top of page

Ciência e Geopolítica: o Setor Aeroespacial como instrumento de Domínio

Fonte: Freepik
Fonte: Freepik

O conhecimento científico formal é empregado como ferramenta de transformação do mundo natural, convertendo sua forma bruta nas sociedades vistas atualmente, manifestadas nas cidades, em vias e veículos de transporte. Essa relação fica mais clara em setores conhecidos como high end¹, que empregam tecnologia de ponta, como o setor aeroespacial, visto que eles representam a fronteira atual da ciência. Contudo, apesar do viés transformador que a tecnologia possui, muitas vezes ela é convertida num instrumento de dominação entre diferentes países, e, ao invés de representar um conhecimento comum, converte-se num campo de disputas científicas pautadas em uma batalha ideológica.


Para compreender a raiz desse problema, é fundamental dissecar como a ciência e a política se relacionam, visto que essa relação toma força na disputa entre diferentes países. Nesse sentido, enquanto o conhecimento científico formal geralmente é delegado a cientistas e pesquisadores, apesar de ser um instrumento diretamente ligado ao cotidiano, a política é vista como a disputa entre diferentes grupos da sociedade visando convergência de interesses, idealmente, para o bem comum. Contudo, por conta de um raciocínio indutivo, persiste a ótica de que os dois conceitos não têm relação, pois, ao desacreditar da relação entre o saber formal com os elementos do cotidiano, é deduzido que ele não estaria ligado à política ou ao emprego de novas tecnologias. Assim, mais do que uma simples retórica, é construída a perigosa desconexão entre o saber e a ética, visto que, se não importam os fins com que essas ferramentas são empregadas, não há razão para considerar outro raciocínio que não o pragmático. Nesse sentido, quando esses dois conceitos se separam e são potencializados pela desigualdade, em que ser instruído está relacionado ao privilégio social, a tecnologia passa a constituir uma alegoria ameaçadora: uma ferramenta com grande potencial transformador utilizada sem direcionamento moral que não o das elites que a seguram.


Nesse contexto, o setor aeroespacial emerge com uma das capacidades mais importantes de transformação que a ciência dispõe, e, consequentemente, revela as relações geopolíticas com grande nitidez, visto que é palco de grandes disputas de poder. Esse segmento ainda é pouco dominado quando comparado a outros ramos da indústria de ponta, pois, para cada lançamento orbital, há inúmeras variáveis que multiplicam sua probabilidade de fracasso, chegando a uma média geral de 11,5% de falhas sobre o total de lançamentos de acordo com Jonathan’s Space Reports, enquanto na aviação a chance de um avião cair em voo atualmente é de apenas 0,0001% de acordo com dados da IATA. Além disso, os investimentos para a manutenção da operação desse setor são extremamente elevados, chegando a um total de $10.000 por quilo de material lançado ao espaço, segundo dados do TSE. Apesar dessas barreiras, o retorno de operações bem sucedidas é extremamente valioso geopoliticamente, seja para gerenciamento do território nacional ou mesmo para fornecer serviços à população, como internet


Nesse viés, a dependência de um investimento tão elevado e com grandes barreiras de entrada limita a capacidade dos países em desenvolvimento de tomar a frente dos considerados desenvolvidos. No Brasil, por exemplo, apesar da existência de polos tecnológicos nesse cenário, como a Embraer, o ITA e o INPE, o país ainda se encontra em uma posição desvantajosa em comparação a outras potências, pois essas instituições representam outliers² e não uma indústria consolidada, tendo em vista que não há empresas nacionais expoentes na produção global. Essa relação desigual e a existência de barreiras de entrada sólidas estabelece a hegemonia de nações desenvolvidas, de forma que tenham a supremacia da manipulação do conhecimento científico de ponta, uma ferramenta muito poderosa, e como ele é empregado. A determinação dos fins postulados por esses agentes se revela na forma como a indústria opera, em elementos que vão desde a alocação de capital público e privado, até a função que cada país exerce no processo de pesquisa.


Desse modo, é claro que as conquistas proporcionadas pelo desenvolvimento científico têm potencial significativo de melhora das condições de vida da população. Contudo, é importante questionar: esses ganhos são apenas positivos ou se traduzem em um meio de dominação entre povos?


