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Do Abre-Alas ao rigor das planilhas: uma análise econômica do Carnaval brasileiro


O Carnaval brasileiro é tradicionalmente interpretado como um fenômeno cultural marcado pela espontaneidade, informalidade e centralidade da expressão simbólica, apesar de suas outras características igualmente relevantes ao país. No entanto, essa leitura, embora relevante do ponto de vista antropológico e social, tende a obscurecer uma dimensão igualmente central do evento: sua natureza como um arranjo econômico complexo e recorrente. Ano após ano, o Carnaval mobiliza volumes expressivos de capital, trabalho e insumos, articula cadeias de valor extensas e envolve múltiplos agentes logísticos.


Maior festa popular do Brasil, o Carnaval em 2026 deve ser celebrado, segundo estimativas do Ministério do Turismo, por mais de 53 milhões de pessoas em todo o país, movimentando o turismo e os negócios. O Carnaval carioca, vitrine do país no exterior, deve atrair 15% desse total, gerando movimentação econômica de aproximadamente R$ 5,5 bilhões, de acordo com a RioTur. Tendo isso em mente, torna-se claro que o Carnaval tem um impacto socioeconômico relevante.


A persistência da narrativa de que o Carnaval gera desordem urbana e sobrecarrega à cidade encontra respaldo em indicadores que ilustram impactos concretos associados à festa. Estudos ambientais, relatados no artigo “Impact of large events on microplastic pollution on sandy beaches: a case study of Carnival in Rio de Janeiro, Brazil” feito por T.M.B. Cabrini, mostram que o Carnaval pode produzir altos volumes de resíduos sólidos nocivos ao planeta, com cerca de 1 400 toneladas coletadas em quatro dias em 2024. Esse indicador contribui para a percepção de desordem, mas não invalida a racionalidade econômica subjacente ao fenômeno, evidenciando que as críticas têm bases empíricas, porém não capturam a profundidade das decisões logísticas, financeiras e organizacionais que sustentam o evento.


Partindo da premissa de que o Carnaval pode ser analisado como um sistema produtivo, no qual diferentes modelos operacionais coexistem e competem por recursos, visibilidade e sustentabilidade financeira, pode-se argumentar que a cadeia econômica do evento apresenta uma distribuição assimétrica de valor. Embora a base operacional seja amplamente pulverizada entre trabalhadores informais, pequenos prestadores de serviço e organizações comunitárias, a captura econômica tende a se concentrar nos elos capazes de estruturar escala, previsibilidade de receita e proteção regulatória. Sendo assim, os recursos caem majoritariamente sobre os detentores de direitos de transmissão, grandes patrocinadores, redes hoteleiras e operadores de eventos formais. 


Diante dessa complexidade organizacional, abordagens que priorizam quase exclusivamente a dimensão cultural do Carnaval tendem a obscurecer os mecanismos econômicos que sustentam sua realização, sua escala e sua recorrência no tempo. Nesse contexto, coloca-se a questão: o que se deixa de compreender sobre o Carnaval brasileiro quando sua dimensão econômica é tratada como menos relevante do que sua manifestação cultural?


O carnaval como cadeia econômica


A análise do Carnaval como arranjo econômico recorrente exige a compreensão de sua cadeia de atividades como um conjunto interdependente de processos que viabilizam a produção, a circulação e o consumo do evento ao longo de um ciclo anual. Embora marcado por elevada sazonalidade e pela concentração temporal de sua entrega final, esse arranjo não se sustenta no improviso. Ao contrário, sua viabilidade depende de decisões antecipadas de alocação de recursos, coordenação logística e gestão de restrições de custo e prazo, mesmo quando articuladas por relações institucionais e contratuais não convencionais, como o voluntariado ou formas informais de contratação. A ausência dessa organização tornaria o evento operacionalmente inviável em escala urbana, ampliando riscos financeiros, regulatórios e reputacionais para os agentes envolvidos.


