Big Data: uma ameaça à privacidade?

Atualizado: 15 de Jan de 2019

Atualmente, alguns conceitos como Big Data, Inteligência Artificial e Machine Learning podem parecer complexos e futuristas demais para nos preocuparmos. No entanto, não é à toa que o período atual é chamado de “Era da informação”. Esse futuro já está acontecendo, e, hoje, o commodity mais valioso não são especiarias, nem ouro, nem petróleo; é a própria informação. Nesse contexto, tente pensar que todo tempo que você passa na internet, você está deixando rastros. Não só você, como bilhões de pessoas ao redor do mundo, o que cria uma imensa base de dados com informações sobre cada um de nós, como nossos interesses e nossa rotina. Essa base de dados nada mais é do que o conceito de Big Data.



Assim, as mais diversas ações diárias da sociedade (desde publicações nas redes sociais a movimentações financeiras) tornaram-se dados valiosos para as empresas, que podem utilizá-los para conhecer melhor seus clientes, entender seu comportamento de compra e até prever uma crise no setor.


As séries sugeridas pela Netflix, a playlist feita com suas músicas preferidas no Spotify, os matchs do Tinder, o melhor caminho dado pelo Waze. Tudo isso é feito por um algoritmo que utiliza seus dados para identificar traços da sua personalidade e hábitos, com o intuito de direcionar o seu consumo. Na verdade, as possibilidades de aplicação de Big Data vão muito além da experiência do cliente. É possível, por exemplo, usar essa tecnologia para aumentar a eficiência das campanhas de marketing, reduzir custos, otimizar processos e até prever movimentos de mercado antes da concorrência.


E se uma empresa detivesse todas essas informações? Saber onde vivemos, o que nós gostamos, o que não gostamos, quem são nossos amigos, como é nossa aparência e o que fazemos. Ela teria um enorme poder sobre a sociedade, e potencial para influenciar decisões de cunho político, comercial e social, certo?. Bom, é possível imaginar empresas com esse perfil, sem muito esforço, apenas percebendo o quão enraizadas elas estão em nossas vidas. É o caso, por exemplo, do Facebook, rede social usada por mais de 2 bilhões de pessoas no mundo, e que tem uma base de dados de mais de 300 PetaBytes. Para dar uma melhor noção de tamanho, se fôssemos digitalizar livros, apenas 2 PetaBytes seriam suficientes para armazenar toda a produção acadêmica dos Estados Unidos.


Mas com grandes poderes…

Vêm grandes responsabilidades. Como mencionado anteriormente, essas informações são de extremo valor para outras empresas, que, por sua vez, não medirão esforços para ter acesso a eles. E tudo se torna ainda mais complexo porque, apesar de toda a informação ir para um único grande centro, a origem dela é muito descentralizada, pois pode vir de qualquer aplicativo conectado a ele. Assim, toda vez que nos cadastramos em um site, mas, por preguiça, usamos o login do Facebook em vez de preencher todas as informações, estamos fornecendo dados do site para o Facebook e, o que é mais perigoso, do nosso perfil para esse site. E foi aí que surgiu o recente escândalo envolvendo o Facebook e a Cambridge Analytica.


O Escândalo

A Cambridge Analytica é uma empresa de consultoria política britânica que combina coleta e análise de dados com comunicação estratégica, para ajudar em processos eleitorais. Nas eleições americanas de 2016, eles foram contratados pela equipe de Trump para ajudar em sua campanha. Assim, para coletar dados sobre possíveis eleitores, a empresa criou um aplicativo, em forma de quiz, conectado ao Facebook. Como qualquer outro aplicativo do tipo, quando conectado, ele tinha acesso ao perfil de seus usuários e, por consequência, também de seus amigos.


O problema foi a ingenuidade (e displicência) de Zuckerberg na transmissão dessas informações, pois ele não pensou no impacto que um uso delas em larga escala poderia causar. Cerca de 300 mil pessoas foram pagas para fazer o teste de personalidade e fornecer seus dados. Só que elas foram usadas para coletar dados de outros, e isso virou um banco de 87 milhões de pessoas, que não faziam ideia que estavam sendo envolvidas em campanhas políticas. Esses dados foram usados, por exemplo, para direcionar propagandas sensacionalistas sobre a Hillary a eleitores indecisos, influenciando sua escolha. E, pelo resultado final, parece que foi bem eficiente.


Então… de quem é a culpa?

Teoricamente, ninguém é totalmente culpado. O Facebook, de fato, não tinha a intenção de fornecer esses dados e compactuar com essa campanha. A Cambridge Analytica, de fato, não usou nenhum meio ilegal para conseguir as informações. E os usuários não faziam ideia do que estavam fazendo parte.


Muitos podem sentir raiva por terem suas informações usadas sem consentimento para os interesses de uma empresa. Porém, a triste verdade é que nós consentimos, apenas não prestamos atenção. Na verdade, é injusto colocar tudo na mão do usuário, porque ele não pode negociar individualmente condições de uso e acaba refém de entregar dados às plataformas para se conectarem ao mundo. O Facebook até te lembra regularmente que você deve atualizar as configurações de privacidade, e pede permissão para ter acesso às suas informações, mas boa parte dos usuários não lê os termos e segue usando sem se preocupar.


Big Data, portanto, é um meio de manipular as pessoas?

Não exatamente. Nesse caso, pode ser, mas assim como muitas outras tecnologias revolucionárias, também pode ser explorado de diferentes formas, e tem diversas outras aplicações positivas para o ser humano. Um bom uso dele, principalmente quando em conjunto à Inteligência Artificial, se apoia em três principais objetivos:


  • Foco no processamento de dados estruturados e não estruturados, bem como nas correlações e descobertas que desse processamento podem aparecer;

  • Análise do que já existe e o que está por vir, apontando novos caminhos;

  • Ideal para quando se quer explorar novas possibilidades, descobrir novos padrões e explorar perguntas que ainda não haviam sido feitas.


No âmbito da segurança, por exemplo, um homem foi preso na China após ser identificado por câmeras de segurança com sistema de reconhecimento facial. Ele estava no meio de uma multidão que assistia a um show. Da mesma forma, na área de medicina, é possível prever e identificar doenças analisando os resultados de exames e os comparando com uma base histórica de dados, entre inúmeras outras possibilidades de aplicação.


O que, então, devemos fazer a respeito?

Apagar nossas contas nas redes sociais? Renunciar à internet e se mudar para uma caverna? Nada disso é necessário. Precisamos, simplesmente, ficar atentos. O caso apresentado foi apenas uma demonstração do quão sensível é um vazamento de informações, mesmo que sem nenhuma ação ilegal, e o quão impactantes podem ser suas consequências no rumo da história moderna. Agora, imaginem na ilegalidade, para roubar, chantagear ou forjar fraudes. Muito mais perigoso, não é mesmo? Nós estamos tendo a oportunidade de aprender com a primeira opção, em que não houve uma violação direta de nenhum indivíduo, e devemos aproveitá-la para ponderar: Quando é realmente necessário abrir mão da privacidade para obter facilidades no cotidiano?


Segundo Christopher Wylie, ex-funcionário da Cambridge Analytica que delatou boa parte do escândalo, “Os dados em si não são o problema. Há coisas incríveis que podemos fazer com eles. Mas o que a Cambridge Analytica expôs é o fracasso, não só de nossos legisladores, mas de nós mesmos como sociedade, de impor os limites. É importante que as pessoas vejam que não é algo abstrato, mas que tem impactos tangíveis.”

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