A produção de conhecimento


Nesse contexto de disputas, a construção do conhecimento científico é marcada pela segregação entre diferentes grupos de pesquisa individuais. Isso se torna evidente visto que apenas 23% dos artigos científicos produzidos mundialmente possuem coautoria internacional, segundo dados da UNESCO, o que deixa claro que, apesar da cooperação existir, ela é diminuta frente ao todo. Isso vai contra ao processo natural de construção do conhecimento, que é, acima de tudo, um processo coletivo que atravessa diferentes gerações, o que é reforçado pela postura que diferentes cientistas, como Isaac Newton, adotaram sobre o tema: “Se eu vi mais longe, foi por estar sobre os ombros de gigantes”. Essa descaracterização é fortalecida não apenas pela disputa internacional, mas também por outras barreiras que impedem o estabelecimento de um cenário cooperativo entre o Brasil e o mundo, como a falta de estrutura interna das universidades, a infraestrutura precária para o recebimento da indústria e a escassez de profissionais qualificados no mercado de trabalho nacional. A soma desses fatores transforma a construção do saber de um processo potencialmente coletivo em símbolo de competitividade entre blocos geopolíticos.


Primeiramente, a infraestrutura universitária brasileira é precária e falha em cumprir com os requisitos básicos para a operação diária, tanto em questões estruturais quanto sanitárias, sofrendo com questões como falta d’água e energia, o que, consequentemente, faz o desempenho das equipes que operam nelas cair drasticamente. Essa escassez de recursos gera barreiras para a formação dos alunos e impede que a universidade exerça o seu potencial máximo: um lugar de aprendizado e produção de conhecimento de ponta, simultaneamente. Apesar da valorização de cursos como o ITA pelo governo, o percentual de alunos que ingressam neles é ínfimo quando comparado ao total nacional, representando apenas 0,06% do contingente de alunos que ingressam no ensino superior de acordo com dados da Força Aérea Brasileira e do Semesp. Esses dados se tornam ainda mais alarmantes quando postos sob uma ótica de comparação internacional, na qual o número total de vagas abertas pelo ITA anualmente representa apenas 1,99% do total de engenheiros aeroespaciais formados por ano nos Estados Unidos, de acordo com dados da ASE. Desse modo, a formação de profissionais qualificados para operar e desenvolver equipamentos high end é desvalorizada frente a outros ramos de pesquisa, e, consequentemente, atrasa seu progresso.


Ademais, mesmo que o meio acadêmico fosse valorizado, a sua manutenção seria completamente insustentável sem uma indústria de ponta bem desenvolvida. Isso decorre da necessidade de que os profissionais formados encontrem um espaço onde possam exercer suas pesquisas ao mesmo tempo que encontram sustento e remuneração compatível com a sua formação. Sem um mercado de trabalho consolidado, o país é submetido ao fenômeno da fuga de cérebros³, perdendo profissionais que emigram em busca de melhores condições de trabalho, muitas vezes indo trabalhar para empresas multinacionais, como a Boeing. Um dado que reforça essa tese é que 50% dos doutores formados no Brasil vão para o exterior em até 5 anos depois de sua formação, de acordo com dados do CGEE (Centro de Gestão e Estudos Estratégicos). Atualmente, o setor segue sem um tamanho significativo no eixo nacional, apesar da ocorrência de um desenvolvimento mais profundo tecnologicamente que outros países em desenvolvimento potencializado pela Embraer e institutos de pesquisa nacionais financiados pelo governo. Essa limitação impõe ao país uma posição subalterna frente à outras potências mundiais, se tornando altamente dependente de parcerias e acordos que envolvem trocas de informações.

.

Por fim, a fuga de cérebros, alimentada principalmente pela negligência da infraestrutura, é potencializada pela escassez de profissionais qualificados do mercado, formando um ciclo vicioso e paradoxal. Isso ocorre, pois, sem a presença de profissionais qualificados, não há como estabelecer uma indústria nacional, e, sem um mercado estabelecido, não há como direcionar os graduados formados nas universidades. Da perspectiva dos profissionais, há um dilema frente aos processos internos do país: se submeter à precarização do trabalho, como consequência da falta de postos de trabalho no nível de sua qualificação, ou participar do processo de emigração procurando um local onde possam exercer sua profissão integralmente e com melhor remuneração. A interdependência desses elementos impede a interrupção desse ciclo sem a elaboração de um plano de ação integrado entre diferentes setores.