A evolução do faturamento agregado ao longo do tempo reforça essa leitura pois utiliza-se esse indicador não apenas por sua magnitude, mas por sua capacidade de capturar, de forma sintética, a articulação simultânea de múltiplos setores econômicos ativados pelo Carnaval. Observa-se um padrão de crescimento relativamente estável até o início da década de 2020, seguido por uma retração abrupta em 2021, decorrente da pandemia, e uma recuperação acelerada nos anos subsequentes, culminando em patamares recordes em 2025, impulsionados sobretudo pelo turismo nacional e internacional. 




Essa trajetória não apenas evidencia a relevância econômica do Carnaval, mas também revela um mecanismo de reprodução capaz de recompor demanda e mobilizar recursos mesmo após choques exógenos severos. Mais do que volume financeiro, observa-se a consolidação de um modelo organizacional que evoluiu na medida em que agentes públicos e privados passaram a reconhecer o Carnaval como ativo econômico estratégico. A profissionalização da venda de direitos de transmissão, a entrada sistemática de patrocinadores corporativos e a incorporação do evento aos planos formais de turismo são indícios dessa mudança estrutural. Assim, o Carnaval deixou de ser apenas manifestação cultural para tornar-se plataforma organizada de geração e captura de valor. Nesse sentido, compreender o festival como um arranjo produtivo estruturado não é uma constatação trivial, mas uma condição necessária para explicar por que o evento persiste, se expande e se torna objeto de disputa por financiamento, visibilidade e captura de valor.



Na etapa de produção, o Carnaval mobiliza atividades intensivas em trabalho e capital artístico, envolvendo processos de criação, fabricação e montagem que se estendem por meses e exigem coordenação contínua entre diferentes frentes produtivas. Esses processos são realizados em ambientes especializados que concentram conhecimento técnico, mão de obra qualificada e insumos diversos, funcionando sob cronogramas rígidos e orçamentos previamente definidos. A racionalidade produtiva se impõe, nesse contexto, como condição para a viabilidade do projeto, uma vez que a concentração temporal da entrega, a impossibilidade de adiamentos e a interdependência entre etapas tornam desvios de prazo, desperdícios de insumos ou falhas de coordenação financeiramente e operacionalmente críticos. Sob essa ótica, a ausência de planejamento e controle comprometeria não apenas o desempenho estético, mas a própria execução do evento, ampliando custos, riscos regulatórios e perdas irrecuperáveis de investimento.


A etapa intermediária da cadeia é responsável por articular a produção ao momento de entrega do evento, concentrando esforços de coordenação logística e operacional. Trata-se de uma fase particularmente sensível a falhas, uma vez que a viabilização do Carnaval depende da capacidade de atender picos de demanda em curto prazo. Em 2026, por exemplo, segundo estimativas da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo, as atividades associadas ao período carnavalesco devem movimentar cerca de R$ 18,6 bilhões apenas no mês de fevereiro, pressionando serviços de transporte, hospedagem, alimentação e infraestrutura urbana. Nesse contexto, riscos regulatórios relacionados a licenciamento urbano, segurança pública e gestão de grandes aglomerações tornam-se críticos, pois atrasos podem comprometer a própria realização do evento.


No estágio de consumo, o Carnaval se materializa como um produto acessado por públicos heterogêneos, turistas nacionais e estrangeiros, moradores locais e consumidores de alta renda, cada qual com padrões distintos de gasto. Turistas concentram despesas em hospedagem, transporte e alimentação; residentes direcionam consumo para entretenimento e serviços urbanos; já o público premium acessa camarotes e experiências exclusivas, com ticket médio mais elevado.


Esses públicos são capturados por múltiplos canais: venda de ingressos, pacotes turísticos, direitos de transmissão, patrocínios e ativações de marca, além do consumo indireto em bares, comércio e transporte. A recorrência anual do evento permite a fidelização de parte desse público, reduzindo custos de captação e ampliando o valor cumulativo por participante ao longo do tempo. O consumo carnavalesco, assim, combina tradição cultural e lógica econômica estruturada.


