O Futuro da Mobilidade: dos Patinetes Elétricos aos Túneis Subterrâneos

Atualizado: Nov 19


Mobilidade urbana é um tema que sempre foi muito discutido ao longo do tempo no Brasil e no mundo. A busca incessante por melhoras nesse quesito é algo que gera muitas discussões pelos mais variados motivos. A questão central nesse assunto é a velocidade/facilidade de locomoção. E, por isso, muitos se limitam em apenas discutir como se deslocar/transportar mais rápido, enquanto, na realidade, o debate engloba diversos outros pontos como sustentabilidade, preço e a qualidade do serviço.


Brasil: nas amarras das estradas

No Brasil, a mobilidade urbana é um problema visível. Muito por conta de sua política rodoviarista que se iniciou no Governo Juscelino Kubitschek, com a chegada da indústria automobilística ao país. Essas medidas continuaram ao longo da ditadura militar com o Programa de Integração Nacional que visava uma maior ocupação das regiões Centro-Oeste e Norte do país. Toda essa concentração de investimento no setor acarretou um acúmulo desse modal perante os demais meios de locomoção. Isso fica evidente com a informação de que 62% do sistema de transportes brasileiro atualmente é rodoviário, o que se refletiu nas cidades. Vale ressaltar que o intuito desse texto não é discutir se as políticas adotadas foram corretas ou não, até porque elas tiveram pontos positivos e negativos, mas sim analisar a situação atual e entender melhor como exemplos ao redor do mundo podem auxiliar na melhora desse quesito internamente.


Essa questão histórica foi se agravando ao longo dos anos. A desigualdade social, que aparentemente não possui muita conexão com o assunto, distancia a massa dos trabalhadores dos grandes centros de trabalho. Assim, o transporte dessas pessoas tornou-se um enorme gargalo nas maiores capitais do país. A falta de organização na política pública de transportes gerou um descuido nesse setor. Além disso, a baixa competitividade (como é o caso do Rio de Janeiro, em que dezenas de de empresas são controladas por poucas famílias) nesse mercado agrava essa situação, com uma administração ineficiente do estado ou por concessões antigas de baixa eficiência que, por consequência, geraram o sucateamento dos mesmos. Logo, quem possui escolha não opta pelo transporte público. Além de não oferecer um bom serviço, os preços são altos para um serviço de tão baixa qualidade que não possui intermodalidade alguma. É raro ver no Brasil casos em que o trem, por exemplo, já é conectado com ônibus ou algum outro modal, o que reduziria o tempo do trajeto até o destino final. O comum por aqui é a desintegração dos modais.


Tomando como exemplo o Rio de Janeiro, que sediou vários eventos esportivos internacionais em uma década, esperava-se que o legado deixado fosse de melhoria. Todavia, apesar de uma expansão nas linhas de metrô da cidade e a criação de um novo sistema de BRT, a sensação que ficou para a população não foi de uma melhora efetiva.Xangai, por exemplo, não possuía linhas de metrô na década de 90, todavia, atualmente possui uma malha metroviária muito superior a do Rio de Janeiro, mesmo após os grandes eventos sediados na cidade.



Sendo assim, analisar casos que deram certo ao redor do mundo é uma boa maneira de melhorar a mobilidade urbana no país. É verdade que todo país possui suas especificidades e por isso nem todas as políticas e inovações no que tange a mobilidade urbana poderiam ser implementados no Brasil. Vamos analisar alguns deles:


Exemplos ao redor do mundo

Como já dito anteriormente, o Brasil é um país que prioriza o transporte sobre rodas, o que configura um enorme desincentivo para a utilização de outros meios de locomoção, sendo esse um dos fatores para os enormes engarrafamentos existentes nas grandes cidades. Os pedágios urbanos são, de fato, uma opção para mitigar esse problema comum. Mas, antes de tudo, o que são pedágios urbanos? Eles são bem diferentes dos usuais que estamos acostumados em rodovias espalhadas pelo Brasil: não apresentam cancelas nem guichês, a cobrança é feita por meio de pardais eletrônicos e podem ser pagos diária ou mensalmente, ficando a critério do condutor.


O intuito desses pedágios é, por meio do desincentivo financeiro, evitar com que o motorista saia com o carro todos os dias, optando pelo transporte público. Dessa forma, os congestionamentos diminuiriam, gerando uma enorme economia para os municípios. Uma cidade como São Paulo, por exemplo, tem um prejuízo anual de R$ 33 bilhões ao ano devido aos engarrafamentos, já que o fluxo de bens e serviços é diretamente impactado. É verdade que o transporte público brasileiro é de péssima qualidade, mas Londres, uma das cidades que já implementou tal tipo de estratégia, reinveste todo o dinheiro arrecadado nos transportes públicos. Sendo assim, essa poderia ser uma solução não só para melhorar o tráfego, como também para recuperar os deteriorados transportes nacionais, tornando-os mais atrativos. Uma das consequências negativas desse método é que o automóvel poderia se tornar um artigo de luxo. Entretanto, caso tal medida consiga gerar um sistema público de transportes de qualidade, tal questionamento seria amenizado, embora o impacto, de fato, seja mais sentido pela população mais carente.