Entretanto, é importante salientar que essa posição, apesar de ruim em uma ótica nacional, pode beneficiar países estrangeiros e outras potências na manutenção de sua hegemonia. Desse modo, é impossível pensar no desenvolvimento técnico do país sem considerar sua política internacional, visto que a intervenção política de países estrangeiros poderia impor barreiras insuperáveis individualmente pelos centros de pesquisa ou indústria do Brasil. No setor aeroespacial, essas intervenções podem se manifestar em sabotagem operacional, limitação do conhecimento compartilhado, embargos econômicos ou mesmo pressão diplomática, impondo barreiras aos pesquisadores brasileiros. Por isso, é fundamental considerar o aspecto diplomático e relacional com outros países para a construção de uma política sustentável a longo prazo, pois, caso contrário, a nação brasileira será condenada à esse cenário de dominação junto a outros países em desenvolvimento.


Política internacional e pesquisa


Nesse cenário de construção de relações internacionais sustentáveis, é importante entender que a política é, em suma, a manifestação das trocas humanas e da disputa de interesses, e isso se aplica também à detenção de propriedade intelectual. Desse modo, em toda negociação, ela representa uma disputa de poder, no qual fatores como a capacidade militar de um país, qualidade de vida, sustentabilidade e avanço tecnológico são determinantes para saber quais países vão exercer domínio internacionalmente e quais serão dominados. Dessa forma, cada um busca estar à frente para atender aos próprios interesses: no ramo aeroespacial, por exemplo, um país com tecnologia avançada, como os EUA, pode exercer controle de satélites e, consequentemente, de meios de comunicação, geolocalização, meteorologia e agricultura. Isso se revela no emprego de ferramentas internas e externas para garantir essa hegemonia, como o incentivo aos seus centros de pesquisa e indústrias. Assim, fica claro um cenário de interesses segmentados, com a formação de grandes blocos políticos que, em geral, não compartilham informação entre si, como ocorre com os Estados Unidos e a Rússia. A relação do Brasil com cada um desses conglomerados é fundamental para o próprio desenvolvimento, mas, como é parcialmente dependente de terceiros, se torna também um processo de participação limitada e paradoxal: ao mesmo tempo em que é difícil sair dessa posição em prol do desenvolvimento do país, uma mudança de postura abrupta pode ter o efeito inverso, mas não mudar significa permanecer na posição subalterna atual sem progresso significativo.


Além disso, os blocos políticos existentes atualmente são frutos de processos históricos de longa data, como a Guerra Fria, que remetem à época em que a indústria aeroespacial se encontrava em momento de grande desenvolvimento. O grupo composto por países do ocidente, como Estados Unidos e países da Europa Ocidental, tem laços estreitos com o Brasil, com longo histórico de parcerias acadêmicas e de pesquisa. Ao longo do tempo, isso se manifestou, economicamente, na presença de indústrias privadas no país que, em muitos casos, formam laços com centros de pesquisa, como a Thales, GE Celma, Boeing e Airbus, empresas privadas do setor aeroespacial líderes em produção e pesquisa internacionalmente. Há também o uso de instalações de lançamento brasileiras, como a base de Alcântara, ideais para o lançamento de foguetes e satélites geoestacionários por conta de sua posição estratégica próxima à linha do Equador. Contudo, apesar desses laços, a finalidade política que os países do ocidente querem garantir continua sendo de hegemonia. Desse modo, a natureza dessas parcerias entre academia e indústria é extremamente limitada: de modo geral, os programas realizados visam a adaptação das tecnologias à indústria local ou de otimização, enquanto o processo de geração de conhecimento de ponta é relegado a laboratórios presentes nos países de origem dessas indústrias. Na indústria aeroespacial, por exemplo, o uso da base de Alcântara é regido por Acordos de Salvaguardas, que protegem a tecnologia norte-americana. Desse modo, há a exploração do território brasileiro pela eficiência balística, mas os engenheiros do país são proibidos de estudar ou ter acesso à tecnologia dos dispositivos lançados lá. Assim, a posição de nações em desenvolvimento como o Brasil continua sendo de subalternidade e auxílio, sem oportunidade de se tornar protagonista de uma história própria.


