Quantitative Easing e a arte de gerar liquidez em poucos cliques



O ano de 2020 tem sido, até agora, caótico para o mundo. A crise do novo coronavírus, além de responsável pela morte de mais de 500 mil pessoas até o mês de junho, continua trazendo impactos econômicos negativos para os países. Diante de choques de oferta e demanda, bolsas de valores despencando, negócios falindo e mercados com pouco dinheiro em circulação, uma manchete salta aos olhos: “EUA vão injetar US$ 2 trilhões para aliviar impactos da COVID-19 na economia”.


Um auxílio econômico dessa escala, entretanto, já não permite que os países imprimam dinheiro físico para chegar no resultado desejado com faziam antigamente. Como um meio alternativo, nesse contexto, surgiu uma prática que, apesar de não ter sua eficácia comprovada em todos os casos, se estabeleceu como possível solução para o problema: o Quantitative Easing.


A necessidade de liquidez

Antes de entender essa medida, é necessário que fique claro o que é liquidez e sua importância na economia. Primeiramente, liquidez de um ativo consiste na facilidade com a qual o mesmo consegue ser convertido em caixa sem afetar seu preço de mercado, ou seja, o quão fácil é vendê-lo ao preço desejado. Na economia, a liquidez se torna relevante a partir do momento em que impacta a segurança de investimentos e a possibilidade de se realizar uma transação entre duas partes. Sem liquidez, uma compra ou venda não se concretiza, interrompendo o fluxo de negócios de maneira que o mercado e suas empresas não se movimentam.


No atual contexto, em que a crise de saúde e as medidas de lockdown impactaram milhares de cadeias de produção ao redor do mundo, diversos negócios foram obrigados a fechar suas portas, acarretando, assim, o aumento do desemprego. Com a eliminação das fontes de renda e a redução do número de pessoas circulando nas ruas, a demanda por certos bens e serviços não-essenciais diminuiu, fato evidenciado pelos sucessivos recuos do Índice de Intenção de Consumo das Famílias (ICF), medido pela Confederação Nacional do Comércio. Como consequência de tais quedas nas transações comerciais, menos dinheiro passa a circular, o que, por sua vez, dificulta a liquidação de ativos e as relações comerciais, prejudicando a geração de valor a partir das atividades econômicas. Inicia-se, dessa maneira, um círculo vicioso, no qual a falta de consumo gera queda na produção, o que acarreta o aumento do desemprego, impactando ainda mais o consumo.


Fonte: Confederação Nacional do Comércio


Com o menor consumo, os preços tendem a cair, o que pode gerar um processo de deflação e uma desaceleração econômica do país. Dessa maneira, medidas como a redução das taxas de juros tornam-se necessárias a fim de estimular o consumo. Isso porque, com ela em valores menores, torna-se mais fácil o acesso da população a empréstimos e financiamentos, proporcionando maior poder aquisitivo para compra de bens e serviços ou realizar investimentos. Com o aumento desses gastos, os preços também tendem a aumentar, a fim de manter a inflação dentro da meta prevista pelo Banco Central do país.


Contudo, em um mundo onde grande parte das taxas de juros básicas dos países está em níveis próximos ou inferiores a zero, sua redução se torna cada vez mais difícil e arriscada. Desse modo, os governos precisam buscar outras maneiras de estimular o consumo. Uma dessas alternativas é a injeção de dinheiro na economia: o governo compra ativos de empresas e pessoas, colocando efetivamente capital em suas mãos, tornando-as mais propensas a gastarem. Nessa linha, surge o Quantitative Easing (QE).


A lógica por trás

O QE funciona de uma maneira relativamente simples. A ideia principal é que os Bancos Centrais (BCs) dos países se utilizem de dinheiro criado eletronicamente por eles para adquirirem ativos financeiros - em sua maioria, títulos de dívida públicos ou corporativos - de outros negócios, como seguradoras, fundos de pensão ou mesmo empresas não ligadas ao setor financeiro. Tais títulos funcionam como um meio de angariar capital de maneira que, quem o detém arrecada com a sua venda no presente e o comprador recebe uma promessa de pagamento de um valor acrescido de juros no futuro.


Quando os BCs adquirem esse tipo de título, ocorre uma expansão expressiva dos seus balanços patrimoniais, uma vez que eles aumentam seu número de ativos. Esse movimento pode influenciar o consumo de bens na economia de algumas diferentes formas.


