O Futuro do Mercado Televisivo: A Nova Conexão com o Público Jovem na Era Digital
- Antonio Lenz

- 7 de dez. de 2025
- 17 min de leitura

Nunca foi tão difícil para as marcas e emissoras conquistarem a atenção do público jovem. Atualmente, o consumo de vídeo passa por uma das maiores transformações de sua história: a transição do modelo de transmissão em massa, antes centrado na televisão e na publicidade tradicional, para um modelo de interação digital em múltiplas plataformas. De acordo com a Kantar Ibope Media, o setor televisivo, que por décadas concentrou a atenção dos lares brasileiros, enfrenta um processo de reconfiguração. Embora a TV aberta ainda responda por mais da metade do consumo de vídeo no país, a audiência se fragmenta em ritmo acelerado, impulsionada pela expansão da banda larga¹, que ampliou o acesso e tornou o ambiente digital mais competitivo. Com a dispersão da audiência, o impacto também é econômico: a queda de investimentos publicitários e de assinaturas pressiona as emissoras a repensarem seus modelos de negócio e migrarem parte de suas operações para o digital. Nesse novo cenário, a atenção, antes sustentada pela permanência do espectador, torna-se um recurso escasso e disputado. Segundo o YouTube, 65% dos jovens da Geração Z² se consideram criadores de conteúdo, o que indica um público que participa e se expressa, não apenas assiste. Com isso, abordagens de marketing baseadas em anúncios perdem eficácia diante de uma geração que valoriza autenticidade, identificação e diálogo. Dessa forma, como as empresas podem realmente se conectar com uma geração que não quer ser convencida, mas incluída na conversa?
O Consumo Jovem e as Novas Linguagens Digitais
Nas últimas décadas, o modo como os jovens se relacionam com a mídia passou a refletir uma mudança estrutural na comunicação, marcada pela participação. Essa transformação se expressa no crescimento da chamada economia de criadores, na qual indivíduos comuns produzem conteúdo, moldam tendências e influenciam diretamente as narrativas culturais e de mercado. De acordo com a Deloitte, existem cerca de 50 milhões de criadores independentes produzindo conteúdo para aproximadamente 5 bilhões de usuários em redes sociais. Esse cenário evidencia como o público deixou de ser apenas receptor para atuar como coautor de sentido, o que redefine a forma de consumir e também de construir valor simbólico em torno de marcas, produtos e pessoas. Por isso, comunicar-se com o público jovem vai muito além de modernizar campanhas publicitárias: significa compreender uma reorganização profunda do consumo e da comunicação. Como afirmam Jenkins, Li e Daugherty, especialistas em cultura participativa, a lógica contemporânea substitui a unilateralidade pela bilateralidade, transformando o modo como a atenção, o engajamento e a credibilidade são construídos no ambiente midiático.
Entretanto, essa transformação vai além da simples adoção de novas plataformas, pois revela uma mudança na estrutura de poder da comunicação. O público jovem não apenas migra de telas, como também redefine seus referenciais de influência ao priorizar criadores independentes e comunidades digitais em detrimento da televisão tradicional. Segundo a Kantar Ibope Media, o streaming³ já representa 21% do consumo de vídeo do brasileiro, e, entre os jovens de 18 a 34 anos, esse índice ultrapassa 60%. Essa virada está diretamente ligada ao desejo de pertencimento e à necessidade de expressão individual, dimensões psicossociais que redirecionam o papel da mídia e transformam o modo como o conteúdo é percebido. A televisão, historicamente marcada pela autoridade e distância, vem cedendo espaço a formatos interativos, como YouTube, TikTok e Twitch, que proporcionam ao público a sensação de fazer parte da narrativa. Desse modo, para as redes televisivas, o movimento representa um ponto de inflexão, exigindo a adaptação a novas linguagens para dialogar com o público da era digital.
Concomitantemente, nota-se como o isolamento social, intensificado durante a pandemia, acelerou essa consolidação ao transformar as plataformas em espaços de convivência e expressão coletiva, onde o engajamento substituiu a presença física. Assim, essa lógica mais horizontal, participativa e personalizada explica a ascensão dos meios digitais e evidencia como a experiência de estar conectado se tornou parte fundamental da identidade contemporânea.

