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Créditos de carbono: a nova moeda dos negócios globais





Os créditos de carbono surgiram a partir de acordos internacionais como o Protocolo de Kyoto e o Acordo de Paris, que estabeleceram metas globais de redução de emissões e criaram um mecanismo capaz de transformar a preservação ambiental em ativo econômico. Eles permitem que empresas e países compensem parte das suas emissões de gases de efeito estufa por meio da compra e venda de certificados vinculados a projetos sustentáveis. Esse mercado, que já movimenta mais de 100 bilhões de dólares anuais, passou a ser visto como uma das principais ferramentas para financiar a transição climática e alinhar crescimento econômico e responsabilidade ambiental.


No entanto, o entusiasmo não vem sem ressalvas. Críticos — incluindo organizações ambientais e especialistas do setor — questionam a real eficácia do sistema, especialmente no que diz respeito à capacidade de gerar reduções de emissões robustas e permanentes. Muitos alertam ainda para o risco de que os créditos sejam utilizados como cortina de fumaça para práticas de greenwashing¹, permitindo que empresas mantenham cadeias produtivas poluentes enquanto projetam uma imagem de neutralidade climática.

Esse debate ganha ainda mais força diante do agravamento da crise climática. A última década foi a mais quente já registrada, e a temperatura média global já está 1,2 °C acima dos níveis pré-industriais. Ondas de calor recordes, secas prolongadas e enchentes devastadoras mostram que não há mais espaço para soluções ilusórias. Diante disso, fica a questão central: seriam os créditos de carbono uma solução legítima para o futuro da economia global ou apenas um álibi climático conveniente?


Carbono como ativo econômico


Tratar o carbono como um ativo é, em essência, um experimento econômico e político de proporções sem precedentes. Essa inovação introduz uma lógica inédita: transformar a ausência de poluição em valor financeiro. Diferentemente de commodities² tradicionais como petróleo ou grãos, que são tangíveis e verificáveis, os créditos de carbono só existem porque são respaldados por confiança institucional e por mecanismos de auditoria. Em outras palavras, trata-se de uma aposta ousada no poder da regulação e da mensuração ambiental para criar um novo mercado global.


Um crédito de carbono equivale a uma tonelada de CO₂ que deixou de ser emitida ou foi removida da atmosfera, o que corresponde, em média, às emissões de um carro rodando mais de cinco mil quilômetros ou de uma residência consumindo eletricidade por cerca de dois meses. Essa medida aparentemente simples exige um alto grau de credibilidade. Se não houver confiança de que a redução foi real, permanente e devidamente verificada, o sistema perde legitimidade. Projetos de reflorestamento que não asseguram a preservação da área, tecnologias de captura que não atingem a eficiência prometida ou cálculos inflados resultam em créditos de baixa integridade. São os chamados “créditos de baixo carbono³”, que mesmo sem refletirem reduções efetivas circulam legalmente porque atendem a metodologias aceitas por certificadoras e registradoras — ainda que permeadas por brechas. Profissionais como engenheiros ambientais e especialistas em direito ambiental poderiam contribuir mais para a mensuração e fiscalização, mas a ausência de um arcabouço regulatório global robusto limita essa atuação.


Esse problema já se manifestou na prática. Em 2021, por exemplo, investigações jornalísticas revelaram que projetos de reflorestamento certificados na África superestimaram sua capacidade de captura de carbono, permitindo a geração de milhões de créditos que não representavam reduções reais. Casos semelhantes envolveram companhias aéreas e petroleiras que alegaram neutralidade climática — isto é, o equilíbrio entre emissões geradas e compensações adquiridas — enquanto mantinham cadeias produtivas fortemente dependentes de combustíveis fósseis. Esses episódios ajudam a entender por que tantos especialistas alertam para o risco de uma “bolha de carbono”: ou seja, créditos que deveriam simbolizar reduções climáticas funcionam apenas como registros contábeis, transmitindo a aparência de avanço sem alterar de fato o volume global de emissões.


