FED: o maestro da economia mundial


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O banco do mundo


A globalização acelerada nas últimas décadas resultou em significativos aumentos da movimentação de capital entre diferentes economias, causando uma maior integração financeira dos países. Nesse cenário, a dependência mundial do dólar, devido ao Tratado de Bretton Woods¹, que o estabeleceu como a principal moeda, junto à alta credibilidade nos títulos do tesouro americano, fizeram com que o sistema financeiro dos EUA seja, de certa forma, o "banco do mundo”. Além disso, o dólar é a moeda mais forte e estável da economia internacional, apresentando níveis inflacionários baixos e controlados desde 1980. Por fim, outro fator que contribui para tal afirmação é a elevada liquidez², devido ao mercado de títulos americanos ser altamente negociado e ter um rendimento garantido pela maior potência mundial. Vale ressaltar que esses títulos são chamados de treasuries³ e, por deterem esses benefícios de liquidez e segurança, eles possuem um baixo retorno ao seu comprador.

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Nesse panorama, o Federal Reserve (FED) - Banco Central norte-americano - é o órgão responsável por coordenar a política monetária nacional e até mesmo a internacional, visto que diversas nações apresentam reservas cambiais4 em dólar ou em títulos do tesouro estadunidense. Assim, qualquer sinalização ou decisão acaba impactando a economia mundial e as políticas monetárias mundo afora. Nesse âmbito, vislumbrando a reserva cambial brasileira de 355,6 bilhões de dólares, caso uma política monetária tenha como efeito colateral a desvalorização do dólar, isso afeta diretamente o Brasil, por meio da depreciação das suas reservas.


Assim, a principal ferramenta do FED é a operação de open market, método que busca controlar a curto prazo a taxa nacional de juros, visando deixá-la dentro da meta estipulada pelo FOMC (Federal Open Market Committee), fazendo o uso da compra e venda de títulos. Com isso, a autoridade responsável pela tomada de decisão em relação às metas dos intervalos da taxa de juros para as operações de open market é o FOMC e, concomitantemente, a execução é realizada pela mesa de negociações do FED. Podemos dizer que o FOMC se assemelha ao COPOM - Comitê de Política Monetária -, pois ambos estipulam a meta e não são responsáveis pela execução.


Ademais, uma forma pouco convencional de controlar a política monetária, mas que foi muito usada recentemente, é o Quantitative Easing, cuja finalidade é injetar liquidez no sistema financeiro por meio da compra de títulos de dívida pública de médio e longo prazo de grandes bancos. Essa monetização⁶ de títulos de grandes bancos reforça o capital da instituição, facilitando a geração de empréstimos e transações bancárias. Além disso, a escassez de títulos culmina em uma redução no rendimento do ativo, e desestimula a compra de investimentos ‘seguros’, o que expande o crédito para a economia real e o direciona para diferentes frentes da economia.


O cisne negro


Junto à chegada do coronavírus, instaurou-se um ambiente de incerteza em todas as frentes da sociedade. Como retratado de maneira notória pela fala do presidente do Banco Central, Jerome Powell (28/02/2020), "os fundamentos da economia dos Estados Unidos permanecem fortes. No entanto, a pandemia apresenta riscos crescentes para a atividade econômica. O Federal Reserve está monitorando de perto os desenvolvimentos e suas implicações para as perspectivas econômicas. Usaremos nossas ferramentas e agiremos conforme apropriado para apoiar a economia.”.


Com esse cenário nunca antes visto e com uma taxa de juros entre 1,5% e 1,75%, juntamente à delicada posição da economia, o FED realizou uma reunião de emergência e decidiu baixar a taxa de juros em meio ponto percentual, culminando em 1% - 1,25%, com o objetivo de aquecer a economia ao facilitar o acesso ao crédito. Não obstante, com o agravamento do cenário epidêmico e a fragilização do sistema financeiro do país, o Banco Central norte-americano acabou convocando outra reunião emergencial, com menos de duas semanas depois da primeira, a qual resultou em um decréscimo da taxa de juros em 1%, a é levando -a acho ao patamar atual de 0% - 0,25%.

