Nota de R$ 200: a ameaça do passado está de volta?



A economia não é tão complexa quanto parece ser. Na verdade, as lógicas que a regem podem ser comparadas a hábitos simples da vida cotidiana, como regar um vaso de plantas. Se você der menos água do que a quantidade mínima, a planta seca. Por outro lado, se colocar demais, as raízes apodrecem. Nesse sentido, tanto a falta quanto o excesso são capazes de prejudicá-la. Mas, afinal, qual é relação entre essa lógica e as leis de mercado?


A água no vaso de plantas funciona de maneira análoga ao dinheiro na economia. Se o governo imprimir menos do que o necessário, ela entra em estagnação: menos pessoas vão possuir capital para comprar ou produzir bens e serviços. No entanto, se imprimir demais, a inflação toma conta do mercado, sufocando-o e fazendo os preços decolarem. Afinal, pela lei de oferta e demanda, com uma quantidade maior de moeda do que de mercadorias em circulação, a tendência é que o dinheiro perca parte de seu valor, passando a ter menor poder de compra.


Entretanto, apesar dessa simplicidade das leis que regem o mercado, é evidente que há uma linha tênue entre o que seriam “de menos” e “demais”. Por isso, nem sempre é tão fácil decidir quanto dinheiro deve ser injetado na economia. Nesse sentido, uma instituição governamental, o Banco Central, é responsável por fazer análises do ambiente macroeconômico e decidir o quanto de capital deve, efetivamente, circular na economia. Entretanto, trazendo tal perspectiva para o contexto brasileiro, o que se pode afirmar é que não temos um histórico favorável nesse quesito.


Um histórico preocupante

É “tradição” no país o governo imprimir mais do que a economia consegue sustentar. Entre 1953 e 1995, a nação registrou inflação de dois ou mais dígitos em todos os anos, tendo extrapolado a casa dos 1.000% anuais em seis ocasiões. A efeitos de comparação, os Estados Unidos só registraram o índice superior a 10% anuais três vezes durante o mesmo período.



A verdadeira razão pela qual o Brasil se destaca negativamente em tal aspecto é constantemente distorcida pela população e pelo governo. A culpa é, repetidamente, atribuída a uma suposta ganância intrínseca à natureza dos comerciantes brasileiros, que colocam os preços em patamares muito elevados, pensando apenas no benefício próprio. Entretanto, essa teoria pode ser facilmente refutada: o mercado é extremamente competitivo e, caso os vendedores estivessem cobrando valores muito acima do “justo”, eles seriam desbancados pela concorrência. Afinal, se o brasileiro é tão ganancioso, porque ninguém aproveitaria a oportunidade de entrar em um mercado com preços melhores do que o de seus competidores e roubar suas vendas?


Além disso, até as características geográficas do país também servem de desculpa para explicar o descontrole dos preços. As dimensões continentais do Brasil encarecem o transporte e, consequentemente, os produtos. Embora essa tese explique uma das razões pelas quais os bens comercializados na nação são caros, ela não atinge o cerne da questão, que é a constante elevação dos preços: o Brasil não vem aumentando de tamanho.


Na realidade, um único órgão é verdadeiramente responsável por tornar o Brasil o “rei da inflação”: aquele mesmo que regula a impressão do papel que nós carregamos na carteira. Só o governo, mais especificamente o Banco Central, tem o poder de ajustar a quantidade de moeda em circulação na economia e, consequentemente, a oferta e o valor do dinheiro.


Desse modo, cria-se uma torneira de dinheiro que, se por um lado fecha as contas da União, por outro desvaloriza a moeda nacional. Como sempre, o mais prejudicado é o povo, uma vez que, como já dito, o aumento da quantidade de capital em circulação faz o preço dos produtos subir, diminuindo o poder de compra da população. Para exemplificar tal questão, podemos recorrer ao que aconteceu no início dos anos 1970, durante o milagre econômico.

Nessa época, um dos pilares do governo era investir significativamente em infraestrutura, razão pela qual foram financiados inúmeros projetos faraônicos, como rodovias, pontes, hidrelétricas e até estádios de futebol. Devido a essa diretriz, os gastos públicos decolaram, obrigando o país a recorrer a empréstimos provenientes do exterior que, embora tenham promovido o desenvolvimento infraestrutural brasileiro, também levaram a dívida externa a patamares nunca antes vistos.