É nesse ponto que o preço do carbono ganha protagonismo. Nos mercados regulados, como o Sistema Europeu de Comércio de Emissões (EU ETS4), o valor da tonelada de CO₂ é definido pela interação entre oferta e demanda, por mudanças regulatórias e pelas metas de emissões impostas a setores poluentes. A lógica é clara: quanto mais uma empresa polui acima do limite estabelecido, mais créditos precisa comprar para se adequar, pressionando a demanda. Por outro lado, uma verificação mais rígida da integridade dos créditos reduziria a oferta disponível, elevando ainda mais os preços. Entre 2013 e 2023, a tonelada de carbono saltou mais de 900%, consolidando-se como uma commodity global comparável ao petróleo ou ao minério de ferro — mas com forte caráter especulativo.



Essa escalada de preços revela um dilema: em muitos casos, a precificação não impede efetivamente a poluição, funcionando apenas como uma espécie de multa. Para empresas altamente lucrativas, pagar pelos créditos pode sair mais barato do que investir em mudanças estruturais, o que não altera significativamente sua pegada de carbono. Em outras palavras, o sistema pode tanto incentivar reduções genuínas quanto se tornar um mecanismo que permite a continuidade da poluição.


Apesar das fragilidades, quando bem estruturado, o mercado de carbono demonstra um potencial transformador. Ele não apenas precifica o poluente, mas também cria incentivos concretos para inovação. Tecnologias de descarbonização, fontes de energia renovável e práticas agrícolas regenerativas encontram nesse instrumento um meio de se viabilizar economicamente, acelerando sua expansão. O que antes era apenas custo ambiental passa a ser ativo estratégico, redefinindo a lógica da competitividade nos negócios. A força dessas iniciativas fica evidente em rankings como o 100 Startups to Watch, que ano após ano destacam o crescimento da presença de empresas de impacto ambiental entre as mais promissoras do país. Esses movimentos apontam para um horizonte em que sustentabilidade e lucro caminham cada vez mais juntos.


Mercados de carbono no mundo


O mercado de créditos de carbono se estrutura em duas grandes frentes: os mercados regulados e os voluntários. Ambos seguem a mesma lógica básica — gerar, vender e comprar créditos — mas operam em contextos diferentes. Nos regulados, governos estabelecem limites legais de emissão; nos voluntários, empresas decidem compensar suas emissões por escolha estratégica ou reputacional.


Nos regulados, o modelo mais conhecido é o chamado “cap and trade”. Trata-se de um sistema em que governos fixam um teto de emissões para setores específicos com base em métricas como inventários nacionais de gases de efeito estufa, metas climáticas internacionais (como as do Acordo de Paris) e análises de setores mais intensivos em carbono. Esse teto é convertido em permissões equivalentes a toneladas de CO₂, que podem ser leiloadas ou distribuídas. Empresas que poluem menos do que o limite podem vender o excedente para outras que precisam se adequar; já aquelas que ultrapassam são obrigadas a comprar créditos adicionais. No Sistema Europeu de Comércio de Emissões (EU ETS), o maior e mais consolidado do mundo, esse mercado movimentou cerca de 770 bilhões de euros em 2023. Parte desse montante é direcionada para fundos de inovação e projetos de transição energética, mas outra parte gera críticas por ser absorvida como arrecadação fiscal. A lógica é clara: quem emite menos pode lucrar com a venda, quem emite mais paga o preço. Para alguns, esse mecanismo cria incentivos reais para reduzir poluição; para outros, transmite um sentimento de impunidade, já que empresas podem continuar poluindo desde que tenham recursos para comprar créditos. A discussão central, portanto, é se o valor do carbono é suficientemente alto para forçar mudanças estruturais ou se, para setores altamente lucrativos, a compra ainda é mais barata do que transformar processos produtivos.


