Filantropia Corporativa: Por que bilionários doam tanto?

Atualizado: há 6 dias


Muito dinheiro e preocupação com a humanidade. Essa frase pode justificar uma das maiores tendências entre os bilionários do mundo: a filantropia. Esse seleto grupo, por meio do destino de boa parte de suas fortunas para causas carentes e da criação de organizações sem fins lucrativos, age de maneira positiva à sociedade, aparentemente sem retorno algum. No entanto, será que a motivação de doar tanto dinheiro dinheiro assim deriva do puro altruísmo, ou existem razões que não enxergamos em um primeiro momento?


ALÉM DO ALTRUÍSMO

Essas atitudes filantrópicas são influenciadas por diversos fatores. Dentre eles, há um mais relevante quando visto perante a sociedade: o auxílio humanitário. Populações que sofrem com carência de insumos primordiais para a vida (água potável, saneamento básico, etc.), desastres ambientais e crises humanitárias, muitas vezes, possuem a necessidade de um amparo social para ter maior qualidade de vida, que muitas vezes é proveniente de atitudes filantrópicas.


Além de beneficiar fortemente a sociedade, essas ações também geram consequências positivas para seus agentes. Os incentivos fiscais garantidos por Lei às empresas que doarem certas quantias existem na maioria dos países ao redor do mundo. Nos Estados Unidos - país onde a filantropia tem mais destaque, atingindo a marca de aproximadamente US$ 430 bilhões doados em 2018 - as isenções podem chegar até um valor correspondente a 60% da receita, dependendo do doador, seja ele uma pessoa física ou jurídica, e de quanto o governo define que serão as deduções para os doadores, o que varia dentre as instituições de caridade que receberão o auxílio.


Além disso, as empresas tomam essa iniciativa, muitas vezes, por problemas causados por elas mesmas. Alguns dos principais fatores que as levam a doar grandes quantias derivam de problemas sociais. Esses, quando gerados da operação da empresa em certo país e/ou por seus produtos, pode ocasionar efeitos negativos à imagem da companhia. Assim, são adotadas estratégias voltadas não só para reverter em parte aquela situação criada, mas também amparar os afetados por ela.


Em 2015, por exemplo, a Volkswagen passou por um escândalo que ficou conhecido como dieselgate. Ao admitir defeitos de fabricação em 600 mil carros vendidos nos Estados Unidos, que apresentavam mau funcionamento do sistema responsável por filtrar as emissões de gases poluentes, a companhia acabou sofrendo prejuízos financeiros e dano à sua imagem. Como tentativa de mascarar o problema, a empresa passou a incentivar que seus empregados realizassem ações voluntárias, doou US$ 1 milhão para o Memorial Martin Luther King - além de US$ 10 milhões para organizações como a Cruz Vermelha e Best Buddies. Além disso, foram destinados US$ 7 milhões de dólares a programas de educação nos Estados Unidos no Tennessee e na Virgínia, assim como a criação de outros programas em Washington.


Assim como se doa para maquiar a imagem de empresas, bilionários também utilizam essa estratégia para tentar melhorar sua imagem. Um exemplo disso é o bilionário Jeffrey Epstein, condenado por pedofilia em 2008. No entanto, ele fez doações milionárias a instituições como Harvard e MIT, tanto antes como depois do escândalo, além de incentivar estudos de cientistas para tentar mascarar e melhorar sua imagem pessoal perante a sociedade.


NEM TUDO É MARKETING E FINANÇAS

Contudo, essas ações filantrópicas não necessariamente têm como motivação evitar a repercussão de algo negativo. Pode ser observado que muitos bilionários doam por pura e simples generosidade, pensando em retribuir à sociedade as oportunidades que tiveram na vida quando passavam por dificuldades, além de incentivar as pessoas a buscarem oportunidades melhores para seu futuro.


Essa ideia foi formalizada em 2010, com a criação do The Giving Pledge. Formado por Warren Buffett, Bill Gates e sua esposa Melinda, este acordo visa incentivar os mais ricos a se comprometerem com a doação de grande parte de suas fortunas em prol de causas sociais. Atualmente, conta com 204 signatários, espalhados por mais de 20 países, responsáveis por mais de US$ 500 bilhões doados até o ano de 2019. Dentre alguns de seus membros estão figuras como Mark Zuckerberg, Elon Musk e Michael Bloomberg.

A quantia doada representa a importância dada à prática da filantropia, visto que as doações são destinadas a ações focadas em educação, sustentabilidade ambiental e saúde, dentre outras. O principal intuito desse compromisso é buscar disseminar cada vez mais uma “filantropia moderna”, onde as pessoas estão dispostas a doarem mais e planejar suas doações o quanto antes, trazendo resultados de alto impacto à sociedade.


