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Revolução no Sistema Financeiro: Open Finance


O Open Finance é um sistema que possibilita que os clientes de produtos ou serviços financeiros compartilhem suas informações e movimentações bancárias de maneira segura, ágil e conveniente. Ao longo dos anos, tecnologias surgiram para facilitar esse mercado, tanto na perspectiva das instituições, quanto dos consumidores, chegando para mudar a forma que o setor se comporta, além da maneira com que os dados e o histórico bancário dos indivíduos são utilizados. Mas afinal, o Open Finance tem sido tão disruptivo quanto é comentado?


Surgimento da Tecnologia


Esse sistema evoluiu a partir do conceito de Open Banking, originário do Reino Unido. Em 2016, a Autoridade de Concorrência e Mercados (CMA) do país exigiu que os nove maiores bancos do país abrissem seus dados por meio de APIs1  e, em 2018, houvesse a implementação da PSD22 na União Europeia. Além disso, o governo exigiu que os bancos permitissem o envio de dados para terceiros conforme a necessidade dos clientes, visando facilitar serviços de pagamento e informações sobre contas.


Entre 2020 e 2021, no Brasil, o Banco Central lançou oficialmente o Open Banking, que rapidamente evoluiu para o Open Finance, visto que os recursos do primeiro modelo não atendiam todas as necessidades dos consumidores. O programa de implementação foi dividido em várias fases, abrangendo desde o compartilhamento de dados de contas e transações até a expansão para outros produtos e serviços financeiros. Nesse sentido, já em 2022, a implementação do sistema começou a evoluir com a inclusão de dados seguros - os quais não comprometem a privacidade pessoal - , investimentos e alguns outros produtos financeiros.


Fase 1: Compartilhamento de Dados sobre Produtos e Serviços Financeiros

  • Nesta fase, as instituições financeiras disponibilizam informações dos clientes sobre seus produtos e serviços, como contas de depósito, operações de crédito, produtos de seguros, investimentos, entre outros.


Fase 2: Compartilhamento de Dados Cadastrais e Transacionais

  • Nesta etapa, o foco é a permissão ao acesso a dados cadastrais e transacionais dos clientes, desde que haja consentimento expresso dos mesmos. Inclui informações sobre contas de depósito, contas de pagamento pré-pagas, operações de crédito, cartões de crédito e, até mesmo, transações via pix. 


Fase 3: Iniciação de Transações de Pagamentos e Propostas de Crédito

  • Permite que instituições participantes do Open Finance iniciem transações de pagamento e façam propostas de crédito para seus clientes, sempre com seu consentimento.


Fase 4: Expansão para Outros Produtos e Serviços Financeiros

  • Inclui o compartilhamento de dados de produtos de investimentos, seguros, câmbio, entre outros. Esta fase busca integrar uma gama ainda maior de serviços financeiros no ecossistema do Open Finance. 


Atualmente, o Open Finance possibilita que o relacionamento dos clientes e seus dados bancários não se restrinjam a uma instituição, fazendo com que exista uma maior competitividade acerca de taxas e anuidades, por exemplo. Consequentemente, a abertura desse novo espaço no mercado, até mesmo para bancos digitais e fintechs, faz com que o poder de barganha dos players tradicionais seja reduzido drasticamente. Como resultado, esse sistema vem crescendo aceleradamente no Brasil ao contar com cerca de 11 milhões de adeptos, 12 bilhões de chamadas de APIs e mais de 800 instituições participantes, segundo pesquisas do Banco Central do Brasil.


O sistema na prática


Para uma empresa ou instituição financeira se tornar participante do Open Finance e usufruir dos benefícios, é necessário cumprir alguns requisitos, como a (1) autorização e o licenciamento pelo Banco Central, (2) adesão ao Open Banking, (3) conformidade com normas técnicas e operacionais específicas, (4) padronização das APIs, (5) adoção de medidas de segurança cibernética, (6) infraestrutura tecnológica digital compatível com os requisitos no Open Finance, (7) gestão de consentimento para o compartilhamento de dados dos clientes, (8) auditoria e relatórios para detalhar as operações e conformidade com as normas do sistema, (9) governança e gestão de riscos para possíveis problemas associados ao acesso aos dados dos consumidores, (10) participação em estruturas de governança coletiva em comitês e fóruns que discutem os padrões e evoluções da tecnologia e (11) garantia da experiência do cliente, visando uma fluidez e segurança, facilitando o acesso a serviços financeiros personalizados para os usuários. Assim, as companhias conseguem realizar o uso devido desse sistema e mitigar os possíveis riscos atrelados a ele.

