Startups e a antilógica do retorno

Atualizado: 15 de Jan de 2019



Em uma cena do filme “Tempos Modernos”, um clássico do cinema do século 20, Charles Chaplin chama a atenção para como quanto mais o operário trabalha, mais ele tem que trabalhar. Em um primeiro momento, essa afirmação vai contra nossa intuição, já que maior eficiência costuma significar menos trabalho. Apesar disso, a crítica de Chaplin faz sentido, e ainda está muito presente nos dias de hoje. Além de contraintuitiva, a afirmação de Chaplin é progressiva. “Quanto mais se dá X, maior é Y”. Dizer que causas e consequências são proporcionais remete diretamente à ideia de progressividade.


O questionamento, visto no filme e até com trabalhadores de hoje, é apenas um estudo de caso. Isso é, por ser um fenômeno, ao mesmo tempo, contraintuitivo e progressivo. Paralelamente, escutar que empresas, quanto mais dinheiro recebem, mais têm dificuldade na hora de gerar lucros, também é contraintuitivo e progressivo. Entender como essas duas características se combinam para criar um efeito real e de consequências bilionárias é o principal tópico desse texto. Começamos fazendo isso a partir da lente do filme de Chaplin, mas agora o foco principal serão startups, investimentos e o dilema entre crescer e lucrar.


Explicando o Vale do Silício


Vamos analisar esse fenômeno mais a fundo, mas, antes, é preciso entender melhor como funcionam os investimentos de que estamos falando. Mesmo que muitas startups tenham crescido e se consolidado sem nenhum centavo investido, essas são a exceção: a maioria das empresas saindo do papel precisa de dinheiro para isso. Visando a resolver esse problema e fazer disso um negócio, foram criadas as firmas de Venture Capital (VC). Nessas firmas, ao injetar grandes quantidades de dinheiro em pequenas empresas, espera-se que elas cresçam em seu potencial máximo, o mais rápido possível, retornando o capital inicialmente investido.


Sim, o modelo funciona: há firmas de VC muito bem-sucedidas em todo o mundo. Porém, para vários casos, temos visto um gargalo, justamente no equilíbrio entre atingir o potencial de crescimento e fazê-lo da maneira mais rápida possível. Gigantes bem conhecidas, por exemplo, como Uber e Twitter, só em 2018 — 9 e 12 anos depois de suas respectivas criações — pararam de dar prejuízos para começar a gerar ganhos, sendo que há anos já estão extremamente consolidadas no mercado.


Uber e Twitter não são casos isolados. No decorrer dos últimos anos, ao mesmo tempo que os investimentos em startups estão crescendo acentuadamente, essas mesmas startups estão com cada vez mais dificuldades para gerar lucro. Ou seja, os investimentos em startups têm sido progressivamente maiores, mas, ao mesmo tempo, ao contrário do que se imaginaria, elas têm dado menos retorno — ou, pelo menos, vêm demorando mais para isso.



Volume de investimentos de venture capital nos EUA entre 2006 e 2017.

Tal dificuldade de equilibrar crescimento e retorno será o principal dilema tratado no texto. No decorrer das últimas décadas, centenas de startups de grande porte se consolidaram e deram lucro. Com isso, vimos mais e mais VCs dispostos a investir enormes quantias de dinheiro nessas empresas. Não só dispostos, mas determinados. O resultado são rounds cada vez maiores, chegando à casa dos bilhões de dólares. Mas como isso poderia, em qualquer momento, ser ruim?


Mais dinheiro, mais problemas


Você já deve ter ouvido falar do WeWork, ou mesmo visitado uma das suas quase 200 localizações. A gigante do coworking é a 4ª maior startup do mundo, avaliada em 20 bilhões de dólares, com escritórios em 18 países e 900 mil metros quadrados de espaços alugados. Um sucesso, certo? Não exatamente.


Apesar do inegável potencial, a empresa ainda não gerou lucros. Pelo contrário, seus prejuízos estão progressivamente maiores. O modelo de negócios funciona, basicamente, alugando imóveis, transformando-os em um espaço colaborativos de trabalho e realugando parcelas desse espaço, como se fossem vários pequenos escritórios. A ideia do modelo é que o WeWork lucre se aproveitando de largas margens na diferença entre os aluguéis, mas, pelo menos por hora, eles estão em um enorme débito. De acordo com seus próprios reports, a empresa teve 723 milhões de dólares de prejuízo líquido no primeiro semestre de 2018.


O provável motivo disso são os grandes investimentos da empresa em cada um de seus espaços, muito antes de eles começarem a gerar receita. O modelo do WeWork é de médio a longo prazo, mas tem seu retorno ainda mais atrasado por sua incessante busca por crescimento. Isso nos leva de volta ao dilema: a startup que não para de crescer e receber dinheiro, mas coloca tudo em jogo com prejuízos altíssimos, beirando o insustentável.