A primeira delas se relaciona diretamente com a lei da oferta e da demanda. À medida que mais títulos - independente se corporativos ou governamentais - são comprados pelo Banco Central, seus preços tendem a aumentar, reduzindo o retorno dos investidores que os detinham sobre o preço pago neles. Se os retornos se tornam menos atrativos, um caminho natural é a venda desses ativos, fazendo com que seu vendedor fique com o dinheiro em mãos, tornando-o mais propenso a gastá-lo ou reinvestí-lo. Além disso, com menores retornos sendo exigidos no geral, o custo de se tomar empréstimos tende a diminuir, facilitando o acesso ao crédito por parte da população, além de também estimular o consumo.


Outra maneira por meio da qual o QE pode funcionar é com a compra dos títulos diretamente dos bancos comerciais do país. Com a venda das dívidas para o Banco Central, essas instituições, agora com mais dinheiro em suas contas, podem utilizar esse excedente de capital para conceder mais empréstimos, gerando mais consumo e investimentos e promovendo, assim, um aquecimento da economia. Contudo, não é garantido que a liquidez seja repassada ao mercado caso se opte por esse caminho. Isso porque os bancos podem utilizar o dinheiro arrecadado para ajustar suas finanças internamente ou segurar reservas em períodos de maior incerteza ao invés de expandir suas carteiras de crédito.


Foi o que aconteceu nos anos posteriores à crise de 2008, quando o FED - Banco Central dos EUA - anunciou o início de 3 programas de QE, que injetaram mais de US$ 4 trilhões ao longo de 6 anos por meio da compra de títulos do governo e outros lastreados em hipotecas dos bancos. No entanto, a realidade foi que os bancos mantiveram boa parte desse dinheiro arrecadado como reservas excedentes. No auge do programa, os bancos e outras instituições depositárias dos EUA mantiveram cerca de US$ 2,7 trilhões em reservas excedentes, dificultando que o dinheiro posto no mercado pelo governo chegasse à ponta consumidora. Embora essa situação tenha ocorrido, a economia estadunidense se recuperou e acredita-se que parte dessa retomada se deve ao auxílio do FED, apesar de não haver uma dimensão exata do seu impacto.


Fonte: FRED - FED St. Louis


Nota: Instituições depositárias são responsáveis por gerenciar a custódia de ativos financeiros, realizando a guarda dos títulos e auxiliando na sua movimentação. Incluem bancos comerciais e de investimento, sociedades de crédito, entre outros.


Independente do destino dado ao dinheiro criado, o resultado esperado é o mesmo: aumento no consumo e estímulo inflacionário. E é exatamente isso que governos ao redor do mundo estão tentando fazer, de diferentes maneiras, para retomar a atividade econômica impactada pela crise da COVID-19.


Sem o estímulo por parte dos Bancos Centrais, a oferta de dinheiro na economia sofreria diminuições e os gastos da população decairiam, reduzindo a inflação a patamares inferiores à meta estipulada pelo BC para aquele ano, podendo atingir, eventualmente, momentos de deflação. Apesar de preços mais baixos, em princípio, parecerem compor um cenário positivo, um movimento deflacionário extenso é tão ruim ou até pior que um inflacionário muito alto. O motivo é simples: quando os preços caem demais, as pessoas deixam de consumir e passam a poupar, acreditando que o dinheiro valerá mais no futuro. Isso alimenta uma nova queda de preços, puxando a economia ainda mais para baixo.


Um exemplo dessa desaceleração inflacionária gerada pela crise é o Brasil, onde o IPCA (principal índice de inflação utilizado no país) atingiu sua maior queda mensal desde 1998, chegando a uma variação de -0,38% na comparação entre maio e abril.


Fonte: IBGE


Contudo, mesmo em países como os EUA e o Reino Unido, onde os programas de QE estão sendo realizados, a inflação não está contida dentro da meta. Neles, o estímulo inflacionário tem buscado frear a pressão deflacionária que acompanha as medidas de contenção da crise. No caso do Reino Unido, a inflação nos últimos três meses sofreu uma desaceleração considerável, embora ainda não tenha apresentado um mês a valores negativos no último ano.


Fonte: Trading Economics

*Comparação entre Abril 2019 e Abril 2020


Consequências

Embora o Quantitative Easing seja uma medida extrema e pouco convencional, tornou-se uma prática relativamente comum de Bancos Centrais de países desenvolvidos, como o Banco da Inglaterra (BoE) e o FED. Contudo, como qualquer decisão econômica, ele pode trazer impactos negativos para o país e sua população se feito de maneira incorreta ou em um momento inoportuno.


