Da cana ao milho: a virada silenciosa do etanol brasileiro
- Arthur Prates

- 19 de jul.
- 16 min de leitura

Desde o início da colonização, a cana-de-açúcar foi a base da produção agrícola brasileira. Não à toa, foi a ela que o país recorreu quando, em 1975, a crise mundial do petróleo expôs a fragilidade de uma matriz nacional de transportes dependente de importação. Nasceram ali diversas políticas públicas que transformaram o etanol de cana em política de Estado.
No entanto, os números da safra 2025/26 revelam que essa base começou a trocar de protagonista. Nesse intervalo, a produção nacional de etanol bateu recorde, mas quem sustentou a marca não foi a cana: enquanto o etanol de cana recuou 6,9%, o etanol de milho avançou 29,8% e já responde por cerca de 27% de toda a produção do país, conforme a Conab. Em outras palavras, um grão sem tradição alguma no combustível brasileiro conquistou, em poucos anos, um quarto do mercado nacional. Por trás dessa virada há três forças principais: um custo de produção menor, uma operação industrial mais eficiente e uma demanda garantida por lei, no caso a mistura obrigatória de etanol na gasolina.
Portanto, resta a seguinte questão: essa conquista representa uma solução duradoura para a matriz energética brasileira ou apenas a troca de uma dependência histórica por outra mais recente?
A era de ouro da cana
Para compreender a posterior queda, é preciso primeiro entender as origens do domínio que a cana exerceu sobre o etanol brasileiro por meio século, um domínio que nasceu não de uma vantagem de mercado, mas de uma decisão de governo. O Proálcool, lançado em 1975 como resposta à crise mundial do petróleo, foi uma medida do Estado brasileiro para construir um mercado praticamente do zero. Isso aconteceu por meio de subsídios à produção, da obrigatoriedade de mistura na gasolina, da ampliação da rede de distribuição e do lançamento de veículos movidos exclusivamente a álcool. O programa, contudo, não se sustentou apenas pelo dinheiro público: com o ganho de escala e o amadurecimento tecnológico, o etanol de cana adquiriu competitividade própria, a ponto de sobreviver à retirada gradual dos subsídios a partir dos anos 1990. Assim, consolidou-se como o principal combustível renovável da frota de veículos leves brasileira.
Além disso, outro fator impulsionou o mercado: o carro flex. Lançado em 2003, o motor flex funciona tanto com gasolina quanto com etanol, o que permitiu ao consumidor decidir, a cada abastecimento, qual combustível valia mais a pena. A adoção foi tão ampla que, em determinados períodos, o etanol chegou a responder por mais de 45% de toda a energia consumida pela frota leve do país, de acordo com a FGV Agro, como mostra o gráfico abaixo. Entretanto, esse marco trazia consigo uma fragilidade que o setor demoraria a enxergar: a mesma liberdade de escolha que funciona a favor de uma matéria-prima pode funcionar contra ela, basta que sua vantagem de preço desapareça.

Sobre essa base histórica, a cana estabeleceu ainda dois trunfos estruturais. O primeiro foi a autossuficiência energética: ao ser moída, a cana deixa como resíduo o bagaço¹, que as usinas queimam para gerar o vapor e a eletricidade de todo o processo produtivo. Cada unidade industrial se tornou praticamente independente de fontes externas de energia, de modo que qualquer alternativa que viesse a disputar esse mercado carregaria um custo extra que a cana não tem: o de comprar fora a energia necessária para operar. O segundo trunfo foi a arbitragem entre açúcar e etanol. Como uma mesma tonelada de cana pode virar açúcar ou etanol, as usinas ajustam essa proporção a cada safra conforme qual dos dois produtos paga mais. Na prática, o mecanismo funciona como um seguro de receita: quando o preço de um cai, a alta do outro costuma compensar a perda. No entanto, esse modelo depende de uma premissa raramente testada, a de que açúcar e etanol não perderiam valor ao mesmo tempo.
