Turbulência à vista: a iminente recessão dos EUA


O termo recessão, isoladamente, significa um retrocesso em relação a algum fator. Por isso, quando associado à economia de um país, na verdade, estamos fazendo menção a um declínio econômico expressivo - PIB negativo - e, de certa forma, duradouro, que afetaria a população e as empresas e atividades industriais. Essa retração pode gerar aumento do desemprego, perda de renda familiar, aumento do número de falências empresariais, restrição de investimento, entre diversas outras problemáticas para uma nação, causados principalmente pelo desequilíbrio no mercado que a falta generalizada de capital causa.


Tendo em vista a alta inflação¹, o banco central norte-americano, Federal Reserve (ou Fed), elevou as taxas de juros² em 0,75%, atingindo o patamar de 1,5% a 1,75% ao ano. Desde 1955, em seis das sete vezes que a taxa de juros dos EUA subiu tão rapidamente, a economia entrou em recessão. Na mesma linha, a proporção do aumento é considerado algo excepcional, não só por ser uma elevação dos juros jamais vista nos EUA, mas também por ser a maior taxa desde 1994. Esse crescimento da taxa de juros visa encarecer o crédito, ao mesmo tempo em que torna muito atrativo investir em títulos públicos. Dessa forma, ocorre uma diminuição no montante de capital circulante na economia e, a partir disso, com menos dinheiro, a demanda por produtos tende a diminuir, gerando uma redução na inflação. Esse cenário pode ser observado na redução dos investimentos na bolsa de valores e na desaceleração econômica nacional, por exemplo. Uma elevação desse porte gera apreensão pois ocorre a diminuição dos investimentos na bolsa, e o encarecimento do crédito para as empresas. Portanto, esse cenário desacelera a atividade econômica e gera consequências negativas para o bem-estar da população.




Segundo alguns membros do comitê do Federal Reserve, o aperto monetário foi motivado pela persistência da inflação elevada no país. Em maio de 2022, o IPC (Índice de Preços ao Consumidor), o qual mede a variação de preços de um conjunto fixo de bens e serviços componentes de despesas habituais, atingiu 8,6% no acumulado dos 12 meses anteriores. Esse atual valor é o maior registrado desde 1981, distanciando-se cada vez mais da meta anual nacional, estabelecida pelo próprio Fed, de 2% ao ano. Dessa forma, a alta na inflação vem gerando um debate forte sobre sua causa que, para muitos, ainda é misteriosa. De acordo com o diretor do Centro Hutchins de Política Fiscal e Monetária da Brookings Institution, David Wessel, essa taxa é resultado de uma união de fatores. O primeiro diz sobre o aumento da demanda, motivada pelos incentivos fiscais e monetários agressivos em resposta ao COVID-19. A caráter de comparação, o estímulo fiscal do governo Obama em 2008 foi de US$ 787 bilhões, enquanto o atual estímulo dos governos de Trump e Biden atingiram US$ 5 trilhões, valor 535% maior. Já o segundo fator inflacionário está relacionado ao impacto da pandemia sobre a cadeia produtiva, pois diversos funcionários tiveram que ser demitidos e fábricas pararam de funcionar, deixando, assim, a produção estagnada.


A Grande Recessão


Em 2008, os Estados Unidos já haviam experienciado uma retração, resultado do colapso imobiliário, causada pelo crescimento exponencial das inadimplências³ das hipotecas subprime⁴.


Dando um passo atrás, nos anos 1990, a economia norte-americana estava crescendo acima de 4 pontos percentuais, mantendo uma inflação controlada abaixo de 1 ponto percentual, também proporcionada pelos avanços tecnológicos e consequentes ganhos de produtividade. Em vista disso, todo esse cenário de progresso econômico permitiu o aumento do endividamento das famílias, por meio da aquisição de imóveis a taxas baixas. Entretanto, ao mesmo tempo, essa mudança do padrão de consumo das famílias foi o início do surgimento da bolha imobiliária de 2008, a qual viria a desmoronar com o aumento dos juros.


Após isso, houve um efeito dominó no mercado financeiro que gerou diversas consequências, como prejuízos aos bancos por toda a inadimplência dos subprimes hipotecários, que futuramente levariam à queda acentuada no comércio internacional, redução dos preços de produtos e o aumento do desemprego. A resposta dos governos e bancos centrais a essas previsões foi realizar políticas fiscais e monetárias expansionistas, cujo principal objetivo era estimular a economia para reduzir os riscos do sistema financeiro.