Ao longo de toda a cadeia, interagem escolas de samba, trabalhadores dos barracões, ligas organizadoras, emissoras, patrocinadores e operadores de hospitalidade. O valor gerado pelo Carnaval, no entanto, não é apropriado de forma homogênea entre esses agentes. Enquanto a base produtiva mobiliza trabalho intensivo durante meses para construir o espetáculo, com remuneração geralmente previamente definida e limitada, a monetização em maior escala tende a ocorrer nos segmentos responsáveis pela oferta de experiências premium. Camarotes instalados no Sambódromo, por exemplo, comercializam ingressos que podem variar, de acordo com a divulgação oficial dos próprios camarotes em sites de venda, de R$ 2000 a R$ 10000 mais por noite, operando com lógica de escassez, exclusividade e alto ticket médio. Essa estrutura evidencia que parte significativa da captura de valor se desloca para os elos capazes de transformar o evento em produto de alto padrão, sugerindo uma dissociação entre a geração do conteúdo simbólico e a escalabilidade da receita associada à sua distribuição e consumo diferenciado.


Paralelamente aos mecanismos formais de financiamento, a estruturação econômica do Carnaval também contou, historicamente, com fontes informais de capital, em especial no caso das escolas de samba do Rio de Janeiro, sobretudo entre as décadas de 1970 e 1990. Esse período foi marcado por forte restrição ao acesso a crédito formal, baixa presença de patrocínios privados estruturados e limitado apoio institucional contínuo às agremiações, que operavam em um ambiente de elevada informalidade econômica. 


Nesse contexto, a atuação de contraventores ligados ao jogo do bicho1 supriu lacunas relevantes de financiamento, viabilizando investimentos na produção artística e na operação dos desfiles. Casos como o de Castor de Andrade, associado à Mocidade Independente de Padre Miguel, ilustram como esse tipo de capital permitiu ganhos de escala, profissionalização de processos e maior previsibilidade financeira em um setor caracterizado por receitas incertas e concentradas no curto prazo. Embora esse modelo tenha perdido centralidade a partir dos anos 2000, com a ampliação do patrocínio privado, da transmissão televisiva e da atuação mais estruturada do poder público, sua existência evidencia que a cadeia econômica do Carnaval se organizou, em partes, a partir de arranjos financeiros alternativos, moldados pelas restrições institucionais vigentes à época.


Modelos Operacionais e Modos de Organização


Os modelos operacionais do Carnaval brasileiro estruturam-se a partir de arranjos organizacionais híbridos, nos quais práticas formais e informais coexistem de maneira funcional. Essa configuração não é acidental, mas uma resposta direta às restrições impostas pela elevada sazonalidade, pela concentração temporal da entrega e pela incerteza inerente às fontes de financiamento e à demanda. Em vez de organizações permanentes com estruturas fixas de custo, o Carnaval se apoia em unidades temporárias de produção, reconstituídas anualmente, capazes de mobilizar recursos, pessoas e capital criativo com rapidez e flexibilidade.


Escolas de samba, blocos de rua e demais organizadores operam, nesse sentido, como projetos de duração determinada, cujos objetivos são definidos por critérios estéticos, regulatórios e financeiros. A ausência de hierarquias rígidas e contratos formais extensivos não implica desorganização, mas uma forma alternativa de coordenação, baseada em liderança centralizada, divisão funcional do trabalho e forte dependência de conhecimento acumulado. Esse modelo reduz custos fixos, permite ajustes rápidos de escopo e transfere parte dos riscos operacionais para agentes que participam de forma episódica do processo produtivo.