Sobre essa base histórica, a cana construiu ainda um trunfo industrial: a autossuficiência energética. Ao ser moída, a cana deixa como resíduo o bagaço¹, que as usinas queimam para gerar o vapor e a eletricidade necessários a todo o processo produtivo. Assim, cada unidade fabril tornou-se praticamente independente de fontes externas de energia e muitas, inclusive, passaram a vender o excedente à rede elétrica. Trata-se, contudo, de uma vantagem da cana enquanto matéria-prima, e não do etanol como categoria. Dessa forma, qualquer alternativa que viesse a disputar esse mercado carregaria então um custo extra que a cana não tem: o de comprar fora a energia necessária para operar.
Por fim, a cana oferecia um mecanismo de proteção comercial que nenhuma outra cultura replicava: a arbitragem entre açúcar e etanol. Sabendo que uma mesma tonelada de cana pode virar açúcar ou etanol, as usinas ajustam essa proporção a cada safra, conforme qual dos dois produtos paga mais. Pensando de forma prática, funciona como um seguro de receita: quando o preço de um cai, a alta do outro costuma compensar a perda. No entanto, esse modelo depende de uma premissa raramente testada, a de que açúcar e etanol não perderíam valor ao mesmo tempo.
A crise da cana e a ascensão silenciosa do milho
Antes de descrever a crise, é necessário enfatizar que a cana-de-açúcar não está desaparecendo do território brasileiro: a moagem² da safra 2025/26 permaneceu praticamente estável, em torno de 673 milhões de toneladas, de acordo com a Conab. O que recua, na verdade, é a rentabilidade de transformá-la em etanol, e isso ocorre por três fraturas principais no sistema: o encarecimento da produção pelo clima, a queda conjunta dos preços do açúcar e do etanol e a preferência do consumidor pela gasolina na bomba.
Em relação à primeira fratura, a seca e as queimadas de 2024 reduziram a produtividade dos canaviais de cerca de 87 para 72 toneladas por hectare, conforme a Conab, além de comprometerem a qualidade do caldo extraído. Com menos cana saindo de cada hectare e menos açúcar em cada tonelada colhida, o custo fixo de produção subiu justamente no momento em que a receita por unidade caía. Mais do que encarecer uma safra, o choque expôs uma vulnerabilidade estrutural: a arbitragem protege a usina contra oscilações de preço, mas não oferece proteção alguma quando o problema está na disponibilidade física da matéria-prima.
A segunda fratura atingiu exatamente o mecanismo que deveria proteger o setor. Em 2025, o preço internacional do açúcar caiu mais de 20%, a queda mais acentuada desde 2018, pressionado pela retomada das exportações indianas e pelo petróleo em patamar baixo, segundo o AgFeed. O etanol, que deveria compensar essa perda, também recuou: o Indicador CEPEA/Esalq do etanol hidratado³, a versão vendida pura nas bombas, acumulou semanas consecutivas de desvalorização, movimento agravado pelo corte de 4,9% no preço da gasolina promovido pela Petrobras em outubro. Foi a primeira vez em anos que os dois lados da equação se deterioraram juntos, conjuntura para a qual o sistema de compensação não foi planejado, como evidencia o gráfico abaixo. A reação das usinas comprova o aperto: sem margem em nenhum dos dois produtos, elas destinaram ao açúcar a maior fatia de cana da história, 52,9% da moagem em setembro, de acordo com a Unica, simplesmente por ser este o refúgio menos ruim.

Junto a isso, a terceira fratura não está nas usinas, e sim na bomba de combustível. O etanol hidratado é produzido majoritariamente a partir da cana, o que torna essa matéria-prima especialmente dependente da escolha do motorista. Essa escolha, por sua vez, segue uma regra simples: como o etanol rende cerca de 70% da energia da gasolina, só compensa abastecer com ele quando seu preço fica abaixo dessa proporção, limite ultrapassado na maior parte dos estados atualmente, conforme os levantamentos semanais da ANP. Dessa forma, a mesma liberdade de escolha do carro flex que impulsionou o etanol de cana no passado agora reduz sua demanda, numa frente em que o milho, voltado sobretudo ao etanol anidro⁴ misturado à gasolina, está muito menos exposto.
