Apple: a maçã mais valiosa do mundo


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No dia 3 de janeiro de 2022, a Apple se tornou a primeira marca a superar o patamar de 3 trilhões de dólares em valor de mercado. O feito se junta à já extensa galeria de conquistas da gigante de tecnologia, obstinada em se manter no protagonismo da inovação digital.


Entretanto, a sua história nem sempre foi de vitórias e liderança no ávido mundo tecnológico. No final dos anos 90, após a saída de Steve Jobs em 1985, a companhia esteve prestes a decretar falência, como resultado de anos de má administração e lançamentos fracassados. Porém, com a virada do século e o retorno de Steve, a multinacional norte-americana expandiu a sua gama de produtos, indo além do core business¹ inicial, ligado ao ramo dos computadores. Com isso, foram lançados celulares, tablets, fones de ouvido e até mesmo relógios, os quais corroboraram para a percepção de qualidade pelo público, conferindo à Apple o incontestável título de Big Tech².


Portanto, para entender como a empresa transformou um cenário de fracasso em um sucesso absoluto, é necessário retroceder um pouco no tempo. O destino: uma Califórnia extremamente diferente da atual, sem a presença de computadores pessoais ou celulares.


Hello, World


Fundada em 1º de abril de 1976 pelos sócios Steve Jobs, Steve Wozniak e Ronald Wayne em uma garagem na cidade de Los Altos, Califórnia, a empresa triunfou ainda no final da década de 70. O grupo de jovens, inspirado pelo surgimento dos primeiros computadores, via no setor da computação pessoal a grande oportunidade para desenvolver um negócio revolucionário.


Nesse sentido, ainda em 1976, foi lançado o Apple I, um computador extremamente simples, fabricado de forma quase artesanal na garagem de Jobs. Ainda que rudimentar, as quase 600 unidades vendidas representaram um início promissor, motivando o lançamento do Apple II em abril de 1977. Esse, por sua vez, obteve impacto imediato, alçando a empresa à liderança no mercado de PCs, os quais resultaram em aproximadamente 700 milhões de dólares - a preços atuais - arrecadados em apenas 3 anos após o início das vendas.

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O sucesso foi tão significativo que, ainda em 1980, a companhia realizou o seu IPO³, sendo o maior da história dos Estados Unidos desde a Ford em 1956, capitalizando aproximadamente 615 milhões de dólares a preços atuais.


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Da quase falência a reestruturação


Já consolidada como um dos grandes players do mercado de computadores pessoais, a Apple caminhava a passos largos no início dos anos 80. Entretanto, o lançamento do Apple III e do Lisa - o primeiro PC a possuir mouse - não atingiram o impacto esperado, levando a uma estagnação no lucro e consequente deterioração da saúde financeira da empresa. Diante disso, a Apple projetou o Macintosh, que, na visão de Jobs, seria o responsável por popularizar o uso dos computadores pessoais pelos Estados Unidos. Nesse contexto, o inventor desejava ajustar o produto para um preço mais acessível, beirando os 2.000 dólares. Contudo, a proposta desagradou o CEO da empresa na época, John Sculley, defensor da venda do produto por 2.500 dólares, contra uma média de preço de 1.500 dólares no mercado.


Nessa perspectiva, a situação se agravou ainda mais com as fracas vendas do Macintosh. Assim, somando-se todo o desgaste provocado pelo embate em relação ao preço do computador, aliado aos resultados desanimadores, foi realizada uma reestruturação na empresa, que provocou a retirada de Jobs do posto de liderança da divisão dos produtos. A decisão o abalou profundamente, forçando a sua saída da firma. Posteriormente, Steve fundaria uma nova startup de sistemas operacionais, a NeXT.


Dessa forma, sem a presença da mente idealizadora de boa parte dos produtos, durante o período de 1985 e 1997, a Apple alternou entre lançamentos exitosos e fracassados. Como resultado, a companhia perdeu competitividade, causando uma redução de 9% para 4% do market share⁴ do setor de computadores, cada vez mais dominado pela sua concorrente IBM. Entretanto, em 1996, a empresa tomou uma nova decisão que alterou para sempre a sua trajetória: a realização da aquisição da NeXT, na qual seria fornecido um novo sistema operacional para os computadores. Portanto, com a compra da empresa, foram abertas as portas para a volta de Jobs à organização.


Nos anos seguintes, Steve realizou significativas mudanças na estrutura e mentalidade organizacional da Apple, de forma a restaurar a credibilidade e as finanças da marca, a qual voltou a dar lucro em 1998.

