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Teste de Turing: As máquinas pensam como os humanos?



A ascensão da inteligência artificial (IA) redefine nossa relação com a tecnologia, gerando debates sobre a linha tênue que separa máquinas e humanos. No centro dessa discussão está a obra seminal de Philip K. Dick, "Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?", que não apenas antecipou, mas também ampliou a complexidade das preocupações éticas relacionadas ao futuro da modernização. Esse livro visionário, publicado em 1968, oferece uma visão distópica onde androides quase indistinguíveis dos humanos levantam questões filosóficas cruciais sobre empatia, moralidade e a própria essência da humanidade.


Uma das facetas mais intrigantes do livro é o Teste de Voigt-Kampff, um instrumento fictício desenvolvido para distinguir androides de humanos, com base na análise de respostas relacionadas a emoções dos avaliados, tornando-se uma metáfora poderosa para os dilemas éticos. Enquanto exploramos as fronteiras entre máquinas e emoções humanas, o Teste de Voigt-Kampff emerge como um ponto de referência essencial, sugerindo um entrelaçamento complexo e provocativo entre a inteligência artificial e a humanidade.


Origem do Teste de Turing


Formado em matemática e amante da computação, Alan Turing, britânico nascido em 1912, é conhecido como o “pai dos computadores”. Esse apelido foi dado devido à invenção de uma máquina revolucionária chamada “The Bombe”¹, que teve papel fundamental na decifração dos códigos utilizados pelos alemães para se comunicar durante a Segunda Guerra Mundial e permitiu que milhares de vidas fossem salvas. A partir disso, foram dados os primeiros passos para uma revolução tecnológica e do atual conceito de computadores.


Desde o início dos estudos para a decodificação das conversas alemãs, na década de 40, Turing já pensava no desenvolvimento de uma espécie de inteligência computacional e suas aplicações futuras. Com isso, em 1950, o matemático, pensando que as máquinas poderiam replicar o comportamento humano, criou um teste simples, baseado em um jogo de imitação. Com três pessoas jogando, o jogador número um é o impostor e tenta imitar o jogador número dois enquanto o terceiro jogador tenta descobrir quem é o falso. No caso do teste, a máquina seria o falso e tentaria se passar por um humano, passando na avaliação se não fosse descoberta.


A verdadeira premissa para o Teste de Turing não era se um computador seria capaz de raciocinar, mas sim, se ele conseguiria buscar respostas relevantes a perguntas ao ponto de ninguém perceber que se trata de uma máquina. Isso porque, a geração de respostas compreensíveis não reflete, necessariamente, que o sistema entende a verdade.


Evolução das inteligências artificiais


Inteligência artificial é a definição dada a sistemas computacionais que, através de comandos, executam funções variadas e possuem a capacidade de aprender, perceber e decidir qual caminho seguir. Essa tecnologia vem revolucionando a computação moderna e agrega valor a empresas e indivíduos, se tornando o grande foco de investimento das Big Techs² ao longo dos últimos anos.


A explosão no mercado dessa inovação ocorreu devido à praticidade e da imensa utilidade do contexto social. Nesse sentido, alguns exemplos de ferramentas que se destacam são o ChatGPT e o Dall-E 2. Mais popular, o primeiro trata-se de um chatbot capaz de responder perguntas dos mais variados escopos, simulando a maneira que um ser humano escreveria. Por outro lado, o Dall-E 2 é habilitado para criar imagens, a partir de uma breve descrição feita pelo usuário.



Com a ascensão desse novo mercado e o investimento das empresas em tecnologia, surgiram diversas IAs novas que levantam dúvidas sobre as suas capacidades de substituírem seres humanos. Para isso, a conversa sobre o Teste de Turing voltou à tona e a sua aplicação passou a ser feita como medida avaliativa.


A relação entre as novas IAs e o Teste de Turing


Durante muito tempo, o teste foi visto como uma forma extremamente viável para identificar IAs e mensurar os seus níveis de inteligência. À primeira vista, parecia ser válido, mas, levando em consideração o atual estado das máquinas, o método se mostra ultrapassado por ser demasiadamente simples. Além disso, ele não visa concluir se elas conseguem pensar igual a um humano, apenas se conseguem imitar a conversa de um.


