Stockholder Theory vs Stakeholder Theory e a Gestão Baseada em Valor

Atualizado: 15 de Jan de 2019

As empresas são um dos principais componentes das sociedades modernas. No entanto, seus objetivos e valores como organização são constantemente alvos de discussões e debates. Um dos mais notórios é o do stockholder theory vs stakeholder theory, que coloca em discussão a responsabilidade social da empresa e qual deveria ser sua função-objetivo. Será que as empresas deveriam priorizar apenas o valor gerado para para seus acionistas (stockholders) e proprietários ou será que elas deveriam buscar atender de forma equilibrada os interesses, por vezes conflitantes, de todos os seus stakeholders, que são as partes envolvidas em seus processos, como fornecedores, funcionários, credores, clientes e também acionistas? Para poder discorrer sobre o tema, é importante definir bem as duas diferentes concepções, que frequentemente são alvos de más interpretações. Além disso, também cabe, a partir dessa discussão, enunciar uma forma de administração chamada de gestão baseada em valor, ou value-based management, que deriva da concepção de que o foco de toda empresa deveria ser o de aumentar o seu valor de mercado no longo prazo.





Stockholder Theory


“There is one and only one social responsibility of business - to use its resources and engage in activities designed to increase its profits so long as it stays within the rules of the game, which is to say, engages in open and free competition without deception or fraud.” - FRIEDMAN, Milton (1970)


A teoria dos stockholders - ou a teoria da maximização da riqueza dos acionistas - é a visão mais tradicional vigente e se baseia na perspectiva que a administração da empresa é contratada pelos proprietários da firma (que, no caso de uma empresa de capital aberto, são seus acionistas), e em prol de seus benefícios. Dessa forma, cabe aos administradores satisfazerem os interesses dos proprietários, e não equilibrar os interesses em favor de todos os públicos envolvidos com a companhia.


Em seguida, os autores e defensores dessa teoria se amparam em conceitos de economia e finanças para argumentar que os executivos das empresas devem utilizar um critério lógico e claro para tomar decisões e ter seu desempenho avaliado, e que esse critério deve ser a maximização do valor da empresa. É válido explicitar que essa conclusão parte do pressuposto que o principal objetivo dos proprietários e acionistas é maximizar a sua própria riqueza.


Uma linha de argumentação paralela defende essa teoria com base no fato que os acionistas são os stakeholders que carregam mais risco e menos direitos legais em relação à corporação e, por isso, devem ser privilegiados em detrimento dos demais stakeholders. Pode-se afirmar isso por conta de algumas questões. Primeiro, os acionistas carregam mais risco pois todos os participantes da corporação possuem contratos implícitos ou explícitos que lhe permitem saber com antecedência quanto e quando serão remunerados, exceto os acionistas. Além disso, eles possuem menos direitos legais porque se a empresa não remunerar seus stakeholders pelos serviços prestados, todos possuem o direito de acionar judicialmente a companhia, podendo levá-la à falência, com exceção, de novo, dos acionistas. Por fim, num processo de liquidação judicial da companhia (por conta de uma eventual falência ou outros motivos), os acionistas serão os últimos a serem pagos, gerando, também, um maior risco. Assim, por estarem mais expostos ao risco do empreendimento, deveriam ser a parte mais favorecida pela administração da empresa.


Infelizmente, essa teoria é mal interpretada de muitas formas. Primeiro, muitos a encaram como um estímulo aos administradores a focar no lucro de qualquer jeito, gerando casos como o escândalo da emissão de poluentes da Volkswagen ou das fraudes contábeis da WorldCom e da ex-gigante Enron. No entanto, os autores que defendem a teoria reiteram as responsabilidades da empresa em seguir normas legais e éticas da sociedade, sem cometer fraudes ou enganar os agentes econômicos com os quais dialoga.