Por outro lado, parar de crescer dificilmente é uma opção por, principalmente, dois motivos:

  • Poucas ideias são exclusivas: ao mesmo tempo que a empresa não expande para a Ásia, por exemplo, há espaço e demanda cada vez maiores incentivando que um rival direto entre ou nasça naquele mercado.

  • Pressão dos investidores: investir centenas de milhões de dólares em uma startup não é para quem está jogando seguro. Os VCs têm exatamente o perfil high risk, high return e, para eles, parar para construir um modelo estável e que cresça um passo de cada vez quase nunca faz sentido.

Esses vícios das firmas de Venture Capital, inclusive, são tão fortes que, por vezes, acabam causando exatamente o que buscam evitar. No caso, a pressão para expandir e o crescimento desgovernado podem atrasar muito o tão sonhado retorno. No final do dia, o resultado disso tudo são startups de 3000 funcionários que não estão nem perto de abrir seu capital. O WeWork é uma das grandes figuras quando se trata dos vícios que temos visto nos investimentos e gestão em startups.


Google se tornou a velha guarda


Há duas décadas, quando as empresas dependiam, para sobreviver, do dinheiro que geravam, esse círculo vicioso de alavancagem era muito menos comum. O Google, por exemplo, após receber apenas 36 milhões em investimentos, gerou lucro em 3 anos, abrindo seu capital 3 anos mais tarde.


O Uber, por outro lado, como representante dos novos tempos, só começa a dar indícios de lucratividade agora, após quase 10 anos, mesmo sendo a maior startup do mundo (avaliada em US$70 bi).


Do outro lado da tendência, porém, as firmas de VC não parecem tão preocupadas. Em 2015, tínhamos 80 startups com o valor de mercado (valuation) acima de US$1 bi. Até o final de 2017, esse número havia subido para 258, sem indicativos de desaceleração.


É difícil acreditar, porém, que os grandes especialistas no assunto startups só estejam cegos à realidade. Sim, a tendência existe, e até preocupa, pelas tantas — e tão significativas — empresas que estão nessa situação, mas nem tudo é crescimento desenfreado e inconsequência.


Nem só de prejuízos é feita uma startup


Voltando ao WeWork, apesar das consequências, sua estratégia tem funcionado: a startup cresce 113% ao ano. A empresa começou com 2 localizações em 2010 e dobrou isso em 2011. Até 2014, essa tinha 23 locais com seu nome, em 8 cidades diferentes. Locais foram para 55 em 2015, 111 em 2016 e 178 até novembro de 2017.


Em setembro de 2018, a empresa se tornou o maior proprietário — no caso, locador — de imóveis de Manhattan, ultrapassando a tradicionalíssima JPMorgan Chase. Claro, boa parte disso é pelos investimentos externos —o mais recente, de 4,4 bilhões, do Vision Fund, fundo do grupo japonês Softbank —, mas o crescimento, seja como for, é real.



Total trimestral de usuários do WeWork do 1º trimestre de 2017 até o 2º trimestre de 2018.

Não só isso. Mais importante que saber receitas ou prejuízos, seria saber qual o tamanho da influência do seu crescimento sobre esses números. Ou seja, algo que medisse como a empresa funcionaria se parasse de expandir, para que se possa saber se o modelo é sustentável. Essa métrica nem sempre é exata, mas, no caso do WeWork, ela existe: é o chamado community adjusted Ebitda, e seus resultados são animadores.


No mesmo 1º semestre de 2018 que o WeWork teve mais de 700 milhões de prejuízo, o community adjusted Ebitda aponta um ganho de US$202mi — mais que o dobro que o do mesmo período no ano passado, de 95 milhões.


Ao mesmo tempo que a startup de coworking é a grande ilustração da injeção desenfreada de capital, a mesma segue mostrando sua força. Talvez receber dezenas de bilhões de reais em investimentos não seja tão ruim, afinal.


De Roma a Marte


Números absolutos podem significar muito mais do que, por intuição, inicialmente enxergamos. Avaliando uma startup, é importante saber que toda a sua base é a ideia, mas o essencial, de fato, é a execução dela. É impossível montar um guia geral de como achar o tão falado equilíbrio, cada caso é um caso. Da mesma forma que o inigualável Império Romano entrou em declínio após parar de crescer, o modelo de crescimento estável, com um passo de cada vez, já se provou poderoso inúmeras vezes.


Tão importante quanto, há fatores externos a se avaliar. Por mais intuitivo que seja, não confunda fama com sucesso, isso pode afetar qualquer opinião sobre uma empresa. Fama é sobre mídia, não sobre empresas, muito menos gestão. No final do dia, o sucesso premia as melhores gestões das melhores ideias, seja com ou sem investimentos bilionários en masse. Claro que ir a Marte é mais atraente do que vender livros. Não por isso — nem mesmo perto — qualquer empresa do tão adorado e falado Elon Musk funciona melhor ou tem mais futuro que a Amazon. Talvez a melhor maneira de impactar o mercado e se consolidar, apesar de contraintuitivo, seja realmente trabalhar progressivamente mais. E que Charles Chaplin nos perdoe.

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