Como resultado combinado das três fraturas, o capital reagiu. Em 2025, as ações da Raízen, maior empresa do setor, acumularam perda de mais de 55% e chegaram à mínima histórica de R$ 0,84, segundo dados da Economatica, enquanto Jalles Machado e São Martinho também recuaram com força, como evidencia o gráfico abaixo. O dado mais revelador, porém, não é a queda em si, mas quem caiu menos: a São Martinho, justamente a companhia que mais avançou na diversificação para o milho, cuja nova operação já contribuiu com R$ 146 milhões de EBITDA em um único semestre, conforme o InvesTalk. Na prática, os investidores penalizaram menos as empresas que migram para o grão, um sinal claro de qual modelo o mercado considera mais viável daqui para frente.

A mudança de capital pro milho
Enquanto as três fraturas corroíam o modelo tradicional, um fenômeno paralelo se consolidava silenciosamente no Centro-Oeste. Desde 2020, o etanol produzido a partir do milho cresceu a uma taxa média de 33% ao ano, multiplicando por dez sua produção em uma década e alcançando 27% da produção nacional, segundo o InvestNews. O caso mais emblemático dessa ascensão é o da Inpasa. Em 2024, pela primeira vez na história, a maior produtora de etanol do Brasil deixou de ser a Raízen, gigante da cana controlada por Shell e Cosan, e passou a ser essa empresa de origem paraguaia que produz exclusivamente a partir do milho, com 3,7 bilhões de litros contra 3,1 bilhões da concorrente. Diante desse ritmo, a consultoria Datagro projeta que o etanol de milho igualará o volume produzido pela cana já em 2034.

Contudo, essa ascensão não surgiu do nada. Em 2012, a Usimat, uma destilaria alcoólica, instalou em Mato Grosso a primeira usina do país capaz de processar tanto cana quanto milho, alternando conforme a safra. Cinco anos depois, a FS, gigante do setor de biocombustíveis, inaugurou em Lucas do Rio Verde a primeira planta dedicada exclusivamente ao milho, importando dos Estados Unidos, maior produtor mundial da commodity, uma tecnologia já madura. Porém, essas iniciativas só fizeram sentido econômico porque encontraram uma base agrícola consolidada: o milho safrinha⁵, cultivado na mesma terra logo após a colheita da soja, sem abertura de novas áreas. É por essa razão que o Centro-Oeste concentra hoje 99,6% de toda a produção nacional de etanol de milho, de acordo com estudo do BNB e do ETENE.
A explicação mais direta para a migração de capital está no custo. Atualmente, produzir um litro de etanol de milho custa, em média, R$ 1,94, contra R$ 2,54 no caso da cana, de acordo com o BTG Pactual, uma vantagem de R$ 0,60 por litro, ou cerca de 24%. Em um mercado de commodity, essa diferença é crucial, pois o etanol é rigorosamente idêntico independentemente da matéria-prima, com o mesmo produto final e o mesmo preço de venda, de modo que nenhum comprador paga um centavo a mais pelo litro feito de cana. Toda a diferença, portanto, vira margem no bolso de quem produz com milho. Nesse sentido, aplicada aos 3,7 bilhões de litros anuais da Inpasa, essa vantagem representa mais de R$ 2 bilhões em custos evitados por ano.
Somada ao custo, há uma segunda vantagem, relacionada ao tempo útil de operação. O milho é um grão seco por natureza, capaz de permanecer armazenado em silos por meses sem perda relevante de qualidade, o que permite à indústria processá-lo ao longo de todo o ano. A cana, por sua vez, precisa ser moída poucas horas após o corte, sob pena de perder rendimento, o que restringe a operação das usinas a um período de seis a sete meses por safra. Na prática, enquanto a fábrica de etanol de milho dilui seus custos fixos em doze meses de receita, a usina de cana permanece ociosa por boa parte do ano, com o mesmo capital investido gerando retorno durante metade do tempo.