Nos mercados voluntários, a lógica é mais difusa. Eles funcionam fora da obrigação legal e são alimentados por empresas que desejam compensar suas emissões para atender compromissos de sustentabilidade, responder à pressão de consumidores e investidores ou reforçar sua reputação ESG. Nesse ambiente, projetos de reflorestamento, energia renovável, agricultura de baixo carbono e captura tecnológica de carbono geram créditos que podem ser comercializados. Esses créditos não são restritos a “companhias globais”: podem ser adquiridos por qualquer empresa que deseje compensar emissões, independentemente do porte ou localização. O lucro direto vai para os responsáveis pelos projetos — comunidades locais, ONGs ou empresas privadas. As compradoras, por sua vez, alegam neutralidade climática, isto é, equilibrar as emissões geradas com reduções ou compensações equivalentes. Um exemplo foi o da Gucci, que em 2021 anunciou neutralidade baseada em créditos florestais na África, mas recebeu críticas por não reduzir efetivamente as emissões em sua cadeia produtiva. O caso ilustra que, embora legal, a prática levanta dúvidas sobre até que ponto o sistema exige transformações reais.


O dilema da credibilidade emerge com ainda mais força quando se observa a quantidade de empresas acusadas de inflar seus compromissos ambientais. A Delta Airlines, por exemplo, foi alvo de um processo judicial nos EUA por suposta propaganda enganosa ao se declarar “a primeira companhia aérea neutra em carbono do mundo” — acusação que, até hoje, segue em disputa judicial e não foi definitivamente comprovada. Trata-se de um caso emblemático de greenwashing, prática em que empresas investem mais em divulgar ações ambientais do que em realizá-las de fato. Essas situações revelam não apenas falhas metodológicas, mas também a ausência de uma estrutura regulatória global robusta, que permita separar créditos legítimos de ativos frágeis.



Do lado positivo, porém, há um problema igualmente sério: mesmo projetos sólidos, que entregam benefícios ambientais reais, não recebem a totalidade do valor pago pelo crédito. Como mostra o gráfico, apenas pouco mais da metade do preço inicial chega ao projeto de origem; o restante se perde em custos de intermediação, taxas de certificação e reservas de risco. Em termos práticos, uma tonelada de CO₂ equivale às emissões de um carro médio durante cinco meses de uso, ou ao consumo elétrico de uma família brasileira por cerca de seis semanas — diferente de seu potencial total mencionado na introdução. Esse descompasso não apenas sub-remunera os agentes de impacto, mas também cria um desincentivo perigoso: se os projetos mais sérios e eficazes não são financeiramente atraentes, o mercado tende a ser inundado por iniciativas de menor custo e menor integridade, alimentando a própria bolha que se busca evitar.


Oportunidades para empresas e países


Embora os créditos de carbono despertem críticas, é inegável que também abrem um leque de oportunidades econômicas e estratégicas. Ao adotar práticas de redução e compensação de emissões, companhias não apenas cumprem metas climáticas, mas também diversificam suas fontes de receita. Relatórios do Ecosystem Marketplace mostram que, em 2022, o mercado voluntário global movimentou cerca de 2 bilhões de dólares, dobrando de tamanho em relação a 2020. Projetos que geram créditos podem se tornar altamente rentáveis, enquanto o engajamento nesse mercado ajuda a consolidar uma imagem corporativa de responsabilidade ambiental. Além disso, a participação pode abrir portas para financiamentos internacionais e atrair fundos que priorizam ativos sustentáveis, como os green bonds, que em 2022 somaram mais de 500 bilhões de dólares em emissões globais. Esses instrumentos reduzem o custo de capital ao diminuir o risco percebido da empresa e ampliar sua atratividade para investidores e credores — fortalecendo o posicionamento competitivo e abrindo novos canais de receita.