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Ainda com o objetivo de preservar a economia estadunidense contra os impactos da crise, o Banco Central também comunicou, no dia 15 de março de 2020, a adoção de um programa de estímulos monetários de 700 bilhões de dólares, fazendo uso do Quantitative Easing. Portanto, tratando dos 700 bilhões de estímulo, foi investido por volta de 70% na compra de títulos de dívida do Treasury e os 30% sobressalentes em hipotecas, além de ter sido definida a compra de 80 bilhões de dólares mensais de títulos do Tesouro e 40 bilhões de dólares mensais de títulos hipotecários. Essa medida visava disponibilizar a liquidez necessária para o aquecimento da economia, além de outros benefícios de crédito.

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As baixas taxas de juros e o Quantitative Easing, somadas a outros pacotes econômicos, cumpriram seu papel de aquecer o setor financeiro, aumentando o consumo e fortalecendo o mercado de trabalho no país, o qual gerou por volta de 6 milhões de empregos entre as datas 05 de junho e 02 de julho de 2020.


Cabe ressaltar, que o mercado por natureza não reage bem a mudanças abruptas no meio, e isso é parte do motivo do uso do tapering - a desaceleração gradual dos estímulos. Além disso, com os receios atrelados ao cenário macro, o FED teve certeza da estabilidade da economia nacional antes de começar a reduzir os estímulos mensais, logo, mesmo com a economia já aquecida, ela continuou a ser estimulada, impulsionando o consumo além do ponto ideal. Nesse cenário, o consumo forte e a gradual diminuição dos estímulos à liquidez fomentaram um ambiente inflacionário. A inflação é algo normal e saudável para uma economia quando está sob controle, porém, o aumento de preços que era considerado transitório acabou se mostrando mais persistente, fazendo Powell, em 15 de julho de 2021, admitir sua preocupação com o assunto. Além disso, o desemprego encontrou-se em patamares bastante baixos, o que fortalece a ideia de uma inflação persistente. Esse fenômeno é explicado uma vez que mais empregos sinalizam um aumento no consumo, e isso, junto a uma oferta que não acompanha a demanda, fomenta o quadro inflacionário.

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Impactos do aumento do juros


Dessa forma, os estímulos financeiros foram capazes de fomentar uma retomada econômica rápida no contexto norte-americano. Todavia, por ser artificial, o FED optou por iniciar em 2021 o processo de tapering, reduzindo a compra de títulos de 120 bilhões mensais em 15 bilhões. Com isso, o FED poderia analisar como essa retirada de estímulo estaria afetando o cenário econômico e poderia interromper caso alguma métrica inflacionária ou de índice de desemprego fugisse do esperado.

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Após a quebra de expectativas de inflação transitória, o FED iniciou um processo de avaliação de elevação dos juros ainda em novembro de 2021, no intuito de esfriar a economia. Com isso, em novembro do mesmo ano, começou-se a discutir nas reuniões do Banco Central norte-americano um aumento da taxa de juros para esfriar a economia. Entretanto, buscando um posicionamento mais dovish⁷, o FED priorizou terminar com o tapering e, posteriormente, caso necessário, a autoridade implementaria esse aumento. Dessa forma, fatores como a incerteza do cenário macroeconômico foram imprescindíveis para esse posicionamento mais voltado para a consolidação da economia. Com a deterioração do cenário macroeconômico e uma inflação global, impulsionada pela alta das commodities - que acabaram sendo potencializadas com o início do conflito entre Ucrânia e Rússia -, o processo do tapering já tem previsão assim como o aumento do juros: março de 2022. Portanto, a crescente esperada é de 0,25%, mas não se sabe ao certo quando será a subsequente elevação.