Desse modo, em 2022, o ChatGPT foi testado e os resultados impressionaram a comunidade científica. A aprovação no teste representou uma vitória significativa para a OpenAI, empresa que criou a inteligência artificial, pois demonstrou a capacidade de imitação da ferramenta ao comportamento humano. Contudo, muitas críticas ao teste foram feitas após o acontecimento e o próprio Alan Turing afirmava, desde a criação da avaliação, que não foi capaz de medir todos os aspectos da inteligência humana em apenas uma avaliação.


Além disso, outro fator que colabora para essa ineficiência é a desconsideração de ferramentas importantes das novas IAs, como artifícios de processamento de imagens, vídeos e sons. Por isso, a cada novidade tecnológica, especialistas de software afirmam que o teste está se tornando obsoleto. Dessa forma, o objetivo de quem trabalha na área passou a ser a aplicabilidade da inteligência artificial, mudando a perspectiva de identificação de uma máquina, para o uso dela no cotidiano.


A partir dessas afirmações, fica a cargo de quem cria os modelos de inteligência seguir algumas medidas de segurança e regras para evitar o comprometimento da experiência dos usuários. Em suma, o tópico da discussão entre os cientistas da computação mudou para como se deve implementar e ampliar as aplicações, de forma segura para as pessoas.


A questão ética


O surgimento da inteligência computacional trouxe consigo o enorme poder de influenciar a humanidade. No entanto, esse nível de grande influência se tornou um problema para os profissionais da área, devido à necessidade de ficarem cada vez mais cautelosos com suas ações, como o acesso e uso de certos dados mais restritos.


Tendo isso em vista, é essencial desenvolver novos algoritmos pensando nas implicações éticas e sociais dessas ferramentas, que afetam a vida diária dos cidadãos. Para isso, existem alguns pontos desafiadores, sobre os quais vale uma reflexão na criação da tecnologia:


1. Viés algorítmico: os sistemas de computadores inteligentes são treinados em diversos conjuntos de dados, que podem conter premissas relacionadas a preconceitos intrínsecos na sociedade. Por isso, é preciso filtrar, de forma correta, o conteúdo que a máquina considera relevante.


2. Privacidade e segurança: com a enorme quantidade de dados acessados para o treino das inteligências artificiais, é importante garantir que o uso de dados pessoais seja feito de forma segura, uma vez que pode resultar na violação de privacidade e na manipulação de informações privadas.


3. Responsabilidade: a supervisão do impacto e de como a tecnologia está sendo usada é fundamental, uma vez que, caso um erro seja cometido pela máquina, a culpa deve recair sobre a empresa desenvolvedora da tecnologia.


4. Empregabilidade: a possibilidade da automação de muitas tarefas do cotidiano levanta preocupações no mercado de trabalho referentes ao desemprego, logo qualquer aplicação deve analisar como isso pode mudar a vida de certas pessoas.


5. Desinformação: os usuários devem saber como as IAs agem e fazem suas escolhas, pois podem criar bolhas de informações e reforçar crenças falsas devido à má fiscalização de seus dados. Paralelamente, é importante pensar na possibilidade de criação de deep fakes³ e manipulação dos conteúdos.


A ampliação do uso das inteligências artificiais


As inteligências artificiais já entraram na vida da população e todos estão aprendendo a utilizá-las e tirar proveito de forma que facilite suas rotinas. Nesse sentido, a demanda por essas ferramentas cresce diariamente, o que se traduz no aumento recente de usuários.



O uso das IAs explicita a demanda mundial por essa nova tecnologia, entretanto, o medo da expansão constante e do desemprego é uma realidade que se vive nos dias atuais. O temor dos humanos de serem substituídos por robôs sempre foi um fator futurístico. Por outro lado, o pesquisador da USP, Fernando Osório, garantiu que esse não é o papel das máquinas. “Essa tecnologia não destrói empregos, ela desloca empregos, criando muitos novos empregos e oportunidades”, afirma o professor de computação.