Paralelamente, a valorização da pauta ESG pelo público consumidor explica por que empresas com práticas sólidas conquistam vantagem frente aos concorrentes. Nesse movimento, os créditos de carbono tornaram-se um diferencial estratégico: antecipar-se à regulação e alinhar-se às demandas ambientais agrada investidores institucionais e, ao mesmo tempo, responde a consumidores que preferem marcas ligadas a valores socioambientais. Pesquisas do GA Institute mostram que mais de 95% das empresas do S&P 500 já publicam relatórios ESG, sinal de que a sustentabilidade deixou de ser marketing e tornou-se requisito estratégico. Essa prática tem impacto concreto: companhias que reportam indicadores ESG tendem a atrair mais investimentos, reduzir seu custo de capital e até melhorar o engajamento de colaboradores, reforçando sua competitividade. O crédito de carbono, portanto, não é apenas um ativo financeiro, mas um sinal de compromisso que redefine relações comerciais, cadeias de suprimento e contratos internacionais. Esse posicionamento ganha força porque, ao premiar quem se adapta, também penaliza empresas poluentes, que enfrentam barreiras regulatórias, dificuldades de acesso a crédito e até sanções legais. Não por acaso, em alguns mercados, a tonelada de carbono já foi negociada acima de 100 euros, demonstrando seu peso econômico crescente.



Em uma perspectiva mais ampla, países em desenvolvimento encontram nos mercados de carbono uma chance inédita de protagonismo. Diferentemente de ciclos anteriores da economia global, baseados em industrialização ou tecnologia de ponta, desta vez são os ativos naturais que ocupam o centro do jogo. Florestas tropicais, solos férteis e biodiversidade passaram a ser tratados como recursos estratégicos. Estima-se que Brasil, Indonésia e República Democrática do Congo concentrem juntos mais de 50% das florestas tropicais do mundo, reforçando seu poder de barganha. Essa possibilidade cria uma inversão geopolítica: países antes periféricos podem ditar preços, atrair investimentos e usar a sustentabilidade como plataforma de desenvolvimento. A parceria entre Indonésia e Noruega para financiar a redução do desmatamento mostra como créditos de carbono já funcionam como moeda de troca internacional.


O Brasil, em particular, reúne condições únicas para se tornar um pilar nesse mercado. Com a Amazônia, a maior floresta tropical do mundo, concentra um dos maiores potenciais globais de captura e estocagem de carbono. Sua matriz energética já é majoritariamente renovável, baseada em hidrelétricas e, mais recentemente, em eólicas e solares, o que amplia sua credibilidade como fornecedor de créditos de alta integridade. A agricultura de baixo carbono, políticas de reflorestamento e a possível regulamentação de um mercado nacional podem consolidar o país como referência internacional. Para o comprador, esses créditos garantem o cumprimento de metas climáticas e regulatórias, preservando sua licença social para operar. Para o vendedor, representam receita, atração de investimentos e estímulo a cadeias produtivas mais limpas.


O horizonte de inovação associado aos créditos de carbono é vasto. O mecanismo abre espaço para novos negócios voltados à certificação e monitoramento e impulsiona setores inteiros da economia verde. Tecnologias de captura e armazenamento de carbono, startups de inteligência climática, plataformas digitais de negociação e cadeias logísticas voltadas à rastreabilidade ambiental tendem a ganhar força. Esse movimento pode inaugurar uma nova geração de empregos verdes e investimentos, aproximando sustentabilidade e lucro. Um exemplo concreto foi o da Vale, que em 2021 estruturou projetos de reflorestamento na Amazônia para gerar créditos, tanto para neutralizar parte de suas emissões quanto para abrir um novo fluxo de receita. Casos como esse evidenciam como o mercado de carbono pode deixar de ser apenas uma ferramenta regulatória e se tornar um motor de desenvolvimento econômico.


Desafios e críticas ao sistema


Apesar do seu potencial, o mercado de créditos de carbono enfrenta críticas válidas que não podem ser ignoradas, como a desigualdade estrutural entre países, a falta de credibilidade em parte dos créditos gerados, o dilema econômico dos custos e, por fim, as limitações sociais e políticas na distribuição de benefícios.