Junto a isso, a terceira vantagem do milho está na diversificação de receitas. Enquanto a cana obriga a usina a escolher entre açúcar e etanol, o milho entrega três produtos ao mesmo tempo a partir do mesmo grão: o etanol, o DDGS⁶ e o óleo de milho, além da energia elétrica gerada no processo. Atualmente, o DDGS já figura entre os produtos de exportação do setor, com a Inpasa respondendo sozinha por cerca de 95% de todo o volume exportado pelo país, conforme o NeoFeed. Cada tonelada processada sustenta, assim, três frentes de receita simultâneas. Mais do que uma vantagem acessória, isso funciona como uma proteção contra oscilações de preço muito mais robusta do que a arbitragem da cana, pois, se o preço do etanol cai, o farelo e o óleo seguram a margem.
Somado a tudo isso, deve-se considerar ainda um vetor político. Desde agosto de 2025, por força da Lei do Combustível do Futuro, toda a gasolina vendida no país passou a conter 30% de etanol anidro, usado exclusivamente na mistura com a gasolina, percentual conhecido como E30⁷ e com teto legal previsto de 35%, conforme o Ministério de Minas e Energia. Na prática, a lei criou uma demanda adicional e garantida por bilhões de litros, independentemente da escolha do consumidor na bomba. Coube ao milho, que dispunha de capacidade industrial recém-instalada e ociosa, ocupar boa parte desse espaço. Contudo, é preciso registrar que uma demanda criada por decisão estatal carrega, embutido nela mesma, o risco de ser revista por outra decisão de governo, uma lição que o setor de cana conhece desde os tempos do Proálcool e que o etanol de milho, por ora, parece disposto a repetir sem questionar.
Por fim, confirma-se a eficácia do novo modelo através do veredito do capital. Em 2024, a Inpasa ultrapassou a Raízen e planeja elevar sua produção a seis bilhões de litros anuais, um salto de mais de 60% sobre o volume atual. Por sua vez, a FS faturou R$ 10,7 bilhões em 2024, crescimento de 32% sobre o ano anterior, e viu a Amaggi, maior grupo do agronegócio nacional, adquirir 40% de seu capital por cerca de US$ 815 milhões em 2026, conforme o The AgriBiz. A própria Petrobras, protagonista do setor petrolífero nacional, negocia sua entrada no segmento, de acordo com apuração da Bloomberg. Portanto, o veredito já não vem apenas de projeções otimistas de consultoria, mas do comportamento efetivo do capital mais sofisticado do país, o mesmo que, como visto na seção anterior, já começou a migrar para o milho dentro das próprias usinas de cana.
O teste que ainda está por vir
O entusiasmo do mercado financeiro, contudo, reflete apenas o cenário atual, favorecendo a matéria-prima negociada hoje com alto volume e baixo custo. Resta, no entanto, uma pergunta distinta, e talvez mais decisiva para o futuro do setor: qual desses dois modelos está mais preparado para atravessar as instabilidades que ainda virão, sejam elas climáticas, comerciais ou políticas? Justamente ao se colocar essa pergunta, a vantagem do milho, tão evidente nos números apresentados até aqui, passa a revelar suas primeiras fragilidades.
