Trade War: a segunda Guerra Fria?

Atualizado: Ago 24


Imagine dois times, um de futebol e outro de futebol americano, entrando no mesmo campo para se enfrentar em uma partida. É desta forma que a guerra comercial travada atualmente entre os Estados Unidos e a China pode ser vista. Cada um sabe jogar conforme as suas próprias regras e, em uma tentativa de conciliar interesses acerca das formas de jogar o jogo, acabam gerando um entrave que não somente é prejudicial para ambos, mas também para os espectadores da partida.


O pré-jogo

Os primeiros indícios do conflito entre as duas potências econômicas não são recentes. Em solo americano, seja em debates eleitorais ou até dentro do próprio governo, o forte crescimento econômico chinês é um tema que há anos vem ganhando relevância. No entanto, foi nas eleições de 2016 que a preocupação com a China ganhou maior destaque. Na época, o então candidato à presidência, Donald Trump, chamou atenção ao caracterizar como “abuso” o que a gigante do Oriente praticava em suas relações comerciais com os Estados Unidos.


O discurso de Trump, que se mantém até os dias atuais, tem raiz em um ponto principal: o crescente déficit comercial americano nessa relação. Essa questão, à primeira vista, trata-se basicamente de um fenômeno gerado pela ascensão econômica chinesa. Entretanto, é nesse momento que a discussão sobre as regras do jogo aflora. O governo americano alega que, para alcançar esse patamar, a “fábrica do mundo” desrespeita as leis de livre mercado estabelecidas pela Organização Mundial do Comércio (OMC) ao conceder diversas formas de subsídio para suas empresas nacionais, como linhas de crédito mais baratas e grandes descontos na compra de terrenos. Por consequência, essa influência estatal chinesa faz com que seus preços se tornem mais atrativos do que os de seus competidores a nível internacional, gerando um desequilíbrio nas trocas comerciais que tende a favorecer a potência oriental.

Outro pilar que sustenta o incômodo estadunidense é o recorrente ataque de hackers chineses à base de dados e informações de empresas estrangeiras. Ao longo da última década, não só os Estados Unidos, mas empresas de diversos países, como Austrália, Alemanha e Coreia do Sul, relataram esses ocorridos. Apesar da China realizar as mesmas acusações à espionagem estadunidense e negar a utilização de ataques cibernéticos para fins comerciais, o fato de que muitos dos criminosos alegam serem apoiados por Pequim incrementa a tese de que o país faz uso de métodos antiéticos para fomentar o seu crescimento econômico.


O apito inicial

A insatisfação com tais ações culminou em março de 2018, quando o governo de Trump deu início à Trade War, impondo tarifas de 25% sobre todas as importações de ferro e de 10% sobre todas as de alumínio. Apesar de conceder algumas exceções a parceiros comerciais mais próximos, como o Canadá e México, essa primeira medida afetou diversos países além da China, como o Japão, aliado norte-americano que lamentou ser atingido por esse ato protecionista. Em resposta, cerca de 1 mês depois, foi a vez de 128 bens americanos sofrerem com taxações chinesas de 15 a 25% e, dessa forma, ambos os países seguiram retaliando golpes. Como resultado, até o final de 2019 os EUA já haviam imposto novas tarifas em cerca de US$550 bilhões de bens vindos da China, que, por sua vez, também retribuiu com um aumento de tarifas em cima de US$185 bilhões de produtos estadunidenses.

A escalada das tarifas desde 2018 gerou sofrimento econômico para ambos os lados. Para retratar alguns dos efeitos da disputa em menor escala, o caso da soja explicita como os fluxos comerciais foram afetados internacionalmente. Antes do início da Trade War, os Estados Unidos despontavam como o maior produtor mundial dos grãos de soja, correspondendo a 34% do total, seguidos do Brasil, com 32% da produção global. Com as retaliações da China - consumidora de cerca de dois terços de toda a soja produzida no planeta - sobre a soja americana, em 2019 o Brasil passou a ocupar a posição de maior produtor, representando uma fatia de 37%, enquanto a soja estadunidense reduziu sua participação mundial para somente 28%.


Assim como o caso da soja exemplifica um ferimento americano nessa troca de golpes, diversos outros setores chineses também mostram os impactos sofridos nessa luta. De 2018 a 2019, o maior mercado consumidor da China - os Estados Unidos - importaram US$88 bilhões a menos de seus bens como efeito da elevação de seus preços com as novas tarifas, uma redução correspondente a mais de 15%. Da mesma forma que ocorreu com a soja, outros países também passaram a suprir essa demanda.


A imposição dessas barreiras, no entanto, não é positiva para a economia mundial. Por não afetar somente os dois protagonistas desse conflito, o surgimento de novas tarifas também acarreta retaliações vindas de outros países. Em resposta às medidas americanas - que mesmo focadas na China, atingem importações de diversos outros cantos do mundo - Índia, Rússia, Turquia e a União Europeia levantaram barreiras que variaram de 4 a 70% em cerca de US$6,5 bilhões de produtos importados dos Estados Unidos. A soma dessas ações, portanto, corrobora a diminuição do fluxo comercial entre as nações, o que, consequentemente, desacelera a economia global.