Entretanto, o cenário político internacional é marcado recentemente pelo surgimento de diferentes potências, sejam elas países ou gigantes de tecnologia. Um desses grupos é o BRICS⁴, composto pelo Brasil, Índia, China e África do Sul, que estabelece políticas de fortalecimento com foco estratégico no setor espacial dentro do grupo por meio de programas de redução da assimetria tecnológica, mesmo que, tradicionalmente, ele não represente um bloco econômico. Tais projetos são materializados em programas de intercâmbio para estudantes, sustentabilidade, representado pelo monitoramento de lixo espacial, e construção cooperativa de uma constelação de satélites visando compartilhamento de dados e progresso dos países membros, como indica a fonte oficial do grupo. Essa parceria ajuda todos os países membros no processo de criação de instrumentos próprios para a melhora da sua economia e qualidade de vida da população, o que fortalece a soberania nacional de cada um. Desse modo, há o fortalecimento da ciência nacional em contraste com o processo de ampliação das desigualdades entre diferentes países, até então predominante.


Dentro do BRICS, um dos parceiros que mais se destaca na cooperação com o Brasil é a China, que formaliza acordos bilaterais que beneficiam ambos. Um dos exemplos mais emblemáticos desse processo é o Programa CBERS, que consiste na construção de satélites em uma parceria entre países voltados para o sensoriamento remoto, muitas vezes fundamental para a meteorologia e, consequentemente, para a agricultura, que representa um dos setores fundamentais para a operação da balança comercial brasileira. Contudo, é importante questionar se a parceria com a China objetiva o progresso mútuo ou se constitui mais um mecanismo de dominação a longo prazo sobre a nação brasileira, tendo em vista o histórico de relações com outras potências externas.


Por fim, esse questionamento é reforçado pela forma como o setor aeroespacial brasileiro ainda é incipiente quando comparado a outros países mais avançados tecnologicamente, a despeito da existência de tais parcerias. Apesar de ter profissionais capacitados, não possui os meios para produzir tecnologia com a mesma qualidade pela falta de ferramentas e materiais adequados para confecção de material de ponta. Assim, segue dependente do fortalecimento de terceiros, que, em muitos casos, cobram preços muito elevados social e economicamente. Essa relação desigual traz incerteza à operação dessa indústria no país, visto que ela está sujeita ao mercado externo, de forma que a população se torna mais vulnerável e suscetível à flutuações econômicas internacionais.


Economia e desenvolvimento científico


Nesse contexto, a política econômica empregada pode ampliar ou mitigar as vulnerabilidades da população de países em desenvolvimento, e, muitas vezes, apresenta viés negativo como consequência direta da falta de um plano de estruturação da indústria nacional, seja ela de base, de bens de consumo ou de ponta. O saldo dessa desorganização se manifesta em potencial perdido para a aplicação e desenvolvimento de tecnologias high end no país. Um forte exemplo desse processo dentro do setor aeroespacial é no emprego de satélites, que poderiam fornecer internet diretamente para comunidades isoladas, impactando diretamente a vida do cidadão brasileiro, sem que fosse preciso a atuação de uma empresa estrangeira para isso. Ademais, quando se pensa em uma escala maior, como o desmatamento na área amazônica, o mapeamento por meio de aeronaves e de aparelhos em órbita configura uma estratégia preventiva e corretiva direta para a proteção de um dos maiores símbolos nacionais de preservação natural. Há ainda o uso voltado para a potencialização do agronegócio, predominante no país, pela previsão de eventos climáticos e mapeamento de terrenos favoráveis ao plantio. Nos três casos, há formas diretas de realizar o uso dessas tecnologias, desde a micro até a macro escala, que, por não serem aproveitadas, criam um vácuo que é preenchido por empresas multinacionais e mina a soberania nacional.