Essa lógica organizacional se reflete de maneira clara na distribuição espacial da demanda pelo Carnaval. As buscas por destinos carnavalescos concentram-se de forma expressiva em poucos polos específicos, com destaque para Salvador, Recife e Rio de Janeiro, que aparecem muito à frente dos demais destinos. A magnitude dessa diferença sugere que a escolha do destino não é aleatória nem puramente cultural, mas fortemente condicionada por fatores como escala do evento, previsibilidade organizacional, visibilidade midiática e capacidade de absorver grandes volumes de público. Esses destinos funcionam, na prática, como plataformas maduras de consumo carnavalesco, capazes de transformar atenção simbólica em fluxo econômico de forma mais eficiente do que localidades menores ou menos estruturadas.



Ao mesmo tempo, a distância observada entre esses grandes polos da folia e cidades como Belo Horizonte, Ouro Preto ou São Paulo revela os limites da difusão territorial do valor econômico gerado pelo Carnaval. Embora essas cidades apresentem crescimento e relevância cultural, elas operam em um patamar distinto de capacidade organizacional e de captura de demanda. Isso indica que o modelo operacional do Carnaval tende a reproduzir rendimentos crescentes de escala, nos quais destinos já consolidados atraem desproporcionalmente mais atenção, turistas e recursos, enquanto novos ou alternativos enfrentam maiores custos relativos e riscos mais elevados para expandir sua participação.


A profissionalização das escolas de samba ilustra esse mesmo paradoxo organizacional. Embora frequentemente percebidas como estruturas informais, elas operam com separação clara entre funções criativas, produtivas e operacionais, sob sistemas de comando capazes de impor prazos, controlar orçamentos e assegurar a entrega final. Escolas do Grupo Especial, como Mangueira, Beija-Flor e Grande Rio, mantêm barracões permanentes na Cidade do Samba, com equipes técnicas fixas ao longo do ano, carnavalesco, diretor de harmonia, diretor de barracão, equipe de alegoria, costura e logística, funcionando sob cronogramas industriais que começam meses antes do desfile.


A repetição anual do ciclo carnavalesco gera aprendizado organizacional cumulativo. Após desfiles marcados por problemas técnicos ou estouro de orçamento, por exemplo, escolas passaram a antecipar etapas de produção, modularizar alegorias para facilitar transporte e reutilizar estruturas metálicas de um ano para o outro, reduzindo custos e risco operacional. Esse aprendizado é incorporado de maneira prática, ainda que pouco documentada formalmente. O mecanismo amplia a eficiência operacional, mas também reforça dependências pessoais, sobretudo em torno do carnavalesco e de lideranças históricas, e assimetrias internas de poder, limitando a transparência e a replicabilidade do modelo fora daquele núcleo específico.


A governança do Carnaval reflete essa mesma lógica híbrida. A coordenação central, exercida por ligas, associações e pelo poder público, cumpre papel relevante na redução de incertezas sistêmicas, especialmente no que se refere a cronogramas, às regras de competição e ao uso do espaço urbano. No entanto, essa coordenação se distribui de forma desigual ao longo da cadeia produtiva. Enquanto os elos centrais se beneficiam de maior previsibilidade e proteção institucional, os agentes periféricos, como trabalhadores informais, prestadores temporários e pequenos organizadores, permanecem mais expostos a riscos regulatórios, climáticos e de demanda. Essa redistribuição de riscos não decorre necessariamente de uma escolha deliberada, mas do próprio desenho institucional do modelo, que prioriza a estabilidade dos polos centrais do evento em detrimento da segurança econômica dos elos mais frágeis.


Dessa forma, a combinação entre informalidade institucional e racionalidade operacional constitui, simultaneamente, a principal força e a principal fragilidade do modelo organizacional do Carnaval. Se, por um lado, essa configuração viabiliza flexibilidade, redução de custos e adaptação rápida em um ambiente de alta incerteza, por outro, perpetua assimetrias na distribuição territorial e organizacional de riscos e limita a capacidade de planejamento de longo prazo de parte significativa dos agentes envolvidos. A eficiência do modelo, portanto, não pode ser avaliada apenas pela capacidade de entrega do evento, mas também pelas desigualdades estruturais que ele tende a reproduzir.