Dividir para dominar


Após um período de falência iminente, a empresa conseguiu superar os obstáculos, se reposicionando no mercado por meio do iMac. Dessa forma, com o slogan “Think different (pense diferente), o novo computador e as suas versões atualizadas foram capazes de restaurar a marca junto ao público. Dono de um design inovador, o modelo foi o primeiro a eliminar o disquete⁵, mostrando-se como o verdadeiro computador do novo milênio. Portanto, qual o motivo de alterar algo que estava sendo exitoso como o iMac?


Essa era justamente a principal mensagem trazida na volta de Jobs ao cargo de CEO: a Apple deveria ser a Apple, ou seja, uma empresa sinônimo de inovação. Isso posto, a companhia realizou, durante as décadas seguintes, lançamentos de produtos inovadores, os quais seriam capazes de proporcionar uma verdadeira experiência cativante ao cliente.


Nesse sentido, em janeiro de 2007, diante de um auditório lotado na Macworld Conference & Expo, a divulgação de lançamentos da companhia, Steve Jobs apresentou o iPhone, uma ideia que prometia revolucionar o status quo dos celulares. O novo produto combinava a funcionalidade de três aparelhos em um só. Ele seria capaz de reunir boa parte das aplicações de um computador, de um iPod e de um telefone, tudo isso comandado por uma inédita tela touchscreen. Dessa forma, poucas invenções apresentaram um impacto tão significativo, seja para a trajetória da empresa, ou mesmo para a humanidade.

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Portanto, dada a rápida aceitação do iPhone pelo mercado, o produto passou a representar uma fatia cada vez maior da receita da empresa. No primeiro ano, o iPhone correspondia a apenas 8% dos ganhos da multinacional, contudo, o número iniciou uma disparada até atingir preocupantes 66% em 2015. Esse seria um processo natural, entretanto, potencialmente danoso à companhia a longo prazo, à medida que a dependência da empresa pelo smartphone aumentava, trazendo consigo mais riscos. O temor se justificava, afinal, abria espaço para um eventual concorrente da Apple no mercado, ainda com a possibilidade de preço inferior, o que poderia desencadear uma nova crise para a empresa.


Diante desse cenário, a multinacional iniciou um processo de diversificação da gama de produtos, passando a oferecer bens complementares ao celular, como fones de ouvido (AirPods e Beats), relógios digitais (Apple Watch), iTouch, e uma série de serviços: Apple Pay, Apple Music, App Store, etc. Além disso, ainda houve o lançamento do iPad, o qual prometia combinar as capacidades de um computador e um celular em um só equipamento. Dessa forma, era claro - e até certo ponto, inevitável - que o iPhone seguiria sendo o principal gerador de receitas da firma. Entretanto, com um processo de diversificação maior, a corporação seria capaz de mitigar os riscos competitivos no mercado e, também, aumentar ainda mais a capacidade de geração de receita da Big Tech.

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Para esse processo, a gigante norte-americana adotou a estratégia do “second mover advantage”, a qual consiste em partir de produtos já existentes, reinventando-os com as características da Apple: tecnologia de ponta e design único. Com isso, a empresa evitava gastos com o desenvolvimento do mercado consumidor, ou seja, com as despesas relacionadas ao marketing do produto e a expansão da quantidade de pessoas dispostas a consumi-lo. Outro benefício foi a economia dos gastos que seriam destinados para a elaboração de uma nova ideia, sobrando apenas a etapa do seu aprimoramento.


Em paralelo ao “second mover advantage”, outra tática passou a ser aplicada pela companhia: as aquisições de empresas pequenas, porém promissoras no ramo da tecnologia. Ao contrário do que muitos pensam, a Apple não busca alavancar a sua receita ou base de usuários, mas sim ganhar expertise, ideias novas e, principalmente, pessoas qualificadas. Por isso, seguindo essa estratégia, intensificada após o início da gestão de Tim Cook em 2011, a multinacional adquiriu 87 outras empresas - dentre elas a Beats, importante marca do ramo dos fones de ouvido -, totalizando um montante de aproximadamente 15,4 bilhões de dólares desde então.


Dessa forma, fica claro o olhar atento da direção da empresa em relação às demandas do mercado, e também a necessidade de fazer alterações e ajustes, mesmo em uma empresa sinônimo de sucesso.


O olhar para o amanhã


Com o intuito de permanecer na posição de vanguarda, a Apple busca fazer ajustes capazes de mantê-la como um modelo de governança, qualidade e lucratividade. Para isso, a companhia tem como um das principais missões ser protagonista na agenda de combate às mudanças climáticas. Nesse sentido, a firma já conseguiu atingir a neutralidade de carbono nas suas operações cotidianas - aquelas realizadas nos escritórios -, além de trazer como uma ambiciosa meta a obtenção da neutralidade de carbono na fabricação de todos os seus produtos até 2030. Dessa maneira, a organização tem buscado atingir os seus objetivos por meio da reciclagem de materiais e pela maior eficiência energética nas suas operações, as quais têm como origem fontes renováveis. No entanto, ainda sobre a agenda ESG⁶, a multinacional acumula polêmicas trabalhistas em relação a algumas das suas fábricas na China, o que nos permite questionar até que ponto é real o seu comprometimento com tais pautas.