A ausência de uma política concreta para o crescimento do setor aeroespacial é respaldada pelo modelo adotado pelo país, que mantém o foco principalmente no agronegócio em detrimento de outros segmentos da economia. Há um viés de manutenção do status quo⁵ por parte da elite agrária que se satisfaz com o cenário atual e inibe políticas que rompam com essa lógica, pois, apesar de não representarem a maioria, tem forte influência política. Esse modelo de desenvolvimento é herdado, num primeiro momento, da política colonial que se manifestava nas plantations⁶, e, posteriormente, do governo oligárquico e da soberania dos agricultores de café no fim do século XIX, consistindo em uma política exploratória a curto prazo, e não em processos de industrialização, de maneira que esteja voltado para um modelo rural agroexportador. Essa tese é reforçada por dados, que indicam que apenas 0,19% do PIB foi dedicado ao setor aeroespacial e ao desenvolvimento de tecnologias nacionais de ponta, enquanto 4,8% foi dedicado ao Plano Safra, que constitui um dos principais ramos agrícolas no Brasil de acordo com dados do CIEAM e do Serasa, respectivamente. Desse modo, sem uma política constante e suficiente de investimentos, setores de tecnologia high end continuam sufocados e sem espaço para se desenvolver.


Embora a política de investimentos governamental direta não seja extremamente proveitosa, há entidades separadas, como empresas que estão voltadas para políticas de desenvolvimento tecnológico. Um dos principais exemplos é a Embraer, que se estabeleceu no mercado como uma empresa de referência internacional, mesmo entre países desenvolvidos, quebrando com a lógica até então vigente. Isso ocorreu em função de um plano estatal de desenvolvimento voltado para a indústria com apoio militar, que representou um diferencial frente a outros países em desenvolvimento. Dados da Folha de São Paulo indicam que a Embraer ocupa uma posição de destaque no setor aeroespacial, consolidada como a terceira maior empresa do ramo no mundo, apesar dos desafios enfrentados dentro do país, o que evidencia o potencial contido no mercado nacional. A presença de companhias nacionais que produzem insumos de alta tecnologia é extremamente vantajoso para a balança comercial do país, o que consolida a vitalidade e importância dessa indústria.


Há também empresas estrangeiras que investem em modelos de negócio envolvendo linhas áreas e serviços de satélite para o país, impulsionando seu desenvolvimento, como a Boeing e a Airbus. Para além dessas empresas vistas como tradicionais pelo seu tempo de mercado, há novas companhias emergentes, como a Starlink que investe pesado no lançamento de satélites e passaram a ter monopólio da comunicação em áreas remotas, inserindo um novo eixo de análise que leva a dependência dos países em desenvolvimento não apenas relativa a outros países, mas também à corporações privadas que tomam decisões relativas à toda soberania nacional deles. Porém, ao contrário do que ocorre com a Embraer, essas empresas mais sinalizam a hegemonia de países estrangeiros do que promovem desenvolvimento, trazendo conhecimento técnico para produção, mas não pesquisas avançadas. Isso reforça a tese de que a pesquisa no país continua sem ser nacional, e que a nação brasileira é vista como um mercado a ser explorado ao invés de um parceiro de desenvolvimento. Essa dinâmica exploratória se consolida através dos fluxos de capital privado, pois quando uma empresa nacional de tecnologia aeroespacial ou de defesa consegue superar as barreiras de entrada e começa a inovar, ela frequentemente esbarra na ausência de fundos de Private Equity locais dispostos a financiar sua escala global, visto que demanda um alto investimento e possui alto risco. Subcapitalizadas, essas empresas se tornam alvos fáceis para operações de M&A por parte desses mesmos conglomerados estrangeiros, de forma que o resultado é a transferência da propriedade intelectual brasileira para o exterior, perpetuando o ciclo onde o Brasil fornece a inteligência bruta, mas o valor e a patente são capturados por matrizes norte-americanas ou europeias. Esse modelo não é sustentável do ponto de vista político, econômico, ou mesmo ambiental, pois quando adota-se uma política de exploração delegada à empresas estrangeiras, a agenda ESG⁸ perde relevância. Isso ocorre porque as políticas defendidas por ela afetam a margem de lucro das empresas priorizando a sustentabilidade, o que lhes é desfavorável.