Estrutura de Custos, Receitas e Retorno


De maneira geral, os custos do Carnaval apresentam elevada rigidez no curto prazo, pois grande parte dos desembolsos ocorre antes da realização do evento, enquanto as receitas se materializam de forma posterior e incerta. Esse descompasso entre investimento e retorno torna a gestão de caixa um elemento central para a viabilidade financeira dos organizadores, sobretudo em um contexto marcado por prazos inflexíveis e alta concentração temporal da entrega.


De maneira geral, a sustentabilidade financeira do Carnaval é condicionada por uma estrutura de custos rigidamente concentrada no período pré-evento. A produção do espetáculo exige desembolsos significativos meses antes da realização dos desfiles, incluindo contratação de mão de obra, aquisição de insumos, construção de alegorias e organização logística. Como as receitas se materializam apenas posteriormente, e, muitas vezes, de forma incerta, forma-se um descompasso estrutural entre investimento e retorno. Essa dinâmica transforma a gestão de caixa em elemento central para a viabilidade do modelo, sobretudo em um ambiente marcado por prazos inflexíveis e elevada concentração temporal da entrega.


No caso das escolas de samba do Grupo Especial 2 do Rio de Janeiro, essa lógica torna-se ainda mais evidente. Em 2026, as agremiações receberam R$ 77,8 milhões em subvenção pública, segundo a Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa), valor destinado majoritariamente à produção artística, à mão de obra especializada e à logística operacional. Entretanto, tais recursos não eliminam a assimetria financeira do modelo, pois grande parte dos custos é assumida antecipadamente, enquanto receitas complementares, como patrocínios e direitos de transmissão, dependem de negociações anuais sujeitas a variações contratuais e institucionais. Assim, a estrutura econômica do Carnaval não apenas concentra riscos no curto prazo, como também expõe os organizadores a pressões financeiras que extrapolam o momento do desfile.



A comparação entre a ocupação hoteleira média anual e os níveis observados durante o Carnaval evidencia de forma clara tal mecanismo de apropriação. As taxas de ocupação próximas ao limite da capacidade instalada indicam que o evento funciona como um instrumento de intensificação temporária da demanda sobre ativos já existentes. Mais do que estimular a expansão da infraestrutura turística, o Carnaval permite a captura concentrada de receita em um curto intervalo de tempo, beneficiando setores com baixa exposição aos custos de produção e aos riscos organizacionais do evento. Esse padrão reforça a assimetria entre agentes culturais e organizadores, que concentram custos fixos e incertezas, e os setores capazes de extrair valor imediato a partir da concentração da demanda.


Portanto, a avaliação do retorno sobre o capital investido varia substancialmente conforme o modelo organizacional analisado. Eventos privados, transmissões e produtos associados ao Carnaval conseguem capturar receitas de forma mais direta e previsível, enquanto escolas de samba e blocos de rua operam, em muitos casos, com retorno financeiro imprevisível. Nesses arranjos, a viabilidade econômica depende menos da lucratividade imediata e mais de ganhos reputacionais, acesso a redes de financiamento futuras e da recorrência do evento ao longo do tempo.


A presença de financiamento público implica em uma camada adicional de complexidade à análise do retorno econômico. Parte relevante dos benefícios gerados pelo Carnaval manifesta-se sob a forma de externalidades sociais e econômicas difusas, como a dinamização de setores urbanos ligados a bares, restaurantes, transporte e hospedagem, que respondem por cerca de 83% do faturamento associado à festa, segundo dados da Confederação Nacional do Comércio. Esses efeitos contribuem para a geração de renda e emprego, especialmente entre trabalhadores informais e microempreendedores, atenuando a sazonalidade econômica e ampliando o acesso temporário ao mercado de trabalho em áreas urbanas.


