Metaverso: o virtual que fará parte da realidade

Atualizado: 16 de jan.



Desde filmes como Tron, Matrix e Jogador n°1, a ficção vem alimentando a ideia de um Metaverso, cenário em que a tecnologia dominará o cotidiano dos seres humanos, por meio de um mundo virtual em 3D, habitado por avatares de pessoas reais. Recentemente, esse conceito vem ganhando maior visibilidade devido ao interesse de diversas empresas em investir nessa inovação, que promete revolucionar o cotidiano do homem moderno. De longe, pode parecer apenas uma versão mais sofisticada da tecnologia de realidade virtual já utilizada no mundo dos games. No entanto, o Metaverso não se restringirá apenas ao mundo fictício dos jogos eletrônicos: ele será justamente a incorporação dessa fantasia ao nosso dia a dia, reunindo a realidade virtual e aumentada aos aspectos das redes sociais, associados ao mercado de NFTs.


Metaverso: o futuro da humanidade


O período conhecido como Web 1.0 teve início com o surgimento da internet, marcado por sites com conteúdo estático de pouca interatividade, como Google, Hotmail e Yahoo, e o foco era primordialmente no usuário. Posteriormente, houve o advento da Web 2.0, também chamada de Web Participativa, em que as redes sociais, por exemplo, Facebook, Instagram e Twitter, são as protagonistas. Nesse momento, a internet se popularizou, fazendo com que a presença digital se tornasse essencial para as empresas conseguirem crescer. Com a futura ascensão do Metaverso, a humanidade caminha para a Web 3.0, também chamada de Web Semântica. Esse período reunirá aspectos de suas antecessoras, como o foco nos usuários da Web 1.0 e a interatividade da Web 2.0, mas adicionará um elemento inovador e fundamental: a inteligência artificial acompanhada da realidade virtual. A partir do cruzamento de dados e do desenvolvimento do Machine Learning¹, a Web Semântica promete ter a capacidade não apenas de gerar e armazenar informações, mas também de interpretá-las, gerando resultados mais atrativos e precisos para os usuários. Dessa forma, a incorporação da tecnologia da Web 3.0 ao cotidiano imergirá a humanidade em uma experiência sustentada pela rede blockchain, registro público, transparente e descentralizado, o qual permite que, aquele que encontra, desvenda e junta códigos dessa rede, receba remuneração. Por isso, assim como na Web 1.0, a Web Semântica colocará maior poder nas mãos dos indivíduos.




Segundo Matthew Ball, autor do livro “Metaverse Primer”, “o Metaverso seria uma rede persistente de mundos e simulações renderizadas em tempo real e 3D que oferecem identidade contínua a objetos, histórias e direitos que podem ser experimentados de forma síncrona por um número ilimitado de usuários, cada um com a sua presença individual”. Já para Mark Zuckerberg, que vem investindo bilhões de dólares nessa tecnologia, “o Metaverso é uma realidade virtual capaz de ser explorada por pessoas que não estão no mesmo espaço físico”. Embora ainda existam diversos conceitos para explicar o que de fato seria o Metaverso, alguns especialistas defendem que, futuramente, o termo nem deverá ser utilizado. Isso porque, na década de 1990, por exemplo, surgiu o conceito de “Superestrada da informação”, que servia para definir os sistemas de comunicação digital e a rede de telecomunicação. Atualmente, ninguém utiliza esse termo ao falar sobre a internet, ainda que as previsões com relação a essa tecnologia se mostraram bastante precisas. Por isso, é possível que ocorra o mesmo, e que essa era deva receber outro nome ao se tornar mais difundida.