De maneira geral, apesar dos sistemas serem conceitualmente similares, o Open Banking tem como principal propósito promover a competição e a inovação no setor financeiro, de modo a facilitar o compartilhamento de dados bancários, o Open Banking visa melhorar a experiência do cliente, oferecendo mais opções de serviços financeiros, como gestão de finanças pessoais, comparação de produtos financeiros e transferências de fundos mais eficientes.

O Open Finance segue o mesmo objetivo do sistema anterior, porém vai além desse escopo ao incluir uma variedade mais ampla de produtos financeiros e dados, como investimentos, seguros, empréstimos e dentre outros. 

Com base nos objetivos de cada sistema e nas atividades praticadas, essas diferenças se estabelecem na seguinte maneira:


  1. Escopo de dados: enquanto o Open Banking geralmente se concentra em dados relacionados a contas bancárias (como saldos, transações e informações de clientes), o Open Finance amplia esse escopo para incluir uma maior variedade de produtos e serviços financeiros, como seguros, investimentos, pensões e até mesmo dados de crédito.


  1. Complexidade e segurança dos dados: como o Open Finance envolve uma variedade maior de dados sensíveis e uma gama mais ampla de participantes, a complexidade e a segurança dos dados podem ser maiores do que no Open Banking. Dessa forma, houve um investimento por parte do Banco Central em medidas de segurança robustas - incluindo autorizações, criptografia e tokenização3 - e padrões claros para proteger a privacidade e a segurança dos dados dos usuários.


  1. Benefícios para os consumidores: o Open Finance tem o potencial de oferecer uma gama mais ampla de benefícios para os consumidores do que o Open Banking. Isso inclui acesso a uma variedade mais ampla de produtos financeiros personalizados, melhores taxas e condições, e uma experiência geralmente mais conveniente e integrada ao lidar com diferentes aspectos de suas finanças pessoais.


Atratividade do Open Finance


Essa nova tecnologia possui diferentes vantagens tanto para clientes como para empresas, sejam instituições bancárias ou não, uma vez que, para as pessoas físicas e jurídicas, esse sistema pode agilizar e democratizar o acesso a produtos financeiros a depender das necessidades individuais do cliente. Assim, será permitido a análise do histórico financeiro completo, tornando a análise de crédito mais precisa. Ademais, os consumidores conseguem ter uma facilidade maior na comparação dos serviços de cada empresa, como a verificação e análise de diferentes taxas, tarifas e condições de diferentes instituições, a fim de escolher a melhor opção possível. 


Para além de todos esses benefícios, o Open Finance também oferece segurança e privacidade para qualquer um que deseje utilizá-lo. Nesse sentido, os consumidores podem decidir quais dados e com quem serão compartilhados, tendo o risco de fraudes e vazamentos minimizados pelas diversas regulamentações que regem o sistema.


Por outra perspectiva e maneira de consumo, existem diversos benefícios para as instituições bancárias aderirem a esse sistema. Isso acontece, pois, com esta tecnologia, será possível ganhar maior contato com novos mercados e clientes, a partir de um acesso mais simples aos dados, atraindo um público, que, muitas das vezes, não teriam as informações. Com isso, conseguem oferecer produtos e serviços personalizados de acordo com o histórico financeiro de cada indivíduo. 


A integração de dados que esse sistema tem também facilita a automação de processos, como, por exemplo, concessão de crédito, avaliação de risco e gestão de contas, o que, além de reduzir custos operacionais, gera dados mais ricos e detalhados, permitindo análises mais precisas e tomadas de decisão embasadas. Com isso, as instituições mitigam os riscos de crédito, reduzindo a inadimplência por meio da identificação de padrões suspeitos e prevenindo os clientes de possíveis fraudes de forma mais eficaz. 


Desafios e riscos


Apesar de todos os benefícios do Open Finance, todas as novas tecnologias possuem riscos conectados, majoritariamente, ao meio digital. Mesmo com o Banco Central e com todas as regulamentações para o sistema ser operável, existem riscos de cibersegurança, já que há a necessidade de um compartilhamento de dados financeiros, que estão sujeitos a possíveis hackers e ataques cibercriminosos. Para isso, é necessário manter em ativo todas as proteções de dados pessoais como a regulamentação da LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais) no Brasil. 