Ao mesmo tempo, parcela expressiva da arrecadação é apropriada por modelos de negócio privados com elevada capacidade de captura de valor em janelas temporais curtas, como transmissões, eventos corporativos, ingressos premium e ativações de marca. A continuidade desses modelos depende, em grande medida, de subsídios, infraestrutura pública e promoção institucional, cujos custos são assumidos de forma difusa pelo poder público. Esse arranjo posiciona o Carnaval em uma tensão estrutural entre apropriação privada de valor e geração de retorno social, bem como entre os benefícios percebidos pela população no curto prazo e os encargos assumidos coletivamente.


Métricas Econômicas e Eficiência


O Carnaval segue como principal motor da economia criativa nacional, impulsionado por cidades como Salvador, que movimenta bilhões durante o verão. Nessa linha, o último relatório da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro revela que a indústria criativa no Brasil, somente em 2023, movimentou mais de R$ 393 bilhões, o equivalente a 3,59% do PIB nacional. Entretanto, apesar dos excelentes resultados, a avaliação da eficiência econômica do Carnaval requer a adoção de métricas capazes de capturar a relação entre os recursos mobilizados ao longo do ciclo produtivo e os resultados efetivamente gerados.


A trajetória recente de expansão do Carnaval nos principais polos do país evidencia um padrão de crescimento consistente e recorrente, reforçando a consolidação do evento como plataforma econômica estruturada. Ainda assim, dada a heterogeneidade dos agentes envolvidos e a diversidade de formatos organizacionais, essa avaliação não pode se restringir a indicadores financeiros tradicionais, devendo incorporar medidas de produtividade, recorrência de demanda e geração de valor ao longo do tempo.



A recorrência do consumo carnavalesco permite incorporar métricas dinâmicas, como o lifetime value³ dos frequentadores, como ferramenta para avaliar a eficiência econômica dos diferentes formatos do evento. Se considerarmos, por exemplo, um folião que viaja anualmente para o Carnaval do Rio e apresenta gasto médio estimado, segundo a Secretaria de Turismo da cidade, entre R$ 2.500 e R$ 4.000 por edição, sua permanência recorrente por cinco anos representa um LTV potencial entre R$ 12.500 e R$ 20.000. Em formatos premium, como camarotes ou experiências exclusivas, esse valor pode ser significativamente superior.


Essa dinâmica indica que parte relevante da eficiência econômica do modelo não depende apenas do faturamento pontual de uma edição específica, mas da capacidade de fidelizar públicos e capturar valor ao longo de múltiplos ciclos. A previsibilidade associada à repetição anual reduz custos marginais de mobilização e aumenta a estabilidade das receitas futuras, especialmente para agentes que operam com base em venda antecipada e patrocínios recorrentes.


Ainda assim, a avaliação de eficiência permanece incompleta se desconsiderar custos exógenos associados à pressão sobre a infraestrutura urbana e às despesas de ordenamento do espaço público, que, embora não internalizados diretamente pelos organizadores, afetam a sustentabilidade econômica do modelo no agregado.


Por fim, a busca por eficiência no Carnaval envolve trade-offs⁴ permanentes entre investimento artístico, escala de operação e retorno econômico. A elevação do nível de investimento pode aumentar a atratividade do evento, ampliar a visibilidade e expandir a demanda, mas também intensifica a exposição a riscos financeiros, na medida em que amplia o volume de custos fixos antecipados e eleva o ponto de equilíbrio da operação. Quanto maior o investimento, maior a dependência de receitas futuras, como patrocínios, bilheteria, repasses públicos e direitos de transmissão, que permanecem sujeitas a incertezas econômicas, institucionais e climáticas. Assim, a eficiência do modelo não reside na maximização isolada de receitas ou na simples redução de custos, mas na capacidade de equilibrar esses elementos de forma sustentável ao longo do tempo.


Risco, Incerteza e Sustentabilidade do Modelo



A concentração temporal das atividades, a rigidez dos prazos e a dependência de múltiplos agentes tornam o sistema carnavalesco particularmente sensível a choques operacionais, climáticos e regulatórios, cujos efeitos tendem a se propagar rapidamente ao longo da cadeia.