O greenwashing é uma das principais fragilidades do sistema. Ele ocorre quando empresas anunciam neutralidade de carbono sem alterar significativamente suas práticas produtivas, utilizando créditos apenas como ferramenta de marketing. O caso das companhias aéreas é emblemático: campanhas de “voos sustentáveis” foram alvo de questionamentos em países como Alemanha e Reino Unido, onde investigações apontaram que, embora créditos fossem comprados para compensar emissões, a dependência de combustíveis fósseis permaneceu intocada. Marcas de fast fashion e grandes petroleiras também já foram criticadas por vender a narrativa de transição verde ao mesmo tempo em que expandiam cadeias de produção intensivas em poluição. Nesse cenário, o crédito se torna um álibi para a estagnação, mascarando práticas poluentes. Detectar esse fenômeno exige analisar não só o marketing, mas também a transparência das empresas em divulgar dados de emissões, planos de transição energética e auditorias externas.


Outra crítica recorrente é a desigualdade estrutural entre países. Na prática, nações desenvolvidas mantêm seu padrão de emissões ao comprar créditos de países em desenvolvimento, transferindo a responsabilidade da preservação para o Sul Global. Esse mecanismo pode ser visto como uma oportunidade de receita para emergentes, afinal, o caixa gerado pode financiar políticas de saúde, educação ou desenvolvimento sustentável, mas também reforça a dependência de países tropicais como simples fornecedores de serviços ambientais. Essa ambiguidade levou alguns especialistas a chamar o fenômeno de “colonialismo verde”: países ricos preservam seu estilo de vida baseado em alto consumo energético, enquanto os detentores de florestas ficam reféns de uma economia que continua girando em torno da poluição.



A terceira crítica se refere à credibilidade e padronização do sistema. Por que créditos de baixa integridade são legalizados e circulam como ativos legítimos? A resposta está na falta de critérios globais unificados e na fragilidade dos mecanismos de verificação. Projetos mal monitorados, superestimados ou temporários conseguem certificação e são vendidos lado a lado com iniciativas robustas, contaminando o mercado. Apesar da existência de certificadoras e auditorias independentes — como Verra e Gold Standard — a fiscalização ainda é limitada e frequentemente contestada. Em muitos casos, a mensuração de emissões depende de relatórios fornecidos pelas próprias empresas ou de auditorias terceirizadas com metodologias divergentes. Se uma empresa polui acima do permitido, a penalidade predominante é a compra de créditos adicionais. Em alguns sistemas regulados, existem multas pesadas que podem ultrapassar 100 euros por tonelada de CO₂ emitida acima do teto, mas ainda assim esses valores costumam ser inferiores ao custo de uma transformação profunda na cadeia produtiva, o que mantém a lógica de recorrer ao crédito como saída mais barata.


Esse dilema revela uma dimensão macroeconômica: como calibrar o preço do carbono e eventuais penalidades sem inviabilizar setores inteiros? Se governos apertam demais a regulação, impondo multas ou tributos equivalentes a 10% ou 20% da margem de receita bruta de indústrias como petróleo, aviação ou siderurgia, a reação de investidores pode ser imediata, com fuga de capital e desvalorização das empresas. Por outro lado, se o custo for baixo demais, não há incentivo real para a descarbonização. Esse equilíbrio delicado mostra como o mercado de carbono está no cruzamento entre economia, política e finanças globais — e por que sua consolidação depende tanto de critérios claros quanto de governança forte.


Do ponto de vista econômico, há ainda o dilema do custo. Para muitas empresas, comprar créditos é mais barato do que investir em mudanças estruturais em suas cadeias produtivas. Essa lógica cria um paradoxo: quanto mais barato o crédito, menor o incentivo para substituir combustíveis fósseis ou adotar inovação tecnológica. Na prática, o que deveria acelerar a transição pode acabar funcionando como um freio disfarçado, prolongando a dependência de modelos ultrapassados.