O primeiro ponto de atenção está na energia que move as usinas. Diferentemente da cana, que resolve sua necessidade energética queimando o próprio bagaço, o milho não gera resíduo capaz de cumprir essa função. Dessa forma, as usinas dependem da compra de biomassa externa, sobretudo o cavaco de eucalipto⁸, madeira picada usada como lenha industrial, para alimentar suas caldeiras. O problema é que essa biomassa caminha para a escassez, dado que a demanda projetada deve saltar de cerca de 198 mil hectares de floresta plantada na safra atual para 436 mil hectares até 2030, mais do que o dobro de toda a área hoje plantada com eucalipto em Mato Grosso, segundo o The AgriBiz. Junto a isso, essa escassez já tem preço: desde 2019, quando as primeiras grandes usinas de milho entraram em operação, o metro cúbico do cavaco de eucalipto no estado saltou de R$ 30 para cerca de R$ 140, conforme a Girassol Agrícola, maior proprietária individual de florestas plantadas de Mato Grosso e fornecedora da FS. Como a energia é um dos principais custos operacionais da usina de milho, cada real a mais no cavaco corrói exatamente a vantagem de R$ 0,60 por litro que sustenta todo o modelo. Além disso, o sinal mais forte do gargalo já surgiu: diante da entrada de madeira oriunda de desmatamento nas caldeiras de algumas usinas, o Ministério Público de Mato Grosso propôs Termos de Ajustamento de Conduta⁹, acordos em que a empresa se compromete judicialmente a corrigir a irregularidade, sob pena de multa.

Além disso, a segunda fragilidade se encontra na demanda. Segundo a ANP, além das usinas já em operação, existem outras 18 em construção e mais 19 em fase de projeto, somando investimentos anunciados próximos de R$ 40 bilhões. O problema é que ninguém sabe ao certo quem vai comprar todo esse etanol. Atualmente, o consumo de combustíveis do ciclo Otto¹⁰, principal destino do etanol, cresce a um ritmo modesto de cerca de 2% ao ano. A exportação ainda é tímida e a fonte de demanda mais promissora, o mandato legal do E30, depende de decisão política: a ampliação para 35% já foi adiada em reuniões do Conselho Nacional de Política Energética. Portanto, o quadro que se forma é o de uma oferta industrial crescendo em ritmo muito superior ao de qualquer uma das três demandas que a sustentam, que são o consumo doméstico, a exportação e a própria lei.
Finalmente, a terceira fragilidade está na natureza do insumo. À primeira vista, cana e milho parecem iguais nesse ponto, afinal ambos alimentam pessoas e animais, seja na forma de açúcar, seja na de ração. A diferença está em quem disputa o produto. No caso da cana, a competição acontece dentro da própria usina, que escolhe o destino de cada tonelada e captura a receita tanto no açúcar quanto no etanol. No caso do milho, a disputa é externa: frigoríficos, granjas e indústria alimentícia concorrem com a usina pelo mesmo grão. Por isso, uma quebra de safra não apenas reduz a oferta, como eleva o preço do insumo justamente no momento em que a indústria mais precisa de estabilidade, corroendo a margem. O estudo do BNB e do ETENE lista essa flutuação como um dos principais desafios do setor, e ela reacende, ainda que em escala menor do que em outros países, o debate global sobre destinar culturas alimentares à produção de combustível. A safrinha atenua parte do problema por ocupar terra já usada pela soja, mas essa vantagem protege apenas a disponibilidade de terra, e não o preço do grão quando o clima não coopera.
Diante dessas três fragilidades, vale reconhecer que a cana guarda uma resiliência que o mercado talvez esteja subestimando. Primeiro, sua vantagem de arbitragem não morreu, apenas hibernou, pois, assim que o preço do açúcar se recuperar, o mecanismo de compensação volta a funcionar. Junto a isso, a cana larga na frente na agenda climática: cerca de 88,8% de sua produção é certificada pelo RenovaBio¹¹, contra apenas 60% no caso do milho, a partir de um comparativo da UDOP. Num mundo que caminha para pagar cada vez mais por combustível comprovadamente limpo, essa diferença é dinheiro na mesa. Por fim, há um dado de estrutura de mercado que joga contra o novo setor: Inpasa e FS respondem juntas por cerca de 80% de todo o etanol de milho do país, conforme o NeoFeed, uma concentração que contrasta com a pulverização histórica da cana em centenas de usinas e que sugere um mercado nascendo com muito menos concorrência do que o antigo.
De todo modo, ambos os modelos dependem de fatores que fogem ao seu controle. De um lado, a eletrificação gradual da frota de veículos leves ameaça, no longo prazo, a própria base de consumo do ciclo Otto. De outro, novos destinos, como o combustível sustentável de aviação¹² e a exportação, podem abrir demanda adicional para os dois lados.

