Aviação Low-Cost: Por que o Modelo não se Sustenta no Brasil?
- Rodrigo Côrte Real Emilio dos Santos

- há 10 horas
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Durante grande parte do desenvolvimento da aviação comercial, o transporte aéreo permaneceu inacessível para a maior parte da população, configurando um serviço essencialmente voltado às elites, em razão de seus elevados custos operacionais e tarifários. Esse cenário começou a se transformar de maneira significativa principalmente nos EUA a partir da década de 1970, quando mudanças estruturais impulsionadas especialmente pela desregulamentação do mercado abriram espaço para a entrada de novos modelos de negócio. Nesse contexto, emergiram as companhias aéreas low-cost, que redefiniram a lógica operacional da indústria ao priorizar eficiência, padronização e redução de despesas. Por meio de estratégias como a simplificação de serviços, a utilização intensiva das aeronaves, a padronização de frotas e a eliminação de intermediários, essas empresas conseguiram oferecer preços significativamente mais acessíveis ao público geral. Como resultado, o transporte aéreo passou por um processo de democratização, ampliando de forma expressiva o acesso de parcelas mais amplas da população e promovendo uma mudança estrutural na dinâmica de mobilidade global.
Com o sucesso observado nos Estados Unidos, o modelo low-cost passou a se expandir rapidamente para diferentes regiões do mundo, adaptando-se a distintos contextos regulatórios e competitivos. No Brasil, sua introdução ocorreu apenas em 2001, com a entrada da Gol Linhas Aéreas, que iniciou suas operações com uma frota enxuta de apenas seis aeronaves e uma proposta clara de ruptura com o padrão vigente. A combinação de uma estratégia agressiva de preços com a possibilidade de parcelamentos, prática pouco difundida no setor à época, teve papel central na ampliação da demanda, ao tornar o transporte aéreo acessível a uma parcela significativamente maior da população. Como resultado, a companhia apresentou um crescimento acelerado, capturando um Market Share¹ de mais de um terço do setor doméstico em cerca de cinco anos, segundo dados da ANAC. No entanto, esse movimento não se sustentou em sua forma original, já que a partir de 2009, a empresa passou a migrar para um modelo híbrido, incorporando elementos do serviço tradicional, como melhorias no atendimento de bordo, programas de fidelidade e de milhas e maior foco no passageiro corporativo, indicando uma adaptação às especificidades do mercado brasileiro.
Atualmente, não há no país uma companhia que opere sob o modelo low-cost tradicional, o que sugere que as limitações vão além da simples estratégia empresarial. Fatores estruturais exercem papel determinante nesse cenário, como as elevadas despesas operacionais, impulsionadas por custos com combustível, carga tributária e infraestrutura aeroportuária, além das características geográficas do Brasil, que demandam rotas mais longas e complexas. Soma-se a isso um perfil de demanda que, diferentemente de outros mercados, tende a valorizar um nível mínimo de conforto e serviços agregados, dificultando a implementação de um modelo extremamente enxuto. Dessa forma, a ausência de companhias estritamente low-cost no país não necessariamente indica falta de demanda, mas sim um desalinhamento entre o modelo e as condições estruturais do mercado. Nesse contexto, emerge uma questão central: a consolidação do modelo low-cost no Brasil é apenas uma questão de tempo, à medida que o mercado amadurece, ou depende de uma transformação mais profunda nas bases regulatórias e econômicas do setor?
O modelo Low-Cost
O princípio do low-cost é centrado em reduzir ao máximo os custos para, assim, ser capaz de oferecer aos consumidores um produto de baixo custo que contempla apenas o essencial, nesse contexto, a alta rotatividade de voos torna-se um elemento-chave da estratégia, uma vez que a rentabilidade está diretamente associada ao nível de utilização dos aviões. Como as aeronaves representam um dos maiores custos fixos de uma companhia aérea, mantê-las em operação pelo maior número de horas possível dilui esses custos por voo realizado, aumentando a eficiência econômica. Em outras palavras, quanto mais tempo um avião permanece voando ao longo do dia, maior tende a ser a geração de receita em relação ao custo já incorrido com sua aquisição e manutenção. Esse racional reduz períodos ociosos, melhora a produtividade da frota e contribui diretamente para a sustentação de tarifas mais baixas. A esse modelo somam-se ainda práticas como a cobrança por serviços adicionais, incluindo bagagens e itens não essenciais, reforçando a lógica de maximização de receita com uma estrutura enxuta.

