Obsolescência programada: Problema ou Solução?


Muito provavelmente você já comprou algum produto que não durou tanto quanto esperava, o que o levou a comprá-lo novamente, ou a fazer um conserto que custou quase o mesmo do que um produto novo. Esse problema pode ocorrer de forma natural, uma vez que todos os produtos estão suscetíveis a defeitos de fabricação ou ao uso impróprio. Mas, e se alguém te dissesse que esse dano pode ter ocorrido de forma proposital? Sim, algumas empresas podem intencionalmente reduzir a qualidade ou a durabilidade de seus produtos com o intuito de manter a demanda alta. Essa prática surgiu em 1924 no mundo dos negócios e é chamada de obsolescência programada.


Sob essa ótica, tal prática parece unicamente desleal ao consumidor e contrária à evolução tecnológica. No entanto, cabe pensar o que seria do trabalhador e da própria economia se todos produtos durassem por um longo período de tempo. Seria economicamente viável manter um sistema com pouca movimentação de capital?


O começo da trevas


Os primeiros registros de obsolescência programada foram constatados em 1924, sendo praticada por grandes corporações produtoras de lâmpadas. Na época, a tecnologia incandescente desses produtos vinha sendo aprimorada ano após ano, proporcionando maior longevidade e eficiência energética. Em seu auge, as lâmpadas chegavam a durar até 2500 horas antes de perderem sua utilidade. No entanto, a partir de 1926, esses mesmos produtos começaram a ter sua vida útil encurtada, chegando a valores de, no máximo, 1500 horas em 1934, menos de uma década após seu pico.


Por tempos, os consumidores ficaram sem saber disso, mas, por trás dessa expressiva diminuição, estava o Cartel de Phoebus. Formado pelas 5 maiores empresas produtoras do ramo de iluminação, a organização foi criada para estipular formas de aumentar as vendas, estas que se mantinham em constante queda devido à menor necessidade de reposição de lâmpadas por causa de seu maior tempo útil. É nesse contexto, portanto, que surge a obsolescência programada, prática de maior sucesso do cartel. Para demonstrar os excelentes resultados gerados, as vendas de uma das empresas, a Osram¹, que tinham caído de 63 milhões de unidades em 1923 para 28 milhões em 1924, representando uma redução de 56%, devido à evolução das lâmpadas, voltaram a subir até 35 milhões no auge do cartel em 1934.


Felizmente, para o público e para a tecnologia da época, devido à concorrência externa e a desacordos entre membros do cartel, a organização acabou sendo desfeita em 1940. No entanto, esta deixou um legado bastante negativo para os consumidores que dura até os dias atuais: a popularização da obsolescência programada no meio dos negócios.


Há luz no fim do túnel


De início, tem-se a impressão de que a obsolescência programada beneficia apenas as grandes empresas em detrimento de todo resto. Contudo, a história não é exatamente essa. A manutenção da demanda causada por essa prática pode ser bastante importante para manter a viabilidade da oferta de produtos, acarretando uma maior diminuição das chances de desemprego. Esse aspecto fica evidente principalmente em tempos de crise, nos quais toda a dinâmica econômica contribui para a diminuição da produção. Portanto, com produtos extremamente duráveis, essa demanda, que já era pequena, tornaria-se menor ainda, dificultando a superação da crise.


Nesse contexto, durante a Grande Depressão, vivida nos Estados Unidos na década de 1930, alguns pesquisadores e empresários sugeriram como medida amenizadora o estabelecimento de prazos de validade para todos os itens vendidos no período. Após o término desse prazo previamente definido, o governo seria responsável por recolher e possivelmente destruí-los para que as pessoas fossem obrigadas a comprar novos produtos, mantendo assim a demanda e, consequentemente, a necessidade de mão de obra. Seguindo tal plano, alguns dos trabalhadores que seriam despedidos continuariam ativos, recebendo salário e conseguindo manter seu padrão de vida, mantendo a receita das empresas a partir de seu consumo e diminuindo a recessão econômica.


Aprendendo a enxergar no escuro


Atualmente, devido à grande pressão dos consumidores, os quais são mais exigentes e se sentem desconfiados pela possibilidade de que seus produtos poderiam estar durando mais, diversas medidas estão sendo tomadas para controlar o uso e, principalmente, o abuso da obsolescência programada por parte das grandes corporações. Um dos principais exemplos são as consecutivas multas que têm sido impostas sobre a Apple desde o lançamento do seu primeiro iPod em 2001.


Pouco menos de um ano após o lançamento de seu primeiro dispositivo móvel, já se formava uma onda de clientes insatisfeitos com a diminuição no tempo de bateria do produto, que durava muito menos do que seus pares no mercado. O que motivou os consumidores a se manifestarem ainda mais frente ao acontecimento foi o preço cobrado pela empresa para fazer a substituição da bateria, o qual era quase idêntico ao preço de venda dos iPods recém lançados. Na época, pouco foi feito para lutar contra tal prática e a Apple continuou vendendo e aumentando sua receita e valor de mercado ao longo do tempo devido ao seu hype e à força de mercado.


Porém, no final de 2017, quando o problema da bateria já havia sido amenizado, a Apple admitiu que estava, agora, reduzindo a velocidade de processamento de seus modelos de iPhones anteriores. Com tal polêmica, a empresa começou a receber constantes processos de diferentes países, começando pela França, que a acusou de violar uma lei estabelecida no país em 2015, a qual proibia a prática de obsolescência programada. Frente a essa polêmica, a empresa continua justificando a prática como uma forma de diminuir o esforço sobre a bateria, mantendo-a mais durável. No entanto, esse posicionamento não a impediu de acumular mais de 600 milhões de dólares em multas e processos até os dias de hoje. Apesar disso, o valor não chega perto dos 800 bilhões que ela faturou durante esse mesmo período.


