta a maior parte do investimento no início e recebe ao longo de 35 anos fica mais exposto ao custo do dinheiro na fase em que mais depende dele.



A comparação entre o Amapá e Rondônia mostra esse efeito dos juros altos com clareza, porque os dois projetos foram estruturados pelo BNDES, ficam na região Norte, partem de coberturas muito baixas e tinham critérios de julgamento semelhantes. No Amapá, a disputa combinava maior outorga e menor tarifa, e o vencedor ofereceu desconto de 20% na tarifa e R$ 930 milhões de outorga, valor que analistas atribuíram em parte a sinergias da vencedora, mas mesmo o lance da segunda colocada, de R$ 426,5 milhões, equivalia a cerca de R$ 578 por habitante. Em 2026, a outorga mínima de Rondônia, de R$ 567,6 milhões para cerca de 1,07 milhão de habitantes, equivalia a cerca de R$ 530 por habitante, e ninguém aceitou pagá-la. Em outras palavras, em 2021 até quem perdeu o leilão estava disposto a pagar mais por habitante do que o piso que, cinco anos depois, afastou todo o mercado.


O caso do Pará isola o mecanismo de forma ainda mais direta, já que, em abril de 2025, o Bloco C, que previa R$ 3,6 bilhões em investimentos e outorga mínima de R$ 400 milhões, ficou sem nenhuma proposta. Na nova modelagem, o BNDES passou a permitir o parcelamento da outorga em 20 anos, e em agosto o bloco foi vendido à Aegea, a única concorrente, por R$ 400,6 milhões, praticamente o valor mínimo. O preço do ativo quase não mudou, e o que mudou foi o momento em que o dinheiro precisaria sair do caixa da empresa, o que, com os juros altos, faz toda a diferença, porque pagar antes custa muito mais.


Com o custo do capital mais alto, as empresas passam a escolher onde disputar. Os ativos com escala, como a região metropolitana do Recife e o bloco que inclui Belém, continuaram recebendo lances, enquanto os blocos do interior ficaram para trás, comportamento que a Radar PPP associa ao foco do mercado em projetos maiores. 


Diante desse cenário, a reação mais racional de uma empresa disciplinada não é oferecer um lance menor, mas deixar de participar. A teoria dos leilões ajuda a entender esse comportamento por meio da maldição do vencedor, segundo o qual quem vence um leilão tende a pagar mais do que o ativo vale, por ter sido o mais otimista entre os concorrentes. Foi assim que, na época, analistas classificaram o lance vencedor do Amapá, considerado agressivo demais. Cinco anos depois, com o dinheiro mais caro e essa lição aprendida, as operadoras preferem ficar de fora a repetir o erro. Se o mercado mudou o preço que aceita pagar, resta perguntar por que os editais não acompanharam a mudança.


Se a conta não fecha, por que o edital não muda antes?


A maior parte desses projetos foi estruturada pelo BNDES em conjunto com consultorias especializadas, o que afasta a hipótese de um simples erro técnico. O banco calcula quanto vale o contrato, mas quem decide como dividir esse valor entre outorga e tarifa é o governo estadual, dono do serviço, a quem o modelo é levado para alinhar a forma de implementar a política pública. Se as condições de mercado eram conhecidas, a permanência de editais desalinhados precisa ser explicada pelos incentivos de quem decide publicá-los, e esses incentivos apontam todos na mesma direção.


O primeiro incentivo é fiscal, porque a outorga é dinheiro que entra no caixa do estado logo após a assinatura do contrato, enquanto o custo de um projeto mal calibrado se dilui por décadas e recai sobre gestões futuras. No Piauí, por exemplo, o governador anunciou que a outorga seria usada para financiar o programa de demissão voluntária da Agespisa, a estatal de saneamento, que tinha 900 funcionários efetivos. Para qualquer governo, reduzir a outorga significa abrir mão de recursos com destino já definido no orçamento atual.


O segundo incentivo é eleitoral, já que a tarifa de água é um dos preços mais visíveis para o eleitor e 2026 é ano de eleições para governador. Como o governo estadual aprova a tarifa de referência que vai ao edital, autorizar um valor mais alto seria anunciar uma conta de água mais cara em plena campanha, de modo que o ajuste que tornaria o leilão viável é o que um governante em ano eleitoral tem menos interesse em fazer.


O terceiro incentivo é institucional e envolve o desejo do governo de manter o controle sobre o serviço, mesmo quando decide abri-lo ao capital privado. A forma mais comum de fazer isso é preservar a companhia estadual de saneamento, que tem funcionários, peso político e uma história que nenhum governador quer encerrar. Por isso, nas PPPs de Goiás e do Ceará, a estatal continua cuidando da relação com os clientes, como cobrança e atendimento, enquanto o parceiro privado entra apenas para construir e operar as redes. O problema é que essa divisão deixa riscos com quem não tem como controlá-los, e em Goiás a empresa privada poderia ser penalizada se a população não se ligasse à rede, mesmo que a tarefa de estimular essas ligações continuasse com a Saneago.