O segundo tempo

A continuação da troca de choques entre as duas maiores potências do mundo por mais de um ano e meio se mostrou insustentável no longo prazo. Tendo isso em vista, em janeiro de 2020 os líderes de seus países, Donald Trump e Xi Jinping, assinaram o Phase One Deal - a primeira fase de um acordo comercial que majoritariamente estabelecia a redução pela metade das tarifas americanas em US$120 bilhões de produtos chineses, em troca de um aumento de US$200 bilhões das importações de bens americanos por parte do país asiático até o fim de 2021.


Parcialmente em função dos meses conturbados gerados pela COVID-19, nos quais o impacto financeiro nos países forçou-os a mudar suas estratégias econômicas para superar a crise, as mudanças propostas pelo acordo não progrediram conforme o previsto. A China, em busca de produtos mais baratos, intensificou o comércio com países como o Brasil e, da mesma forma, pouca redução foi vista nas tarifas americanas.

Apesar do baixo progresso quanto às diretrizes estabelecidas na primeira fase do acordo comercial, uma amenização das trocas de tributações foi observada. A tentativa de conciliação dos interesses no começo de 2020, portanto, cumpriu a função de reduzir a imprevisibilidade comercial na relação entre os dois países, o que também favoreceu o equilíbrio da economia global.


A disputa de tarifas que, a princípio, parecia estar sobre controle, se espalhou como uma verdadeira metástase para outras esferas do relacionamento conturbado. A intensificação do conflito passou a ser mais visível no meio diplomático, com sérias acusações de Trump à China durante o período da pandemia. Desde a dispersão do vírus que impactou todo o planeta, até o roubo de pesquisas ocidentais sobre a cura para a doença, o líder americano desferiu diversos ataques à sua maior rival, que, por sua vez, tem adotado uma postura de negação às denúncias e repúdio à postura do líder americano.


O lance decisivo

Apesar do conflito ter começado em setores mais tradicionais, a corrida tecnológica iniciada pelas duas potências durante a Trade War é o que mais tem chamado a atenção nos últimos tempos. A China, que limita o livre acesso de seus cidadãos à internet e proíbe sites como Facebook e Google em território nacional, possui uma clara intenção de não só assegurar sua independência no espaço tecnológico, mas também de se tornar a grande protagonista nesse meio. Para isso, o próprio governo chinês investe grandes quantias em pesquisa e desenvolvimento, tendo aumentado em mais de US$450 bilhões o capital anual destinado a esse fim entre os anos de 2000 a 2017.


Dentro das diversas frentes englobadas pela corrida tecnológica, como o desenvolvimento de inteligência artificial e os avanços em pesquisas espaciais, talvez a briga pelo 5G seja a esfera que mais simboliza o êxito chinês rumo ao seu objetivo. Principalmente por meio do forte crescimento da Huawei - multinacional de tecnologia do país - nos últimos anos, a China se destacou como a maior fornecedora de sistemas de rede do mundo, suprindo, por exemplo, um terço da demanda por equipamentos de telecomunicação na Europa.

O receio norte-americano nesse cenário vai além da perda de sua hegemonia na corrida por inovações tecnológicas. O fato da China estar dominando a disputa pelo 5G - uma tecnologia que não só aumenta a velocidade e conectividade dos aparelhos eletrônicos, mas também permite que aparelhos antes não-eletrônicos passem a se conectar à internet - transcende a dor financeira e atinge a segurança de informações e dados estrangeiros.


Sob a suspeita de cooperação com o governo chinês por meio do compartilhamento de dados dos seus usuários espalhados pelo mundo, a Huawei já sofreu banimento de países como os Estados Unidos, Japão e Austrália, além de outras nações que consideram tomar a mesma atitude. Paralelamente, aplicativos chineses como o TikTok e o WeChat, também passaram a sofrer as mesmas acusações. Tendo isso em vista, apesar do crescimento incontestável dentro do ramo tecnológico, a China ainda possui o grande desafio de transpor a barreira de confiabilidade para se solidificar como a grande potência frente aos norte-americanos nessa corrida.


A continuação de uma longa partida

Passados mais de 2 anos, além de outras questões terem sido incorporadas ao debate, o diálogo entre os dois times parece ter evoluído muito pouco. Dessa forma, aparentemente as equipes entrarão em campo conforme as regras que conhecem, para disputar uma partida que se torna mais complexa a cada dia.


Mesmo que não seja dito publicamente, o crescimento chinês amedronta a maior economia do mundo. Não fosse suficiente, não é somente a perda da sua predominância global que atormenta o governo americano, mas também as consequências que ela pode gerar. A transferência de poder e de informação para um país liderado por políticos que deliberadamente cerceiam o acesso de sua população à informação e possuem baixa transparência em suas estratégias comerciais pode ser uma ameaça tanto ao sistema político-econômico dos Estados Unidos quanto ao de diversos outros países.

Seja fechando um consulado chinês em solo americano, ou até impondo sanções a aplicativos criados pela força oriental, os Estados Unidos reagem como podem à agressiva ascensão da sua rival. A partir desse entendimento, é sensato dizer que a disputa política e comercial entre as duas maiores potências do século XXI ainda está longe de acabar.


Até agora, as pequenas batalhas travadas entre Estados Unidos e China podem se traduzir somente como manchetes no cotidiano dos não-envolvidos no conflito. A soma dos seus efeitos, no entanto, provavelmente moldará a forma como países se relacionam nas próximas décadas, o que deve impactar diretamente a vida de todos. Os efeitos em escala global gerados por uma disputa entre duas potências mundiais se assemelham ao que já foi visto em outro momento da história. A partir disso, surge um questionamento: estamos vivendo a segunda Guerra Fria?




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