Contudo, outro empecilho para a expansão dessa nova tecnologia é a desconfiança dos consumidores em relação ao compartilhamento de dados na internet. Segundo a revista “Forbes”, em um estudo da Akamai, 8% dos entrevistados sobre o Open Finance não se sentem seguros com a ferramenta. Isso se deve pelo sentimento de desconfiança da segurança na internet e pelas diversas maneiras dessas informações serem hackeadas ou de alguma forma invadidas. Nesse viés, para gerar uma maior confiança entre as instituições bancárias e os consumidores, é essencial que exista uma transparência relacionada ao por quê e para que da utilização de cada um dos dados necessários e garantia de que todos os indivíduos entendam os benefícios e riscos envolvidos. 


Além disso, nota-se certo desconhecimento da população em relação à tecnologia. Em uma pesquisa realizada pela EY Parthenon para o Banco Mundial, em julho de 2023, pouco menos da metade dos entrevistados relatou já ter ouvido falar do sistema.

Esse risco impacta sobre a implantação do sistema na sociedade e à acessibilidade que ele terá na vida das pessoas, visto que a população não terá noção dos benefícios e facilidades que essa tecnologia poderá trazer para a vida de cada um dos indivíduos. 


Projeções Futuras


No final das contas, o sistema pode ser visto, sim, como uma ideia revolucionária para o setor financeiro. A partir dela, novas tendências estão sendo estruturadas para surgir futuramente. De acordo com um levantamento realizado por especialistas da Sensedia, consultoria de confiança da estrutura inicial do Open Finance Brasil com o Banco Central, existem algumas tendências em ascensão para o futuro do Open Banking no Brasil.


Com o compartilhamento de dados via Open Finance, os bancos criaram soluções mais robustas, que ajudam seus clientes a gerir melhor suas finanças. Para exemplificar, um dos principais casos de uso do novo modelo foi a implementação do Personal Financial Management, que se trata de uma ferramenta que ajuda os consumidores a gerenciar suas finanças pessoais de forma eficaz. Para futuros avanços, espera-se que esse software possa ser adaptado para pequenas e médias empresas, já que é comum possuírem gestão de contas em bancos distintos, e se transformando na tecnologia do Business Financial Management.


Além disso, com a tendência do aumento de concorrência por meio da abertura de dados bancários e financeiros via Open Finance, o surgimento de camadas de inteligência de dados sobre as regras de compartilhamento definidas deve trazer para o mercado novas experiências em atividades extremamente complexas, como a gestão financeira. Segundo uma análise realizada pela Accenture, o uso da Inteligência Artificial para otimizar os dados desse sistema, poderá ajudar as instituições bancárias a aumentarem em até 6% suas receitas e entre 20 e 30% a produtividade, fazendo com que os bancos precisem utilizar não só a nuvem e as informações de forma eficaz, como também repensar o trabalho e o talento.


O futuro do setor financeiro nos meios digitais tende a ser cada vez mais incerto devido à velocidade e à complexidade que novas tecnologias são lançadas no mercado. A partir da evolução do Open Banking, surgiu-se o Open Finance, que, por sua vez, possibilitará o desenvolvimento de novos meios para facilitar diversos gargalos nesse mercado. Tendo isso em vista, até onde o fácil acesso aos dados representa uma ajuda e não um risco aos consumidores?


Glossário:


  1. API (Interface de Programação de Aplicação) : conjunto de regras ou protocolos que permitem que aplicativos de software se comuniquem entre si para trocar dados, recursos e funcionalidades

  2. PSD2: Diretiva de Serviços de Pagamento revisada da União Europeia

  3. Tokenização: Uso de tokens de acesso para autenticação e autorização de requisições API, minimizando o risco de exposição de credenciais sensíveis.


Referências:


BRASIL. Banco Central do Brasil. Open finance. Disponível em: https://www.bcb.gov.br/estabilidadefinanceira/openfinance. Acesso em: 13 jun. 2024.

LIBER CAPITAL. Fases do open finance: entenda cada uma delas. Disponível em: https://libercapital.com.br/blog/fases-do-open-finance-entenda-cada-uma-delas/. Acesso em: 13 jun. 2024.

SANTANDER. Open finance para empresas. Disponível em: https://www.santander.com.br/blog/open-finance-para-empresas. Acesso em: 13 jun. 2024.

EY. Próximos passos na jornada open finance. Disponível em: https://www.ey.com/pt_br/open-finance/proximos-passos-na-jornada-open-finance. Acesso em: 13 jun. 2024.

FINSIDERS BRASIL. Adesão dos clientes ao open finance cresce 25 pontos em um ano. Disponível em: https://finsidersbrasil.com.br/estudos-e-relatorios/adesao-dos-clientes-ao-open-finance-cresce-25-pontos-em-um-ano/. Acesso em: 13 jun. 2024.

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