Essa transformação no modo de consumir conteúdo, intensificada durante a pandemia, explica por que as plataformas digitais se consolidaram como principais espaços de sociabilidade da Geração Z. De acordo com o Pew Research Center, 46% dos adolescentes afirmam estar “quase constantemente” online, evidenciando uma relação de conexão contínua com o ambiente digital. Mais do que o tempo de uso, destaca-se o caráter participativo desse consumo: 35% dos jovens afirmam já ter publicado vídeos ou criado conteúdos próprios, indicando uma forma ativa de interação e expressão. Esse engajamento reflete um novo tipo de socialização, em que a identidade é construída não apenas pelo que se consome, mas também pelo que se compartilha, comenta e cria. No Brasil, o relatório DataReportal Digital 2024 mostra que o país tem a segunda maior média global de tempo diário nas redes sociais (3h46min), reforçando como o ambiente online se tornou extensão da vida social e eixo da convivência juvenil. Com isso, quanto mais intensa essa participação, mais as plataformas personalizam o conteúdo e ajustam o que é exibido, criando um ciclo de retroalimentação entre comportamento e visibilidade. Assim, a experiência social passa a ser mediada por algoritmos que premiam o engajamento e definem o que ganha relevância, um processo que afeta diretamente a percepção de espontaneidade entre os jovens.
Nesse ecossistema, a autenticidade ainda é um valor simbólico central, mas encontra-se em tensão com a lógica da performance e das tendências virais. Como aponta o The Guardian, as novas gerações enfrentam uma “crise da autenticidade”, em que o desejo de parecer genuíno se mistura à necessidade de acompanhar padrões ditados pelos algoritmos. Assim, o sucesso do conteúdo “amador” já não depende apenas da espontaneidade, mas também da capacidade de parecer verdadeiro: um novo tipo de estética que redefine o que significa ser genuíno na era digital. Porém, essa dinâmica, não se limita à busca individual por visibilidade, mas alimenta o próprio funcionamento das redes, que transformam a autenticidade em um produto altamente rentável. Diferentemente da televisão, em que a fama era restrita e mediada por grandes emissoras, as plataformas digitais democratizam o protagonismo, estimulando uma corrida constante por relevância e engajamento. Desse modo, o ideal de autenticidade, paradoxalmente, reforça a lógica algorítmica que mantém o público jovem conectado, preso a um ciclo contínuo de exposição, validação e desejo de reconhecimento.
Essa busca pela expressão genuína faz com que a relação entre criadores e público se baseie mais na afinidade do que na autoridade. Pesquisas do Think with Google indicam que os jovens tendem a seguir criadores porque “se identificam com o jeito de pensar”, e não por “admiração profissional”. Essa identificação é continuamente explorada pelo mercado digital, já que marcas e influenciadores muitas vezes elaboram discursos de proximidade e naturalidade apenas para se adequar ao desejo de espontaneidade do público. Assim, o consumo digital torna-se não só uma forma de auto expressão coletiva mas também um espaço de reprodução dessa lógica performativa, em que o pertencimento é simultaneamente genuíno e estrategicamente estimulado pelas plataformas.
Diante desse cenário, grandes marcas têm adaptado suas estratégias para se conectar de modo mais legítimo com o público jovem, deslocando investimentos da publicidade tradicional para o marketing de influência. A Sephora, segundo estudos do eMArketer e Ainfluencer, mobilizou cerca de 14 mil criadores no TikTok com a hashtag #SephoraPartner, alcançando um retorno sobre investimento superior a 1.013% em campanhas da linha Sephora Collection. Mais do que uma ação de divulgação, a campanha funcionou como uma trend colaborativa⁴, em que o público era convidado a recriar conteúdos e participar ativamente da narrativa da marca, reforçando a lógica da coparticipação simbólica típica das redes sociais. De modo semelhante, empresas como Natura, Nike e Coca-Cola vêm apostando em micro e nano influenciadores⁵ para campanhas digitais, construindo narrativas que se entrelaçam com a cultura participativa das redes e transformam o consumo em experiência compartilhada.
Mais do que uma tendência pontual, o marketing de influência deixou de ser uma tendência passageira e consolidou-se como uma estratégia central de comunicação no mercado global. Segundo a Oberlo, os investimentos na América Latina ultrapassaram US$1 bilhão em 2023, sendo o Brasil responsável por aproximadamente 45% desse total. Esses números evidenciam que a participação de criadores digitais não se limita à visibilidade, mas expressa um reposicionamento estratégico das marcas, que passaram a se inserir nas conversas culturais de forma mais orgânica e participativa. Além disso, o crescimento do marketing digital como um todo reforça essa transformação: de acordo com o Adnews, a publicidade brasileira movimentou R$64,7 bilhões no último ano, sendo mais de 70% destinados a plataformas online. Com isso, à medida que a atenção migra para o ambiente digital, o capital publicitário acompanha o mesmo movimento, consolidando a internet como o principal meio de comunicação de massa da atualidade.