Cenário atual


A recessão iminente acontece na mesma linha de 2008, embora seja muito menos grave do que a crise da década passada. Apesar da agitação do mercado, as próprias autoridades do Fed discordam da recessão inevitável. Uma ideia que os faz sustentar essa possibilidade é a busca do governo por um soft landing na economia americana, onde o Banco Central consegue reduzir a inflação sem levar a economia à recessão. Nas projeções do cenário, os Estados Unidos priorizariam um crescimento mais lento (cerca de 1% a 1,5% ao ano, significativamente menor do que os últimos crescimentos anuais, com média acima de 2,5%), mas evitariam uma alta inflação, segundo a atual presidente do Fed de São Francisco, Mary Daly. Além do cenário projetado, existem duas outras possibilidades: priorização do crescimento econômico, o que impediria o país de entrar em recessão através do não aumento na taxa de juros e, consequentemente, um provável descontrole na inflação; Aumentar os juros exageradamente, a ponto de conseguirem conter a inflação, mas entrariam em recessão econômica.


A declaração gerou uma reação generalizada no mercado nacional, caindo 23% em relação à última alta no índice S&P 500⁵, a qual soou como uma garantia que o banco central norte-americano continuará subindo a taxa de juros em 0,5% até o arrefecimento efetivo da inflação. Considerando que, em períodos de retração econômica, o índice caiu entre 30% e 55%, é provável que, caso a retração se concretize, a bolsa americana possa cair ainda mais. Por outro lado, os mercados externos também foram afetados: o Ibovespa, índice da bolsa brasileira, presenciou uma queda de 16% em um período de abril a julho, e o índice alemão DAX também experienciou uma baixa de 14% na bolsa de valores, no mesmo período de tempo.


Outro fator que corrobora para a recessão é a predominância de um extremo pessimismo em Wall Street neste ano. Com receio em relação à continuidade da elevação das taxas de juros, os investidores do mercado de ações optaram pelo modo de venda no primeiro semestre de 2022, porque estavam preocupados que o encarecimento do crédito corroeriam os lucros das empresas - por não serem mais atrativas que a renda fixa no geral e ainda menos seguras - e também dificultariam a rolagem da dívida. Depois de bater recordes no início do ano, com seu maior valor na história, o mercado acionário perdeu aproximadamente um quinto de seu valor total, ou seja, mais de US$ 7 trilhões de valor absoluto, quebrando uma sequência de altas relacionadas à retomada da economia após anos de pandemia.






Com uma recessão iminente, é evidente que essa impactará diretamente no futuro do país. Segundo o presidente do Fed, o desemprego no país provavelmente aumentará, na medida em que a queda na produção diminui a lucratividade dos negócios e, consequentemente, acabam cortando custos e demitindo pessoas. Esse fenômeno seria consideravelmente influenciado pelos atuais patamares de desempregados nos EUA, os quais se encontram em uma das suas mínimas históricas, com impressionantes 3,6%, e, portanto, um aumento não seria algo tão significativo, ficando assim na casa dos 4% previstos para os próximos anos. Como exemplo, podemos citar o empresário bilionário Elon Musk, CEO da Tesla, que deseja demitir 10% de seus funcionários e orientando que as suas companhias suspendessem as novas contratações no mundo inteiro, devido aos maus pressentimentos sobre a situação econômica atual.


De acordo com o grupo financeiro Goldman Sachs, importante banco americano, essa recessão tem uma previsão de ocorrência de 48% nos próximos 2 anos - bem acima dos 35% previstos pelo grupo em abril. Ainda segundo o banco de investimentos, o desafio nessa desaceleração seria o balanceamento do desemprego com o nível mais alto de inflação em 40 anos, de forma a encontrar um ponto em que as duas taxas fiquem equilibradas com a taxa de juros, sendo assim benéfico para os habitantes do país e a sua própria saúde financeira.



O cenário é ainda pior quando, ao mesmo tempo em que o país realiza um aperto monetário por meio da elevação dos juros, ele também está cortando impulsos fiscais realizados durante a pandemia - que adicionaram 1,8% ao PIB dos EUA - e um quantitative tightening⁶, retirando reservas financeiras em circulação no mercado.


Impacto Global


Segundo uma pesquisa do banco alemão, Deutsche Bank, publicada no fim de junho de 2022, cerca de 90% dos investidores internacionais estão cada vez mais convencidos de que o ritmo de elevação dos juros estadunidenses deve resultar na contração da economia.


Olhando por uma perspectiva global, a desaceleração da economia geraria impactos maiores para países com fortes relações comerciais e grande dependência de capital americano. Um exemplo claro é o México, Colômbia e Canadá, que são parceiros comerciais do NAFTA⁸ diretos e, assim, seriam extremamente afetados devido à atual dependência comercial, uma vez que atuam, principalmente, como exportadores.