Além disso, a estrutura do modelo apresenta uma padronização e simplicidade operacional altamente aplicada que reforça a sua eficiência. Assim, as companhias atuam de forma muito parecida, o que é imprescindível para a aplicação do modelo low-cost, e reduz ao máximo a variedade de muitos elementos. Como exemplo disso, o uso frequente de aeronaves dos modelos Airbus A320 ou Boeing 737, que tem motores e componentes parecidos, o que ajuda a reduzir a manutenção, treinamento de pilotos e a aplicação de suas operações. Essa padronização não apenas simplifica operações, mas também acaba reduzindo significativamente o CASK², aumentando a margem de lucro e viabilizando a atuação do modelo em larga escala.

Apesar da eficiência comprovada desse modelo em diferentes mercados, sua aplicação integral não se consolidou no Brasil. Ainda que diversas companhias tenham incorporado elementos do low-cost ao longo do tempo, nenhuma conseguiu sustentar uma operação baseada em sua forma pura, o que evidencia um desalinhamento entre a lógica do modelo e as condições estruturais do país. Custos operacionais elevados, especialmente com combustível, tributação e infraestrutura aeroportuária, reduzem a margem de manobra necessária para a prática de tarifas extremamente baixas. Além disso, fatores como a extensão territorial, que implica voos mais longos e menor frequência por rota, e um perfil de demanda que valoriza determinados níveis de serviço dificultam a adoção de uma proposta extremamente enxuta. Dessa forma, o caso brasileiro reforça a ideia de que, embora o low-cost seja um modelo eficiente em termos teóricos e operacionais, sua viabilidade depende diretamente do ambiente econômico, regulatório e competitivo em que está inserido, não sendo, portanto, universalmente replicável.
Estrutura de Custos Brasileira é incompatível com o modelo low-cost
Alguns dos fatores que contribuem para essa dificuldade estão relacionados ao fato do combustível ser atrelado ao petróleo e ao câmbio, além de que cerca de 70% dos custos totais das operadoras e o leasing³ de aeronaves serem dolarizados de acordo com a ANAC, tornando-os mais difíceis de prever e, muitas vezes, mais elevados do que em países com moedas mais estáveis. Embora o Brasil possua grandes reservas de petróleo, isso não se traduz em autossuficiência no fornecimento de QAV⁴, uma vez que esse combustível necessita de um nível específico de refino, tornando-o mais caro, e consequentemente, relevante na estrutura de custos. Segundo pesquisa da CNT (Confederação Nacional do Transporte), o combustível representa cerca de 36% dos custos operacionais das companhias aéreas nacionais. Esse valor é superior à média global, que gira em torno de 31%, reforçando a desvantagem estrutural do mercado brasileiro.

Embora as tarifas aeroportuárias brasileiras não inviabilizem a existência de modelos de baixo custo de forma isolada, sua estrutura rígida e inflexível neutraliza a principal alavanca competitiva dessas empresas: a precificação agressiva. A ausência de aeroportos secundários competindo entre si e a impossibilidade de negociar incentivos tarifários criam um “piso” de custos inelástico, o que impede a compressão de gastos praticada no exterior. Isso ocorre porque, no modelo low-cost, a competição entre aeroportos é um elemento central para a redução de custos: terminais menos congestionados e fora dos grandes centros tendem a oferecer tarifas mais baixas, subsídios ou descontos para atrair volume de voos, além de proporcionarem operações mais rápidas, com menor tempo de solo.
Em um ambiente competitivo, as companhias conseguem negociar melhores condições, escolher bases mais baratas e estruturar rotas com maior eficiência econômica. No Brasil, por outro lado, a limitação de alternativas e a padronização tarifária reduzem esse poder de barganha, fazendo com que todas as empresas enfrentem estruturas de custo semelhantes independentemente da estratégia adotada. Enquanto na Europa o aumento recente das taxas é mitigado por um mercado aeroportuário descentralizado e com muitos concorrentes, no Brasil, a centralização e a padronização das taxas impõem uma barreira de entrada relevante para a estratégia low-cost.
Infraestrutura Aeroportuária
A infraestrutura aeroportuária é um dos principais determinantes para a viabilidade do modelo low-cost, especialmente pela importância do uso de aeroportos secundários como alavanca de redução de custos. No Brasil, esse mecanismo encontra limitações relevantes devido à elevada concentração do tráfego aéreo em poucos hubs. Segundo dados da ANAC, em 2024, 61% do tráfego esteve concentrado nos 10 maiores aeroportos do país, evidenciando um ambiente altamente centralizado.