Com esse crescimento elevado, era evidente que, em algum momento, o Brasil precisaria quitar essas dívidas, só não estava claro por quanto tempo o país aguentaria sobreviver diante de tamanho déficit. Não demorou muito para a situação tornar-se insustentável. No início da década de 1980, quando o ambiente externo foi fortemente impactado pelo aumento do preço do petróleo, as taxas de juros dispararam, criando um cenário de crise no Brasil. Com juros altos, o país foi impedido de continuar pegando empréstimos novos para quitar antigos, uma vez que o preço do dinheiro no mercado internacional estava muito elevado. Além disso, as dívidas contraídas nos anos anteriores, que eram baseadas em juros flutuantes, acompanharam a alta, tornando-se ameaças para a estabilidade financeira do país. Nesse contexto, era preciso pagar a dívida externa antes que ela saísse ainda mais do controle.


Apesar disso, o Brasil não possuía dinheiro suficiente para honrar seus compromissos e, para resolver o problema – e criar um ainda maior – o país recorreu a um antigo e tentador artifício: as impressoras de papel-moeda. A União pagou sua enorme dívida com dinheiro criado artificialmente e, como já é possível imaginar, essa estratégia trouxe uma grave consequência para a economia: a hiperinflação, que atingiu sua máxima histórica de 2.477% em 1993.


Esse grave problema, que acarretou a redução drástica do poder de compra da população e a desvalorização da moeda frente ao mercado externo, só foi solucionado em 1994, com a criação de um dos planos econômicos mais importantes da história do Brasil, o Plano Real. Idealizado pelo então Ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, esse programa previa o lançamento de uma nova moeda, o Real, com o intuito de frear a desvalorização intensa do dinheiro brasileiro. Os novos papéis estavam atrelados à cotação do dólar e, devido à estabilidade e força da moeda estadunidense no mercado internacional, sofriam menor desvalorização.


Levando a inflação a índices controlados e dando início aos vinte anos de maior estabilidade histórica da moeda nacional, pode-se afirmar que a medida implantada por FHC foi extremamente eficaz. Portanto, por meio de uma combinação entre o controle de gastos da União e o lançamento do Real, o Brasil conseguiu frear o aumento dos preços no país: O “rei da inflação” havia sido deposto do trono.

Uma nova ameaça

Ao longo das últimas duas décadas, a moeda nacional perdeu 84% do seu valor, fato que demonstra grande avanço se comparado ao que acontecia antes do Plano Real, num contexto em que era comum a depreciação superar esse número em um único mês. No entanto, olhando a partir de outra perspectiva, atualmente o dinheiro brasileiro possui apenas 16% do poder de consumo que tinha em 1994: R$ 16, naquela época, “compravam” o mesmo que R$ 100 compram hoje.


Diante desse contexto de desvalorização a longo prazo da moeda nacional, somada às consequências da pandemia da COVID-19 , o Banco Central do Brasil (BACEN) anunciou a primeira grande mudança no Plano Real: o lançamento da nota de R$ 200 - ou R$ 32 em 1994 – que será representada pelo lobo-guará. Até o final do ano, serão liberados 450 milhões de papéis, o que significa a emissão de R$ 90 bilhões apenas em 2020.


Para sustentar essa alteração tão significativa em um plano econômico que está, até o momento, demonstrando excelentes resultados, o BACEN deu três justificativas principais. A primeira é que a criação da nova nota diminuiria os gastos da União com a produção e a logística, pois seria possível imprimir e transportar uma quantidade superior de dinheiro por meio de um número menor de papéis: notas de R$ 100 ou notas de R$ 200 custam, aproximadamente, o mesmo aos cofres do governo e ocupam espaço similar nos carros-forte, embora a segunda opção represente o dobro do valor da primeira.


Outro motivo para o lançamento da nota de R$ 200 é o aumento substancial da utilização de capital físico durante a pandemia, já que, devido ao auxílio emergencial, muitos brasileiros estão recorrendo aos caixas eletrônicos para sacar dinheiro. Antes da pandemia, o valor total de dinheiro que estava na mão dos indivíduos era de R$ 210 bilhões, enquanto, em agosto, esse número se encontrava na casa dos R$ 277 bilhões, o que representa um aumento de 30% do Papel Moeda em Poder do Público (PMPP). Esse fato evidencia o súbito incremento da demanda por notas no país, o que justificaria a medida adotada pelo BACEN.



