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O dilema do bitcoin: ativo de risco ou reserva de valor?

Fonte: Magnific
Fonte: Magnific

Cada crise econômica global coloca o dinheiro em prova. Quando bancos quebram, moedas desvalorizam e governos imprimem dinheiro em grandes volumes, a pergunta que emerge é a mesma: onde e como guardar valor? Durante séculos, a resposta foi o ouro, estável, escasso e imune a decisões de qualquer governo. Entretanto, hoje uma nova opção se apresenta com uma retórica sedutora: o Bitcoin e as criptomoedas em geral. Descentralizadas, matematicamente escassas e operando fora do sistema financeiro tradicional, essas moedas digitais têm sido pintadas como o "ouro do século XXI": a reserva de valor ideal para um mundo instável. Contudo, quando a instabilidade é real e o pânico toma o mercado, os dados revelam um ativo que, com frequência, se comporta de maneira oposta ao que a narrativa teórica promete. A questão central não é se as criptomoedas têm valor, a indagação correta é: elas realmente cumprem a função de ativo protetor do capital?

A promessa da descentralização

A proposta original do Bitcoin, lançada em 2009 por Satoshi Nakamoto em plena crise financeira global, era tecnicamente inovadora e politicamente radical: criar uma moeda que nenhum governo pudesse confiscar, nenhum banco central pudesse inflar e nenhuma fronteira pudesse bloquear. A princípio, um dos mecanismos que garante essa promessa é o halving¹, que é, resumidamente, a diminuição da oferta de Bitcoins. Após o último halving, em abril de 2024, a emissão anual caiu para menos de 1% ao ano, patamar inferior à inflação do ouro, que historicamente gira entre 1,5% e 2% ao ano com a mineração contínua, segundo dados da Hashdex. No papel, essa escassez programada é o sonho de qualquer investidor em busca de proteção patrimonial.



Essa ideia de impedir o controle da moeda pelas instituições financeiras clássicas ganhou protagonismo em economias onde o sistema financeiro tradicional falhou de maneira catastrófica em momentos específicos. Na Argentina, a inflação de 211% em 2023 e o controle monetário levaram a população a recorrer a mercados paralelos, conhecidos como "cavernas de cripto", para trocar pesos por stablecoins² em dólar. Na Venezuela, o cenário foi ainda mais extremo: com uma hiperinflação que ultrapassou 1.000% ao ano em determinados períodos, muitas pessoas passaram a utilizar o USDT³ integrado ao Mercado Pago para realizar compras diárias, desde alimentos até serviços básicos. Nesses contextos, a cripto não foi especulação, foi mecanismo de sobrevivência financeira. O cidadão que guardou suas economias em Bitcoin ou em stablecoins dolarizadas preservou poder de compra enquanto vizinhos que confiaram na moeda local viram suas reservas evaporarem em semanas. 

Contradição quando o colapso é sistêmico

O problema principal, porém, é quando a crise não é local, mas sistêmica, pois quando o pânico se alastra por mercados globais simultaneamente, o comportamento das criptomoedas muda de forma drástica. Entre 2022 e 2025, quando a economia global passava pelos desdobramentos da pandemia, o dado empírico apontou que o Bitcoin não agiu como um porto seguro estável em momentos de aversão ao risco combinada com desvalorização cambial. Pelo contrário, sua volatilidade explodiu em sintonia com o mercado de ações de tecnologia e toda a narrativa de ‘porto seguro’ foi pelos ares. 

O funcionamento por trás desse comportamento é institucional, ligado à movimentação básica dos principais profissionais do mercado financeiro mundial. Quando o cenário macroeconômico aperta, a ordem das grandes gestoras é liquidar posições mais voláteis para buscar segurança em reservas de valor, afetando tanto ações de crescimento quanto criptomoedas. Em outras palavras, quando o Bitcoin foi incluído na mesma categoria de risco que as ações da Nasdaq4, deveria apresentar uma variação similar aos outros ativos. Isso porque, quando gestores de fundos precisam de liquidez, vendem ambos ao mesmo tempo. Entretanto, a movimentação do Bitcoin não corrobora com essa linha de raciocínio, reforçando o caráter volátil, imprevisível e consequentemente arriscado da criptomoeda.