Em suma, o consumo jovem não apenas redefine o meio, mas o próprio sentido de comunicação. A lógica da mídia contemporânea não se orienta mais pela visibilidade ampla da audiência televisiva, e sim pela identificação simbólica que conecta criadores, marcas e comunidades em torno de valores compartilhados. Portanto, o investimento publicitário deixa de acompanhar a exposição em massa para seguir o engajamento e o pertencimento, consolidando um novo paradigma em que participar vale mais do que simplesmente assistir.
O Fenômeno CazéTV
Seguindo essa tendência, surge a CazéTV como símbolo da virada cultural do consumo de mídia. Criada em novembro de 2022 por Casimiro Miguel em parceria com a LiveMode, o canal nasceu após o sucesso das lives que o influenciador fazia durante a pandemia, quando ainda trabalhava na TNT Sports. Nesse contexto, o isolamento social funcionou como catalisador de novas formas de sociabilidade digital, em que o humor e a conversa direta se tornaram pontes de conexão emocional e pertencimento coletivo. A partir dessa experiência, o formato espontâneo e interativo de Casimiro, centrado no diálogo com o público, rapidamente atraiu milhões de visualizações e o levou a abandonar a televisão tradicional para se dedicar integralmente às plataformas digitais. Durante a Copa do Mundo de 2022, a CazéTV alcançou picos de aproximadamente 6,15 milhões de espectadores simultâneos no jogo entre Brasil e Croácia, superando o recorde anterior do YouTube Brasil, que pertencia à cantora Marília Mendonça, com 3,48 milhões de visualizações em 2020. Assim, o desempenho histórico do canal consolidou a CazéTV como um marco na mídia digital e evidenciou a força de uma nova lógica de engajamento, em que o sucesso depende menos da audiência passiva e mais da participação ativa do público.

No entanto, a consolidação da CazéTV, só foi possível graças à ampliação do acesso digital no Brasil, que criou as condições para que formatos nativos da internet atingissem escalas antes restritas à televisão. Segundo o IBGE (2024), mais de 90% dos domicílios brasileiros já possuem conexão à internet, o que explica a rápida difusão do canal e o engajamento massivo do público jovem. Nesse cenário, a CazéTV, que nasceu com foco esportivo, diversificou-se para novos formatos, incluindo transmissões de campeonatos regionais, eventos culturais e programas de entretenimento ao vivo. Em 2024, o canal atingiu 6 milhões de dispositivos simultâneos durante a final do Campeonato Paulista, se configurando como o sexto maior pico de audiência da história do Youtube. Esses números colocam a CazéTV entre os três maiores canais de live streaming⁶ do país, atrás apenas da GloboPlay e da TNT Sports em volume de audiência, consolidando um patamar inédito para um projeto novo e nativo da internet. Assim, a expansão do canal representa não apenas um crescimento de audiência, mas também uma confirmação de uma nova lógica de consumo: conectada, participativa e moldada pelos hábitos de atenção das gerações digitais.
Nesse mesmo movimento, o streaming deixou de ser um nicho e tornou-se o novo centro de consumo audiovisual do país. Essa mudança foi impulsionada tanto pela ampliação do acesso à internet quanto pela crescente qualidade e gratuidade dos conteúdos oferecidos nas plataformas digitais. Com o avanço da banda larga residencial e o barateamento do consumo móvel, o público passou a encontrar nas redes e nos canais independentes uma alternativa viável e muitas vezes mais atraente do que a TV por assinatura. Essa virada tecnológica criou o ambiente ideal para que projetos como a CazéTV atingissem escala nacional e redefinissem o modo como os brasileiros se relacionam com o audiovisual, revelando que a força da comunicação contemporânea não está mais na transmissão, mas na conexão.

