Empreendedorismo social: muito além do lucro

Por algum acaso, você já se imaginou morando em lugar onde não teria acesso a recursos básicos do cotidiano, como luz elétrica ou água potável? Ou mesmo, não poder estudar ou trabalhar por não ter como se deslocar? Esses são problemas que muitas pessoas ao redor do mundo enfrentam no seu dia a dia por diversos motivos, mas, principalmente, devido à desigualdade social. É justamente buscando uma maneira de melhorar esse cenário que surge o empreendedorismo social.


Heroísmos à parte, o empreendedorismo social é um estilo de negócio que vem crescendo bastante. Despontando nas últimas décadas como uma forma de identificar e promover mudanças que transformem a sociedade, ele busca tratar problemas insuficientemente interessantes tanto para instigar o ativismo legislativo, quanto para atrair capital privado.


Quando se fala desse estilo, no entanto, muitas pessoas não diferenciam tão facilmente um empreendimento social de uma ONG. Os dois têm sim algumas interseções em sua estrutura, sendo uma delas o foco constante no impacto social, mas a grande diferença se dá na maneira como eles fazem para se manter. Uma ONG se sustenta financeiramente, em maior parte, à base de doações vindas de terceiros, enquanto que um empreendimento social, como busca também a lucratividade, já não é tão dependente da empatia e colaboração dos que apoiam sua causa.


Buscando cumprir sua missão, a maioria desses empreendimentos parte à procura da solução de um problema existente, o qual costuma girar em torno de segmentos economicamente marginalizados da sociedade. Isso ocorre por esses grupos serem pequenos demais para criar oportunidades comerciais ou políticas necessárias para melhorar sua condição. O grande desafio é na hora das contas, pois, apesar do cunho social, eles também devem ser viáveis financeiramente. Isso é o que os aproximam dos empreendimentos tradicionais: estruturar um modelo de negócios onde se consiga gerar valor aos seus clientes, por meio de um produto ou serviço, com um retorno financeiro.


Entretanto, diferente do que se sabe, existem modelos distintos de empreendimentos sociais. Um desses tipos é exemplificado pelo da Toms. Fundada em 2006, a marca entrou no ramo de sapatos e acessórios assim como uma outra qualquer, mas se diferenciou pelo seu propósito “One for One”. Tudo começou quando seu fundador, Blake Mycoskie, visitou algumas regiões muito carentes da Argentina e viu crianças sem sapatos, o que as privava do acesso à educação, já que não podiam ir à escola, e oferecia riscos a sua saúde, pela exposição a doenças. Tendo isso em mente, fundou a Toms, cuja proposta é que para cada par de sapatos vendidos, um par será doado a crianças nessas situações.


Outro tipo é como o da AMA, marca de água criada pela Ambev, lançada em março deste ano, que também procura amenizar um grave problema social: a dificuldade de acesso à água potável. Bem diferente dos produtos usuais da empresa, a marca leva consigo o compromisso de levar água potável às milhões de famílias do semiárido brasileiro. Diferentemente do modelo da Toms, a AMA direciona todo o lucro obtido com a venda dos produtos para cumprir com sua missão, que após 8 meses no mercado já alcançou lucro de R$ 1 mi em vendas (vide imagem abaixo).


Foto: site da água AMA, onde retratam a missão da marca, junto com um contador de quanto a iniciativa já lucrou.

Como podemos perceber, os dois exemplos citados foram de iniciativas privadas, porém nem sempre o governo é ausente. Uma série de empreendedores sociais bem-sucedidos proporcionou um melhor equilíbrio quando, ao aproximarem esse órgão de suas iniciativas, puderam atingir mais pessoas e fazer com que as necessidades das mesmas fossem atendidas, devido à inovação que implantaram. Um desses casos é o da Geekie, uma organização que desenvolve plataformas de ensino a partir de tecnologias inovadoras, garantindo as ferramentas necessárias a cada aluno para que estes desenvolvam seu potencial. Ao aplicarem suas plataformas não só para escolas particulares, mas também em escolas públicas conjuntamente com os governos responsáveis, facilitaram o controle de rendimento dos alunos e impulsionaram seus estudos, montando seus planos de estudos, por exemplo.


Uma forma distinta de atuar no meio é alterando a tecnologia utilizada, concomitantemente à mudança de atores, sejam eles da esfera privada ou o governo. Nesse sentido, identificar uma tecnologia de menor custo que possa substituir um processo existente ou tornar viável uma iniciativa é comum no empreendedorismo social. Por exemplo, antes de Matt Flannery e Jessica Jackley criarem a plataforma Kiva, era praticamente impossível para micro financiadores em países prósperos concederem empréstimos pequenos ou grandes aos micro mutuários (os que recebem os empréstimos) em países pobres, devido a algumas dificuldades de regulações com bancos. A plataforma rompeu essas barreiras e hoje facilita quase um bilhão de dólares em empréstimos.


Como qualquer outro empreendimento, os sociais também enfrentam desafios. Um dos maiores se encontra no networking, já que muitos deles, apesar de terem uma causa em comum, estão espalhados por diferentes pontos do mercado, atuando de formas distintas e com modelos de negócios variados. Para exemplificar, imagine que você está abrindo um novo negócio, um e-commerce de calçados, mas você é novo no mercado e decide fazer um benchmarking com alguém que já esteja no ramo e entenda melhor. Ao sair para buscar essa ajuda, o que encontrou mais próximo ao que buscava era uma loja física de roupas de banho, num estado muito distante do seu. Por mais que o exemplo possa ter sido exagerado, se assemelha um pouco ao que acontece com os empreendedores sociais: não é nada fácil encontrar alguém com um modelo parecido com o seu que o ajude a idealizar e melhor estruturar seu negócio.


Ainda falando dos desafios, a perda do foco nos resultados financeiros ao longo do tempo também é outro caso comum. Como já foi citado, a hora de fechar as contas é crucial, mas não basta apenas que isso ocorra nos primeiros meses, pois um negócio deve buscar sua estabilidade contínua. Nos anos seguintes, é necessário que se atente para que o cunho social ande sempre em equilíbrio com a saúde financeira e um não se sobressaia. Assim, tão importante quanto causar impacto na vida das pessoas, o que vai ao encontro de sua missão, é garantir a sustentabilidade financeira contínua, para que se mantenha o negócio girando.


De toda forma, o empreendedorismo social possui um enorme potencial para contribuir de formas efetivas para a sociedade, como transformar para melhor a situação de um grupo de pessoas e fomentar o desenvolvimento econômico. Contudo, independente de quais sejam os atores da transformação ou o quão grande é sua esfera de atuação, vemos que o empreendedorismo social é uma forma de unir a vontade de ajudar o próximo com uma nova fonte de renda para o empreendedor. Apesar disso, a atenção para os problemas que surgem e também para o cenário onde irão atuar são importantes, mas ainda sim questões superáveis, que se bem trabalhadas, podem colaborar para o surgimento de novos negócios do gênero.

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