O contraste com o ouro é determinante. Quando o Bitcoin despencou em agosto de 2024, o ouro registrou queda mais leve, de menos de 2%, e no acumulado do mês apresentou saldo positivo, em linha com a tendência histórica de valorização do metal em momentos de aversão a riscos. Essa diferença de comportamento não é estrutural: o ouro tem milênios de história como reserva de valor e carrega uma liquidez global que prescinde de infraestrutura tecnológica, conexão à internet ou confiança em plataformas digitais. Segundo análise do Goldman Sachs, mesmo com o Bitcoin tendo apresentado retorno absoluto superior ao do ouro em 2024, o metal precioso saiu na frente quando o critério é o retorno ajustado ao risco. Isso significa que a proposta descentralizadora inicial da criptomoeda veio acompanhada de uma latência inerente, escapando ao objetivo de ser uma reserva de valor resistente e à parte do sistema tradicional. 

O problema da confiança: quando o porto seguro afunda

Se a volatilidade do Bitcoin frente ao mercado já coloca em xeque a narrativa do porto seguro, o histórico de colapsos internos do ecossistema cripto levanta uma segunda camada de risco, inerente ao próprio sistema em si. Nesse sentido, o ano de 2022 foi o teste mais severo, em maio, o ecossistema Terra/Luna5 implodiu em questão de dias: em apenas sete dias, o Luna caiu de US$ 100 para menos de US$ 0,002, eliminando US$ 45 bilhões do mercado. A stablecoin algorítmica6 TerraUSD, projetada justamente para ser estável, perdeu sua paridade com o dólar e arrastou consigo a confiança em toda a categoria. Meses depois, em novembro, a FTX, uma das maiores exchanges7 do mundo, declarou falência, varrendo consigo cerca de 132 empresas que pertenciam ao grupo e deixando investidores com cerca de US$ 9 bilhões em prejuízos. Sendo assim, nota-se que a paridade inicial com o dólar não era uma realidade e confirma-se a suspeita de um grau de risco como pilar estruturante desse modelo.



O episódio das stablecoins algorítmicas é particularmente revelador porque expõe uma contradição fundamental: o instrumento criado para resolver o problema da volatilidade das criptos e torná-las úteis como reserva de valor  carrega, por sua própria estrutura, o risco de implosão. O colapso do protocolo Terra demonstrou que as stablecoins algorítmicas, ao não manter fundos de garantia em excesso para assegurar a paridade com o dólar, tornam-se totalmente dependentes da teoria dos jogos8. Ou seja, quando a desconfiança se instala, a "corrida para a saída" é inevitável, exatamente o fenômeno que as reservas de valor tradicionais foram construídas para evitar. 

A institucionalização e o paradoxo da maturidade

Há, contudo, uma transformação em curso que complica qualquer veredito definitivo: o Bitcoin está sendo progressivamente abraçado pelo mesmo sistema financeiro do qual prometia ser a alternativa. Em janeiro de 2024, a aprovação dos ETFs9 de Bitcoin à vista nos EUA foi um divisor de águas. Esses fundos negociados em bolsa acumularam US$ 170 bilhões em ativos sob gestão no pico de 2025, segundo dados da Grayscale, permitindo exposição ao BTC sem os desafios técnicos de custos diretos. Atualmente, cerca de 7% do total de Bitcoins que podem existir (21 milhões) são detidos por ETFs, de acordo com a CoinDesk. Por um lado, essa simetria com o sistema de mercado já estabilizado pode reduzir o risco da operação de criptoativos. Por outro lado, foge à proposta inicial de ruptura com o sistema tradicional, firmando um caráter ambíguo na posição dessa variação de investimento no mercado atual.