Além disso, o governo precisou destinar grande parte do orçamento anual para o combate à COVID-19 Até julho, a União já havia gasto R$ 285,7 bilhões, cerca de 56% de um orçamento de R$ 509,6 bilhões liberado para mitigar os efeitos da pandemia. Nesse sentido, os R$ 90 bilhões que entrarão em circulação até o final de 2020 também auxiliam o Estado a fechar suas próprias contas.


Como é possível perceber, não é a primeira vez que o governo utiliza as impressoras de dinheiro para pagar os altos gastos da União. As novas notas aumentarão em, aproximadamente, 32% a quantidade de dinheiro físico no país, o que tende a gerar inflação. Apesar disso, segundo especialistas do Banco Central, no cenário atual do Brasil, a inflação é uma ameaça muito distante da realidade, já que o aumento dos preços está controlado há alguns anos. O que nos resta saber é se as consequências dessa emissão serão tão graves quanto as enfrentadas pelos brasileiros no final do século passado.


O que esperar?

É notório que a situação atual mostra-se completamente atípica e que o mercado está se comportando de maneira peculiar devido à pandemia da COVID-19, tornando a linha entre a emissão saudável e a exagerada de moeda ainda mais tênue. Entretanto, apesar do cenário conturbado, injetar uma quantia tão grande de dinheiro na economia é uma medida que muitas pessoas consideram perigosa para a estabilidade de preços em território nacional, já que as novas notas entrarão em circulação sem que nenhum capital seja retirado da praça. Tendo isso em vista, não estaria o governo, por meio do lançamento da nota de R$ 200, dando margem para o retorno de um problema que assolou o país durante boa parte do século passado?


Portanto, embora as justificativas do BACEN sejam, de certa forma, válidas, é possível analisar que essa medida expansionista pode trazer graves consequências para o país. Os críticos acreditam que essa é mais uma situação em que o governo está dando mais água do que a planta precisa para sobreviver. Afinal, como é possível esperar resultados diferentes a partir de medidas semelhantes?


Atualmente, o medo dos milhões de brasileiros que miraram em Chicago é ter acertado a Argentina. Não se sabe, ao certo, como a situação inflacionária irá se desenrolar daqui para frente, muito menos o que esperar da economia nos próximos anos. Podemos observar que, apesar de o Plano Real ter deposto o “rei da inflação” do trono por duas décadas, não é possível garantir que ele não voltará a ser soberano no país. Afinal, o Estado abriu margem para o retorno desse antigo problema. Portanto, diante do cenário atual, nos resta saber se, assim como o lobo-guará, a estabilidade do Plano Real também estará ameaçada de extinção daqui a alguns anos.


Bibliografia:


Banco Central apresenta nova cédula de R$ 200. Istoé, 2020. Disponível em: https://www.istoedinheiro.com.br/nota-200-reais-apresentada-pelo-banco-central-agora-nesta-quarta/


Banco Central apresenta nova cédula de R$ 200. Agência Brasil, 2020. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2020-09/banco-central-apresenta-nova-cedula-r-200


Martello, Alexandre. Banco Central lança nota de R$ 200, com imagem de lobo-guará. O globo, 2020. Disponível em: https://g1.globo.com/economia/noticia/2020/09/02/banco-central-faz-cerimonia-de-lancamento-da-nota-de-r-200-com-imagem-de-um-lobo-guara.ghtml


Dívida Externa Bruta. Ipeadata, 2020. Disponível em: http://www.ipeadata.gov.br/ExibeSerie.aspx?serid=38367


Brasileiros ficam com R$ 271 bi em dinheiro em espécie. Estadão, 2020. Disponível em: https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,brasileiros-ficam-com-r-271-bi-em-dinheiro-em-especie-29-a-mais-do-que-antes-da-pandemia,70003380034


Chegou a cédula de R$ 200. BACEN, 2020. Disponível em: https://www.bcb.gov.br/cedulasemoedas/notadeduzentos


Ferreira, Afonso e Temóteo, Antonio. Nova nota de R$ 200 começa a circular a partir de hoje; veja como ela é. Economia UOL. Disponível em: https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2020/09/02/governo-lanca-nota-de-r-200.htm


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