Meio ambiente e sustentabilidade


A priorização do lucro em detrimento da sustentabilidade, por mais que pareça ser vantajosa a curto prazo, se mostra desastrosa com a expansão das escalas de tempo. A política econômica adotada atualmente é marcada pela intensificação da presença de gases do efeito estufa (GEE) na atmosfera, decorrentes de processos de desmatamento e uso de combustíveis fósseis. Na indústria aeroespacial, isso se manifesta no uso de poluentes para lançamento de foguetes, de forma que 48% dos combustíveis intensificam o processo de aquecimento global, segundo dados da NASA. Dessa forma, o processo de mudanças climáticas ganha força e, para contorná-lo, é fundamental que haja cooperação internacional. Entretanto, a tendência observada é de fortalecimento da segmentação existente entre diferentes blocos geopolíticos, aprofundando essas separações. Isso se torna evidente em ações tomadas pelos EUA, por exemplo, que revogaram a participação em 20 tratados internacionais relacionados à proteção ambiental, como a UNFCCC (Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima), aumentando suas emissões de GEE em 3,3% desde então, de acordo com dados da Impakter. Esse quadro demonstra o fortalecimento da tese de descompromisso com uma política econômica sustentável a longo prazo.


No setor aeroespacial, há problemas como a emissão de GEE, desperdício de material valioso e geração de detritos a cada lançamento, que agravam problemas climáticos internacionais. Esse terceiro dilema, por exemplo, pode inviabilizar e encarecer o lançamento de satélites, assim como pode acarretar a destruição daqueles que já se encontram em operação. Esses problemas podem interromper serviços que se tornaram essenciais no dia a dia das pessoas, como o GPS, telefonia, fornecimento de rede e monitoramento climático. Dessa forma, a garantia da sustentabilidade ambiental representa também o equilíbrio político e econômico do país.


Nesse cenário, povos que estão em situação de maior vulnerabilidade são mais suscetíveis a sofrer com os impactos dessas mudanças e problemas ambientais. Apesar de parecer uma realidade distante, o acúmulo de detritos na atmosfera já atingiu números extremamente elevados, contabilizando ao menos 40 mil detritos em órbita atualmente, de acordo com dados da FAPESP. Dessa forma, povos de países em desenvolvimento passam a se encontrar em uma posição de elevada exposição, visto que estão altamente suscetíveis à interrupção do fornecimento de serviços fundamentais realizados por satélites. Essa relação torna o povo basileiro dependente de recursos externos para reposição rápida em caso de desastres, colocando-o num lugar de subalternidade frente a outros povos. Sem predomínio de satélites nacionais, por exemplo, o país não consegue fiscalizar corretamente regiões extremamente importantes como a Amazônia, o que gera prejuízos econômicos e diplomáticos. Assim, o meio ambiente passa a ser um instrumento de dominação entre povos, pois reforça a vulnerabilidade e a dependência de populações em desenvolvimento em tempos de crise, enquanto países desenvolvidos conseguem se firmar como superiores em termos técnicos e políticos, dispondo de mais instrumentos para manejar os problemas iminentes.


Projeção para o futuro


No meio aeroespacial, é evidente a inconsistência da política de investimento brasileira em relação a outras potências e como o baixo capital investido não colabora para a reversão desse cenário. O aumento gradativo de problemas climáticos juntamente com o processo de desmonte de institutos de pesquisa e empresas nacionais em prol de uma posição subalterna com outras potências aponta para a urgência da manutenção desse cenário. Como resultado, por conta dos fins que cada país busca atingir em seu próprio proveito, a ciência se torna um instrumento de dominação contra outros países, buscando sempre manter a própria hegemonia.


Contudo, é inegável que mesmo essa postura adotada por países desenvolvidos produz atrasos para todos. Sendo a ciência uma construção coletiva, é natural que a falta de um processo de cooperação internacional dificulte o seu florescimento e limite o progresso de países tidos como avançados. Apesar de parecer insignificante no contexto político, quando se leva em conta os problemas ambientais atuais e a necessidade de novas ferramentas para mitigar e solucioná-los, o caminho traçado por países desenvolvidos também é vítima de uma perspectiva de crescimento limitada e desacelerada pela falta de cooperação.


No fim, a ciência não pode ser separada da política. As duas estão intrinsecamente ligadas, e o uso atribuído ao conhecimento tem motivações de natureza política. Além disso, as pesquisas não podem ocorrer sem financiamento, seja privado ou estatal, o que aprofunda e fortalece essa conexão. Do mesmo modo, a política depende da tecnologia, seja em meios de informação ou mesmo para a realização de propagandas ideológicas. Para o desenvolvimento e estabelecimento de uma política nacional de progresso é preciso que as duas caminhem conjuntamente e em harmonia.



