Fundos Quantitativos: a arte de conjugar computação ao mundo financeiro


Na busca por estabilidade financeira, os investidores devem alocar seu capital em ativos que seguem a mesma linha que o seu perfil, o qual pode ser: conservador, moderado ou arrojado. Ao analisarmos o investidor médio brasileiro, observamos a predominância um caráter mais conservador, em parte graças ao conforto causado por longos períodos de altos rendimentos de ativos de baixo risco, como, por exemplo, a poupança e títulos de dívida pública. No entanto, a bolsa de valores brasileira vem apresentando, desde 2017, um crescimento exponencial no número de pessoas físicas atuando no mercado de renda variável¹, saltando de 0,6 milhões em 2017 para 4,2 milhões em 2021, dos quais 1,5 milhões somente entre 2020 e 2021.


Assim, a complexidade do mundo da renda variável, em conjunto com a falta de experiência, acaba tornando ainda mais atrativo o uso de fundos de investimento. Nesse sentido, eles constituem uma modalidade na qual um especialista é responsável pela alocação do capital e, em troca, uma parte dos rendimentos ao longo do período é paga para o fundo. Cabe ressaltar que, assim como em outros tipos de ativos disponíveis no mercado, existem fundos para satisfazerem diversos perfis de investidores, desde os conservadores até os mais agressivos.


Tendo em vista a existência de diversos fundos de investimentos, os mais comuns são: os de Renda Fixa, os de Ações e os Multimercados² - que atua em ambos os mercados de renda fixa e variável. No entanto, em paralelo ao avanço tecnológico e da programação, um modelo de fundo vem ganhando tração: os Fundos Quantitativos.


À primeira vista, muitos acabam associando a ideia de “quant” a robôs e algoritmos, algo que, embora não esteja completamente errado, também não é o mais preciso. Nesse sentido, podemos dizer que um fundo quantitativo compila a teoria (matemática aplicada e estatística) e prática (programação), para que seja possível identificar e explorar os padrões de um ativo.


Exemplo prático da elaboração de uma estratégia quant


Com o intuito de facilitar o entendimento acerca da elaboração e execução de uma estratégia quant, será analisado apenas um ativo e em uma quantidade reduzida de dados.


Ao olho nu, ficamos com certa dificuldade de identificar um padrão nessa extensa base de dados. Porém, um gestor quantitativo que utiliza algoritmos consegue descobrir que, no exemplo dado, todas as vezes que o dólar desvalorizou por três dias seguidos, ele inverteu a trajetória no 4° dia.


Assim, com o auxílio de algoritmos, essa seria uma possível estrutura a se explorar nas operações com dólar em um fundo quantitativo. Dessa forma, pode-se dizer que o trabalho do fundo é criar uma sequência de regras pré-definidas para explorar algum padrão identificado.


Uma maneira descomplicada de pensar seria analisar a sequência de acontecimentos como um conjunto de condições. Levando em consideração o exemplo prático, sabemos que, ao registrar uma desvalorização em três dias seguidos, a moeda deverá ter uma valorização no dia seguinte. Assim, se for registrado uma desvalorização do dólar por três dias seguidos, uma ordem de compra da moeda será efetuada automaticamente. Mas, vale lembrar que nem sempre tal padrão será observado e, com isso, não ocorreria tal compra.


Tendo em vista essa linha de raciocínio, podemos ver como seria para o nosso exemplo prático.

Com a criação e validação da sequência de regras definida pelo gestor, o algoritmo passará pelas etapas de testes e implementação antes de começar a rodar, de fato. Essa etapa de testagem é exaustiva, uma vez que o algoritmo é levado a diferentes cenários de estresse na economia mundial - como a crise de 2008 - para garantir a sua funcionalidade.

Dessa forma, cada modelo é criado para explorar um tipo de padrão em um ativo específico, como um índice ou uma gama mais ampla de ativos. Ademais, cabe destacar que, na prática, os padrões são muito mais complexos e o algoritmo precisa ser sofisticado o suficiente para conseguir separar padrões genuínos de sinais falsos. Vale ressaltar que, em um modelo real, seriam utilizados índices, números e indicadores com o objetivo de identificar um cenário favorável como indicado pela tese do gestor.


Vantagens e desvantagens de investir em fundos quantitativos


Com o entendimento básico do funcionamento desses fundos quant, cabe explorar como eles podem agregar à carteira de um investidor em busca de diversificação.


Em um primeiro plano, temos o distanciamento do erro humano e do emocional, uma vez que o algoritmo não passa de uma linha de código com regras exatas de entrada e saída, desenhadas para explorar um padrão previamente validado pelos gestores. Nesse sentido, em um ambiente de grande estresse, a previsibilidade do comportamento humano diminui conforme o grau de tensão e de incerteza da situação. Assim, esses fundos são uma maneira de garantir que a estratégia desenvolvida seja executada fielmente e sem interferência humana, independentemente do que aconteça, excluindo da equação o descontrole emocional.


