Atual cenário das criptomoedas: qual é o fundo do poço?

Atualizado: há 5 dias



Tecnologia, segurança e inovação. Essas são algumas das promessas que as criptomoedas, ativos digitais descentralizados - ou seja, não controlados por algum órgão ou país em específico - pretendem fornecer aos usuários. Elas são geradas em uma rede de blockchain e não possuem, necessariamente, lastro fixo¹, mas vale lembrar que algumas podem ser convertidas em outras moedas, como o real ou o dólar.


Como uma das grandes promessas do setor financeiro dos últimos anos, o Bitcoin observou o seu valor cair de US$ 67 mil, em outubro de 2021, para o patamar de US$ 19 mil em meados de junho de 2022. Tal fato evidencia ainda mais a volatilidade desse ativo e o quanto está sujeito a fatores externos.



Cenário econômico global atual


O constante aumento dos juros vivenciados nesses últimos tempos, como resposta à crescente inflação, é resultado da injeção de dinheiro dos Bancos Centrais nas economias durante a pandemia da COVID-19. Nesse sentido, tais problemáticas, somadas a um cenário exterior marcado pela guerra na Ucrânia e lockdowns na China, contribuíram para o aumento da cotação de diversas commodities energéticas e agrícolas, como o gás natural e os grãos. Tendo em vista esses fatores e, principalmente, a crescente das taxas de juros, os títulos da dívida pública de países como os Estados Unidos, considerados livres de riscos, se tornam mais atraentes e criaram uma força de redução de preço de ativos especulativos como o Bitcoin.


Primeiramente, é necessário compreender mais a fundo a inflação causada pelo fim da pandemia e a normalização das atividades econômicas. Com o início da imposição de quarentenas nas maiores economias globais, a procura por produtos diminuiu bruscamente e, junto a isso, as fábricas apresentaram um longo período ocioso, gerando uma escassez, tanto de insumos, quanto de mercadorias finais. Contudo, com a volta da procura no mercado por esses produtos, devido à redução da disseminação do coronavírus, havia um perigoso cenário de escassez de produtos, excesso de moeda em circulação e baixos estoques. Diante dessa conjuntura, seguindo a lógica econômica de oferta e demanda, os preços dos produtos tendem a subir, gerando inflação. Um exemplo claro dessa dinâmica é os Estados Unidos, que teve sua inflação subindo para 9,1% nos últimos 12 meses - maior valor em 40 anos.


Além disso, o conflito entre Rússia e Ucrânia afeta toda a economia global, dado que esses países possuem atuações relevantes em um mercado fundamental para diversas atividades econômicas: o de commodities. Nesse sentido, a Rússia, por exemplo, é a principal responsável pela exportação e a segunda maior produtora de gás natural, tendo 22% de toda a exportação mundial. Além disso, a nação possui forte relevância na produção e na exportação de petróleo. Já a Ucrânia, por sua vez, é responsável por 12% das exportações mundiais de trigo e 15% das exportações de milho. Junto à Rússia, o país invadido detém uma fatia bastante significativa do comércio mundial de trigo (30%), milho (17%), cevada (32%) e óleo, sementes e farelo de girassol (50%). Portanto, dada a participação desses players no comércio internacional, o impacto desse conflito nos mais diversos setores econômicos era inevitável. Com isso, foram criadas instabilidades econômicas, as quais provocaram mudanças nos fluxos de capitais de ativos especulativos, como o Bitcoin, para ativos mais seguros, como a renda fixa.



Por fim, pode-se afirmar que a China é a principal produtora e exportadora de componentes para produtos industrializados de todos os tipos, como metais comuns e produtos químicos, com um foco na área de eletrônicos, representando 43% de todos os bens exportados pelo país. Dessa forma, por conta de uma nova onda de COVID-19, o porto de Xangai decretou lockdown em abril e maio deste ano, o que causou uma iminente escassez no fornecimento de produtos no mercado, contribuindo ainda mais para a subida dos índices inflacionários globalmente.


A partir dessa tendência de aumento da inflação, diversos Bancos Centrais pelo mundo começaram a subir suas taxas de juros na tentativa de conter esse crescimento. Nos Estados Unidos não foi diferente, tendo em vista que o comitê do FED elevou em 0,75% suas taxas, provocando uma iminente recessão.Vale ressaltar que em alguns países europeus, como a Inglaterra, os bancos centrais também estão elevando os juros e um cenário de recessão tem se tornado uma possibilidade. Essa elevação dos juros acarretou no aumento da atratividade da renda fixa, principalmente, na maior economia global, devido à maior rentabilidade em um tipo de investimento muito menos volátil que as criptomoedas. Com isso, gerou-se um fluxo de vendas das criptomoedas que, consequentemente, perderam valor.


Acontecimentos recentes


Nos últimos meses, alguns acontecimentos se destacaram no meio das criptos, um exemplo foi o caso da Celsius. Essa plataforma recebia depósitos de criptoativos, remunerado com juros elevados, e emprestava os mesmos para outros clientes com juros ainda mais altos, lucrando com essa diferença. Com a queda das criptos, para tentar evitar a sua falência, a empresa precisou bloquear os saques, que atuava diretamente com o staking de criptomoedas².


Outro acontecimento marcante foi o do protocolo Terra e suas criptomoedas LUNA e UST, que resultaram na perda de cerca de US$ 56 bilhões. A UST é uma stablecoin, ou seja, tem seu valor vinculado a um ativo estável, nesse caso o dólar, mas por ela ser algorítmica ela não tem lastro, sendo conversível apenas pela LUNA. Nos primeiros dias do mês de maio de 2022, essa moeda teve uma venda de 150 milhões de uma vez só e na tentativa de, algoritmicamente, trazer a UST de volta a US$ 1, foram emitidos mais de 6 trilhões de tokens LUNA em apenas 8 dias e, com isso a LUNA perdeu 99,9% de seu valor.