Futuro das máquinas


O crescente interesse da sociedade nas IAs reflete na rápida adoção da tecnologia pelo mundo. Dessa forma, é preciso que ocorra uma série de mudanças para que tudo siga tranquilamente, prezando pela segurança dos usuários. Para isso, regras que garantam o bem-estar, bem como a preservação das ferramentas no longo prazo são necessárias.


Por fim, a identificação das máquinas se passando por seres humanos é um constante debate no ramo da computação, sendo o Teste de Turing a forma mais famosa de avaliação do tipo. Tendo isso em mente, a introdução do texto foi feita por uma inteligência artificial. Passou no teste?


Glossário:


  1. The Bombe: máquina eletromecânica britânica utilizada para decriptografia de mensagens alemãs durante a Segunda Guerra Mundial


  1. Big Techs: grandes empresas do ramo da tecnologia, que apresentam dominância no mercado econômico global.


  1. Deep fakes: tecnologia de replicar e animar imagens, combinando com sons e falas, através da inteligência artificial


Referências


Biografia de Alan Turing. Disponível em: <https://www.ebiografia.com/alan_turing/>. ‌


Alan Turing: vidas pessoal, carreira e legado. Disponível em: <https://brasilescola.uol.com.br/biografia/alan-mathison.htm>. ‌


MAGALDI, R. O que é o Teste de Turing? Disponível em: <https://medium.com/turing-talks/turing-talks-1-o-que-%C3%A9-o-teste-de-turing-ee656ced7b6>. ‌


Inteligência Artificial. [s.l: s.n.]. Disponível em: <https://www.feg.unesp.br/Home/PaginasPessoais/CristovaoCunha/ai-alan-turing.pdf>.


Explicando IA: Teste de Turing. Disponível em: <https://atozofai.withgoogle.com/intl/pt-BR/turing-test/>. ‌


O que é inteligência artificial (IA)? Disponível em: <https://cloud.google.com/learn/what-is-artificial-intelligence?hl=pt-br#:~:text=A%20intelig%C3%AAncia%20artificial%20%C3%A9%20um>.


O que é inteligência artificial? Disponível em: <https://tecnoblog.net/responde/o-que-e-inteligencia-artificial/>. ‌


MCKINSEY & COMPANY. The state of AI in 2023: Generative AI’s breakout year | McKinsey. Disponível em: <https://www.mckinsey.com/capabilities/quantumblack/our-insights/the-state-of-ai-in-2023-generative-ais-breakout-year>. ‌


Total global AI investment 2015-2022. Disponível em: <https://www.statista.com/statistics/941137/ai-investment-and-funding-worldwide/#:~:text=In%202022%2C%20the%20global%20total>.


ChatGPT e a inevitável ascensão das Inteligências Artificiais na vida cotidiana. Disponível em: <https://portal.fgv.br/artigos/chatgpt-e-inevitavel-ascensao-inteligencias-artificiais-vida-cotidiana>. ‌


ZHAO, M. What’s Wrong With the Turing Test? Disponível em: <https://medium.com/@michelledzhao/whats-wrong-with-the-turing-test-c1f04e68f87e>. ‌


LACURTS, K. Criticisms of the Turing Test and Why You Should Ignore (Most of) Them. [s.l: s.n.]. Disponível em: <https://people.csail.mit.edu/katrina/papers/6893.pdf>. ‌


HALPERN, M. The Trouble with the Turing Test. Disponível em: <https://www.thenewatlantis.com/publications/the-trouble-with-the-turing-test>. ‌


YALALOV, D. ChatGPT passa no teste de Turing. Disponível em: <https://mpost.io/pt/chatgpt-passes-the-turing-test/>.


Ética da Inteligência Artificial (IA) no Brasil. Disponível em: <https://www.unesco.org/pt/fieldoffice/brasilia/expertise/artificial-intelligence-brazil>. ‌


Ética e Inteligência Artificial: qual a importância dessa relação? Disponível em: <https://blog.engdb.com.br/etica-e-inteligencia-artificial/>. ‌



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