Nesse sentido, o Metaverso representa uma possível inovação que irá além das tecnologias atuais. Isso porque ele será persistente, diferente de um jogo de Fortnite, em que tudo é apagado depois da sua última partida e, também, será ao vivo, diferente de um vídeo do Youtube que se assiste de forma assíncrona. O indivíduo poderá transportar dados entre diferentes serviços e plataformas, sendo possível, por exemplo, estar jogando Fortnite, e, enquanto isso, migrar com o seu “Skull Trooper²” para o Minecraft. Além disso, será possível que muitos estudem e trabalhem em países distantes, sem ter que sair de casa e com uma experiência semelhante à do mundo físico. A sua identidade, os seus relacionamentos e o seu dinheiro serão os mesmos on e offline. A percepção física e digital se fundirá e expandirá para além do conhecido.


A pergunta mais importante: quando?


Mas quando será possível, de fato, imergimos no Metaverso? Quando máquinas se tornarão fortes o suficiente para suportar a tecnologia da realidade virtual? Quando essa tecnologia fará parte do cotidiano dos cidadãos?


Não se sabe ao certo, visto que as respostas para essas perguntas vão além dos planos de uma empresa, ainda que a maior parte das pessoas só tenha ouvido falar desse termo após o anúncio da mudança do nome do Facebook para Meta em outubro de 2021.


Ao falar sobre Metaverso, estamos falando sobre a mudança do comportamento de toda uma população. Nesse sentido, acredita-se que essa nova fase tecnológica surgirá quando a maior parte dos indivíduos der mais importância para o mundo digital do que para o mundo físico. A tendência é que isso ocorra cada vez mais, visto que o mundo virtual tende a se tornar mais prático, fácil e rentável do que a realidade para a maior parte das pessoas e empresas. Afinal, pode ser mais lucrativo para um empreendedor frequentar uma sala digital do que pagar mensalmente aluguel. Segundo John Von Neumann, referência na área da computação, esse período é definido como “Singularidade tecnológica”, momento no qual o crescimento tecnológico se torna incontrolável e irreversível. Assim, não haverá nada que irá impedir que determinado sistema se torne cada vez mais presente na vida do homem, e um dos principais nomes por trás do surgimento dessa nova era, que se aproxima, é o de Zuckerberg.


Meta: para além de uma simples mudança de nome


Em outubro de 2021, o Facebook mudou o nome do seu conglomerado, que agora se chama "Meta". Segundo Mark Zuckerberg, a mudança ocorre para demarcar a nova fase da empresa, que está focada em construir o seu próprio ecossistema virtual, em que pessoas poderão interagir a partir da realidade virtual e outras tecnologias por meio de avatares. De acordo com Zuckerberg: "Escolhemos 'Meta' porque pode significar 'além' e capta o nosso compromisso com a construção de tecnologias sociais que nos levam além do que a conexão digital torna possível hoje".


Estimativas demonstram que a empresa tem gastado cerca de 5 bilhões de dólares por ano, desde 2014, para desenvolver o seu “próprio Metaverso”, de forma que, atualmente, mais de 20% dos profissionais do Facebook estão trabalhando para aprimorar tecnologias de realidade virtual. Embora muitos acreditem que o interesse de Zuckerberg tenha surgido em 2021, em um cenário de pandemia propício a inovações digitais, a empresa já demonstrava estar caminhando para esse futuro, quando desembolsou 2 bilhões de dólares na aquisição da empresa Oculus VR, em 2014, a criadora do Oculus Rift, headset de realidade virtual para jogos.


De acordo com Zuckerberg, o Metaverso vai incluir algumas representações para impulsionar a interação na plataforma. Uma delas é o avatar, representação digital do usuário, que poderá ser personalizado para as diferentes atividades que o usuário fizer, como trabalho e lazer, e possuirá feições muito semelhantes às do indivíduo. Além disso, o usuário poderá criar mundos virtuais e explorá-los com outras pessoas que poderão estar fisicamente distantes dele. Em um contexto pandêmico, a Web 3.0 se torna ainda mais atraente, visto que une indivíduos que não conseguem estar juntos em uma sala física.