Outro problema das grandes cidades brasileiras é a distância do transporte público às residências. Uma solução para trazer essa comodidade está em vigor em Brisbane, Austrália, os conhecidos “Park & Ride”. Eles são estacionamentos gratuitos localizados ao lado de estações de metrô, ônibus e trem. Com eles, o acesso aos meios de transporte é facilitado, dessa maneira, muitos motoristas ao invés de percorrerem todo o trajeto até o trabalho de carro, percorreriam apenas um trecho em veículos particulares, até chegarem mais próximos dos centros urbanos e, após isso, utilizariam o transporte público, desafogando o trânsito. O sucesso dessa estratégia é uma realidade. Para 2019, o governo australiano planeja construir mais 2300 novas vagas em Brisbane. Tal estratégia foi muito comentada durante a construção da estação de metrô Jardim Oceânico, no Rio de Janeiro, já que os moradores da Barra da Tijuca costumam se locomover principalmente por meio de automóveis. Todavia, o projeto não saiu do papel, embora um estacionamento privado já tenha sido criado no local para explorar tal demanda, o que prova que isso era realmente uma vontade da população.


Por último, outra medida mitigadora dos problemas causados pelo transporte rodoviário são os semáforos inteligentes. O funcionamento deles é programado de acordo com as principais demandas e estratégias de cada cidade. Esses sinais de trânsito estão relacionados à demanda, ou seja, priorizam determinado meio de transporte em um cruzamento. Algumas cidades que optarem por priorizar o transporte público ficam aptas a diminuir o tempo em que o semáforo fica fechado para um ônibus, por exemplo.


Sensores ficam instalados nos sinais e identificam a presença de carros ou bicicletas em uma ciclovia e abrem o sinal para priorizar o fluxo do transporte perante os demais do cruzamento. Dessa forma, um ciclista não precisaria aguardar no cruzamento enquanto os demais demais automóveis circulam.


Isso seria um incentivo à população a usar o transporte público, já que eles se tornariam mais rápidos ou a utilizar bicicletas e demais transportes alternativos e vamos abordá-los mais profundamente agora.


O incentivo a novos meios de locomoção é algo que está sendo cada vez mais explorado. O conceito de sustentabilidade, a cada dia que passa, torna-se mais presente no assunto de mobilidade urbana e, por consequência, meios de transporte menos nocivos ao meio ambiente são mais valorizados. Não é à toa que os semáforos inteligente citados anteriormente estão sendo programados para aumentar o período aberto para os ciclistas em Londres, aumentando a fluidez nessas ciclovias. No Brasil, os transportes “alternativos” começam a ganhar mais espaço: bicicletas e patinetes, por exemplo, podem ser identificados mais facilmente agora do que há 5 anos atrás. Mas, ainda não apresentam um impacto tão significativo como o desejado, já que a presença dessas novas tecnologias ainda se restringe a poucos bairros.


As bicicletas do Itaú representam um case de sucesso. Atualmente são mais de 2000 bikes espalhadas pelo Rio de Janeiro em quase 300 estações. Em São Paulo, são mais de 100 estações e 1800 bicicletas. Porém, a cidade não concede a infraestrutura necessária para os ciclistas e, por isso, é formada uma barreira à população. O fato de ter que disputar espaço com automóveis pelas ruas faz com que diversas pessoas não se sintam confortáveis a utilizar esse serviço e como os transportes de massa não abrangem toda a cidade e não são de boa qualidade, tal fatia da população migra para os transportes individuais, complicando ainda mais os congestionamentos nos grandes centros. Ciclovias e ciclofaixas são essenciais para valorizar tal meio de transporte, já que permitiria que uma maior parcela da população acessasse o serviço. A Holanda é a maior referência nesse quesito. Amsterdã possui 400 km de ciclovias e esse é um dos fatores para que quase 30% das locomoções na cidade sejam feitas dessa maneira. “Um carro a menos” é uma expressão que ficou bem popular e está espalhada por diversas bicicletas holandesas, o que, de fato, ocorre, pois com espaços destinados exclusivamente a elas, a comparação com os carros passa a ser algo pertinente. Tal substituição também representa um benefício financeiro. Segundo um estudo realizado pela FAU (UFRJ), caso um membro de uma família opte por trocar o carro pela bicicleta isso representaria uma economia anual de quase 13 mil reais.