A incerteza climática representa um dos principais fatores de risco, sobretudo para formatos realizados em espaços abertos e de acesso gratuito. A impossibilidade de postergar o evento ou redistribuir a demanda em caso de condições adversas amplia a exposição financeira dos organizadores. A isso somam-se riscos operacionais relacionados à complexidade logística e à necessidade de coordenação simultânea de diversas frentes de trabalho em janelas de tempo extremamente restritas.


Do ponto de vista regulatório, o Carnaval depende de autorizações, normas de segurança e decisões de política pública que variam ao longo do tempo. Mudanças nesse ambiente institucional afetam diretamente custos, modelos de financiamento e a própria viabilidade de determinados formatos. Ademais, a dependência de recursos públicos e de patrocínios privados acentua a vulnerabilidade do modelo a ciclos econômicos e a mudanças nas prioridades dos financiadores, contribuindo para a volatilidade das receitas.


A sustentabilidade econômica do Carnaval no longo prazo está relacionada à capacidade dos agentes envolvidos de absorver choques, reinvestir recursos e preservar competências produtivas ao longo dos ciclos. Organizações que conseguem estabelecer fontes de receita mais previsíveis, diversificar seus modelos de financiamento e acumular ativos reutilizáveis tendem a apresentar maior resiliência. Em contrapartida, estruturas excessivamente dependentes de aportes pontuais ou de resultados excepcionais enfrentam maior dificuldade de continuidade.


Síntese e Implicações


Através de uma compreensão do Carnaval brasileiro como um arranjo econômico sofisticado, cuja complexidade organizacional e produtiva contrasta com a percepção recorrente de informalidade e improviso, podemos examiná-lo a partir de seus modelos operacionais, de sua cadeia econômica e de seus mecanismos de financiamento e retorno. Dessa forma, revela uma estrutura funcionalmente coerente, orientada por decisões racionais de alocação de recursos, coordenação e gestão de riscos.


A decomposição da cadeia produtiva evidencia que o Carnaval opera como um sistema integrado, no qual produção, serviços e consumo se articulam de forma recorrente e interdependente. Essa organização sustenta fluxos econômicos relevantes e mobiliza agentes com interesses distintos, cuja capacidade de captura de valor depende de sua posição na cadeia e de seu acesso a fontes estáveis de financiamento. 


Ao incorporar a dimensão do risco e da incerteza, destacam-se os limites e as fragilidades do modelo, especialmente no que se refere à concentração temporal das atividades, à volatilidade das receitas e à dependência de decisões institucionais. Portanto, a sustentabilidade econômica do Carnaval no longo prazo está condicionada à capacidade de adaptação dos agentes, à preservação do capital produtivo e à articulação entre financiamento público e privado de forma eficiente.


Por fim, ao deslocar o debate do campo exclusivamente cultural para uma perspectiva econômica e operacional, contribui-se para o aprofundamento da análise da economia da cultura e dos eventos de massa. Assim, o Carnaval emerge não apenas como expressão simbólica central da sociedade brasileira, mas como um objeto analítico relevante para o estudo de organização produtiva, eficiência econômica e políticas públicas em contextos de alta complexidade.


Glossário


  1. Jogo do Bicho: loteria ilegal e informal muito popular no Brasil, criada em 1892, onde apostadores escolhem entre 25 animais, cada um representando um grupo de quatro dezenas (00 a 99). Sorteado 

  2. Grupo Especial: principal divisão dos desfiles de escolas de samba, tanto no Rio de Janeiro quanto em São Paulo. É onde estão as escolas mais tradicionais, com os maiores orçamentos, os carros alegóricos mais gigantescos e as fantasias mais luxuosas.

  3. Lifetime Value: é uma métrica que estima a receita total que um cliente gera para uma empresa durante todo o seu período de relacionamento.

  4. Trade-off: relação de substituição entre alternativas escassas na qual a escolha de uma opção implica renunciar a outra, gerando um custo de oportunidade correspondente ao valor da melhor alternativa não escolhida.


Bibliografia


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