Já o Brasil, que é mais próximo da China devido à exportação de commodities⁷, não teria a dimensão do impacto como seus parceiros mais fortes comercialmente, citados anteriormente. Por outro lado, o setor do mercado financeiro tende a ser mais sensível à riscos externos, e uma recessão nos EUA poderia provocar uma desvalorização adicional dos ativos brasileiros, além de gerar uma aversão ao risco e consequente fuga de capitais. Em termos de política monetária, o Brasil começou o ciclo de quantitative tightening antes dos EUA, no meio da década de 2010, e se aproxima do final do processo. A taxa de juros brasileira, atualmente em 13,25%, deve ser suficiente para reduzir as pressões inflacionárias no país, de acordo com especialistas financeiros. No entanto, se as condições econômicas internacionais continuarem a pressionar os preços globais por mais tempo do que o esperado, é provável que o Banco Central do Brasil tenha que manter os juros elevados por mais tempo de modo a garantir a convergência da inflação para a meta estipulada pela autoridade monetária.


Visto isso, uma retração na China, por exemplo, geraria uma queda dos preços de commodities e valorização do dólar, prejudicando o Brasil em uma intensidade maior do que a possível recessão dos EUA, embora os estragos ainda dependam de fatores externos e internos incertos no momento atual, como a evolução da guerra da Ucrânia e da pandemia da COVID-19, além do crescimento das taxas de inflação no país.


Porém, isso ainda não significa que todos os outros países sem fortes ligações com os EUA não sejam impactados: quanto mais profunda for a recessão, maior será o seu impacto no mundo, justamente por representar 25% da economia mundial e ser responsável por ditar o ritmo de crescimento global.


Como mitigar


Além do mais, todo o contexto externo negativo acontece em um dos piores momentos possíveis para país norte-americano: a Rússia continua sua invasão à Ucrânia, o que sufoca as cadeias de suprimentos e eleva os preços da energia e outros insumos, como aço e fertilizantes; A China mantém algumas de suas maiores cidades em lockdown enquanto os casos de COVID-19 permanecem altos; E a escassez de mão de obra faz com que os salários subam, o que dificulta o fluxo normal de mercadorias em todo o mundo. Logo, esses fatores contribuem ainda mais para a inflação americana aumentar a um ritmo acelerado.


Por fim, o atual presidente Joe Biden reconhece a situação da inflação e reafirma que está "inaceitavelmente alta”. Se, de um lado da história, é necessário controlá-la por meio de juros mais altos, do outro lado, as altas sucessivas podem desacelerar a economia num nível mais preocupante, a ponto de gerar a tão temida recessão.


Assim sendo, o risco de retração econômica divide opiniões entre especialistas do mercado financeiro, Federal Reserve ou figuras governamentais, assim como se o que está sendo feito para parar essa crise do país será suficiente. Para os habitantes e investidores da nação norte-americana, resta saber o tamanho do impacto e quanto isso a afetará. O futuro de curto prazo, tanto para os EUA como globalmente por seu impacto, se mostra desafiador e será necessário apertar os cintos.



Glossário:


1- Inflação: é o nome dado ao aumento dos preços de produtos e serviços. Ela é calculada pelos índices de preços, comumente chamados de índices de inflação, é uma fase de retração geral na atividade econômica por um certo período de tempo, com queda no PIB.

2- Taxa de juros: é o preço do “aluguel” do dinheiro por um determinado prazo. Pode ser calculado pela divisão dos juros que foram contratados pelo capital emprestado/poupado.

3- Inadimplência: descumprimento de alguma obrigação financeira.

4- Subprime: são empréstimos concedidos a pessoas com alto risco de crédito, isto é, com pouca estabilidade financeira e credibilidade para pagar contas.

5- S&P 500: é o índice composto por quinhentos ativos (ações) cotados nas bolsas de NYSE ou NASDAQ, qualificados devido ao seu tamanho de mercado, sua liquidez e sua representação de grupo industrial.

6- Quantitative tightening: é uma medida para diminuir o volume de reservas em circulação. Para isso, quando os títulos do Tesouro atingem a data de vencimento, eles são pagos pelo governo, não havendo substituição por novos títulos, reduzindo o chamado balanço patrimonial.

7- Commodities: são produtos de origem agropecuária ou de extração mineral, em estado bruto ou pequeno grau de industrialização, produzidos em larga escala e destinados ao comércio externo. Seus preços são determinados pela oferta e procura internacional da mercadoria.

8- NAFTA: é um acordo entre Estados Unidos, Canadá e México, assinado em 1994, que tem como intenção a redução das barreiras econômicas e alfandegárias entre esses países.


Referências:


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