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Geopolítica do Ártico



O Ártico é uma região polar localizada no extremo norte do planeta e, diferentemente da Antártida, essa seção do globo pode ser considerada como um oceano cercado por terra. Nesse sentido, esse polo não é um continente, uma vez que é composto majoritariamente por água congelada sem superfície terrestre. Por essa razão, as mudanças climáticas têm impactado a geografia do local, o que vem gerando consequências para a geopolítica mundial, principalmente, a partir de novas dinâmicas no comércio regional e internacional. Dessa forma, é interessante entender como o degelo e o desacoplamento frequente de imensas placas congeladas, mesmo com temperaturas abaixo dos 40 graus celsius negativos, impactam os interesses de muitas nações.



Impactos climáticos na região e suas consequências para o mundo


  • Óleo e gás

O aumento significativo das temperaturas globais - 2021 foi o ano mais quente da história - tem proporcionado alterações relevantes nas áreas congeladas. Dessa forma, o degelo do Permafrost¹ vem sendo ponto de preocupação, uma vez que esse terreno é formado por terra, gelo e rochas congeladas, acumulando, assim, muito carbono no solo - cientistas estimam que cerca de 1,5 trilhão de toneladas de carbono estão armazenados nessa região, ou seja, o dobro da quantidade presente hoje na atmosfera. Portanto, com o derretimento dessas áreas, há uma grande liberação de metano na camada atmosférica, o que agrava ainda mais o efeito estufa.


Por conseguinte, muitas instalações de exploração de gás e petróleo russas, que estão localizadas nessa área, têm colapsado por conta de problemas estruturais associados à mecânica dos solos. Nesse contexto, 45% de toda a capacidade de produção de petróleo e gás natural russo, que está presente no ártico, mostra-se vulnerável. Logo, nota-se a importância socioeconômica da região, afinal, a Rússia é uma potência energética, sendo a maior produtora de gás natural do planeta.


Em junho de 2020, por conta de um desses episódios de colapso das instalações russas, houve um vazamento de mais de 20 mil toneladas de diesel, acidente que foi comparado à catástrofe do Exxon Valdez de 1989 - navio petroleiro que derramou cerca de 41 milhões de litros do líquido na Enseada do Príncipe Guilherme, ao leste do Alasca.


  • Pesca


As mudanças nas temperaturas das águas fazem com que muitos peixes mudem de habitat, o que altera a dinâmica comercial e os recursos da região. Nesse sentido, vale dizer que, no caso da Groenlândia, as exportações de pesca nos últimos 20 anos representaram cerca de 90% do total das exportações do país, uma vez que todos esses peixes se encontravam dentro do território nacional. No entanto, com o movimento desses animais para águas mais frias, localizadas em um raio maior de 200 milhas náuticas, a região já se configura como de águas internacionais, o que permite outros países a competirem por esses peixes. Portanto, a Groenlândia é apenas mais um dos exemplos de nações que podem ser impactadas economicamente pelas alterações das configurações do ártico.


  • Minérios


Outra expectativa que vem com as mudanças climáticas na região é um maior acesso a recursos minerais por conta da matéria orgânica presente no solo, que antes era dificilmente explorada por conta do congelamento. Nesse cenário, esse local vem se tornando cada vez mais o centro das atenções da comunidade internacional, o que gera injeção de capital estrangeiro em países árticos para a exploração de recursos, como o minério de ferro. Nesse sentido, países próximos à região, como por exemplo, Finlândia, Suécia e Groenlândia, tornaram-se atrativos para investimentos.


Dessa maneira, em 2018, foi aprovado, pelo Kremlin, um investimento de 300 bilhões de dólares num período de 15 anos para desenvolver o setor energético ártico, incluindo a construção de 800 km de dutos, a concessão de subsídios e incentivos para as empresas petroquímicas nacionais, a exploração do gigantesco super-poço de Vostok (capaz de extrair 50 milhões de toneladas por ano), a expansão da produção além da costa e, de modo ainda mais ambicioso, a construção de uma super-planta industrial de gás natural liquefeito.


  • Doenças


Além disso, outras questões que também podem vir a impactar o cenário geopolítico atual são as possíveis consequências negativas para a saúde da população global. Nessa perspectiva, uma teoria muito aceita na comunidade científica é que podem existir bactérias, vírus e outros seres causadores de doenças congelados nesta região. Dessa maneira, o aumento da temperatura poderia influenciar no surgimento de possíveis epidemias ou até mesmo pandemias em um futuro próximo ao descongelar bactérias milenares.