Em segundo lugar, muitos criticam que a teoria teria uma orientação de maximização da riqueza no curto prazo, em detrimento do longo prazo. Isso ocorre porque muitos acionistas buscam retorno no curto prazo, e, muitas vezes, designam gestores que priorizam aumentar o valor de mercado da empresa apenas no curto prazo. No entanto, os defensores mais conceituados da teoria dos shareholders (sinônimo de stockholders), defendem a necessidade de um Enlightened self-interest, cuja tradução livre seria “interesse próprio iluminado”. O Enlightened self-interest é um imperativo ético que diz que agir em prol do bem comum tende a beneficiar o próprio indivíduo no longo prazo, e por isso tal comportamento deve ser do interesse próprio de cada um. Os defensores desse imperativo argumentam que quando a maioria ou todos os agentes agem segundo seu egoísmo míope, o grupo e todos os seus indivíduos tendem a perder no longo prazo, com o resultado de conflitos, de eficiência e produtividade reduzidas por conta de falta de confiança e despesas adicionais relacionadas à proteção dos interesses próprios, como em disputas judiciais. Assim, seria mais benéfico para os próprios acionistas adotar uma administração que vise à maximização do valor da empresa no longo prazo, uma vez que uma administração que comprometa o futuro da empresa destrói valor, e gerará prejuízo a algum acionista mesmo que não o atual.


Uma outra crítica é que supostamente a teoria dos stockholders inviabilizaria investimentos com fins meramente sociais ou, por exemplo, em melhores condições de trabalho e de vida para os funcionários. No entanto, a teoria apoia tais esforços se forem do interesse dos acionistas. Em sociedades que tais ações são valorizadas, os mercados tendem a precificar tais medidas, gerando acréscimos no valor de mercado dessas empresas, que passam a ser negociadas por preços mais altos. Além disso, autores como Michael Jensen (2001) argumentam que na prática é impossível maximizar o valor da empresa no longo prazo se gestores ignorarem ou prejudicarem alguém importante envolvido com a empresa, então prejudicar funcionários ou demais stakeholders tenderia a destruir valor no futuro.


Stakeholder Theory


The task of executives is to create as much value as possible for stakeholders without resorting to tradeoffs. Great companies endure because they manage to get stakeholder interests aligned.” FREEMAN, R. Edward


Por outro lado, a teoria dos stakeholders - ou teoria de equilíbrio dos interesses dos públicos afetados pela companhia - surgiu em contraposição à teoria clássica dos stockholders e defende que a empresa também tem responsabilidades com outros stakeholders, além dos acionistas. Assim, enquanto na teoria dos stockholders atender aos interesses dos demais agentes relacionados à empresa pode ser visto como um meio para se atingir um fim, na teoria dos stakeholders, satisfazer as partes afetadas pela empresa é um fim em si próprio. A teoria busca, então, identificar quais seriam e qual seria o grau de importância de tais stakeholders no processo de tomada de decisão na empresa.


A teoria dos stakeholders parte do pressuposto que todas as partes com interesses legítimos que participam de uma empresa fazem-no para obter benefícios próprios que também devem ser levados em conta pela gestão da empresa, independente de contribuírem para maximização de riqueza do acionista ou não.


No entanto, assim como a teoria dos stockholders, a teoria dos stakeholders também é, por vezes, mal interpretada. Muitos criticam a teoria por acharem que ela faz com que a empresa não considere como principal objetivo a lucratividade. No entanto, isso não necessariamente é verdade, uma vez que ela também inclui a necessidade de satisfazer os interesses dos acionistas, o que geralmente é atendido por meio da geração de retornos financeiros. Além disso, em geral, o que a teoria argumenta é que a ponderação de quais stakeholders são mais ou menos importantes varia muito segundo a realidade de cada empresa, então o grau de ênfase dado ao stockholder pode ser bastante elevado. Talvez para uma empresa possa ser mais interessante dar mais ênfase a um stakeholder diferente, como no caso da Tesla, que, ao buscar causar alto impacto na sociedade, pode não priorizar tanto a geração de valor para seus acionistas.