Esses recentes acontecimentos internos do mercado acabaram gerando ainda mais pessimismo por parte dos investidores, de acordo com o índice de medo e ganância do Bitcoin³, que atingiu um patamar de 8 pontos (medo extremo) em meados de junho de 2022.



Perspectiva futura


De acordo com André Portilho, head de Digital Assets no BTG Pactual, há uma previsão de mais um aumento de 0,75% nas taxas de juros americanas. Se concretizado, o mercado de criptomoedas pode novamente ser afetado, expondo ainda mais o impacto que o mercado tradicional possui nesses tipos de ativos.

Embora contra intuitivo, o pessimismo em relação aos fundamentos das criptos está chegando ao fim, o que é muito relevante para um mercado volátil, já que seus preços são altamente afetados por notícias negativas. Isso porque o Bitcoin ainda está mantendo importantes níveis de suporte, ou seja, nesse caso, os investidores estão observando uma janela de oportunidade para comprar ativos altamente rentáveis a preços baixos, antes que o cenário mude.

Além disso, algumas notícias já mostram que dias melhores já começaram, dado que Bitcoin e Ethereum valorizaram, respectivamente, 28% e 72% no final de julho de 2022. Segundo Cici LU, CEO da consultoria Link Partners, os sinais de que o FED pode estar chegando ao fim do seu ciclo de alta elevaram todos os ativos de risco, com a criptomoeda também se beneficiando. De acordo com a líder, Isso ocorre pela desaceleração econômica dos Estados Unidos, levando os investidores a acreditarem que as taxas do FED deixarão de aumentar até o final do ano e reduzirão os custos de empréstimos em 2023. O futuro do Bitcoin guarda muitas oportunidades e desafios, tornando-se um pote de ouro para investidores.

Glossário:

1. Moeda com lastro fixo: o lastro é um atestado de valor. Ele confere autenticidade e veracidade de que o que se está negociando possui um parâmetro estabelecido com alguma outra coisa, como dólar ou ouro.

2. Staking de criptomoedas: É uma forma de remuneração para os investidores que fornecem as suas moedas digitais, com o objetivo de ajudar a validar as transações em uma rede blockchain.

3. Índice de medo e ganância do Bitcoin: é uma métrica criada pelo site Alternative.me, bem popular entre investidores de criptomoedas. Basicamente, a partir da movimentação do mercado, ele calcula como o setor está se sentindo em relação a um ativo digital específico, como o Bitcoin.

Referências:

Thomspon, Nathan. "Queda das criptomoedas: chegamos mesmo ao fundo do poço?". Disponível em: < https://exame.com/future-of-money/queda-das-criptomoedas-chegamos-mesmo-ao-fundo-do-poco/ >. Acesso em: 29/07/2022


Silva, Mariana Maria. "Por que o bitcoin está despencando? As razões, de acordo com especialistas brasileiros". Disponível em: < https://exame.com/future-of-money/por-que-o-bitcoin-esta-despencando-as-razoes-de-acordo-com-especialistas-brasileiros/ >. Acesso em: 29/07/2022


Silva, Mariana Maria. "Medo extremo: índice registra pessimismo recorde no mercado enquanto criptos seguem ladeira abaixo". Disponível em: < https://exame.com/future-of-money/medo-extremo-indice-registra-pessimismo-recorde-no-mercado-enquanto-criptos-seguem-ladeira-abaixo/ >. Acesso em: 29/07/2022


"Bitcoin: por que a principal criptomoeda está desabando". Disponível em: < https://g1.globo.com/economia/noticia/2022/06/15/bitcoin-por-que-a-principal-criptomoeda-esta-desabando.ghtml >. Acesso em: 29/07/2022


Santos, Luís Filipe. "Entenda o que causou recente queda das criptomoedas e o que deve acontecer com o mercado". Disponível em: < https://jovempan.com.br/noticias/economia/entenda-o-que-causou-recente-queda-das-criptomoedas-e-o-que-deve-acontecer-com-o-mercado.html >. Acesso em: 29/07/2022


"Impactos da guerra entre Rússia e Ucrânia na economia e no setor agrário brasileiro". Disponível em: < https://blog.cresol.com.br/guerra-russia-e-ucrania/#:~:text=%C3%A0s%20rela%C3%A7%C3%B5es%20internacionais.-,Como%20a%20guerra%20tem%20impactado%20a%20economia,e%20tem%20atingido%20diversos%20pa%C3%ADses >. Acesso em: 29/07/2022


"Crypto Índice de Medo e Ganância". Disponível em: < https://portalcripto.com.br/criptomoedas/indice-de-medo-e-ganancia/ >. Acesso em: 01/08/2022


Ossinger, Joana. "Bitcoin e Ether estão a caminho do melhor mês desde 2021". Disponível em: < https://www.bloomberglinea.com.br/2022/07/29/bitcoin-e-ether-estao-a-caminho-do-melhor-mes-desde-2021/?utm_source=instagram&utm_medium=organic&utm_campaign=post&utm_id=CTA >. Acesso em: 01/08/2022


Kernan, Brianna. "O que o colapso da Terra-Luna diz sobre o mercado de criptomoedas?". Disponível em: <https://exame.com/future-of-money/o-que-o-colapso-da-terra-luna-diz-sobre-o-mercado-de-criptomoedas/>. Acesso em: 04/08/2022