Outra importante diferença entre a gestão quantitativa e a tradicional é a previsibilidade de comportamento. Quando se utiliza plenamente o computador, diversos testes são realizados com os mais variados e desafiadores cenários. Ao mesmo tempo, tal cenário seria impossível de ser feito por um humano devido à complexidade envolvida na análise.


Essa capacidade finita do administrador acaba recaindo também na quantidade de informação que ele consegue absorver e armazenar. Assim, tendo em vista um mundo globalizado que gera quintilhões de bytes de dados por dia, é possível apenas para um computador fazer essa leitura e adaptar ao modelo usado. A partir disso, com essa estratégia quantitativa, algumas gestoras acabam possuindo uma vantagem competitiva que só tende a aumentar com o passar do tempo. O fundo norte-americano Medallion - abordagem quant -, por exemplo, vem desempenhando um rendimento de 39% ao ano por mais de 15 anos, mantendo uma consistência mesmo com as adversidades enfrentadas no cenário macroeconômico.


Não obstante, os fundos quant costumam fazer vários aportes menores em distintos mercados, enquanto no tradicional se faz poucos aportes, porém com convicção maior. Assim, é esperado que as duas estratégias sejam naturalmente descorrelacionadas e, portanto, complementares, tornando o investimento em fundos quant uma boa oportunidade de diversificação dos riscos da carteira do investidor.


Por outro lado, existem alguns pontos que pesam negativamente contra esse tipo de fundo. Nesse sentido, podemos citar a questão das altas taxas de administração cobradas, afinal, a modalidade tem uma maior equipe envolvida, especialmente no setor de tecnologia da informação. Além disso, o fato de questões qualitativas não poderem ser incorporadas na construção do algoritmo, tende a limitar as análises micro e macroeconômicas. Logo, mudanças no cenário político, econômico, social ou fundamentos de uma empresa e outros fatores não exatos são excluídos da avaliação. Por isso, em situações específicas, o fundo pode deixar de aproveitar oportunidades que seriam percebidas por meio de uma análise humana.


Ademais, pode-se dizer que os fundos quant acabam sendo mais sensíveis a acontecimentos altamente improváveis devido à excessiva confiança depositada no passado. Isso porque, ao testar e desenvolver o algoritmo com crises passadas, o responsável se sente seguro, mas nem sempre a próxima recessão segue o padrão das anteriores.


E como será o futuro?


Tendo em vista os conceitos básicos e as características dessa estratégia de investimento, é fácil se deslumbrar com a ideia de que um robô irá fazer dinheiro por você. No entanto, é preciso ter calma e avaliar se essa exposição a risco condiz com o seu perfil, e se for o caso, qual o propósito de somar o ativo à carteira. Assim, os fundos quantitativos não vêm para substituir os preexistentes, mas sim para expandir o leque de possibilidades de investimento e agregar a carteira de investimentos.


Glossário:


1- Renda variável: Classe de investimentos composta por ativos e produtos financeiros, sobre os quais não é possível saber antecipadamente como (ou se) ocorrerá a rentabilidade. Portanto, não há garantias ou previsão a respeito do retorno que pode ser obtido.

2- Multimercados: Nesses fundos, pode-se aplicar em diferentes mercados (renda fixa, câmbio e, ações, entre outros), além de utilizar derivativos para alavancagem (técnica que se assemelha a um endividamento, com o objetivo de maximizar a rentabilidade) ou para proteção da carteira.


Bibliografia


Thiago Reis; “Fundos de investimento: o que são e quais as características?” Disponível em <<https://www.suno.com.br/artigos/fundos-de-investimentos/>>. Acesso em 05/06/2022.


“Uma análise da evolução dos investidores na B3”. B3. 04/02/2022. Finanças. Disponível em: <<https://www.b3.com.br/data/files/71/D4/B3/69/6E4CE71082242CE7AC094EA8/Book_PF_ultimo%20tri%202021.pdf>>. Acesso em 05/06/2022.


Modal Mais; “Fundo quantitativo: como funciona e quais as suas vantagens” Disponível em: <<https://www.modalmais.com.br/blog/fundo-quantitativo/>>. Acesso em 05/06/2022.


Jenne Andrade; “Fundo 100% automatizado supera retornos de produtos tradicionais”. Disponível em: <<https://einvestidor.estadao.com.br/mercado/fundo-quantitativo-bate-retorno-dos-tradicionais>>. Acesso em 05/06/2022.


Leonardo Pinto; “Fundos quantitativos: Como é investir por meio de algoritmos?

”. Disponível em: <<https://conteudos.xpi.com.br/aprenda-a-investir/relatorios/fundos-quantitativos-como-e-investir-por-meio-de-algoritmos/>>. Acesso em 05/06/2022.