Ainda nesse contexto, o número de endereços com mais de 100 BTC atingiu o maior nível desde 2021, segundo dados da Glassnode, enquanto o saldo de Bitcoin nas exchanges caiu para o menor patamar em três anos. Isso sinaliza que investidores estão transferindo moedas para custódia fria com intenção de manter posições de longo prazo. Esse comportamento é exatamente o que se observa com o ouro físico: quem compra como proteção patrimonial não especula, guarda. O JPMorgan passou a recomendar a coexistência de ambos os ativos nas carteiras, algo impensável há três anos, quando nenhum grande banco sequer considerava o Bitcoin na composição da cesta de investimentos. Essa é mais uma evidência da aproximação da moeda com outros ativos existentes, que remonta ao paradoxo entre apoiar-se no tradicional estável ou manter o caráter disruptivo e mais arriscado.



Considerando um cenário em que a volatilidade do Bitcoin permaneça estabilizada, a discussão acerca da viabilidade do criptoativo como porto seguro financeiro muda de contexto. Talvez seja apenas uma questão de tempo de amadurecimento até que essa categoria de investimentos se torne uma verdadeira reserva em tempos de instabilidade. Embora a situação atual direcione o debate para longe dessa possibilidade, é essencial considerar que o mercado não é estático e eventualmente novas oportunidades podem surgir. Portanto, uma resposta definitiva acerca da segurança desse ativo é, no mínimo, imprecisa. 

Regulação: o fator transformador sem lado definido

A regulamentação das criptomoedas está em movimento acelerado em todas as direções ao mesmo tempo, protagonizando mudanças abruptas ao redor do planeta. Na Europa, o regulamento MiCA (Markets in Crypto-Assets) estabeleceu o primeiro arcabouço unificado para criptoativos do bloco, impondo exigências de transparência e solvência sobre emissores de stablecoins e plataformas de negociação. No Brasil, o Banco Central publicou, em novembro de 2025, as Resoluções nº 519, 520 e 521, que estruturam o regime de autorização, funcionamento, governança, gestão de riscos, supervisão e reporte dos prestadores de serviços de ativos virtuais, exigindo que todas as corretoras e custodiantes operem com autorização formal.



Nesse sentido, a regulação é uma faca de dois gumes para a tese da reserva de valor. Por um lado, a supervisão reduz o risco sistêmico, pois o tipo de colapso que aconteceu com a FTX e o Terra/Luna torna-se mais difícil em um ambiente onde separação patrimonial e transparência são obrigatórias. Por outro lado, um ativo que precisa de autorização governamental para operar deixa de ser a alternativa fora do sistema que justificou sua criação. A questão que permanece em aberto é se uma cripto regulada preserva o suficiente de seus atributos originais para seguir sendo uma reserva alternativa, ou se é convertida, preservando apenas o risco, e não mais a ruptura institucional que lhe deu origem. 

A pergunta sem resposta definida: para quem e em qual crise?

Como evidenciado anteriormente, é impossível tratar o tema como se houvesse uma resposta universal. Além das inúmeras nuances que afetam a movimentação dessa classe de ativos, as constantes mudanças que ocorrem no cenário das criptomoedas impossibilitam qualquer definição nesse momento. A realidade é que o desempenho das criptomoedas em momentos de instabilidade depende profundamente do tipo de crise, do horizonte de tempo e do perfil de quem está buscando proteção.

Nesse contexto, para o cidadão argentino que enfrenta hiperinflação local, o Bitcoin ou o USDT foram, em múltiplos momentos, superiores a qualquer alternativa disponível dentro do sistema financeiro local. Para o fundo de pensão europeu que precisava de liquidez durante o colapso das bolsas em 2022, o Bitcoin foi um ativo insuficiente : caiu junto com o portfólio e ainda acrescentou volatilidade. Para o investidor institucional com horizonte de dez anos e disposição para suportar drawdowns10 de 40%, os dados históricos de longo prazo mostram retornos expressivos, mas com um perfil de risco que exige estômago e convicção fora do comum.

Em relação a outros ativos, o mercado global de reserva de valor, que inclui ouro, imóveis, títulos soberanos e obras de arte, está avaliado em cerca de US$ 40 trilhões hoje. Para que um Bitcoin atinja o valor de US$ 1 milhão, ele precisaria capturar apenas 17% desse mercado expandido, partindo dos menos de 4% que representa atualmente. O argumento é matematicamente coerente, mas ignora que capturar 17% de um mercado dominado por ativos com séculos de legitimidade pressupõe uma mudança histórica de confiança financeira que permanece em disputa. 