Essas bicicletas podem ser consideradas uma solução, mas na China, por exemplo, o sucesso inicial se tornou um grave problema. Em 2016, surgiram as bicicletas sem estação (dockless) por lá e inicialmente corresponderam a um grande sucesso. Todavia, diversas startups, como é o caso da Yellow, resolveram entrar nessa tendência e começaram a abrir seus negócios no setor. Isso gerou uma oferta enorme de bicicletas, disputando espaço a cada esquina, porém a demanda não acompanhou esse crescimento. Com o passar do tempo, as primeiras pilhas de unidades não utilizadas começaram a aparecer, ou com defeito, ou ilegais, algo que em um país com 1 bilhão e meio de pessoas possui um impacto de devidas proporções. Para resolver esse problema, o governo chinês aumentou a regulamentação sobre essas empresas e diversas startups fecharam ou foram compradas por instituições maiores, como é o caso da Ofo, startup que conseguiu se sustentar por anos, mas desde o fim de 2018 passa por problemas financeiros devido a essa taxação. Com isso, a tendência é que esses cemitérios de bicicletas diminuam a partir de agora. O interessante desse exemplo é mostrar que não existe um gabarito em mobilidade urbana, nem todas as soluções são efetivas em todas as cidades e por isso devem se adaptar a cultura e dimensões de cada.


Outra tecnologia que está ganhando mais espaço de 2017 para cá são os patinetes elétricos. Mais específicos do que as bicicletas, eles foram criados como uma solução para a “última milha”, trajeto antes ou depois de se utilizar o transporte de massa. A facilidade de poder deixá-lo em qualquer local após a utilização é uma das vantagens, ou seja, é uma facilidade vendida pelas empresas desse serviço, que permitem com que o usuário utilize o patinete até a porta de sua residência, sem ser necessário verificar a disponibilidade das estações para saber se é possível deixar o patinete no local, enquanto a maioria das bicicletas compartilhadas ainda não estão disponíveis no sistema “dockless” no Brasil . Além disso, as companhias estão limitando a área de atuação do patinete para que sempre exista uma oferta constante sempre que o cliente precise, ou seja, as distâncias máximas percorridas são limitadas, o que reforça a ideia da última milha. Além disso, o fato dos patinetes serem elétricos agregam qualidade ao serviço, visto que os usuários não precisam realizar esforço físico para percorrer o trajeto, o que corresponde a uma vantagem quanto às bicicletas, que ainda não são elétricas. Porém, nem tudo é perfeito. Existem críticas aos patinetes, principalmente em relação ao caos urbano gerado. Atualmente não existem regulamentações e delimitações específicas para locais em que o uso é permitido. Por exemplo, os patinetes podem trafegar por calçadas, ou devem competir por espaço com os demais veículos nas ruas? O fato dos patinetes estarem sendo deixados em qualquer local também dificulta a circulação de pessoas nas grandes cidades. Devido a isso, algumas cidades nos Estados Unidos, como Miami e São Francisco suspenderam programas de compartilhamento de patinetes até que o serviço seja devidamente regulamentado.


Para o final, ficaremos com a tecnologia mais futurista e essa tinha que ser justamente do excêntrico Elon Musk. O bilionário de projetos inovadores está buscando revolucionar o sistema de transportes de Los Angeles. Em sua concepção, o futuro não envolve carros voadores ou algo do tipo, mas sim o oposto disso, rotas subterrâneas. Diante disso, fundou a Boring Company, empresa que pretende construir túneis subterrâneos, em LA inicialmente, que conseguiriam transportar carros a 200 km/h. A ideia de Musk é que os carros ou vagões se conectem em pequenos trenós que os moveriam, ou seja, os carros não utilizariam as suas próprias rodas e seria possível transportar até mesmo bicicletas dentro desses vagões. Por mais que pareça algo para um futuro não tão próximo, os primeiros túneis já começaram a serem escavados. Para longo prazo, Musk pretende construir túneis que suportam velocidades ainda maiores, até 1000 km/h para realizar o percurso entre duas cidades. Para efeito de comparação, um trem-bala não atinge velocidades superiores a 300 km/h.


Portanto, percebe-se que não existe um ou um conjunto ideal de modais para resolver o problema de mobilidade urbana nas grandes cidades. Cada uma possui a sua especificidade, e, por isso, devem adaptar os modais às suas características físicas e culturais. O uso das bicicletas tornou-se um problema na China, porém é um grande sucesso na Holanda. O universo da mobilidade urbana está em constante evolução e as inovações que estão a surgir nos permitem focar num futuro promissor nessa área.

Posts recentes

Ver tudo

© 2020 por UFRJ Consulting Club

Av. Athos da Silveira Ramos, 149 - Cidade Universitária, Rio de Janeiro

  • Branca Ícone Instagram
  • Branca Ícone LinkedIn