Ademais, no desenvolvimento de novos produtos, a Apple tem intensificado o investimento em P&D⁷, cujas cifras beiram impressionantes 18,75 bilhões de dólares. Portanto, o objetivo da companhia é criar as condições para a competição pelos novos produtos da frente digital da década. Por conseguinte, a Big Tech planeja expandir ainda mais a sua gama de mercadorias, a qual contará com carros autônomos e tecnologias de realidade virtual.

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Portanto, conclui-se que a Apple não atingiu 3 trilhões de valor de mercado ao acaso. A empresa vem buscando se alinhar tanto com os novos desafios propostos tanto pela agenda ESG, quanto pelos novos mercados do ramo da tecnologia em desenvolvimento. Com resultados cada vez mais impressionantes e uma onda cada vez maior de fãs, apenas o céu parece ser o limite para a companhia.


Glossário:

  1. Core business: é a principal atividade econômica ou produto fornecido por uma empresa.

  2. Big Tech: são as principais empresas de tecnologia do mundo, um grupo que, geralmente, é composto por: Apple, Google, Facebook, Amazon e Microsoft.

  3. IPO (Initial Public Offering): é a primeira oferta de ações de uma empresa ao público.

  4. Market share: é o equivalente a participação de uma empresa em um determinado mercado.

  5. Disquete: é um disco removível de armazenamento de memória do computador.

  6. ESG: é um conjunto de boas práticas da empresa em relação a governança, meio ambiente e responsabilidade social.

  7. P&D: pesquisa e desenvolvimento.


Bibliografia:


Inácio, Miriam. Como a estratégia seguida pela Apple se tornou um caso de sucesso. Disponível em:

<https://repositorio.iscte-iul.pt/bitstream/10071/4077/1/APPLE_MIRIAM.pdf>. Acesso em 30/01/2022.


Analytics Insight; APPLE’S GROWTH STRATEGY: HOW IT REACHED US$2 TRILLION IN MARKET VALUE. Disponível em:

<https://www.analyticsinsight.net/apples-growth-strategy-how-it-reached-us2-trillion-in-marketvalue/#:~:text=In%202016%2C%20Apple%20stated%20that,third%2Dparty%20businesses%20and%20technology>. Acesso em 31/01/2022.


Versignassi, Alexandre; Apple: como a empresa chegou aos US$ 2 trilhões em valor de mercado, e o que ela está fazendo para se manter no topo. Disponível em: <https://vocesa.abril.com.br/mercado/como-a-empresa-chegou-aos-us-2-trilhoes/>. Acesso em 31/01/2022.


Curry, David; Apple Statistics (2022). Disponível em: <https://www.businessofapps.com/data/apple-statistics/>. Acesso em 30/01/2022.


Martins, Daniel; 1980 To Now: The Journey Of Apple's Market Cap. Disponível em: <https://www.thestreet.com/apple/stock/1980-to-now-the-journey-of-apples-market-cap>. Acesso em 31/01/2022.


Vembu Sridhar. Apple’s Revenue History. Disponível em :<https://www.zoho.com/blog/general/apples-revenue-history.html>. Acesso em 31/01/2022.


Ribeiro, Luiz; Aquisição de empresas pela Apple atinge menor índice em 2021.

Disponível em: <https://macmagazine.com.br/post/2021/11/18/aquisicao-de-empresas-pela-apple-atinge-menor-indice-em-2021/#:~:text=Desde%202006%2C%20a%20Apple%20gastou,a%20%E2%80%9Caquisi%C3%A7%C3%B5es%20de%20neg%C3%B3cios%E2%80%9D.&text=Durante%20a%20pandemia%2C%20n%C3%A3o%20houve,aquisi%C3%A7%C3%A3o%20no%20setor%20de%20tecnologia.>.Acesso em 31/01/2022.


Época negócios online. Disponível em: <https://epocanegocios.globo.com/Empresa/noticia/2017/12/maiores-aquisicoes-da-apple-desde-1996.html>. Acesso em 31/01/2022.


Bajpai, Prableen. Which Companies Spend the Most in Research and Development (R&D)?. Disponível em: <https://www.nasdaq.com/articles/which-companies-spend-the-most-in-research-and-development-rd-2021-06-21>. Acesso em 31/01/2022.