Conclusão: a escolha que ainda está em construção

O que os dados permitem afirmar com alguma segurança é que a questão "criptomoeda é uma boa reserva de valor?" não tem resposta no singular. Ela tem respostas, no plural, condicionadas por variáveis que nenhum modelo captura completamente: o tipo de instabilidade, a jurisdição do investidor, o horizonte de tempo, a infraestrutura regulatória disponível e a tolerância ao risco de quem precisa de proteção. O mercado global ainda está respondendo a essas perguntas em tempo real e qualquer conclusão prematura corre o risco de ser desmentida por um próximo evento. Logo, o debate não está encerrado e essa ambiguidade, por si só, já diz algo importante sobre o estágio de maturidade em que esse ativo se encontra. Atualmente, as criptomoedas ainda não configuram um porto seguro financeiro plenamente confiável, mas o próprio fato de essa possibilidade permanecer em aberto revela que o mercado ainda está definindo qual será o lugar desses ativos na arquitetura financeira global. 

Glossário 

  1. Halving: a cada quatro anos, a emissão de novos Bitcoins é cortada pela metade, até que o limite absoluto de 21 milhões de unidades seja atingido. Esse mecanismo é uma proposta para resolver o problema da inflação por constante emissão de moeda.

  2. Stablecoins: criptomoedas projetadas para manter valor estável ao longo do tempo, geralmente atreladas a uma moeda fiduciária como o dólar americano.

  3. USDT (Tether): a stablecoin mais negociada do mundo, emitida pela empresa Tether e lastreada em reservas reais de dólares americanos. Cada unidade de USDT é projetada para valer exatamente US$ 1,00, funcionando como um "dólar digital" amplamente utilizado em transações e como proteção contra a volatilidade de outras criptomoedas. 

  4. Nasdaq: segunda maior bolsa de valores do mundo, sediada em Nova York. O artigo faz referência ao índice Nasdaq, que basicamente engloba todas as ações negociadas na bolsa. 

  5. Terra/Luna: ecossistema de blockchain criado em 2018 que operava por meio de duas moedas interdependentes: a LUNA, criptomoeda nativa da rede, e a TerraUSD (UST), uma stablecoin algorítmica atrelada ao dólar. 

  6. Stablecoin algorítmica: tipo de stablecoin que mantém sua paridade com o dólar não por meio de reservas reais, mas por mecanismos matemáticos automatizados que regulam a oferta do ativo. Por não contar com lastro tangível, é estruturalmente mais frágil e vulnerável a colapsos em cascata quando a confiança dos usuários se rompe. 

  7. Exchanges: plataforma digital que permite a compra, venda e troca de criptomoedas, funcionando como uma corretora do mercado de ativos digitais. Pode ser centralizada, operada por uma empresa privada com custódia dos fundos dos clientes, ou descentralizada, operando por contratos inteligentes sem intermediários. 

  8. Teoria dos jogos: Campo da matemática e da economia que estuda como agentes racionais tomam decisões em situações de interdependência, ou seja, quando o resultado de cada escolha depende também das escolhas dos outros. No contexto das stablecoins algorítmicas, a estabilidade do sistema só se sustenta enquanto todos os participantes acreditam que os demais também vão sustentá-la. 

  9. ETFs: fundo de investimento negociado em bolsa que replica o desempenho de um ativo subjacente. No caso dos ETFs de Bitcoin, permite ao investidor ter exposição à criptomoeda por meio de uma corretora tradicional, sem a necessidade de custodiá-la diretamente em uma carteira digital. 

  10. Drawdowns: queda percentual do valor de um ativo ou portfólio a partir de seu pico histórico até um ponto mínimo subsequente. Métrica central para avaliar o risco de um investimento: quanto maior o drawdown máximo registrado, maior a perda que o investidor precisou suportar antes de uma eventual recuperação. 



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