PERSONALIDADES

Marcando seu nome na história da filantropia, empresários como Warren Buffett, Bill Gates, Jeff Bezos e Mark Zuckerberg mostram-se cada vez mais como exemplos a serem seguidos dentro dessa atividade.


Warren Buffett

Um dos criadores de um dos marcos mais importantes na história da filantropia, o já mencionado Giving Pledge, Buffett é conhecido por suas grandes doações à caridade, que chegaram a US$ 3,6 bilhões em 2019. Claramente preocupado com a causa, atualmente ele já chegou à marca de 45% de seu patrimônio original em 2006 doado, o que o fez sair de segundo e ir para o terceiro lugar na lista de pessoas mais ricas do mundo.


Bill Gates

Um dos maiores filantropos da história, responsável por doar, até o ano de 2018, um total de US$ 36 bilhões. Bill Gates, aliado a sua esposa Melinda, é fundador da maior instituição filantrópica do mundo: a Bill & Melinda Gates Foundation. Ao longo dos anos, a organização já alocou mais de US$ 50 bilhões nos mais diversos projetos sociais.


Como retratado em seu documentário exibido na Netflix, a fundação realiza diferentes tipos de ações sociais, focando em saúde, meio ambiente e educação, principalmente em países subdesenvolvidos e/ou que estão em situação de emergência, como aqueles tomados por terroristas. Através de seu programa WASH (Água, Saneamento e Higiene) fundado em 2005, ações para melhoria de tais condições tornaram-se um dos principais focos da instituição, atuando principalmente no Sudeste Asiático e na África Subsaariana, com o destino de mais de US$ 650 milhões a esse projeto.


Além disso, são financiadas bolsas de estudo em universidades, assim como apoio à educação financeira e ao empreendedorismo e iniciativas para aprimorar a agricultura familiar, como as doações de US$ 20 milhões e US$ 100 milhões realizadas para o Instituto Internacional de Pesquisas de Arroz (IRRI) e para a Aliança pela Revolução Verde na África (AGRA), respectivamente. Até o final de sua vida, Warren Buffett já declarou que, publicamente, vai doar quase a totalidade de seu patrimônio estimado em US$ 88,3 bilhões à fundação de Gates.


Jeff Bezos

CEO da Amazon e um dos filantropos que mais se movimentou recentemente, Jeff Bezos ganhou muito destaque ao anunciar a criação de um fundo de US$ 10 bilhões para combater mudanças climáticas no mundo, através da distribuição de capital para cientistas, ativistas e ONGs que atuam na área ambiental.


O cenário curioso por trás dessa doação é que ela surgiu como uma resposta à demanda feita por alguns funcionários da Amazon que se uniram e formaram a AECJ (Amazon Employees for Climate Justice), a qual exigia mais ações voltadas a reduzir o impacto ambiental da empresa. O fim de parcerias com empresas de petróleo e combustíveis fósseis, além do financiamento de grupos que negam o aquecimento global, assim como uma urgência pela redução da pegada de carbono da empresa, são algumas das outras reivindicações feitas pela associação.


Bezos também já foi responsável por doações milionárias para combater a pobreza. Em 2018, ele lançou o Bezos Day One Fund, um fundo de US$ 2 bilhões de dólares que, além do combate à desigualdade social, possui o foco em maior qualidade na educação. Entretanto, esse fundo esteve envolvido em polêmicas, já que os requerimentos que Bezos tinha para as instituições candidatas a serem beneficiadas eram muito menos exigentes do que costumam ser, gerando dúvidas quanto à eficiência do uso do dinheiro doado. Além disso, Bezos não é signatário do The Giving Pledge, ao contrário de sua ex-esposa, Mackenzie, que se tornou adepta ao compromisso em maio de 2019.


O QUE ESPERAR DO FUTURO?

A filantropia mudou muito nos últimos anos, e a tendência é que isso só aumente, principalmente devido ao nível de exigência cada vez maior por conscientização com causas sociais e a urgência que a sociedade vem colocando nisso. O novo modelo logo sofrerá mudanças, que dependem muito das novas gerações de empreendedores e bilionários as quais estão por vir.


Novos bilionários surgirão e as metas de fortunas serão batidas, mas é necessário entender ainda mais sobre o porquê de certa doação ou criação do fundo/instituição. A transparência com a população é o ponto chave para auxiliar a criação de um ambiente muito mais justo e onde os impactos realmente tenham significado sem mascarar fatores negativos. É necessário o desenvolvimento, portanto, de um olhar crítico ainda maior para observar as causas das mesmas e seu real significado. Com isso, criam-se soluções eficazes, de maneira que todos tenham melhor acesso às ferramentas necessárias para mudar o futuro das próximas gerações.

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