Assim, em 2016, por exemplo, houve na Sibéria um surto de Anthrax (bactéria), no qual mais de 90 pessoas foram hospitalizadas. Segundo os cientistas locais, o surto da bactéria teve relação direta com o descongelamento do Permafrost, pois ocorreu em uma onda de calor na região.


  • Incêndios


Por último, uma grande preocupação para a região, a partir do aumento das temperaturas, são os incêndios causados pelo efeito chamado de “amplificação ártica”: o derretimento do gelo que antes refletia a luz solar amplifica e um maior grau de pluviosidade e umidade intensificam o efeito aquecedor e geram um ciclo vicioso que esquenta ainda mais a região.


Nesse sentido, vale comentar inicialmente que, por conta dos relâmpagos e do solo seco da região, já ocorreram várias queimadas no extremo norte do ártico. No entanto, os cientistas descobriram que a frequência de incêndios atual é mais alta do que em qualquer outro momento desde a formação das florestas boreais há cerca de três mil anos, e, possivelmente, seja a maior nos últimos 10 mil anos. Em 2019, por exemplo, segundo o Greenpeace Rússia, uma área de 3,3 milhões de hectares - maior do que a Bélgica - estaria queimando. Além disso, apenas no mês de junho desse mesmo ano, o fogo liberou cerca de 50 megatoneladas de dióxido de carbono - o equivalente à produção anual de carbono da Suécia.



AS NOVAS ROTAS MARÍTIMAS


Mesmo com diversas consequências negativas e impactos climáticos, o aumento das temperaturas e o degelo auxiliaram, de forma substancial, na abertura das águas, ou seja, na facilitação de rotas marítimas pelo Ártico. O gelo não consegue se expandir tanto quanto conseguia antigamente, tendo, no inverno, a sua máxima extensão consideravelmente inferior ao passado. Sob esse prisma, durante o verão, essa abrangência tem diminuído mais de 13% por década, tornando a região congelada ainda mais encolhida e essa travessia ainda mais facilitada.


Nesse panorama, duas rotas de travessia do oceano acabam se destacando: a rota do nordeste e a rota do noroeste. A passagem do nordeste é a de mais fácil navegação por mais períodos durante o ano, tendo sua extensão passando desde o mar ao norte da Noruega até o estreito de Bering, parando nos portos russos. Já a travessia do noroeste passa pelo lado canadense onde há muito menos passagens e muito mais gelo durante o ano.


Por meio dessas passagens, muitas viagens poderiam ser encurtadas. Portanto, uma mercadoria que vai da Europa até a China e que passa pelo Canal de Suez, dependendo de seu ponto de partida, poderia ter uma rota mais curta e, consequentemente, os seus custos de transporte reduzidos. No entanto, essa novidade ainda não é tão presente na dinâmica de comércio, haja vista o volume ridiculamente inferior de navios trafegados no Ártico quando comparados ao famoso canal de Suez.


Sob esse viés, um ponto que reforça esse pequeno volume é a falta de infraestrutura, uma vez que, fora do verão, é necessária a utilização de navios quebra-gelo para a travessia. Além disso, o porte desses portos que se encontram na costa da Sibéria é pequeno, o que não permite uma intensa movimentação nessa região, que é isolada e pouco populosa.


Contudo, apesar do baixo investimento e relevância para o comércio internacional, essa rota tem sido pontualmente muito importante para conectar a China e a Rússia. Diante disso, os russos vêm apostando bastante na construção de parques de extração e transformação de Gás Natural nessa região do extremo norte do país, de forma a facilitar o trânsito desse recurso para o gigante do oriente, via a passagem do mar do norte.



Uma Rússia estrangulada


Um dos motivos para essa preocupação russa com a rota se deve ao fato dela poder suprir a dificuldade de locomoção marítima que a nação tem sofrido há séculos. Exemplificando o problema, se uma mercadoria parte de São Petersburgo, um dos principais caminhos para ela é passar pelo Canal de Suez, o que não é algo vantajoso para o país, visto que esse canal é rigorosamente vigiados e sob jurisdição militar americana ou de países membros da OTAN³. Nesse sentido, a rota que passa pelo Ártico torna-se fundamental para os russos e e também, e talvez essa seja a vantagem principal, ela é bem mais curta.