Steve Jobs, ao lançar o iPhone, trouxe uma nova era para a internet, e Zuckerberg, com o plano da sua empresa “Meta”, planeja o mesmo. No entanto, o erro de Zuckerberg se concentra no fato de acreditar que os planos de uma só empresa conseguirão emergir a sociedade nesse novo mundo. Assim como o iPhone é uma tecnologia que precisou de invenções de hardware e software de dezenas de outras empresas para ser lançado, Zuckerberg também depende de outras tecnologias para trazer o seu projeto para a realidade. Dessa forma, é necessário que computadores se tornem mais rápidos e desenvolvidos para suportar essa tecnologia, e conexões da internet tem que se tornar mais fortes. Atualmente, os jogos de realidade virtual só funcionam nos dispositivos porque a gráfica deles é simples. A Netflix só consegue transmitir vídeos em alta qualidade, porque tudo que é transmitido é armazenado com antecedência em arquivos, ou seja, a transmissão não ocorre ao vivo. Se conexões da internet, hoje em dia, são instáveis em plataformas, a exemplo do Zoom, como construir uma conexão forte o suficiente para formar mundos virtuais?


Além disso, essa instabilidade pode não ser a única dificuldade que a Meta enfrentará ao inserir a sociedade nessa nova era, visto que uma das diferenças entre a Web 3.0 e a Web 2.0 é a provável descentralização do controle de empresas. Então, se a segunda era controlada primordialmente por gigantes que manipulam as redes sociais, a Web 3.0 tenderá a ser monitorada, também, pelos próprios usuários, os quais serão considerados os co-criadores dos sistemas que estão interagindo. Nesse sentido, a interatividade dos usuários irá subir a um nível que envolve também a remuneração, por meio de ativos digitais, como as criptomoedas, as moedas digitais, e os tokens³.

O combustível para os usuários


Nesse novo cenário, a economia será regida por criptomoedas, e tokens serão utilizados para representar os seus produtos ou serviços. Por exemplo, será possível utilizar criptomoedas para comprar produtos físicos de lojas online. Essas transações serão registradas na rede blockchain, o qual rastreia o envio e o recebimento de informações pela internet a partir de uma criptografia avançada que protege as transações, as informações e os dados de quem transaciona. Aliado a isso, os tokens de criptomoeda também são resistentes à censura: nenhum fornecedor centralizado pode pegar os seus ativos, por eles estarem segurados pela própria rede. Afinal, a rede blockchain é um registro público, transparente e descentralizado que só pode ser modificado adicionando informação, nunca alterando o que já foi incluído, que tem a sua confiança garantida por criptografia e consenso.


O Banco Inter, um dos principais bancos digitais do Brasil, destacou, em seu mais novo relatório, o Cripto World Ed.7.21, a oportunidade gigantesca que o nascente ecossistema de Metaverso pode significar para os investidores. Segundo o banco, desde que o Facebook anunciou a mudança do nome de seu conglomerado de empresas para Meta, o conceito explodiu nas pesquisas no Google. No entanto, tal euforia não se restringiu apenas ao mundo digital, tendo em vista que também influenciou o setor econômico. Isso se torna perceptível por meio da valorização de tokens, evidenciando como o Metaverso está cada vez mais próximo. Ainda que esses ativos já existam atualmente, com o surgimento do Metaverso, as criptomoedas ganharão ainda mais força, levando a sociedade a utilizar predominantemente o meio virtual para realizar as suas transações financeiras.


A nova corrida do ouro?