Em contraste, mercados como o europeu apresentam uma estrutura significativamente mais descentralizada, onde apenas cerca de 19% do tráfego se concentra nos 10 maiores aeroportos, de acordo com a ACI Europe. Essa dispersão favorece a existência de uma ampla rede de aeroportos secundários que competem entre si por operações, oferecendo tarifas mais baixas, incentivos comerciais e maior flexibilidade. Nesse ambiente, companhias low-cost conseguem otimizar suas operações ao escolher aeroportos menos congestionados, reduzir tempos de solo e aumentar a utilização diária das aeronaves, o que contribui diretamente para a diluição de custos fixos e redução do CASK. Dessa forma, enquanto na Europa a infraestrutura aeroportuária atua como facilitadora do modelo, no Brasil ela se configura como uma barreira estrutural, tornando sua aplicação não apenas mais custosa, mas significativamente mais complexa.
Dinâmica Competitiva do Setor Aéreo
A dinâmica competitiva do setor aéreo brasileiro, marcada por alta concentração nas principais companhias, reduz a pressão competitiva necessária para o surgimento e sustentação de um modelo low-cost funcional. O mercado doméstico é dominado basicamente por três grandes players: LATAM Airlines Brasil, Gol Linhas Aéreas e Azul Linhas Aéreas que, de acordo com a CNN, concentram aproximadamente 99% do Market Share nacional. Esse nível de concentração cria um ambiente de competição mais estável e previsível entre as empresas, no qual há menor incentivo para rupturas agressivas de preço, justamente o principal instrumento competitivo das companhias low-cost. Além disso, essas organizações já operam com ganhos de escala relevantes, forte presença em áreas estratégicas e programas de fidelidade consolidados, o que eleva significativamente as barreiras de entrada.
Outro fator importante é que, em mercados concentrados como o brasileiro, a competição tende a ocorrer mais por diferenciação de serviço, malha aérea e relacionamento com o cliente do que exclusivamente por preço. Isso favorece modelos híbridos, nos quais as companhias equilibram eficiência de custos com oferta de valor agregado, mas dificulta a atuação de players que dependem quase exclusivamente de tarifas ultra baixas para capturar demanda. Nesse contexto, um novo entrante low-cost enfrentaria não apenas custos estruturais elevados, mas também a necessidade de competir com empresas já estabelecidas que possuem maior capacidade financeira, acesso a capital e domínio das rotas mais rentáveis.
Em contraste, mercados como o europeu apresentam uma dinâmica competitiva muito mais fragmentada e intensa. Além das companhias tradicionais, há uma forte presença de empresas que operam exclusivamente sob o modelo low-cost, como Ryanair, easyJet e Wizz Air. Essa diversidade de players aumenta significativamente a pressão competitiva, especialmente sobre preços, criando um ambiente no qual a eficiência operacional se torna o principal diferencial estratégico. A competição direta entre múltiplas companhias de baixo custo também estimula inovação contínua na redução de despesas e otimização de operações.

Histórico de tentativas low-cost no Brasil
O Brasil já registrou algumas tentativas de aplicação do modelo low-cost. Essas iniciativas buscaram replicar estratégias de redução de custos e ofertas de tarifas mais baixas, o que, em determinados momentos, resultou em um aumento significativo no volume de passageiros, evidenciando a sensibilidade da demanda ao preço no mercado nacional. No entanto, apesar dessa resposta positiva, tais experiências não conseguiram se sustentar no longo prazo, enfrentando limitações operacionais e financeiras que comprometeram sua continuidade. Dessa forma, evidencia-se que o principal entrave ao modelo low-cost no Brasil é relacionado ao mercado nacional em si.
Algumas das principais tentativas de implementação do modelo low-cost no Brasil evidenciam as dificuldades estruturais do mercado em sustentar essa estratégia no longo prazo. Casos como o da Webjet Linhas Aéreas e da Gol Linhas Aéreas ilustram esse cenário: enquanto a primeira não conseguiu manter sua operação de forma independente, a segunda iniciou suas atividades com um modelo inspirado em companhias low-cost internacionais, mas gradualmente migrou para uma estrutura híbrida, combinando eficiência de custos com aumento de receitas e maior oferta de serviços. Ainda assim, essas experiências demonstraram que há, de fato, uma demanda relevante por transporte aéreo de baixo custo no país, especialmente perceptível em períodos de redução tarifária, nos quais se observa forte expansão no volume de passageiros. No entanto, a incapacidade de sustentar esse modelo ao longo do tempo indica que o principal desafio não está na demanda, mas sim nas limitações operacionais e estruturais do setor aéreo brasileiro.
Entre os principais fatores que evidenciam as limitações estruturais do mercado brasileiro, o caso da Webjet é particularmente ilustrativo. A companhia, que operava com uma proposta de baixo custo, enfrentou dificuldades crescentes para sustentar suas operações diante de um ambiente marcado por elevada carga tributária, custos operacionais rígidos e baixa margem para ganhos de eficiência. Executivos e analistas do setor frequentemente apontaram que o alto custo do combustível, somado às tarifas aeroportuárias e à complexidade regulatória, comprometia a competitividade do modelo. Além disso, aspectos como a rigidez das leis trabalhistas e o peso das obrigações relacionadas aos direitos do consumidor ampliavam os custos fixos, reduzindo a flexibilidade necessária para operar com tarifas reduzidas. A própria limitação de escala e a concentração da demanda em poucos mercados dificultavam a diluição desses custos. Nesse contexto, a empresa acabou sendo incorporada pela Gol, que já não atuava mais como low-cost, refletindo não apenas fragilidades internas da empresa, mas também como esses fatores estruturais exercem um impacto decisivo sobre a viabilidade de modelos low-cost no Brasil.
O que é preciso mudar?
A viabilização de companhias low-cost no Brasil depende não apenas da demanda, mas de ajustes estruturais na cadeia aeroviária brasileira, permitindo a redução de custos, aumento de previsibilidade e ampliação da flexibilidade operacional do setor. Nesse contexto, três fatores se destacam como centrais para a viabilização desse modelo no país: a redução da carga tributária incidente sobre o setor, a simplificação do ambiente regulatório e o aumento da previsibilidade cambial.
A redução da carga tributária, especialmente sobre o querosene de aviação (QAV), representa uma das principais alavancas para diminuição dos custos operacionais. Atualmente, o combustível corresponde a uma parcela significativa dos custos das companhias aéreas no Brasil, sendo impactado por tributações estaduais e variações de preço. Nesse cenário, a redução de impostos teria efeito direto na diminuição do CASK, ampliando a viabilidade de práticas tarifárias mais agressivas, fundamentais ao modelo low-cost.