Dentre essa conjuntura, mais de dois terços de toda a marinha russa se concentram no extremo norte do País, mais especificamente na cidade de Severomorsk, localizada na saída do ártico perto da Finlândia e da Noruega. Assim, essa rota do ártico que passa pela lacuna de GIUK⁴ e chega ao Atlântico Norte se tornou o acesso dos russos aos oceanos do mundo, retomando o papel de destaque da região, como tinha durante a Guerra Fria, tendo em vista que era o ponto mais importante de projeção de poder dos soviéticos aos mares do mundo. No mais, vale ressaltar também que essa linha é passagem para a rota do nordeste, ou seja, qualquer mercadoria que for transportada pelo ártico nesse trajeto passará, obrigatoriamente, por esse local.



Conclusão


Desse modo, evidencia-se, uma Rússia com 53% de toda a costa do Ártico, maioria populacional na região, maior força portuária e naval, sendo o único país a ter uma frota de navios quebra-gelo de propulsão nuclear. Fora isso, essa região, para a geopolítica da Rússia, demonstra-se como ponto estratégico para extração de gás e petróleo, o que movimentou ainda mais a reativação de bases militares ao norte do país. Dessa maneira, por conta desses fatores e pela proximidade da rota do mar do norte (rota do nordeste), a nação tem muita influência no Conselho do Ártico² e pode reassumir um papel ainda maior de protagonismo no cenário geopolítico.


Por fim, com a presença de tantos países da OTAN nessas regiões de interesse dos russos e as sanções que o país vem sofrendo dos Estados Unidos devido aos conflitos na Ucrânia, o planejamento russo foi extremamente atrasado. Dessa forma, o seu acesso a recursos reduziu bastante e, com isso, ocorreu um pedido de ajuda e financiamento chinês para projetos no Ártico, como o projeto de Yamal - um dos maiores planos industriais do Ártico, que consiste na perfuração de mais de 200 poços de gás, e na construção de três usinas.


Com isso, ambas as nações se uniram em um projeto de exploração de gás e têm estreitado laços por conta dessa região, além dos seus interesses ideológicos em comum. Contudo, esse laço não gera ainda nenhuma ameaça aos EUA e aos seus aliados europeus, embora seja uma região em transformação que dois grandes rivais já tentam se apossar e só o futuro poderá dizer que frutos seus desbravadores colherão.



Glossário


1- Permafrost: Camada do subsolo da crosta terrestre que está permanentemente congelada.

2 - Conselho do Ártico: uma organização intergovernamental que trata de temas enfrentados pelos governos dos Estados e populações indígenas do Ártico. É composto por oito estados-membros: Canadá, Dinamarca, Estados Unidos, Finlândia, Islândia, Noruega, Rússia e Suécia, e tem a sua sede na cidade norueguesa de Tromsø.

3- OTAN: Aliança militar intergovernamental baseada no Tratado do Atlântico Norte

4- Lacuna de GIUK: Na linguagem naval militar, especialmente da OTAN, a lacuna GIUK é uma linha imaginária entre a Groenlândia, a Islândia e o extremo norte do Reino Unido (Reino Unido).



Referências:


Nações Unidas Brasil. O que são as mudanças climáticas? Disponível em: https://brasil.un.org/pt-br/175180-o-que-sao-mudancas-climaticas, 10/01/2022. Acesso em: 8 de outubro de 2022.


G1. O que tem causado os incêndios em grande escala no Ártico? Disponível em:https://g1.globo.com/natureza/noticia/2019/07/30/o-que-tem-causado-o-incendios-em-grande-escala-no-artico.ghtml,30/07/2019. Acesso em: 10 de outubro de 2022.


BBC. Arctic wildfires: How bad are they and what caused them? Disponível em: https://www.bbc.com/news/world-europe-49125391, 02/08/2019. Acesso em: 8 de outubro de 2022.


Instituto Humanitas Unisinos. O degelo do Ártico acelera a exploração comercial do Polo Norte e duplica as rotas de navios cargueiros. Disponível em: https://www.ihu.unisinos.br/categorias/607362-o-degelo-do-artico-acelera-a-exploracao-comercial-do-polo-norte-e-duplica-as-rotas-de-navios-cargueiros, 10 de março de 2021. Acesso em: 5 de outubro de 2022.


Da Cruz, Nubia. O derretimento do Ártico vai mudar rotas marítimas internacionais. Disponível em: https://gizmodo.uol.com.br/derretimento-do-artico-vai-mudar-rotas-maritimas-internacionais/amp/, 15/06/2022. Acesso em: 4 de outubro de 2022.


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