Glossário:

  1. High end: Refere-se a produtos ou serviços de luxo, alta qualidade e tecnologia de ponta

  2. Outliers: São valores que fogem do padrão esperado em um conjunto de dados, pontos tão distantes dos demais que podem indicar um erro, uma exceção ou uma descoberta importante.

  3. Fuga de cérebros: fenômeno migratório em que profissionais altamente qualificados deixam seu país de origem para trabalhar em nações mais desenvolvidas em busca de melhores condições

  4. BRICS: É um agrupamento político-econômico formado por países de economia emergente que buscam ampliar sua influência global e cooperar em áreas como comércio, finanças e desenvolvimento.

  5. Status quo: Expressão em latim usada para descrever a manutenção da ordem social, política ou econômica vigente

  6. Plantations: São grandes propriedades rurais monocultoras, geralmente voltadas à exportação, que utilizam mão de obra em larga escala

  7. M&A (Mergers and Acquisitions): conjunto de operações societárias em que duas ou mais empresas se unem (fusão) ou uma empresa compra o controle de outra (aquisição) para expandir mercados, obter sinergias ou adquirir novas tecnologias.

  8. ESG: Environmental, Social, and Governance. Constitui um conjunto de padrões e boas práticas que empresas adotam para serem sustentáveis, socialmente responsáveis e bem governadas.




Bibliografia:


Análise do setor Aeroespacial


EM, S. AIAB - Associação das Indústrias Aeroespaciais do Brasil. Disponível em: <http://www.aiab.org.br/noticias-e-eventos.asp >. Acesso em: 11 fev. 2026.


‌AIAB - Associação das Indústrias Aeroespaciais do Brasil. Disponível em: <http://www.aiab.org.br/ >.


‌REDAÇÃO TECNOLOGIA & DEFESA. Alada visita empresas afiliadas da AIAB - Tecnodefesa. Disponível em: <https://tecnodefesa.com.br/alada-visita-a-empresas-do-setor-espacial-em-sao-jose-dos-campos/ >. Acesso em: 11 fev. 2026.


As geotecnologias estão cada vez mais presentes no cotidiano. Disponível em: <https://portal.unila.edu.br/noticias/as-geotecnologias-estao-cada-vez-mais-presentes-no-cotidiano >. Acesso em: 11 fev. 2026.


‌30 MI LHÕES. [s.l: s.n.]. Disponível em: <https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2024/11/068-072_lixo-espacial_346.pdf >. Acesso em: 11 fev. 2026.



‌DOMINGOS ZAPAROLLI. Brasil começa a criar rede nacional de telescópios para monitorar lixo espacial. Disponível em: <https://revistapesquisa.fapesp.br/brasil-comeca-a-criar-rede-nacional-de-telescopios-para-monitorar-lixo-espacial/ >.


‌Tecnologia Geoespacial: Tipos, Usos E Perspectivas Futuras. Disponível em: <https://eos.com/pt/blog/tecnologia-geoespacial/ >.


‌Tecnologia Espacial: Inovações e Aplicações - koradtrends.com.br. Disponível em: <https://koradtrends.com.br/tecnologia-espacial-inovacoes-e-aplicacoes/ >. Acesso em: 11 fev. 2026.


Condição nacional



‌LOUISE, F. Exportações focadas em bens industriais têm maior impacto para o Brasil. Disponível em: <https://noticias.portaldaindustria.com.br/noticias/internacional/exportacoes-focadas-em-bens-industriais-tem-maior-impacto-para-o-brasil-em-2022/ >. Acesso em: 11 fev. 2026.


‌D2698. Disponível em: <https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/d2698.htm >. Acesso em: 11 fev. 2026.


‌VINÍCIUS, P. et al. O Programa Espacial Brasileiro e os Impactos para a Defesa Nacional no Século XXI. [s.l: s.n.]. Disponível em: <https://www.gov.br/defesa/pt-br/arquivos/ajuste-01/ensino_e_pesquisa/defesa_academia/cadn/artigos/XIII_cadn/o_programa_espacial_brasileiro_e_os_impactos_para_a_defesa_nacional.pdf >. Acesso em: 11 fev. 2026.