É inevitável que as marcas que não se adaptarem a essa nova era tenderão a se tornar obsoletas. Com base nisso, grandes empresas, como a Nike, Tinder, Gucci, Louis Vuitton e Epic Games investem nessa tecnologia, a qual especialistas estimam que será uma indústria de 1 trilhão de dólares em um futuro próximo. A Nike irá criar um mundo dentro do espaço 3D imersivo da Roblox, plataforma de jogos virtuais, baseado em edifícios e campos de sedes reais da empresa. Os jogadores criarão avatares, construirão as suas próprias áreas de jogo e participarão de competições virtuais. Uma moeda virtual chamada “Robux” será utilizada para pagar por itens que poderão ser usados ​​dentro do próprio jogo. Já o Tinder planeja encontros de avatares por meio de um mundo virtual, além de ter anunciado que irá criar uma economia de bens virtuais dentro do aplicativo. Nela, os usuários poderão comprar, vender e presentear por meio de “Tinder Coins” — moeda virtual que está em fase de testes e deve ser lançada globalmente em 2022. Ademais, a Disney planeja uma extensão do seu serviço de streaming- Disney plus- que permitirá a imersão de indivíduos nos parques virtuais da companhia por meio de avatares. No entanto, tal tecnologia não será restrita ao mundo dos games e do entretenimento, a indústria da moda de luxo também realiza inovações nesse âmbito digital. Por exemplo, a Gucci planeja lançar um tênis virtual nesse próximo ano, e a Louis Vuitton já lançou, em 2019, uma coleção que foi vendida no jogo League of Legends.

O que esperar do Metaverso?


O Metaverso vai além da internet que conhecemos hoje em dia. Essa futura era tem o potencial de transformar as nossas interações sociais, negócios e a economia de forma geral. O Metaverso ainda está se estruturando e o mundo virtual cripto já oferece uma prévia do que o futuro da internet pode conter, embora ainda não vivamos em um mundo que substituiu a realidade física pela virtual e, por isso, não podemos falar que estamos na Web 3.0.


Especialistas estimam que a oportunidade de mercado para dar vida a essa realidade vale aproximadamente US$1 trilhão em receita anual. Esse potencial tem atraído empresas como o antigo Facebook, o que também pode acabar servindo como um catalisador para outros gigantes da tecnologia da Web 2.0 e investidores a seguir. Dessa forma, é possível que, daqui a 10 anos, como estima Zuckerberg, possamos criar mundos virtuais, semelhantes aos dos videogames, para encontrar pessoas, estudar, trabalhar e viajar sem nem sair de casa.


Glossário:

  1. Machine Learning: é um sistema que pode modificar o comportamento de uma máquina de forma autônoma.

  2. Skull trooper: personagem do jogo Fortnite.

  3. Tokens: representação digital de um ativo, podendo ser dinheiro, propriedade ou investimento.


Bibliografia:


Brayan. O que é metaverso. Disponível em: <O que é metaverso? O futuro segundo Mark Zuckerberg - Programadores Depre>. Acesso em: 30/11/2021.


Cointelegraph. Não haverá metaverso sem criptomoedas. Disponível em: <ADVFN News | &#8216;Não haverá metaverso sem criptomoedas, até Mark Zuckerberg já reconheceu isso', destaca Banco Inter>. Acesso em: 30/11/2021.


Malar, João Pedro. Entenda o que é Metaverso e porque essa realidade pode não estar tão distante de você. Disponível em: <Entenda o que é o metaverso e por que ele pode não estar tão distante de você | CNN Brasil>. Acesso em: 30/11/2021.


Garyvee. Web 3/ Metaverse chat with Mark Zuckerberg. Disponível em: <Web3/Metaverse Chat With Mark Zuckerberg - YouTube>. Acesso em 03/12/2021.


Coogan, John. When will the metaverse actually arrive? Disponível em: <When Will The Metaverse Actually Arrive? - YouTube>. Acesso em 30/11/2021.


Coogan, John. Why Facebook is spending billions on the Metaverse? Disponível em <Why Facebook is Spending Billions on the Metaverse - YouTube>. Acesso em 01/12/2021.


Wolf, Giovanna. O Facebook não está sozinho na busca pelo metaverso; conheça os rivais de Zuckerberg. Disponível em:

<https://www.msn.com/pt-br/noticias/noticias/o-facebook-n-c3-a3o-est-c3-a1-sozinho-na-busca-pelo-metaverso-conhe-c3-a7a-os-rivais-de-zuckerberg/ar-AAR63qT?ocid=uxbndlbing>. Acesso em: 30/11/2021.