Conclusão: substituição, complementaridade ou reinvenção?
Diante de tudo isso, a resposta à pergunta do título se aproxima muito mais de uma reinvenção do que de uma substituição. A cana não desaparecerá, afinal sua moagem segue estável e seus trunfos estruturais permanecem, mas o centro de gravidade do etanol brasileiro já migrou: para o capital, o milho representa hoje o modelo mais racional, ao combinar insumo mais barato, operação contínua ao longo do ano, múltiplas fontes de receita a partir do mesmo grão e demanda assegurada pela mistura obrigatória na gasolina. Essa liderança, contudo, permanece condicional, pois depende de resolver a energia que a usina não produz internamente, de encontrar comprador para a oferta industrial que já está a caminho e de administrar um insumo que também é comida. A virada é real, mas sua sustentação ainda está por ser provada.
Quanto ao risco de repetição do erro histórico, este texto permite uma resposta igualmente direta: o Brasil já flerta com ele. Assim como o Proálcool nasceu de decreto, o etanol de milho cresce hoje ancorado no mandato do E30, uma base que outra canetada pode rever. Para que a reinvenção não termine como o ciclo anterior, três escolhas se impõem: o uso obrigatório de biomassa rastreável e proveniente de floresta plantada, a ampliação da certificação do milho dentro do RenovaBio e o fortalecimento de destinos alternativos, como a exportação e o combustível sustentável de aviação, capazes de absorver a oferta crescente sem depender apenas da bomba doméstica. O Brasil trocou de grão sem trocar de vocação e permanece uma potência mundial do etanol. Resta agora provar que aprendeu, com a cana, a não construir um setor inteiro sobre a fé de que um decreto jamais mudará.
Glossário
1. Bagaço: resíduo fibroso da moagem da cana-de-açúcar, queimado nas caldeiras das usinas para gerar o vapor e a eletricidade que abastecem o processo produtivo.
2. Moagem: processo industrial de esmagamento da cana para extração do caldo. Por extensão, o termo designa o volume total de cana processado pelas usinas em uma safra.
3. Etanol hidratado: etanol com cerca de 4% a 7% de água, vendido puro nas bombas dos postos para abastecer os carros flex.
4. Etanol anidro: etanol praticamente sem água (pureza mínima de 99,6%), destinado exclusivamente à mistura obrigatória na gasolina. Não é vendido diretamente ao consumidor.
5. Milho safrinha: segunda safra de milho, plantada na mesma terra logo após a colheita da soja, entre janeiro e março, sem necessidade de abertura de novas áreas agrícolas.
6. DDGS (Dried Distillers Grains with Solubles): farelo proteico resultante da produção de etanol de milho, utilizado como ração animal de alto valor nutricional, sobretudo no confinamento bovino.
7. E30: especificação da gasolina brasileira que passou a vigorar em agosto de 2025, contendo 30% de etanol anidro em sua composição, com teto legal previsto de 35% (E35).
8. Cavaco de eucalipto: madeira picada em pequenos fragmentos, usada como combustível industrial nas caldeiras, sendo a principal fonte de energia das usinas de etanol de milho.
9. Termo de Ajustamento de Conduta (TAC): acordo firmado entre o Ministério Público e uma empresa, no qual esta se compromete a corrigir irregularidades sob pena de sanções, evitando um processo judicial.
10. Ciclo Otto: ciclo termodinâmico dos motores a combustão movidos a gasolina ou etanol, presentes em carros, motos e veículos leves. É o principal mercado consumidor do etanol brasileiro.
11. RenovaBio: Política Nacional de Biocombustíveis, que certifica produtores conforme a eficiência ambiental comprovada de sua produção e os remunera por meio de créditos de descarbonização.
12. Combustível Sustentável de Aviação (SAF): combustível para aeronaves produzido a partir de fontes renováveis, como o etanol, apontado como uma das principais frentes de demanda futura para o setor.
Referências Bibliográficas
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