Além disso, a simplificação do ambiente regulatório é essencial para aumentar a eficiência operacional do setor. Processos mais ágeis, maior flexibilidade contratual e redução de entraves burocráticos permitiriam às companhias adaptar suas operações com maior rapidez e menor custo. Em mercados mais desenvolvidos, como o europeu, a maior flexibilidade regulatória possibilita negociações mais eficientes com aeroportos e operadores, favorecendo a redução de custos e a expansão de modelos de baixo custo.
Outro fator que limita a implementação do modelo low-cost no Brasil é a elevada exposição cambial das companhias aéreas. Grande parte dos custos do setor, como combustível, leasing e manutenção, é atrelada ao dólar, enquanto as receitas são majoritariamente geradas em moeda local, criando uma assimetria que aumenta a volatilidade financeira e dificulta o planejamento de longo prazo. Nesse contexto, mais do que depender de uma maior estabilidade macroeconômica, variável pouco controlável pelas empresas, torna-se essencial a adoção de estratégias que reduzam essa exposição, como políticas de hedge cambial⁵, diversificação de receitas em moeda forte e estruturas operacionais mais flexíveis. Ainda assim, é importante destacar que o modelo low-cost tende a prosperar em ambientes com menor volatilidade cambial, nos quais há maior previsibilidade de custos e, consequentemente, maior capacidade de sustentar tarifas reduzidas de forma consistente.
Conclusão
A ausência de companhias aéreas low-cost relevantes no Brasil não pode ser explicada pela falta de demanda, mas sim por um conjunto de fatores estruturais que limitam a viabilidade desse modelo no país. É possível compreender que elementos como a elevada carga de custos, especialmente relacionada aos combustíveis, a concentração da infraestrutura aeroportuária, a dinâmica competitiva do setor e o histórico de tentativas malsucedidas criam um ambiente operacional incompatível com as premissas do modelo low-cost.
Nesse contexto, torna-se evidente que a implementação desse modelo não depende de iniciativas isoladas por parte das empresas, mas sim de uma reestruturação do setor aéreo brasileiro como um todo. A redução de impostos, a simplificação regulatória e o aumento da previsibilidade econômica surgem como condições necessárias para a construção de um ambiente mais eficiente e competitivo.
Assim, embora o Brasil apresente um elevado potencial para o desenvolvimento de companhias aéreas low-cost, as condições atuais não permitem a estabilidade de empresas que atuem nesses moldes. Dessa forma, o setor não depende apenas da entrada de novos players, mas sobretudo de uma evolução estrutural do mercado nacional como um todo.
Glossário
Market Share: Porcentagem das vendas ou receitas totais de um setor que uma empresa específica detém
CASK - Custo por Assento-Quilômetro: Indicador da aviação que mede o custo operacional dividido pelo total de assentos-quilômetro oferecidos
Leasing: Arrendamento de aeronaves, onde uma empresa disponibiliza o avião para uma companhia aérea mediante pagamentos mensais
QAV: Querosene de Aviação, combustível derivado do petróleo usado em motores a reação, como turboélices
Hedge Cambial: Estratégia financeira de proteção, semelhante a um seguro, que visa neutralizar os efeitos da oscilação do dólar ou outras moedas sobre investimentos, dívidas ou receitas, fixando uma taxa de câmbio para datas futuras
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