Sob esse prisma, hoje temos uma taxa de juros entre 0% e 0,25%, de forma que o mercado futuro⁸ aposta que a taxa chegará a 2% e que, possivelmente, a alta seja de 0,25% a cada reunião do Federal Reserve. Tendo em vista que restam 7 reuniões do FED para 2022, existe a possibilidade da previsão ser realizada no ano de 2023 ao considerar acréscimos de 0,25% a taxa por reunião. Além disso, ao passo da elevação dos juros, a atratividade da renda fixa também sobe. Assim, espera-se que haja um êxodo de capital da renda variável para a renda fixa, impactando os preços dos ativos diretamente. Bem como aconteceu com o principal índice da Bolsa brasileira - Ibovespa - entre junho e dezembro de 2021, no qual o Ibovespa atingiu sua máxima histórica por volta de 130.000 pontos, mas junto a subida do juros o índice desvalorizou até o patamar dos 100.000 pontos. Por fim, a segurança e liquidez dos treasuries atraem muito capital externo para o país e esse fluxo de caixa para dentro da economia norte-americana fortalece a moeda local. Cabe ressaltar, os títulos de tesouro de um país podem apenas ser comprados com a moeda da respectiva nação, logo, caso o valor a ser investido esteja em um câmbio diferente, é necessário antes a comprar a moeda do país. Dessa maneira, a atratividade do investimento acaba impactando diretamente o câmbio, ao passo que quanto melhor a relação premio-risco do ativo mais escassa fica a moeda nacional, a maior demanda para converter o câmbio fomenta uma escassez da moeda em âmbito global e culmina em um aumento do preço para a conversão.


Impactos no brasil


Diante desse cenário, cabe ressaltar que o Brasil é um país emergente, o que significa que é uma nação com alto potencial de crescimento, mas que também possui mais riscos do que estados desenvolvidos como os EUA, Austrália e Japão. Dessa forma, o êxodo de capital no território brasileiro acaba sendo muito superior do que o de países desenvolvidos em um cenário de alta do juros estadunidense, afinal, a relação prêmio-risco acaba não sendo tão atraente quanto antes para o investidor.


Ademais, hoje o cenário da política monetária brasileira se difere muito ao de outros países emergentes como África do sul, Índia e China. Cabe a ressalva que, no Brasil, o Banco Central (BC) - liderado por Roberto Campos Neto - foi o primeiro no mundo a iniciar um ciclo de alta de juros a pouco mais de um ano atrás. A medida foi bastante impopular na época, visto que muitos economistas renomados - como até mesmo Jerome Powell - acreditavam que esse aumento de preços generalizado era algo passageiro e que não era uma medida necessária. Tal ação foi efetuada com o objetivo de conseguir controlar rapidamente a inflação, que atingia o patamar de 2 dígitos, visando iniciar um ciclo de redução da Selic o quanto antes. Concomitantemente, outros países emergentes como a China, índia e África do sul mantiveram suas taxas básicas de juros em patamares baixos, respectivamente hoje sendo de 2%, 4% e 3,75%.


Assim, tendo iniciado esse ciclo de alta precocemente, além de atrair capital para a renda fixa do país devido aos atrativos rendimentos, o Brasil também se colocou em uma posição na qual ele sofrerá menos perdas que outros países emergentes. Nesse sentido, ao se ter uma alta dos juros estadunidenses, deve-se equiparar novamente a relação de prêmio-risco. Dessa forma, o país tende a evitar um êxodo de capital. No entanto, o cenário de inflação global puxado pela alta das commodities acaba impondo uma pressão ainda maior nesse aumento do juros básico, culminando em aumentos abruptos e, possivelmente, danosos ao sistema econômico da nação. Dessa forma, devido à rapidez do processo, setores como o imobiliário passam a estar em risco, visto que, com o grande número de empréstimos destinados à compra de imóveis, ele é extremamente dependente da taxa básica de juros.


Portanto, a posição de juros altos no Brasil, coloca-o em uma posição de maior segurança em relação a seus comparáveis emergentes, pois não serão necessários grandes aumentos na Selic para resistir à inflação mundial e à crescente do juros norte-americano.