‌Sobre a Embraer - Embraer. Disponível em: <https://www.embraer.com/corporate-about/pt/ >.


‌BITTENCOURT, S.; GOMES, V. A indústria aeronáutica no Brasil: evolução recente e perspectivas. [s.l: s.n.]. Disponível em: <https://web.bndes.gov.br/bib/jspui/bitstream/1408/919/1/A%20ind%C3%BAstria%20aeron%C3%A1utica%20no%20Brasil_P-final_BD.pdf >.


‌Tecnologia no céu para observar a Terra. Disponível em: <https://unicamp.br/unicamp/ju/artigos/tecnologia-no-ceu-para-observar-terra/ >. Acesso em: 11 fev. 2026.


‌LUIZ DE ALMEIDA, A.; ANDRÉ, O.; MARTIN, R. UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO FACULDADE DE FILOSOFIA LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS FFLCH/USP DEPARTAMENTO DE GEOGRAFIA DISSERTAÇÃO DE MESTRADO EM GEOGRAFIA POLÍTICA A Evolução do Poder Aeroespacial Brasileiro São Paulo-Brasil. [s.l: s.n.]. Disponível em: <https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8136/tde-19062007-153215/publico/TESE_ANDRE_LUIZ_ALMEIDA.pdf >.


‌GALA, P. Sistemas nacionais de inovação: o caso da EMBRAER - Paulo Gala / Economia & Finanças. Disponível em: <https://www.paulogala.com.br/sistemas-nacionais-de-inovacao-o-caso-da-embraer/ >. Acesso em: 11 fev. 2026.


‌DALLA COSTA, A.; SOUZA-SANTOS, E. R. DE. Embraer, história, desenvolvimento de tecnologia e a área de defesa. Revista Economia & Tecnologia, v. 6, n. 3, 30 set. 2010.


Comparação internacional


DUTCH, R. KLM Royal Dutch Airlines Brazil. Disponível em: <https://www.klm.com.br/information/sustainability/saf >.

‌BRICS amplia cooperação na área espacial e busca reduzir assimetrias tecnológicas entre os países-membros. Disponível em: <https://brics.br/pt-br/noticias/brics-amplia-cooperacao-na-area-espacial-e-busca-reduzir-assimetrias-tecnologicas-entre-os-paises-membros >. Acesso em: 11 fev. 2026.

ALVES, F. O Poder aeroespacial como meio de atuação geopolítica: o espaço mundial, o Brasil e a América do Sul. Geopauta, v. 8, p. e14167, 19 jul. 2024.


ISRAEL et al. O Centro de Lançamento de Alcântara : abertura para o mercado internacional de satélites e salvaguardas para a soberania nacional. Disponível em: <https://repositorio.ipea.gov.br/entities/publication/88ac3c63-477f-4723-bd25-3059b238b6e9 >. Acesso em: 11 fev. 2026.


Dados ambientais


PETROBRAS. SAF: o primeiro combustível sustentável para aviões do Brasil. Disponível em: <https://nossaenergia.petrobras.com.br/w/transicao-energetica/saf-veja-como-investimos-em-tecnologia-rumo-ao-futuro-dos-combustiveis-sustentaveis >. Acesso em: 11 fev. 2026.


DOS, J.; LAÍS FORTI THOMAZ; GONDIM, A. D. Aviação civil e sustentabilidade no brasil: o papel dos combustíveis sustentáveis de aviação (SAF). Revista Brasileira de Transportes, v. 4, n. 2, p. 20–55, 26 dez. 2024.


HTTPS://WWW.FACEBOOK.COM/EPE.BRASIL. Combustíveis Sustentáveis de Aviação no Brasil – Perspectivas Futuras. Disponível em: <https://www.epe.gov.br/pt/publicacoes-dados-abertos/publicacoes/combustiveis-sustentaveis-de-aviacao-no-brasil-perspectivas-futuras >. Acesso em: 11 fev. 2026.



 
 
 

Comentários


© 2026 por UFRJ Consulting Club

Av. Athos da Silveira Ramos, 149 - Cidade Universitária, Rio de Janeiro

  • Spotify
  • Preto Ícone Facebook
  • Preto Ícone Instagram
  • Preto Ícone LinkedIn
bottom of page