A regra que impede uma empresa de vencer mais de um bloco segue a mesma lógica, pois protege o governo de depender de um único operador, mas também reduz o número de concorrentes possíveis e o ganho de escala de quem entra. Cada uma dessas escolhas faz sentido do ponto de vista do Estado, mas todas transferem risco para a empresa, que passa a exigir um retorno maior para participar ou simplesmente deixa de participar. 


O resultado é um padrão em que o edital tende a mudar só depois de fracassar. No Rio de Janeiro, o Bloco 3 da Cedae, que tinha apenas sete cidades e não recebeu oferta em abril de 2021, foi ampliado, na reestruturação do edital, para cerca de 20 municípios e vendido em dezembro por R$ 2,2 bilhões. No Pará, o Bloco C só encontrou comprador depois que a outorga passou a poder ser parcelada em 20 anos. Nos outros dois casos a revisão ainda é promessa, já que a Cagece anunciou que vai rever a modelagem dos quatro blocos vazios do Ceará para relançá-los ainda em 2026 e o BNDES abriu um processo de escuta com o mercado em Goiás para entender o que reduziu a atratividade do projeto, de modo que o padrão é mais sólido no Rio de Janeiro e no Pará do que no Ceará e em Goiás. O edital, portanto, não falha por desconhecimento, mas responde de forma racional aos incentivos de quem o desenha e, por isso, só se corrige quando o próprio fracasso torna o ajuste politicamente aceitável.


O custo de aprender só depois do fracasso


O BNDES lê esse mesmo padrão de outra forma. Após o cancelamento da PPP goiana, o banco afirmou que leilões desertos fazem parte do amadurecimento de concessões e PPPs, citando os casos do Rio de Janeiro e do Pará, e essa leitura tem fundamento, pois o Bloco 3 da Cedae foi vendido oito meses depois de ficar vazio e o Bloco C do Pará, quatro meses depois. Visto assim, o leilão deserto não seria um fracasso, mas um sinal útil, uma forma de o mercado indicar ao governo o preço correto. A leitura dos incentivos explica melhor o que se observa, porque um aprendizado de verdade deveria chegar aos editais seguintes antes do fracasso, e não depois, e o Ceará repetiu em 2026 a cláusula que já tinha sido contestada em Goiás. Além disso, o aprendizado tem dois custos que a leitura do BNDES não contabiliza.


O primeiro custo é o tempo, já que apenas 780 municípios atingiram até agora a meta de água, o que representa 32% da população, e só 321 atingiram a meta de esgoto. Como todo contrato assinado a partir de 2026 tem, em regra, no máximo sete anos para cumprir metas que exigem, em muitos casos, construir a rede de esgoto praticamente do zero, cada rodada de ajuste consome meses de um calendário que não se move. 


O segundo custo é a concorrência, porque as segundas rodadas vendem o ativo, mas raramente recuperam a disputa, como mostram o Bloco C do Pará, que saiu com ágio de 0,01%, o Piauí, que teve uma única proponente, e o bloco do Ceará, arrematado sem concorrentes com desconto de 1,15%. O Estado aprende a vender, mas vende sem disputa, e sem disputa perde o mecanismo que deveria garantir as melhores condições para o governo e para quem paga a conta de água. 


Tratar o leilão vazio como etapa normal do processo esconde, portanto, um custo que não aparece em nenhum balanço: o tempo perdido e a concorrência que não volta terão de ser compensados de alguma forma, e mais cedo ou mais tarde essa compensação será assumida por alguém. 


A conta vai para alguém


A pergunta que abriu este texto tem uma resposta mais incômoda do que as explicações usuais sugerem. O capital continua disponível, mas só aparece onde o edital fecha a conta, e os editais, presos aos incentivos de quem os publica, só mudam depois de fracassar, de modo que o resultado não é uma tarifa abusiva nem um contrato ruim, e sim a ausência de contrato.


Se o desenho atual não fecha, ele terá de mudar por um de três caminhos, cada um com um pagador definido. O primeiro é reduzir a outorga ou alongar seu pagamento, como fez o Pará, o que significa o Estado abrir mão de receita imediata, e o segundo é permitir uma tarifa de referência mais alta, o que transfere o custo para o usuário que paga a conta de água. O terceiro é o aporte de recursos públicos para reduzir o investimento exigido da empresa, o que leva a conta de volta ao contribuinte. O prazo de universalização também pode ser estendido, como a lei já permite, mas isso apenas troca o pagador, já que a conta passa para a população que espera mais anos pela rede. O desenho atual tenta evitar todos ao mesmo tempo, cobrando outorga alta, mantendo a tarifa baixa e dispensando o dinheiro público, e é por tentar não escolher nenhum pagador que a conta deixou de fechar. 