Existe muita discussão acerca da abrangência dos stakeholders e de como atribuir um fator de importância a cada um deles, de modo que muitos autores estabelecem isso de forma pouco clara, podendo gerar confusão na execução de uma gestão focada em gerar valor para todos os stakeholders. Na verdade, essa necessidade de atenção simultânea a vários interesses pressupõe uma função com múltiplos objetivos. Essa, então, apresenta sérios problemas na definição de critérios lógicos para a tomada de decisão e a avaliação de desempenho. A situação é geralmente intensificada pelo fato de os stakeholders possuírem em geral graus de relevância diferentes ao longo da história da empresa.




Enlightened Shareholder ValUE: Um Meio termo?


Em meio a essas duas concepções bem diferentes, aparecem alternativas que buscam conjugar bons elementos vistos nas duas perspectivas. Uma delas, que tem ganhado notoriedade ultimamente, é a Enlightened Shareholder Value (ESV). Ela surgiu em um contexto em que a dificuldade de lidar com objetivos financeiros e não financeiros da empresa colocou o patrimônio do acionista em risco. A mudança total da perspectiva vigente em direção a uma valorização maior dos stakeholders foi vista como muito difícil e, por conta disso, Michael Jensen (2001) sugere uma terceira visão que reafirma a geração de valor para o acionista como o principal foco da responsabilidade corporativa, mas que considera a importância de satisfazer os demais stakeholders envolvidos na atividade da empresa para o desenvolvimento sustentável da própria. A ESV é, portanto, chamada de uma abordagem híbrida.


Assim, na predominância da geração de valor para o acionista como principal objetivo de uma empresa, questiona-se sobre como seria a implementação de tal mindset corporativo na prática. E, a partir desse questionamento, surge o conceito de gestão baseada em valor, do inglês value-based management (VBM).


Gestão Baseada em Valor


A gestão baseada em valor é um modelo de gestão que coloca o aumento do valor do patrimônio líquido da empresa no cerne de toda decisão estratégica e operacional da mesma. Ela busca melhorar o processo de tomada de decisão em todos os níveis de uma organização, se utilizando de um critério claro e objetivo: tal investimento aumentará o valor do patrimônio líquido da empresa? Assim, o administrador que utiliza VBM incorpora o valuation da empresa como métrica de performance e ferramenta de tomada de decisão. A partir desse objetivo central, ele estabelece objetivos secundários e terciários a níveis táticos e operacionais, além de indicadores e metas para o acompanhamento desses objetivos. Basicamente, o value-based management pode ser compreendido como o mindset de criação de valor aliado aos processos e sistemas para colocar esse mindset em ação. Juntos, podem gerar um impacto grande e contínuo numa organização, como se pode observar pelo esquema abaixo de exemplos reais, traduzidos de um artigo escrito pela McKinsey sobre value-based management.




Descrição: Como a implementação de uma gestão baseada em valor alterou a atuação de empresas de diferentes setores

Um framework de VBM, também da McKinsey, pode ser mostrado abaixo, em que direcionadores de valor - ou value drivers - são listados em três níveis: genéricos, específicos de cada negócio e operacionais. Entendendo como o valor de uma empresa é calculado e quais fatores influenciam mais na criação de valor por parte da firma, pode-se entender quais devem ser as prioridades de uma gestão baseada em valor.


Níveis de direcionadores de valor (value drivers):



Exemplo de framework sobre os value drivers de uma empresa

Por fim, deve-se ressaltar também que, mais que a definição de objetivos e estratégias, a implementação de um VBM deve visar a alterar a cultura de toda a empresa, dos diretores aos demais funcionários, para que todos estejam alinhados quanto à necessidade de criar valor e entender o que de fato devem priorizar.


Conclusão


De uma maneira geral, é interessante analisar como a teoria sobre o que as empresas devem priorizar dialoga com as práticas de administração em voga no mundo corporativo moderno, o que prova que a discussão teórica não necessariamente se desprende da realidade. A questão é que diferentes concepções moldam nosso cotidiano e estar a par dessas discussões decorrentes é importante para se tornar um agente ativo na sociedade.

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