Liderança: A Necessidade de Acompanhar a Modernidade

Atualizado: 8 de Jan de 2019

O momento histórico em que vivemos foi definido pelo sociólogo Zygmunt Bauman como modernidade líquida, período em que as instituições, as ideias e as relações se transformam de maneira rápida e imprevisível. Há grande flexibilidade, fluidez e incertezas, além de facilidades na comunicação e no transporte. A etapa que precedeu esse momento foi conceituada por Bauman como modernidade sólida e abrange a fase em que havia laços fortes de identidade entre pessoas e comunidades, domínio sobre a natureza, estabilidade, segurança e transformações lentas e controláveis. Diante dessa transição causada pela tecnologia e globalização, a figura do líder sofreu uma acentuada mudança e precisou se adaptar ao novo contexto.


Assim, a autoridade controladora que lidava com as instituições, e isolada dos funcionários, foi substituída pela liderança que trabalha ativamente com os indivíduos, considerando todas as mudanças, imprevisibilidades e exigências do mundo moderno. Antes, o necessário era conservar, agora, é imprescindível se adaptar. Dessa forma, o líder, primeiramente imerso em uma atmosfera segura, onde já sabia solucionar os problemas e motivar seus empregados a trabalharem de maneira adequada, modifica-se para não perder sua essência na arte de comandar pessoas, atrair seguidores e influenciar positivamente mentalidades e comportamentos.


Exemplo disso manifesta-se na última troca realizada pela Igreja Católica no cargo de Papa, autoridade máxima nessa organização religiosa global. Bento XVI exerceu essa função por 8 anos e apresentava-se como um líder extremamente conservador. Frente aos impasses enfrentados pela Igreja relacionados a escândalos, corrupção, prejuízo financeiro e perda de fiéis, ele não soube enfrentar tamanha complexidade dos problemas e velocidade das mudanças para encontrar soluções. Portanto, a “pouca determinação” ao tomar decisões, como dito pelo próprio Papa, culminou em sua renúncia. Assumindo o seu lugar, o Papa Francisco conseguiu estabelecer-se de modo autônomo e liderou a instituição, sem aderir ao viés mais tradicional inerente aos que lhe antecederam. Ele procurou mudar a Igreja através de críticas e sugestões novas, utilizando discernimento e bom senso. Solicitou roupas e cadeiras mais simples, escreveu os próprios discursos, passou a residir com os outros padres, visando diálogos construtivos e atualização constante, alterou a política de investimento do Vaticano para se alinhar com os valores e crenças da instituição, entre outras medidas para a manutenção e evolução da Igreja. Logo, com simplicidade, agilidade, leveza e consistência, o Papa Francisco exerce seu papel de líder com grande louvor, já que aquilo que funcionou no passado, precisa ser adaptado para se aplicar na modernidade líquida.


Como maneira de evidenciar essa tendência, encontra-se a demanda insaciável por estudos sobre esse assunto nos últimos tempos. Somente nos Estados Unidos, estima-se que o valor gasto com produtos que estimulam o desenvolvimento da liderança varia de US$14 bilhões a US$50 bilhões ao ano, segundo um artigo da McKinsey & Company, uma das maiores empresas de consultoria estratégica do mundo. Produzem-se milhares de livros, blogs, palestras e artigos em geral, visando ao desenvolvimento e aperfeiçoamento do modelo de autoridade ideal para o mundo em constante transformação e interação. Uma abordagem interessante para esse conceito foi construída por Daniel Goleman. Para ele, a figura do líder está diretamente ligada à inteligência emocional, definida pelo especialista como a capacidade de identificar os nossos próprios sentimentos e os dos outros, de nos motivarmos e gerirmos bem as emoções dentro de nós e nos nossos relacionamentos. Para ilustrar, um exemplo do próprio Goleman (2002): um momento crucial vivido em uma divisão de notícias da BBC, a gigante da mídia britânica. A gerência da empresa tinha decidido encerrar suas atividades e um executivo foi enviado para anunciar à equipe. A notícia foi passada de forma brusca e até mesmo agressiva, o que provocou uma enorme frustração nas pessoas, não só com a decisão, mas também com o portador da novidade. No dia seguinte, outro executivo foi visitar o mesmo grupo. Ele fez um discurso sincero e emocionante, enaltecendo a paixão e a dedicação dos profissionais ao serviço que prestavam e desejando-lhes boa sorte na retomada da carreira. Quando terminou de falar, foi aplaudido.


A diferença entre esses dois líderes do exemplo está na forma e no tom de voz com que cada um transmitiu a mensagem: o primeiro provocou no grupo antagonismo e hostilidade, enquanto o segundo usou o otimismo e mostrou inspiração diante das adversidades. Os dois momentos apontam para uma dimensão da liderança: o impacto emocional do que o líder diz e faz. Por conseguinte, aparece como indispensável para a contemporaneidade que a liderança seja pautada na inteligência emocional, ou seja, nessa eficiência em trabalhar com o outro e em liderar as mudanças, como foi feito pelo Papa Francisco e pelo segundo executivo. Quanto mais influente for o profissional, mais as capacidades de inteligência emocional vão moldar sua eficácia.


Assim, fica clara a divergência entre o papel de líder antigamente e na atualidade. O mundo não se fundamenta mais de forma tão calma e precisa, agora há considerável dinamicidade e transformações. Nesse viés, é de vital importância que a liderança acompanhe esse contexto e se adapte para continuar servindo de referência e exemplo para os demais, assim como motivando-os, ensinando-os e promovendo sua evolução. A conduta desse dirigente pode ter sido amplamente modificada, no entanto seu valor para as pessoas permanece enorme e seu trabalho, indispensável.

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