Primeiramente, embora grande parte dos Bancos Centrais sejam instituições de Estado, eles não podem forçar os bancos comerciais a expandirem suas carteiras de crédito e concederem mais empréstimos. Da mesma forma, também não podem obrigar pessoas comuns ou empresas a buscarem mais empréstimos, seja para consumir ou investir. Assim, se ocorrer o estímulo ao consumo com medidas desse cunho e a oferta de bens e serviços não o acompanhar, a flexibilização quantitativa não será eficaz e o país pode perder o controle sobre sua taxa de inflação, fazendo-a crescer.


Outra consequência importante das políticas de QE é a desvalorização da moeda do país perante outras moedas do mundo. Com uma maior oferta de dinheiro e a economia sem gerar valor na mesma proporção, cada unidade monetária passará a carregar menos valor e, consequentemente, a moeda será menos apreciada frente a outras, o que pode culminar em cenários de aumento nos preço dos produtos importados, por exemplo.


A última e grande consequência negativa desse tipo de política é a exposição a qual o os Bancos Centrais se submetem. Uma vez comprando as dívidas das empresas por meio dos títulos corporativos, os BCs assumem o risco de, no futuro, não receberem o valor devido por elas caso a empresa venha a falir. Dessa forma, quanto mais eles compram esse tipo de título, mais vulneráveis estão a perdas provenientes do não-pagamento por parte das empresas.


Entretanto, apesar dos potenciais efeitos negativos que as políticas de Quantitative Easing trazem para uma economia, a expansão nos balanços patrimoniais dos principais Bancos Centrais teve um aumento considerável nos últimos 20 anos com a aquisição de ativos financeiros. Isso se dá graças à redução das taxas de juros globais que cada vez mais engessam os BCs em termos de medidas de estímulo ao consumo. Sem poder gerar grandes impactos nesse âmbito, a expansão da base monetária se torna uma alternativa de grande escala e rapidez.


Fonte: Bianco Research/Bloomberg


Olhando para a crise a qual estamos vivendo, o que se viu foi uma rápida reação por parte dos Bancos Centrais do mundo inteiro em busca de evitar um colapso em suas economias locais. Nos EUA, espera-se que os gastos com a compra de ativos financeiros por parte do FED chegue a cerca de 20% do PIB do país, valor consideravelmente alto se comparado ao gasto após a crise de 2008, quando o valor para as economias desenvolvidas ficou entre 3% e 4% do PIB. Já na Zona do Euro e no Reino Unido, esse valor deve chegar a 7% e 9%, respectivamente. Não se pode, contudo, afirmar o quão eficazes serão esses gastos de contenção da crise. Se, por um lado, eles vem dando um fôlego no curto prazo, como visto na Inglaterra, impedindo uma espiral mais severa de desaceleração econômica e deflação, por outro, a ameaça de uma segunda onda de contaminação e o consequente impacto no consumo de bens e serviços podem fazer com que os gastos atuais não sejam suficientes.


Daqui ao fim da crise

Pouco sabemos sobre o que está por vir nos próximos capítulos da crise da COVID-19. O impacto econômico gerado pela paralisação de indústrias, desemprego e queda no consumo foram catastróficos no curto prazo, mas ainda não temos dimensão da intensidade da recessão global que está por vir. Portanto, por mais que a adoção de medidas via QE tenha sido eficaz na contenção da atual crise econômica no curtíssimo prazo, não é possível confirmar se ela de fato se provará eficiente no médio e longo prazo.


Com taxas de juros cada vez menores e emissões de dívida cada vez mais exuberantes, aos poucos os governos caminham com menos opções de estímulo às atividades econômicas em caso de futuras crises. Nessa linha, se continuarmos com a mesma intensidade de criação e injeção de dinheiro no mercado, podemos estar caminhando em direção a crises mais profundas e difíceis de lidar, onde os poucos cliques do mouse e a criação de dinheiro artificial não serão mais suficientes para salvar economias em pânico.




Fontes:

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Will Quantitative Easing Stop The Coronavirus Pandemic Economic Fallout? FXCM, 2020. Disponível em: https://www.fxcm.com/markets/insights/will-quantitative-easing-stop-the-coronavirus-pandemic-economic-fallout/


SIEGEL, Gary. “Why the Fed’s large balance sheet poses a problem as zero lower bound nears”. Bond Buyer, 2020. Disponível em:

https://www.bondbuyer.com/news/why-the-feds-large-balance-sheet-poses-a-problem-as-zero-lower-bound-nears


DE CARVALHO, Fernando. “If Not Quantitative Easing, Then What?” IPS News, 2013. Disponível em: http://www.ipsnews.net/2013/06/if-not-quantitative-easing-then-what/


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