Dados mostram que, em 2020, o número de lares com acesso à internet (com banda larga de alta velocidade acima de 32 mbps (que é usada essencialmente para o consumir vídeo) superou pela primeira vez o de assinaturas de TV paga: um cruzamento histórico que explica a ascensão de plataformas como a CazéTV. De acordo com a Anatel, em 2024 o Brasil registrou mais de 42 milhões de domicílios com banda larga fixa, enquanto os contratos de TV paga caíram para cerca de 11 milhões, uma redução próxima de 50% em cinco anos. Além disso, segundo a Kantar Ibope Media, essa retração também se reflete nas receitas: entre 2018 e 2023, o faturamento publicitário da televisão aberta encolheu cerca de 28%, enquanto o investimento em mídias digitais cresceu mais de 70% no mesmo período. Esse cenário redefine o mapa da comunicação audiovisual, transferindo o eixo da produção e da atenção para o ambiente digital. Como reflexo, grandes emissoras, como a Globo, vêm reformulando seus modelos de negócio, redefinindo contratos fixos e negociando valores com apresentadores como Luciano Huck, Marcos Mion e Ana Maria Braga em resposta ao encolhimento das margens e à migração de audiência.
No entanto, a transformação não é apenas tecnológica, é geracional: as faixas etárias mais jovens abandonaram de forma acelerada a TV paga, enquanto apenas o público 65+ anos apresentou leve crescimento, de cerca de 8% no período.

Essa mudança de perfil comprova que a CazéTV não é apenas resultado de uma inovação de formato, mas a resposta direta a uma demanda geracional. A televisão linear continua sendo dominante entre os mais velhos, mas o público jovem, nativo digital, comunitário e participativo, reconhece em Casimiro uma linguagem que lhe pertence. O improviso, o humor e a identificação são vistos como autenticidade, e não como falta de profissionalismo. Nesse sentido, o sucesso da CazéTV está menos atrelado à sua estrutura técnica e mais à sua coerência entre discurso e prática.
Essa força simbólica do canal é tamanha que levou o Grupo Globo a repensar seu modelo. Em 4 de setembro de 2025, o Grupo Globo lançou a GEtv, um canal digital gratuito, multiplataforma (YouTube, Globoplay, Samsung TV Plus etc.) com linguagem mais informal e voltada à interação. Embora institucionalmente bem estruturado, esse movimento evidencia que o formato inaugurado por CazéTV se tornou referência dentro do campo televisivo e revela um dilema: instituições tradicionais como a Globo podem imitar a estrutura e a forma, mas não replicar facilmente o vínculo de pertencimento e confiança que criadores digitais construíram. Em vez de autoridade concedida por emissora, o digital opera por credibilidade conquistada, e isso continua sendo o maior diferencial da CazéTV.
Durante as transmissões esportivas de 2025, como partidas da NFL, o canal chefiado pela LiveMode registrou desempenho superior ao da GEtv em métricas de engajamento digital. Segundo o Meio e Mensagem, a CazéTV apontou que todos os dispositivos conectados, TVs, celulares, tablets e laptops, geraram dados em tempo real, incluindo número de comentários simultâneos, reações em redes sociais e tempo médio de visualização por sessão, frente a medições ainda padronizadas da GEtv. Assim, enquanto a CazéTV improvisa para criar pertencimento, a GEtv busca replicar essa estética dentro de um ambiente institucional. A diferença, portanto, não é apenas de formato, mas de lógica simbólica: a espontaneidade versus a mediação tradicional.

Em suma, a consolidação da CazéTV como principal player nativo digital não é um ponto de chegada, mas um marco de transição. Ao assegurar os direitos de transmissão de todos os 104 jogos da Copa do Mundo de 2026, o canal confirma sua legitimação dentro do ecossistema midiático e reforça a mudança de paradigma: o digital já não é exceção, é centro. Esse processo inaugura uma nova etapa da comunicação de massa no Brasil, marcada pela fusão entre legitimidade, engajamento e infraestrutura. Nesse sentido, o fenômeno CazéTV, mais do que um sucesso individual, expressa a maturidade do ambiente digital brasileiro e a reconfiguração do que significa ser mídia em um país historicamente televisivo.
Os paradoxos do modelo em ascensão
A consolidação do streaming e das novas linguagens digitais redefine o ecossistema da mídia brasileira, mas também revela uma série de paradoxos que questionam o próprio modelo que se apresenta como revolucionário. O discurso da autenticidade e da espontaneidade, central à comunicação contemporânea, convive com resistências simbólicas, limitações técnicas e tensões culturais que expõem as fronteiras desse novo paradigma.