Do ponto de vista ambiental, o impacto também gera controvérsias. Apesar da expansão desse mercado, ainda não há evidências robustas de que os créditos tenham provocado quedas expressivas nas emissões globais. Em muitos casos, eles funcionam mais como um mecanismo de compensação contábil do que como motor de redução efetiva da poluição. Essa percepção reforça a urgência de critérios mais rígidos para garantir que cada crédito represente, de fato, uma contribuição real para o planeta.


Por fim, há a dimensão social e política. Quem realmente se beneficia desse mercado? Muitas vezes, os maiores ganhos ficam concentrados em certificadoras, fundos de investimento ou grandes empresas intermediárias, enquanto comunidades locais, povos indígenas e agricultores familiares recebem apenas uma fração do valor gerado. Além disso, o mercado é palco de disputas entre países que competem para atrair investimentos, mas poucos discutem como os benefícios podem ser distribuídos de forma equitativa internamente. Assim, um mecanismo pensado como vetor de desenvolvimento sustentável corre o risco de se tornar mais uma engrenagem de concentração de riqueza.


Perspectivas futuras: amadurecimento e protagonismo do Brasil


O futuro do mercado de créditos de carbono será definido pela sua capacidade de amadurecer e responder às críticas que ainda limitam sua credibilidade. Nesse processo, a consolidação de padrões internacionais é um passo fundamental. Exemplos como o Artigo 6 do Acordo de Paris, que estabelece diretrizes para a compensação de emissões entre países, e certificadoras como Verra e Gold Standard, que buscam assegurar critérios de integridade para os projetos — incluindo adicionalidade, mensuração verificável e permanência dos resultados — mostram como iniciativas globais podem contribuir para devolver confiança ao sistema. Ao lado disso, mecanismos de rastreio mais rígidos são essenciais para evitar a circulação de créditos de baixa qualidade e garantir maior transparência. É nesse ponto que a tecnologia assume papel decisivo: o blockchain5 pode registrar cada crédito em sistemas imutáveis e rastreáveis, evitando duplicações ou fraudes, enquanto a inteligência artificial é capaz de processar imagens de satélite e sensores para monitorar áreas de preservação em tempo real, fortalecendo a fiscalização e tornando as auditorias mais robustas.


Com maior padronização e rigor técnico, cresce também o papel dos investidores institucionais. Fundos e acionistas já têm sinalizado que não aceitam práticas cosméticas e exigem compromissos climáticos consistentes, pressionando empresas a reformular suas estratégias. Essa pressão tende a fazer com que os créditos deixem de ocupar o centro da narrativa corporativa e passem a ser utilizados apenas como complemento a ações efetivas de descarbonização. Em outras palavras, companhias que antes se apoiavam quase exclusivamente na compra de créditos serão forçadas a priorizar transformações internas em suas cadeias produtivas, deixando a compensação como último recurso em planos climáticos mais autênticos e de longo prazo. No Brasil, fundos como o JGP Crédito de Carbono e iniciativas de grandes gestoras como o Itaú Asset ESG já demonstram que o mercado financeiro nacional também se movimenta nessa direção, validando a importância crescente dessa agenda.


Nesse novo contexto, o Brasil tem condições de buscar protagonismo global, embora seja necessário cautela: a transformação não será imediata nem uniforme em todo o território, dadas as desigualdades regionais e a persistência de problemas ambientais crônicos, como o desmatamento ilegal na Amazônia e os incêndios recorrentes no Pantanal. O país concentra recursos naturais extraordinários, como a Amazônia e o Cerrado, e possui uma matriz energética majoritariamente renovável, o que amplia sua credibilidade como fornecedor de créditos de alta integridade. Além disso, a criação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões abre espaço para alinhar políticas públicas, oferecer segurança jurídica e estruturar mecanismos que distribuam de forma justa os benefícios financeiros do mercado. Mas não se trata apenas de potencial teórico. Empresas com propostas de valor ambiental concreto podem gerar impacto imediato e receita significativa: estimativas apontam que um mercado nacional robusto de carbono pode movimentar até 120 bilhões de reais por ano até 2030, se bem estruturado. Um exemplo seria a criação de soluções para apagar incêndios florestais no Pantanal, capazes de arrecadar milhões em créditos de carbono, ao mesmo tempo em que preservam ecossistemas frágeis e beneficiam comunidades locais. Casos como esse mostram que o protagonismo brasileiro dependerá de iniciativas práticas, que convertam desafios ambientais urgentes em oportunidades econômicas sustentáveis.