Um novo apagão


Para se esquivar dos problemas judiciais e da má fama causados pela prática da obsolescência programada, diversas empresas pararam de diminuir a vida útil de seus produtos ou de tirar alguma funcionalidade. Em contrapartida, começaram a incentivar de outras formas que o próprio cliente sinta a vontade de comprar novos produtos, mesmo que sem necessidade, criando assim uma “obsolescência ilusória”. Existem diversas formas de acender essa vontade de compra nos clientes, sendo a mais comum a implementação de mudanças insignificantes nos lançamentos, atrelados a uma grande campanha de marketing. Um dos exemplos mais comuns dessa prática é o lançamento de cores novas, com pouquíssimas alterações no produto, como feito por diversas empresas produtoras de telefone atualmente, inspiradas pela General Motors (GM).


A renomada empresa produtora de automóveis, também em 1924 (mesmo ano da criação do Cartel de Phoebus), deu início ao lançamento de carros coloridos, que eram uma novidade enorme para a época, já que apenas existiam modelos pretos. Como dito por Henry Ford: “Você pode ter o carro da cor que quiser, contanto que ela seja preta”. Essa prática foi incentivada também pela diminuição das vendas já que, na época, mais de 55% da população dos Estados Unidos, principal mercado da empresa, já possuía um carro. Dessa forma, era necessário alguma outra motivação, que não fosse se locomover, para que os clientes comprassem um novo carro. Anos depois, essa tática se mostrou efetiva, visto que o ciclo de compra de carro da GM passou de 5 para 2 anos entre 1933 e 1955 em 1955, ano em que esta empresa tornou-se a mais valiosa do mundo.


Voltando para os dias atuais, a já citada Apple começou a adotar a tática há alguns anos: seu mix de cores muda em alguns tons a cada geração de produtos e seus formatos são levemente modificados, com cantos arredondados ou retos. No entanto, a cultura de consumo criada em volta da marca tenta a mente dos consumidores mais aficionados, os quais acabam comprando ano após ano “o mesmo produto”.


O descarte das lâmpadas


Infelizmente, essa troca constante de aparelhos acaba por gerar um resíduo muito grande, sobretudo tecnológico, que possui um processo de reciclagem extremamente complexo. Sendo assim, esse consumo além do “necessário” prejudica não só o bolso e a consciência do consumidor, mas também o meio ambiente. Para exemplificar, atualmente, segundo a ONU, estima-se que sejam produzidos 50 milhões de toneladas de lixo eletrônico por ano, sendo 5 milhões relacionado apenas a smartphones.


Um setor no qual o descarte causado pela obsolescência é notório é o de cartuchos de tinta de impressora. De acordo com a Cartridge World, empresa que recicla esse tipo de produto, a América do Norte por si só descarta mais de 350 milhões de cartuchos, os quais, em sua grande maioria, não estão completamente vazios, como constatado pelos próprios chips presentes nos cartuchos. Além do grande número, o que mais impressiona é que a maior parte desses produtos não foram utilizados por completo devido a limitações dos próprios aparelhos, criadas pelas empresas para forçar o consumidor a comprar mais. Tal desonestidade enfatiza a presença da obsolescência no modelo de negócios das empresas produtoras de impressoras, as quais se sustentam pela venda massiva desses produtos complementares.


Onde há esperança há luz


Diante de todas as leis criadas para desestimular tal prática e proteger o consumidor, além de outras barreiras erguidas visando a um consumo controlado, uma maior conscientização ambiental e uma concorrência tecnológica, a obsolescência programada aparenta ter seus dias contados. Nesse contexto, não está sendo mais viável para a maioria das empresas sustentarem uma agenda anti-tecnológica e otimizada para o cliente. Em contraponto, surgem empresas e organizações que incentivam uma produção e economia mais sustentáveis, como a Fairphone, StartUp que produz telefones facilmente consertáveis e atualizáveis, feitos de materiais reciclados. Um outro exemplo é a HOP, organização que estuda formas de acabar com a obsolescência programada dos produtos e denuncia os abusos das empresas com tal prática.


Como diz Mohanbir Sawhney, consultor e professor de Negócios na Kellogg School of Management: “Ao invés de vender um modelo atrás do outro para mim, mude apenas o software. Esse pode ser um antídoto para a obsolescência programada e fazer da obsolescência obsoleta.”


Glossário:


¹ Osram: Empresa alemã multinacional do setor de iluminação fundada em 1919. Fez parte do Cartel de Phoebus com o intuito de aumentar suas vendas durante a década de 1920/30.


Referências:


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HERE’S the truth about the ‘planned obsolescence’ of tech. BBC: Adam Hadhazy, 12 jun. 2016. Disponível em: https://www.bbc.com/future/article/20160612-heres-the-truth-about-the-planned-obsolescence-of-tech. Acesso em: 5 abr. 2021.


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PLANNED Obsolescence: Apple Is Not The Only Culprit. Forbes: Adam Sarhan, 22 dez. 2017. Disponível em: https://www.forbes.com/sites/adamsarhan/2017/12/22/planned-obsolescence-apple-is-not-the-only-culprit. Acesso em: 5 abr. 2021.


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UN report: Time to seize opportunity, tackle challenge of e-waste. In: UN environment programme. UN environment programme, 24 jan. 2019. Disponível em: https://www.unep.org/news-and-stories/press-release/un-report-time-seize-opportunity-tackle-challenge-e-waste. Acesso em: 11 abr. 2021.

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