O primeiro desses paradoxos diz respeito à resistência à cultura “cool⁷”. O improviso, a conversa direta e o humor cotidiano não são universalmente valorizados. Apesar de serem vistos pelos mais jovens como traços de autenticidade e proximidade, muitos espectadores ainda associam esse estilo à informalidade e à falta de profundidade. Uma pesquisa da Ecglobal, realizada logo após os Jogos Olímpicos de Paris, evidenciou esse contraste: 55% dos entrevistados afirmaram preferir a cobertura da TV Globo, enquanto 39% declararam preferência pela CazéTV. O estudo contou com 458 participantes, mas não detalha as faixas etárias ou perfis de grupo, o que indica a necessidade de cautela na generalização. Apesar disso, o resultado sugere que o ambiente online ainda não elimina a televisão enquanto referência simbólica, não necessariamente por sua condição digital, mas porque a televisão mantém um capital de autoridade, credibilidade e familiaridade que os canais nativos digitais, baseados em proximidade e engajamento, ainda estão em processo de conquistar. Nesse sentido, a nova concorrente GEtv poderia tentar preencher essa lacuna institucional, mas o desafio permanece: passar de linguagem digital à construção de legitimidade simbólica.
Embora a pesquisa não detalhe faixas etárias, o contraste entre as preferências evidencia um descompasso cultural mais amplo. De um lado, o público mais velho, habituado à previsibilidade e à formalidade da televisão, percebe o estilo digital como barulhento e disperso, o que reforça a distância simbólica entre os formatos. De outro, a estética “cool” atua como marcador geracional e também como barreira de acesso, já que compreender o código exige pertencer à comunidade que o produz. Nesse sentido, a diferença não representa um impasse definitivo, mas uma disputa por legitimidade. Enquanto a televisão ancora seu prestígio na credibilidade institucional, as plataformas digitais, por sua vez, constroem valor por meio da identificação e da reciprocidade. Assim, o comportamento dos jovens confirma que essa forma de engajamento se consolidou como prática dominante no ecossistema midiático contemporâneo. Desse modo, a promessa de uma comunicação mais horizontal e democrática revela um paradoxo: quanto mais personalizada e comunitária ela se torna, mais se distancia daqueles que não compartilham do mesmo repertório simbólico.
Há, ainda, um paradoxo técnico que reforça essa resistência. As transmissões online, mesmo com o avanço do streaming e da conectividade, ainda operam com atraso médio de 60 segundos, o que compromete a simultaneidade da experiência em eventos ao vivo. Já o sinal digital terrestre mantém uma transmissão quase em tempo real. Essa diferença, mais do que um detalhe técnico, simboliza a desigualdade estrutural entre as formas de mediação: enquanto a televisão preserva a unidade coletiva do instante, o ambiente digital fragmenta a experiência em múltiplos tempos. Dessa forma, o “grito de gol antecipado” do vizinho se tornou um dos motivos pelos quais muitas pessoas ainda preferem assistir pela TV aberta, já que o atraso reduz a emoção do ao vivo.

Portanto, o modelo digital em ascensão carrega sua própria contradição. Ele democratiza o acesso, mas segmenta o diálogo; valoriza o improviso, mas ainda depende da estrutura que prometeu substituir; conquista a juventude, mas não elimina a referência simbólica da televisão tradicional. Enquanto a CazéTV representa esse canal que traduz a linguagem de uma geração conectada, a GEtv surge como tentativa de conciliar essa espontaneidade das redes com a credibilidade institucional da Globo. O futuro da comunicação brasileira não será determinado pela substituição de um modelo pelo outro, mas pela capacidade de integração entre essas lógicas: a velocidade e a profundidade, a autenticidade e a autoridade, a fragmentação e o pertencimento coletivo. O paradoxo, nesse caso, não indica fragilidade, mas o próprio processo de transição que define o novo consenso cultural da era pós-televisiva.
Tendências e perspectivas futuras
O alcance deixou de ser uma métrica e passou a representar um signo de pertencimento e o que se disputa agora é a capacidade de reconstruir um sentido comum em meio à dispersão. A era das microcomunidades aprofundou vínculos, mas fragmentou o público, transformando a experiência coletiva em um mosaico de nichos afetivos. Essa fragmentação gerou autenticidade, mas também uma espécie de solidão comunicacional. Portanto, o desafio que se impõe é o de reconectar essas ilhas de atenção sem perder a legitimidade conquistada no contato direto. Mais do que uma questão de formato, trata-se de repensar o papel simbólico da mídia num cenário em que o pertencimento vale mais do que a audiência.