Assim, os créditos de carbono não devem ser vistos como solução mágica para a crise climática, mas tampouco podem ser reduzidos a mera maquiagem verde. Eles representam uma das ferramentas mais promissoras da transição sustentável, capazes de conciliar crescimento econômico e preservação ambiental. Quando utilizados com integridade, apoiados por tecnologia de ponta e integrados a compromissos climáticos sérios, tornam-se mais do que um simples mecanismo de compensação: consolidam-se como a verdadeira moeda verde do século XXI. Nesse sentido, podem redefinir não apenas negócios e finanças, mas também o papel do Brasil e de outros países emergentes em uma economia global que, cada vez mais, precisa colocar preço no ar que respira.




Bibliografia:

BANCO MUNDIAL. State and Trends of Carbon Pricing 2024. Washington: World Bank, 2024.Disponível em: https://carbonpricingdashboard.worldbank.org/. Acesso em: 21 ago. 2025.

ECOSYSTEM MARKETPLACE. State of the Voluntary Carbon Market 2023. Washington: Forest Trends, 2023.Disponível em: https://www.ecosystemmarketplace.com/carbon-markets/. Acesso em: 21 ago. 2025.

ICAP – INTERNATIONAL CARBON ACTION PARTNERSHIP. Emissions Trading Worldwide: Status Report 2024. Berlin: ICAP, 2024. Disponível em: https://icapcarbonaction.com/status-report-2024. Acesso em: 21 ago. 2025.

IEA – INTERNATIONAL ENERGY AGENCY. Net Zero by 2050: A Roadmap for the Global Energy Sector. Paris: IEA, 2021.Disponível em: https://www.iea.org/reports/net-zero-by-2050. Acesso em: 21 ago. 2025.

MCKINSEY & COMPANY. A blueprint for scaling voluntary carbon markets to meet the climate challenge. Nova Iorque: McKinsey, 2021.Disponível em: https://www.mckinsey.com/capabilities/sustainability/our-insights. Acesso em: 21 ago. 2025.

CARBON MARKET WATCH. Reports and publications. Bruxelas: Carbon Market Watch, 2023.Disponível em: https://carbonmarketwatch.org/. Acesso em: 21 ago. 2025.

ABATABLE. Voluntary Carbon Market Investment Index 2024. Londres: Abatable, 2024.Disponível em: https://abatable.com/resources. Acesso em: 21 ago. 2025.



Glossário 

¹ Greenwashing: uso de ações ou campanhas de marketing para passar imagem de sustentabilidade sem mudanças reais nas práticas produtivas.

² Commodities: bens primários padronizados (como petróleo ou grãos) negociados globalmente; os créditos de carbono são tratados de forma semelhante por terem valor de mercado.

³ Crédito de baixo carbono: crédito de carbono de baixa integridade, resultante de projetos frágeis ou mal monitorados, que não representam reduções reais de emissões.

4 EU ETS: sistema europeu de comércio de emissões (European Union Emissions Trading System), maior mercado regulado de carbono do mundo, baseado no modelo cap and trade.

5 Blockchain:  tecnologia que funciona como um registro digital público e seguro, onde todas as transações ficam armazenadas em blocos encadeados. Cada bloco é validado por vários computadores e não pode ser alterado depois de registrado, o que garante transparência e dificulta fraudes.



 
 
 

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