Existe ainda uma quarta possibilidade, que é não escolher nenhum dos caminhos e esperar que os juros caiam. Quem paga por essa espera é a população que ainda não tem água tratada nem esgoto. Mantido o desenho atual, os ativos mais difíceis só serão vendidos depois de rodadas de ajuste e sem disputa, e cada rodada adia a chegada da rede para os lugares onde a carência é maior, enquanto a meta de 2033 se aproxima. O país decidiu universalizar o saneamento em pouco mais de uma década e decidiu fazê-lo principalmente por meio do capital privado, e os leilões vazios são o momento em que essas duas decisões deixaram de caber no mesmo edital. Resta saber qual delas o país estará disposto a rever.


Glossário


  1. Ágio: Diferença entre o valor oferecido pela vencedora e o valor mínimo exigido no edital. 

  2. Project finance: Forma de financiar um projeto em que ele se paga apenas com o dinheiro que gera, sem depender do balanço da empresa que o controla. 

  3. SPE (Sociedade de Propósito Específico): Empresa criada exclusivamente para executar um único projeto, separando seus riscos e resultados dos da empresa controladora. 

  4. Capex: Sigla em inglês para despesas de capital, ou seja, o dinheiro investido em obras e equipamentos, como redes e estações de tratamento. 


Bibliografia

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AGÊNCIA iNFRA. PPP Saneago: única proposta é inabilitada e leilão é cancelado. Agência iNFRA, 24 mar. 2026. Disponível em: https://agenciainfra.com/blog/ppp-saneago-unica-proposta-e-inabilitada-e-leilao-e-cancelado/. Acesso em: 2 out. 2026.

BANCO CENTRAL DO BRASIL. Histórico das taxas de juros. Disponível em: https://www.bcb.gov.br/controleinflacao/historicotaxasjuros. Acesso em: 2 out. 2026.

BNDES. Roadshow Saneamento Rondônia. Hub de Projetos BNDES, ago. 2026. Disponível em: https://hubdeprojetos.bndes.gov.br/export/sites/default/cms/anexos-livres/saneamento/Roadshow-Saneamento-Rondonia_ago2026.pdf. Acesso em: 7 out. 2026.

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DIÁRIO DE PERNAMBUCO. “Um dia histórico para Pernambuco”, diz Raquel Lyra após leilão da Compesa. Diário de Pernambuco, 18 dez. 2025. Disponível em: https://www.diariodepernambuco.com.br/economia/2025/12/11703226-um-dia-historico-para-pernambuco-diz-raquel-lyra-apos-leilao-da-compesa.html. Acesso em: 7 out. 2026.

DIÁRIO DO COMÉRCIO. Atuação privada no saneamento cresce e chega a quase metade dos municípios brasileiros. Diário do Comércio, ago. 2026. Disponível em: https://diariodocomercio.com.br/?p=616997. Acesso em: 7 out. 2026.

INFOMONEY. Primeiro passo da Equatorial no setor de saneamento é positivo, mas analistas alertam para preço “muito alto” por concessão. InfoMoney, 3 set. 2021. Disponível em: https://www.infomoney.com.br/?p=1698276. Acesso em: 7 out. 2026.

KPMG; ABCON SINDCON. Quanto custa universalizar o saneamento no Brasil? KPMG, jul. 2020. Disponível em: https://assets.kpmg.com/content/dam/kpmg/br/pdf/2020/07/kpmg-quanto-custa-universalizar-o-saneamento-no-brasil.pdf. Acesso em: 7 out. 2026.

PODER360. Aegea vence leilão de saneamento de 27 cidades do Pará. Poder360, 5 ago. 2025. Disponível em: https://www.poder360.com.br/poder-infra/aegea-vence-leilao-de-saneamento-de-27-cidades-do-para/. Acesso em: 7 out. 2026.

PODER360. Águas do Brasil leva bloco 3 da Cedae por R$ 2,2 bilhões. Poder360, 29 dez. 2021. Disponível em: https://www.poder360.com.br/brasil/aguas-do-brasil-leva-bloco-3-da-cedae-por-r-22-bilhoes/. Acesso em: 7 out. 2026.

PORTAL 364. Leilão de R$ 8,47 bilhões para concessão de água e esgoto em RO é cancelado por falta de propostas. Portal 364, set. 2026. Disponível em: https://www.portal364.com/2026/09/leilao-de-r-847-bilhoes-para-concessao.html. Acesso em: 10 out. 2026.

SEU DINHEIRO. Equatorial vence leilão no Amapá e estreia em saneamento, mas preço da concessão foi salgado; é hora de comprar EQTL3? Seu Dinheiro, 3 set. 2021. Disponível em: https://www.seudinheiro.com/2021/empresas/equatorial-vence-leilao-no-amapa-e-estreia-em-saneamento-mas-preco-da-concessao-foi-salgado-e-hora-de-comprar-eqtl3/. Acesso em: 10 out. 2026.



 
 
 

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