Diante desse cenário, as tendências apontam para um modelo de comunicação híbrido e relacional, em que o digital deixa de se opor à mídia tradicional e passa a funcionar como sua extensão simbólica. No entanto, essa convergência não é inteiramente estável, pois ao aproximar linguagens distintas existe o risco de diluição das identidades de mídia e da perda da coerência narrativa que sustentava cada formato. Por isso, o desafio atual é equilibrar diálogo e autoridade, participação e direção, em um campo cada vez mais permeado por interações contínuas. A CazéTV exemplifica esse ponto de inflexão, já que, embora tenha surgido como alternativa à televisão tradicional, acabou se tornando parte do mesmo circuito de legitimação cultural, servindo hoje como referência para o próprio sistema que antes tencionava. Assim, o futuro da comunicação não se define pela substituição de modelos, mas pela capacidade de mediar tensões entre controle e espontaneidade, entre comunidade e massificação, dentro de um ecossistema cada vez mais interdependente e complexo.
A exemplo disso, nota-se também a Kings League, competição de futebol de 7, criada por Gerard Piqué, transmitida inteiramente em plataformas digitais e que revela a potência desse novo modelo. Com picos de 2,2 milhões de espectadores simultâneos e mais de 30 milhões de seguidores somados entre Twitch, YouTube e TikTok, o projeto mostra como o esporte pode se reinventar como entretenimento colaborativo. As regras flexíveis, como o uso de cartas especiais, disputas decididas por voto popular e transmissões interativas, transformam o jogo em uma narrativa coletiva, conduzida junto à audiência.

Esse sucesso da liga indica que o futuro do consumo audiovisual será menos sobre assistir e mais sobre participar. À medida que mídia, tecnologia e comunidade se entrelaçam, forma-se um novo padrão de pertencimento em que o público deixa de ser espectador e passa a atuar como co-produtor da experiência. Essa dinâmica, observada por Henry Jenkins na chamada cultura da convergência 2.0, revela um cenário em que televisão e streaming não apenas coexistem, mas competem e se retroalimentam na disputa pela atenção. Enquanto a Globo busca preservar sua autoridade institucional, a CazéTV e a GEtv operam pela lógica da proximidade e da interação contínua, respondendo às demandas de uma audiência cada vez mais fragmentada e participativa. Dessa forma, o público não apenas transita entre as plataformas, mas constrói sentido nesse movimento, transformando o consumo em uma prática coletiva de mediação entre mundos.
Ademais, do ponto de vista das marcas, isso implica um deslocamento profundo. A comunicação de massa perde espaço para narrativas de continuidade, em que autenticidade não é uma estética, mas um comportamento. O público jovem, mais participativo, valoriza experiências que constroem sentido, com menos campanhas e mais presença. Assim, as empresas que compreenderem esse deslocamento deixarão de disputar a visibilidade e passarão a disputar a pertinência, cultivando relações baseadas em escuta, reciprocidade e participação.
Portanto, tudo indica que a tendência dominante será a de um pertencimento expandido, em que as fronteiras entre criadores, plataformas e audiências se dissolvem. Desse modo, o futuro da mídia brasileira não será medido pela quantidade de espectadores, mas pela intensidade dos vínculos. A televisão continuará a existir, mas como parte de um sistema em rede, o streaming deixará de ser o “novo” para se tornar o padrão e os criadores digitais se consolidarão como a nova institucionalidade cultural do país.
Ainda que não saibamos o que vem depois, o certo é que o público nunca mais será o mesmo.
Glossário
Banda larga – Conexão de internet de alta velocidade que permite acesso contínuo e estável, fundamental para o consumo de streaming e redes sociais.
Geração Z – Compreende pessoas nascidas entre 1995 e 2010, ou seja, quem tem entre 15 e 30 anos aproximadamente.
Streaming – Transmissão de conteúdo ao vivo ou sob demanda feita fora de grandes emissoras ou plataformas tradicionais, geralmente por criadores ou empresas que controlam sua própria produção e distribuição.
Trend colaborativa – Tendência nas redes sociais em que o público recria e adapta um mesmo conteúdo viral, participando ativamente da narrativa.
Micro e nano influenciadores – Criadores de conteúdo com público menor, porém mais engajado, usados por marcas para campanhas autênticas e segmentadas.
Live streaming – Transmissão de vídeo ao vivo pela internet, que permite interação direta entre criador e audiência.
Cool – Estilo comunicativo e visual associado à informalidade e autenticidade, comum nas linguagens jovens e digitais.
Bibliografia
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