Esse argumento ganha ainda mais força ao analisarmos o mercado de renda variável no país. Nele, como o Brasil estabeleceu uma elevada taxa Selic, observou-se um cenário em que, em fevereiro de 2022, 50% das operações na B3 - Bolsa de Valores brasileira - foram realizadas por investidores estrangeiros, além de mais de 35 bilhões de reais inseridos somente em janeiro. Vale ressaltar que todo esse positivo cenário nacional ocorreu mesmo com o FED alertando a meses sobre o iminente aumento da taxa de juros estadunidenses. Dessa forma, podemos notar a confiança do investidor estrangeiro no país hoje, porém, apenas o tempo dirá se a aposta feita por Roberto Campos Neto terá poupado o país de um mal maior.


Glossário:


  1. Tratado de Bretton Woods: Foi uma conferência focada em estabelecer regras para negociações comerciais e financeiras internacionais. O foco foi em estabelecer um equilíbrio entre as políticas monetárias dos países, de modo a manter a paridade com as moedas nacionais de um para um em relação ao ouro (o chamado padrão dólar-ouro), na qual o ouro mantinha paridade com o dólar, ao passo que os EUA possuíam 75% das reservas mundiais do minério.

  2. Liquidez: Trata-se da velocidade e facilidade na qual pode-se converter um ativo em caixa, vulgo dinheiro.

  3. Treasuries: Títulos da dívida pública americana.

  4. Reservas cambiais: São reservas de crédito que países possuem em moeda estrangeira.

  5. Quantitative Easing: Traduzido para Flexibilização Quantitativa, é um tipo de política monetária em que o Banco Central de um país visa aumentar a liquidez em seu sistema financeiro, normalmente comprando títulos governamentais de longo prazo dos maiores bancos daquele país.

  6. Monetização: Capacidade dos Bancos Centrais transformarem ativos em dinheiro.

  7. Dovish: Significa que o Banco Central está menos preocupado com a inflação e mais preocupado com o crescimento fraco, alto desemprego ou mesmo deflação – o oposto da inflação.

  8. Mercado futuro: É um mercado no qual os indivíduos se comprometem a comprar ou vender um ativos a um preço previamente acordado em um específica data de fatura.


Bibliografia:


BECKWORTH, David; CROWE, Christopher. “The International Impact of the Fed When the United States Is a Banker to the World”; hoover. Disponível em: <https://www.hoover.org/sites/default/files/research/docs/rulesforinternationalmonetarystability-ch2.pdf> Acesso em: 02/02/2022.


FIORETTI, Victoria. “Atuação do FED no combate a pandemia: uma comparação com a crise de 2008”; DEPARTAMENTO DE ECONOMIA PUC RIO Disponível em: <http://www.econ.pucrio.br/uploads/adm/trabalhos/files/Victoria_Castro_Oliveira_R._Fioretti_Mono_21.1.pdf> Acesso em: 02/02/2022.


“Fed antecipa fim de estímulos e aponta 3 aumentos de juro em 2022”. EXAME. 15/12/2021. Economia. Disponível em: <https://exame.com/economia/fed-antecipa-fim-de-estimulos-e-aponta-3-aumentos-de-juro-em-2022/> Acesso em: 02/02/2022.


BULLIO, Olivia; FERRARA, Daniel; CUNHA, Patricia; CARVALHO, Carlos. “A atuação do Fed antes e depois do estouro da bolha imobiliaria”; scielo. Disponível em: <https://www.scielo.br/j/ecos/a/CMCWgrDWHnQPyPQBC9TB9Jn/?lang=pt&format=pdf> Acesso em: 03/02/2022.


LOPES, Marcos. “Fed mantém taxa de juros perto do zero e sinaliza aumento em março, como esperado; entenda”; suno. Disponível em: <https://www.suno.com.br/noticias/fed-taxa-juros-marco-aumento/> Acesso em: 03/02/2022.


“Dirigente do Fed fala em acelerar tapering para finalizá-lo até fim de março”. Estadão. 06/01/2022. Economia. Disponível em: <https://economia.uol.com.br/noticias/estadao-conteudo/2022/01/06/dirigente-do-fed-fala-em-acelerar-tapering-para-finaliza-lo-ate-fim-de-marco.htm#:~:text=A%20presidente%20do%20Federal%20Reserve,para%20finaliz%C3%A1%2Dlo%20at%C3%A9%20mar%C3%A7o> Acesso em: 03/02/2022.